Instinto e Sentimento
2 Confissões
Notas iniciais
Orihime olhava o teto em busca de uma saída para si mesma. Em sua mente passavam as imagens do que tinha acontecido de forma tão rápida e misturada com sentimentos que sabia que teria que encarar uma hora ou outra, que no fim não conseguia se concentrar em nada e tudo ficava em branco; não vazio, mas uma lacuna entre pensar demais e não conseguir assimilar tudo aquilo.
Antes de Ulquiorra sair, ela achava que estavam há séculos olhando-se nos olhos um do outro. Nunca pensou que ele pudesse ser tão gentil de esperá-la se acalmar depois de todo aquele choque de sensações. Pensando bem, apesar de frio, ele nunca havia demonstrado que a machucaria e sua maneira rude com as palavras só demonstrava que nunca tinha sido apresentado a outro modo de vida além daquele. Afinal, era um hollow.
Isso devia fazer Orihime tremer da cabeça aos pés e ter certeza de que deveria manter-se longe. Mas algo nela estava trabalhando de forma muito estranha. Uma vontade intrínseca, tão grande que parecia que devoraria seu inocente corpo, a mantinha sempre alerta ao quarto Espada. Agora, ela sentia que o que a mantinha de pé e com forças para encarar minimamente o olhar de Ulquiorra era esse estranho impulso de conhecer mais sobre estas profundezas desconhecidas.
Ela sabia o que era isso. Se estivesse em Karakura, com uma sociedade humana para julgá-la por qualquer ato que ultrapassasse os limites da moralidade, ela se envergonharia e o esconderia. Guardaria a sete chaves e o manteria em segredo.
Ainda bem que estava em Hueco Mundo. Esse mundo desértico e negro servia pelo menos para dar vazão aos seus anseios mais profanos. Ela sabia o que era isso. Sentia em cada nervo de seu corpo que finalmente estava se acostumando com o êxtase, o que Ulquiorra Schiffer havia despertado em si.
Luxúria.
Se sentia meio hollow ao se entregar àquela onda de sentimentos que parecia querer consumi-la, como se isso fosse possível. Ergueu-se ainda tonta e cambaleando manteve-se em pé para manter a sanidade. Sim, a mesma que havia momentaneamente perdido segundos atrás.
A luxúria era apenas um pedaço de si que fora destrancado. Certamente não foi o que começou tudo aquilo. Não.
Lembrou-se de minutos antes, quando Ulquiorra abruptamente desviou o olhar e ainda sobre ela, a vestiu e saltou para a porta, sem dizer uma palavra. Orihime mexeu apenas a cabeça em direção a ele e viu, momentos antes da porta se fechar, que ele impediu a entrada de um espada que ela não lembrava o nome.
Era por isso que ninguém a importunava em seu quarto. Ulquiorra não deixava. Se perguntava se tanto esmero provinha das ordens de Aizen. Uma intuição dizia que nenhum outro teria tanto cuidado.
Ela bufou e abaixou a cabeça rapidamente, como se estivesse desistindo de algo; e no fundo estava. Pensou no cuidado que aquele homem teve ao arrumá-la para que ninguém sonhasse o que haviam feito. Pensou em como pacientemente a alimentava e ouvia seus lamentos. Lembrou-se também em como, ao fim, ele tentava manter o teatro de manipulação, um jogo mental em cima dela e do qual os dois já notaram que não passava de regra a ser cumprida. Essa encenação aos poucos foi dando lugar para outra coisa.
O tanto que pode notar do Espada, ele não deveria ter ideia do que era aquilo. Mas ela sentia ao olhar em seus olhos. E tinha outra forte intuição de que havia começado por parte dele.
Nunca pensou que seria a mais sábia em uma relação, assim como nunca pensou que, contra todas as possibilidades, seus sentimentos pudessem confundi-la de tal forma. Seu amor por Ichigo ainda existia, mas estava num outro plano – àquele destinado aos amores não correspondidos, mas que teimam em manter-se. Desejava a felicidade dele. E um pequeno sorriso brotou em seus lábios ao notar que não sentia mais a culpa de invejar o relacionamento entre ele e sua amiga Rukia.
O mesmo sorriso desapareceu quando sua mente gritou, sem que pudesse impedi-la, que estava absurdamente apaixonada por Ulquiorra. Enquanto alguns sentimentos encontravam um lugar próprio para continuar sua existência, outros pareciam racionalmente assustadores. Mas, novamente, só no plano racional.
“Isso explica esse desejo estranho... Eu não me entregaria a qualquer um.”
“Ele é um hollow.”
“Eu sei que ele sente o mesmo, mas não deve ter ideia do que seja, por isso age como se tivesse receio.”
“Ele está morto e te seqüestrou.”
“Nenhum ser morre de verdade se sua consciência vive. Não foi isso que aconteceu com Sora?”
“Ele é um Espada de Aizen e não hesitará se a ordem for matá-la!”
Oh. Mas ela sabia disso desde o começo, não é? É por isso que estava em uma situação deprimente onde a prisioneira e o sentinela se apaixonaram. E mesmo que ele fosse o vilão, encarregado de levá-la a sua cova, ela sentia que, pelo menos o tempo que tivesse de vida, o aproveitaria da melhor forma.
E nesse momento, ela queria conhecer mais as sombras de sua alma. A que sua personalidade, assim como o mundo humano em que vivia, não dava margem de aparição. Ela tinha certeza absoluta que Ulquiorra agüentaria vê-la dessa forma, pouco inocente, pouco bondosa.
Mas ele demorou um século para voltar. Ela soltou-se na cama e então dormiu. Foi embalada por um sonho onde suas fadas tentavam lhe dar conselhos amorosos e ela se esforçava para não ouvir.
Quando acordou, pensou, ainda sonolenta, que estava acordando em seu quarto e estava atrasada para a escola. Mas esse pequeno susto durou somente até ver com surpresa a figura de Ulquiorra sentado de forma relaxada do outro lado do sofá, lendo um livro.
— Vocês têm uma biblioteca aqui? – ela perguntou com certo entusiasmo.
Ele a olhou como se tivesse notado só naquele momento que ela havia acordado e então fez um “sim” com a cabeça e voltou ao livro.
— Wow! – a garota se aproximava dele, realmente curiosa e interessada naquilo – Vocês vão ao mundo humano buscar? Ou será que vocês possuem autores próprios em Hueco Mundo? – e essa ideia a deixou tão espantada que colocou as mãos na boca, num gesto de fascinante surpresa, pensando em que como seria um escritor hollow.
Ulquiorra a olhou de soslaio e resolveu voltar à leitura. Mas era uma tentativa inútil.
— Hey, estou falando com você! – disse Orihime abaixando o livro do rapaz que lançou um olhar frustrado. – Você costuma ler bastante?
— O que você quer, mulher? – ele parecia divertidamente irritado para ela.
— Não estava prestando atenção em minhas perguntas?
— Toda civilização possui sua cultura para que possa sobreviver. E eu leio sempre posso.
Orihime concluiu que ele parecia um intelectual falando de tal forma e isso a impressionou. Não havia conhecido tal lado do Espada até este momento, mas se parasse para pensar, fazia o estilo de Ulquiorra ser autodidata.
— Como... – ela começou escolhendo as palavras – Como pode não conhecer sentimentos se lê tanto?
Ele fechou o livro de maneira forte e barulhenta, como se para demonstrar sua irritação pela interrupção assim como sua desistência de continuar a leitura. Orihime continuou achando graça naquela atitude até sentir seu queixo sendo puxado para bem perto do rosto do rapaz, o que a fez corar fortemente, como se deve imaginar.
— Acredito no que vejo – ele começou, olhando-a profundamente nos olhos – Naquilo que é mensurável e tátil. “Sentimentos” são uma insignificância que humanos criaram para explicar sua fraqueza.
E mesmo com este mini discurso, ele não a soltou. Já estava começando a doer, mas a moça não se permitia mexer e desfazer aquele contato. Queria dizer a ele que estava errado, que ele sentia, mesmo que não admitisse, que a prova estava ali, naquele momento em que eles compartilhavam do olhar um do outro.
— Não me interessam coisas inúteis como sentimentos – ele continuou – O que importa é aquilo que se consegue colocar em ações.
E um estalo se deu na cabeça da ruiva. Sentimentos são inúteis sem ações, a maior prova disso era seu amor platônico por Ichigo, que jamais passaria disso.
E como se guiada pelo inconsciente, ela pousou sua mão sobre os dedos que seguravam fortemente eu queixo, os soltando delicadamente dali. Viu que ele estava desviando o olhar e ia virar o rosto à procura de seu livro quando num impulso meio rápido, ela o impediu, tocando em seu ombro, o fazendo virar-se novamente a ela, só que dessa vez com os olhos levemente arqueados, levemente inclinados e desfocados, passando calma e paradoxalmente, uma fúria interna que só aumentava à medida em que a moça se aproximava ainda mais. Quando já estava a uma distância razoável, pensou que provavelmente seus olhos estivessem da mesma forma ou pior, num desejo indispensável. O joguinho entre eles continuava; era o momento da caçada onde a presa se sente atraída pelo predador. Mas Orihime não estava mais disposta a manter seu papel de elo mais frágil.
Antes que pudesse sentir vergonha de qualquer coisa, ela jogou suas pernas ao redor da cintura de Ulquiorra e prendeu seu rosto com os braços, como ele havia feito anteriormente. Ela viu um brilho de surpresa passar pelos olhos verdes, mas ele manteve-se imóvel. Ela então manteve sua pose, como se realmente tivesse força o suficiente para sucumbi-lo.
— Não pretendo oferecer resistência a ti, mulher – e talvez até tivesse forças para sucumbi-lo, pensou por alguns segundos.
Sabia que sua coragem estava prestes a falhar, então tomou impulso e aproximou seu rosto do dele e de forma meio desajeitada e titubeante, fechou os olhos e encostou seus lábios nos dele. Eram frios e estavam entreabertos e ela não sabia direito como devia se mexer. Deixou-se deslizar entre o lábio superior e inferior dele e por fim fez uma pequena pressão, mas uma ansiedade abrupta a tomou e ela se separou dele.
— Desculpe, eu realmente fiz algo idiota e sem sentido – e continuou em seu falatório típico de quando ficava muito nervosa, colocando suas mãos em seu peito e não ousando olhar para ele.
Sentiu seus braços serem puxados para o local em que estavam anteriormente e ouviu a voz de Ulquiorra, já baixa, sussurrar uma súplica em tom de ordem:
— Continue de onde parou.
Ela respirou fundo como alguém que toma a decisão de algo, e voltou a encostar seus lábios no dele. Pensou que ele a beijaria avassaladoramente por estar sendo tão lerda e então ela voltasse ao seu papel de presa, mas ele nada fez além de permitir que seu toque lento e gradual passasse de um deslize para pequenas pressões. Concluiu que ele estava respeitando sua inexperiência, e deixando que ela aprendesse como fazer certas coisas.
Ou então ele também não soubesse como beijar.
Resolveu ignorar seus pensamentos e se concentrar no que aquele gesto queria que significasse. Trouxe as mãos para o rosto gelado dele e sentiu os já conhecidos pequenos choques elétricos e depois de se acostumar com a temperatura, aprofundou o toque e o beijo. Sentiu ao longe seu tronco ser realocado, provavelmente Ulquiorra tinha se mexido para melhorar a posição em que estavam, mas não ousaria abrir os olhos para descobrir.
A essa altura, ela já aprendera a movimentar os lábios, abri-los e fechá-los conforme seus impulsos ditavam. Notara que gostava quando se concentrava em apenas um dos lábios do rapaz e os sugava de leve, mas tudo aquilo parecia estar fazendo seu fôlego desaparecer. Afastou-se de leve para recuperar o ar e então tomar nota de sua situação. Parecia estar completamente aninhada ao corpo de Ulquiorra, sendo o braço esquerdo dele estando envolto em sua cintura, a puxando. Ainda em seu estado de torpor, ela voltou sua mão para seu rosto e a mão direita bateu de leve em sua máscara, que contra a luz da lua, parecia contrastar mais ainda com os cabelos escuros, a fazendo quase brilhar aos olhos deleitosos da humana. Ela passou a ponta dos dedos pela lateral, com receio de aquilo incomodar o rapaz, mas este nada fez. Ela roçou os dedos pela superfície ondulada da lateral e até o único chifre. A máscara estava quebrada, a lembrando que dali vinha a fonte de consciência dele, senão seria um hollow tentando devorá-la neste exato instante. Não que não fosse quase este mesmo pensamento que estivesse passando pela mente masculina. Ela demorou-se na máscara. Precisava lembrar que ele era um hollow – não um humano – e que aquilo provavelmente deveria impedir sua entrega.
Mas ela sabia muito bem que nada a impediria de descobrir mais sobre todo aquele desejo que tomava conta de seu corpo.
— Isso deve ser errado... – ela balbuciou – Eu sou humana, afinal... E você um Espada. Deve me considerar “lixo”.
Ulquiorra posicionou o braço esquerdo nas costas de Orihime, deixando a mão debaixo dos longos cabelos, os puxando de leve pelo couro cabeludo a fazendo arfar, e dizendo perto do ouvido dela:
— Você pode parar quando quiser... De qualquer forma, eu sei que você é uma mulher diferente desde o momento em que pus meus olhos em ti.
Isso deveria ser o modo dele explicar que não a considerava um “lixo” como os outros humanos. Moral a parte, isso a deixou feliz.
Arrepiou-se em meio a um sorriso quando sentiu os lábios e consequentemente a língua de Ulquiorra em seu pescoço, enquanto suas pernas apertavam-no instintivamente. Permitiu-se sentir alegria naquele momento. Um breve paraíso em meio ao inferno que sua vida tinha se tornado. Ela segurou o rosto do homem em frente ao seu, e sem tirar o sorriso do rosto, encostou sua testa na dele. Fechou os olhos e usufruiu a paz daquele instante.
Ulquiorra estava um pouco irritado pela interrupção e as ações da humana não faziam o menor sentido, mas soltou os braços para trás e a observou durante aquele ato. Seu rosto estava naquele formato estranho que os humanos chamam de sorriso. Sorriso demonstrava o que mesmo? Cinismo, ou aquela outra coisa que nunca pareceu importar para ele.
— Mulher, por que sorri?
Sem se mexer, ela abriu os olhos e observou os olhos verdes e curiosos do hollow. Orihime se afastou um pouco para olhá-lo melhor e respondeu de forma simples:
— Porque estou feliz.
Ulquiorra piscou e esperou por mais explicações. Mas ela não deu, apenas mantinha aqueles lábios puxados para cima. Ele notou que se fosse qualquer outro – hollow ou ser humano – talvez ele não tivesse tanta paciência. Mas com qual outra criatura ele já ficou tão intrigado a ponto de querer mergulhar fundo para entender?
— A felicidade é uma ilusão – ele continuou enquanto observava o sorriso murchar do rosto de Orihime – há muito a perder ao se buscar tal coisa. Não ter nada nem ninguém a perder é o que traz a verdadeira felicidade.
A ruiva suspirou.
— Mas aí é vazio – disse ela, já voltando a ser séria, sem ainda se dar conta que estava totalmente a vontade no colo do Espada.
— O vazio é a chave – ele respondeu como quem explica uma equação a uma criança.
— O que você quer de mim, Ulquiorra?
Essa pergunta o pegou desprevenido. Antes que pudesse dar sua resposta padrão, a ouviu continuar.
— Quero dizer... Sem máscaras. Não quero que este momento seja mais uma forma de você tentar me manipular.
Pura e simples. Tão cristalina quanto água. O rapaz continuou a observando, mais interessado, mais intrigado sobre aquela humana que falava com ele sem medo algum. Ulquiorra jogou a cabeça pra trás, a encostando no sofá. Se soubesse, quem sabe até sorriria também. Até aquele momento em sua existência, ele só pode contar com a confiança em si mesmo, em seus poderes para sair de determinada situação, e em mais nada que seus olhos não pudessem observar. Mas ali estava, à sua frente, em seu colo, um ser que aos seus olhos observadores era tão fraco que jamais conseguiria causar-lhe algum dano, e ao mesmo tempo, era tão absurdamente tentador acreditar em sua lealdade, em sua clareza com tudo o que era, que ele se viu diante da mais perigosa armadilha: ele sabia que, ao resolver falar todas as coisas que não faziam o menor sentido dentro de si, ele estaria se condenando, perdendo a batalha que travavam desde o momento que se conheceram e entraram naquela situação de vigilante e vigiada. E era por esse motivo que achou até graça internamente: pela primeira vez, ao estar tão vulnerável, ele não se importou. Ele voltou o rosto para ela e a puxou para a mesma posição que ela os tinha colocado antes, com as testas coladas e disse:
— Eu só a quero.
Ainda com as testas coladas, ele não soltou o olhar. A viu enrubrescer, mas mantendo-se no lugar. E então, depois de controlar as emoções que para ele eram exageradas, ela foi compreendendo.
Orihime tinha certeza absoluta de que era o elo mais fraco daquela relação, por razões óbvias. Mas agora tudo tinha ruído. Ele, que brincava com seus sentimentos sem saber, que não queria ter nada a ver com humanos, que se irritava ao falar de sentimentos... Estava agindo exatamente como um ser humano agiria. E ela entendeu que dentro dele havia uma batalha tanto ou maior que a dela esse tempo todo. A verdade veio a tona: era ela quem tinha o maior poder entre os dois, pelo simples fato de saber o que significava todo aquele momento. E ela entendeu o porquê. Provavelmente desde o momento que Ulquiorra a viu, ele se atraiu por ela, e tentou, de forma subconsciente, puxá-la para perto de si, quem sabe através de Aizen, o fazendo acreditar que seria importante seqüestrá-la e que ele era o melhor encarregado para cuidar dela. Tudo fazia sentido agora, apesar de que para ele não. Mas mesmo não entendendo o que era esse tipo de sentimento, Orihime via nos olhos do Espada que ele sabia que tinha perdido. Uma pequena lágrima escorreu pelos olhos da mulher, o fazendo se afastar e a olhar intrigado.
— E-eu sempre me achei muito estranha – ela resolveu controlar suas emoções mais um pouco para poder falar a ele – e acreditava que sempre estaria sozinha, e que... eu nunca chamaria a atenção de ninguém – ela respirou fundo e sem pensar muito, despejou o que precisava ser dito – eu prometo guardar com todas as minhas forças o que está me oferecendo.
Ela viu Ulquiorra abrir e fechar a boca devagar, como se medisse o que fosse falar.
— Seja clara, mulher – ele falou em voz baixa, num tom desconfiado que fez a ruiva rir em meio às lágrimas.
— E-eu... – respirou fundo, olhou pra baixo e secou a lágrimas. Quando ergueu seus olhos de volta, estava decidida – Eu o amarei de volta.
Foram longos segundos até alguém se mexer.
Por fim, foi o Espada quem falou:
— Amor?
Ele parecia tão confuso aos olhos de Orihime que ela riu. Ele parecia uma criança diante de algo que nunca viu antes.
— Eu sei o que irá dizer – ela respondeu presunçosa – e não estou interessada nas filosofias de alguém que não sabe nem o que acontece consigo mesmo.
Ela o sentiu se mover em sua direção e achou que tinha passado dos limites, com o olhar que ele lançou. Logo então, Ulquiorra a puxou pelas costas e fez questão de ter certeza que estavam bem próximos para falar o mais baixo possível:
— Eu não confio em ninguém... além de ti, mulher.
Ela entendeu a responsabilidade. Não era somente retribuir, mas estar pronta para enfrentar e carregar os sentimentos de um hollow que nunca teve contato com afeto; e o perdoar por ser quem era e estar na situação que estava, onde um dia, certamente, receberia a ordem de matá-la. Era uma responsabilidade muito grande para qualquer pessoa. Talvez, somente Inoue Orihime tivesse o coração tão grande a ponto de ser capaz de desempenhá-la.
E ela tinha. Todos os medos haviam desaparecido; ela era o melhor de si perto dele. Com a coragem que nunca havia mostrado a ninguém. Sentia-se sem receio algum de se entregar ao homem – hollow, arrancar, Espada – que decidiu amar.
— Orihime – ela falou suavemente.
— O quê?
— Meu nome é Orihime, não “mulher” – ela sussurrou de volta.
Se não fosse o tipo de existência vazia a qual Ulquiorra havia sido submetido, ele com certeza não conseguiria impedir o sorriso de canto que estava prestes a brotar de seus lábios.
Continua...
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