Insomniacs
2 Capítulo Dois - Para Onde Estamos Indo?
Dia passaram com Alex trancado em seu apartamento e o garoto estranho nunca apareceu para pegar seu lenço. Com o passar dos dias, ele começou a pensar que talvez tudo o que aconteceu naquela noite era um mero sonho muito lúcido, e o acidente nem havia acontecido e não havia nenhum garoto estranho para começo de conversa. E ele acreditaria nisso alegremente se não fosse pela cicatriz em sua testa, se mostrando extremamente clara quando ele passava pelo espelho.
O sangue havia secado e o ferimento parecia o mais horrível agora, com uma marca bem visível em sua testa. Ele sentiu vontade de arranca-la fora, sentindo-se irritado toda vez que passava o dedo por sua testa e percebia que ela estava ali. Scott se manteve fiel a sua palavra porque aparentemente Oliver não sabia de nada, perguntando simplesmente como ele estava por telefone, dizendo como estava ocupado com a faculdade e como estava tentando encontrar um tempo para visitar, sem sequer mencionar acidente em momento nenhum (porque se ele soubesse, ele definitivamente viria correndo para o apartamento de Alex com um médico atrás).
Outra coisa que o convenceu de que Scott se mantinha fiel a sua palavra, foi quando ele ligou uma tarde, dizendo-lhe para ‘se preparar’ e ‘estar pronto’ para algo que Alex claramente não estava com disposição.
“Vamos lá, é a primeira apresentação do Luka. Por que você não arrasta sua bunda para fora do sofá por uma noite pelo seu melhor amigo, hein Alex?”
Ele estava prestes a dizer algo maldoso como ‘Luka não é meu melhor amigo’ (o que ele realmente era, mas só desta vez ele ousaria mentir, apenas para ficar em casa) quando Scott o ameaçou.
“Vou contar ao Oliver que você bateu o carro e deixa-lo reclamar 24 horas por dia, sete dias por semana, na frente da sua porta se você não vier.”
Alex rosnou. Isso obviamente foi trapaça. Scott não tinha o direito de chantageá-lo assim.
“Você já prometeu antes, Alex.”
Alex não era de quebrar promessas. Ele era talvez um idiota e mau na maioria das vezes, mas ele não era realmente um bastardo também. Ele xingou baixinho, olhando para o teto enquanto desligava o telefone, conseguindo responder a Scott com nada além de um pequeno grunhido e murmúrios incoerentes.
Alex levantou os dedos, contando os dias que se passaram desde que Scott colocou os pés em seu apartamento. Cinco ou mais. Parecia ter sido ontem para Alex, horas até. Suspirando, ele foi em direção ao banheiro e decidiu tentar aparecer apresentável já que teria que sair. O problema de ficar dentro do apartamento sem nada para fazer e ninguém para ver fez higiene pessoal se tornar algo que não tinha mais valor para ele. Ele tomava banho apenas quando queria e, francamente, nem lembrava quando foi a última vez que o fez. Ele tomou um banho rápido e lavou o cabelo. Espelho era praticamente o que ele havia tentado evitar nos últimos dias, mas no final foi forçado a encara-lo.
Encarando o espelho na frente de sua pia, ele não pôde deixar de fazer uma careta para seu próprio reflexo. Ele teve que coçar a própria mão, impedindo que o próprio dedo se aventurasse na incômoda cicatriz que se mostrava ousadamente em sua testa. Havia bolsas aparentes sob seus olhos e sua maçã do rosto havia ficado mais nítida e evidente devido à falta de alimentação. Seu cabelo preto estava bagunçado e se ele não estivesse muito deprimido provavelmente o pintaria de vermelho ou uma outra cor qualquer.
Espere, não. Ele não estava deprimido. Quem falou em depressão?
Alex Webber estava bem.
Ele estava perfeitamente bem.
Vestiu-se, pôs um boné e escondeu a cicatriz por baixo da franja. Seus olhos se voltaram para o lenço cuidadosamente dobrado que ele havia deixado no criado-mudo. O garoto ainda não havia aparecido e nesse ponto Alex pensou que poderia chamar aquele lenço de sua propriedade. Ele tentou o seu melhor para lavar o sangue, mas algumas coisas não foram feitas para serem apagadas de fato. Ele suspirou antes de pegar as chaves e sair de seu apartamento. Como sempre, a viagem de elevador foi agonizante e ele foi direto para o carro assim que chegou ao estacionamento.
Ele dirigiu em silêncio e provavelmente foi em algum lugar depois de ele sair de seu bairro que a dor de cabeça começou a incomodá-lo novamente. Sempre começava atrás dos olhos antes de se transformar em outra coisa e colocava seu mundo em turbulência. Ele precisava dar uma passada rápida na farmácia mais próxima e comprar uma porrada de aspirinas e analgésicos depois disso, pensou. Quando ele finalmente chegou ao clube, a dor de cabeça havia aumentado demais, quase insuportável. Surpreendeu-o que ele conseguiu chegar ao local no final, o tempo todo ainda conseguindo ficar de pé com as próprias pernas sem cair.
Ir para casa não era uma opção, já que Alex Webber não era alguém que fazia algo assim com seus amigos. Ele estava lá, tudo bem, e era melhor fazer essa viagem agonizante valer a pena. Passando por outras pessoas e entrando no clube, ele pensou que fosse desmaiar. Literalmente. O clube estava lotado durante o fim de semana e a música que eles tocavam não era do seu agrado. Dores de cabeça e música estridente eram a combinação letal perfeita para Alex esta noite, sem mencionar os corpos e contato fisico que ele tanto detestava.
“Se não é o rabugento Alex. Você realmente veio,” disse uma voz, mais alta que o resto, enquanto caminhava em direção a uma das cabines. Uma figura saiu e puxou-o para um abraço apertado. Ele não precisou ver o rosto para saber que era Luka. Ninguém era tão abraçador quanto Luka.
“Você ficou tão magro, Alex. Onde você esteve ultimamente?” perguntou Luka.
No fundo de sua mente, parecia que foi ontem desde a última vez que viu o garoto barulhento.
“Nenhum lugar,” ele disse, resmungando.
"Eu não vejo você há um mês ou mais."
Sério? Ele não achava que havia passado um mês enfiado em seu próprio apartamento. Para ele, provavelmente foi ontem que eles saíram juntos pela última vez, bebendo até o amanhecer e sendo superados por uma enorme onda de náusea logo depois. Alex acordou com uma ressaca terrível naquele dia. Engraçado, parecia que tinha acontecido ontem ou algo assim. Tinha passado realmente um mês?
“Estou aqui por causa do Scott, não por você,” ele disse friamente, olhando para o garoto que estava sentado calmamente na mesa, segurando uma dose de uísque na mão esquerda. Cedo demais para beber, Alex pensou. Oliver estava sentado do outro lado da cabine, sorrindo calorosamente para ele.
"É o verdadeiro Alex Webber, pessoal", Luka riu.
"O que isso deveria significar?"
“Eu sempre faço uma piada sobre você não aparecer. Ou mesmo se aparecesse, não seria o seu verdadeiro eu,” ele disse, ostentando o sorriso que Alex tanto odiava.
Alex gemeu e se livrou do toque de Luka antes de se jogar na cabine ao lado de Scott. Luka soltou um grito que foi algo como 'Viu? Ninguém pode fazer uma carranca assim, exceto o Alex.'
“Quando é a sua vez?” ele perguntou.
“Você quer que isso comece o mais rápido possível para que você possa pagar a fiança e voltar para a prisão que você chamou de apartamento, hein?” Scott entrou na conversa como se o garoto fosse capaz de ler sua mente. Alex bufou. Ele achava que sim, já que não planejava ficar mais tempo do que sua dor de cabeça poderia permitir.
“Fique para um drinque ou dois, Alex,” Luka disse, importunando-o com sua voz ridícula. “Faz tanto tempo desde a última vez que vimos você.”
Não para ele, não fazia.
Alex suspirou, olhando para o ridículo e perfeitamente irritante Luka. Ele até se esqueceu de como conseguiu fazer amizade com aquele pequeno pedaço de excentricidade. Ele não era um amigo que fez por gosto mútuo de música ou arte como Scott. Ele não era realmente alguém com quem fez amizade na faculdade porque eles estavam na mesma classe como Oliver. Ele era um amigo de Scott que de alguma forma ficou preso a ele através de um encontro acidental e muitas garantias do lado de Scott. Ele nem sabia por que Luka queria ser seu amigo em primeiro lugar. Porra, por que alguém iria querer ser seu amigo?
"Sim, estamos todos meio preocupados com você," Oliver disse suavemente, olhando para ele.
"Então você não deveria estar porque eu estou bem", disse ele.
Oliver ia retrucar, falando outras palavras de segurança ou fazendo outra pergunta que não faria nada além de irritá-lo ainda mais (porque a resposta sempre seria a mesma) antes de explodir novamente.
"E além disso, estou aqui agora, certo?" ele acrescentou, forçando um sorriso no rosto, tentando impedir Oliver de se intrometer ainda mais. Que sorriso feio, ele pensou.
Oliver soltou outro sorriso caloroso e ele teve uma sensação estranha no estômago, dizendo-lhe que as palavras que ele acabou de proferir eram mentiras. Ele sentiu como se estivesse mentindo e o sorriso que Oliver lhe deu e como ele pensava que Alex não estava sendo nada além de sincero só o fez se sentir pior. Não, por que ele deveria ser culpado? Ele não estava mentindo. Ele nunca mentiu.
"Sim, você está."
Porque Alex Webber estava bem.
Ele estava perfeitamente bem.
"Então, já que estamos nisso, vá se divertir, Alex," Scott disse, empurrando uma dose de uísque para ele.
Ele olhou para o líquido e depois para Scott, contemplando. Sua dor de cabeça ainda estava lá e a bebida só o deixaria ainda mais enjoado. Esta foi uma decisão ruim, tão ruim quanto sair de seu apartamento.
"Eu não estou aqui para beber. Estou aqui porque você me disse que o Luka vai ser o DJ hoje."
"Awh, você veio me ver!" Sorriu Luka.
"Vai se foder."
"Alex!" Oliver reclamou. Ele sempre foi o mais inocente, apesar de sua idade. Palavrões, álcool e boates eram três coisas que ele dificilmente se envolvia. Ele deveria saber que tal coisa seria difícil de evitar quando eles já estavam dentro de um lugar como aquele.
"Nah, eu sei que o termo 'vai se foder' no dicionário do Alex é equivalente a 'eu te amo'."
Alex apenas olhou para Luka bem nos olhos e deu a ele o olhar mais cruel que pôde. Seu olhar era algo que as pessoas descreviam como intenso e era uma das razões pelas quais Alex não encontrava muitas pessoas que o chamassem de amigo no final do dia. Ainda assim, Luka sendo Luka, era alguém que você não conseguia ignorar tão facilmente, sendo a pequena bola de risos e gargalhadas que ele era. O olhar mortal de Alex provavelmente falou 'você é lindo' para ele.
"Não, sério. Vai se foder."
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Quando Luka subiu na cabine do DJ, Alex havia bebido três doses de uísque. Quando a apresentação terminou, ele havia bebido cinco e a visão começou a ficar embaçada. A essa altura, sua dor de cabeça não era mais significativa. O baixo alto da musica e o som das pessoas residiam no fundo. Luka estava em êxtase, seu rosto corado e ele continuou acenando em direção a mesa onde Oliver, Scott e Alex estavam sentados.
Scott se desculpou logo depois, dizendo algo sobre chamar a atenção de uma linda garota de cabelos verdes no meio da pista de dança antes de se apressar para lá e fazer papel de bobo porque Alex (no estado de dor de cabeça e visão borrando) poderia jurar que o que Scott pensava ser uma garota era na verdade um homem.
Ele olhou para a dose de uísque à sua frente, pensando que seria a sexta esta noite. Na verdade, ele disse algo como 'apenas um' quando Scott e Luka o forçaram a beber. Acabou que Alex era de fato um mentiroso porque ele havia se enterrado no sexto copo agora. Ele estava inicialmente com medo por causa de sua dor de cabeça, pensando que ela iria piorar. Mas, novamente, depois de muita contemplação, ele percebeu que, se era horrível para começar, certamente não se tornaria pior.
Oliver estava conversando com Tyler do outro lado da cabine, totalmente sóbrio. Ao contrário de seus amigos, ele certamente conhecia seu limite e eliminou o álcool da lista de bebidas que gostaria de consumir nos fins de semana. Isso e como ele sempre dizia que precisariam de alguém sóbrio o suficiente para impedi-los de fazer algo estúpido. A única vez que ele viu Oliver tomar um gole de álcool foi durante a última vez que ele viu Luka e foi o suficiente apenas um copo para fazê-lo dormir.
Ele lançou os olhos para os corpos compactados na pista de dança. Luka estava longe de ser encontrado, provavelmente descansando com seu outro grupo de amigos e comemorando. O garoto era de fato um bom DJ, tanto quanto o idiota que era, Alex tinha que dar isso a ele. De longe conseguia distinguir os cabelos loiros de Scott, ele dançando e pulando demais como um idiota, e Alex teve que desviar o olhar para se conter do constrangimento. Ele se recusou a reconhecer aquele idiota estúpido como seu amigo.
Ele estava no meio de sua observação do ambiente, examinando os olhos ao redor do clube que parecia muito pequeno agora quando as luzes estroboscópicas feriram seus olhos e ele voltou sua visão para o chão. A dor de cabeça voltou, batendo em sua cabeça como se pedisse permissão para infestar sua mente mais uma vez. Suas palmas estavam suadas e o baixo da música ficava cada vez mais alto. Ou era seu coração que batia forte? Isso foi o resultado de tomar varias doses de uísque? Ele não estava assim antes. Afinal, consumir álcool como se fosse água era sua especialidade.
A surra foi ficando cada vez mais forte, chegando ao ponto em que ele sentiu alguém batendo um tambor bem próximo ao lóbulo de sua orelha. Ele apertou o peito, sentindo quase tudo ao mesmo tempo. Os barulhos altos, a dor de cabeça, dor no corpo. Uma onda de frio o percorreu, enviando calafrios ao longo de sua espinha. Bastaria que a náusea viesse e se juntasse à sensação horrível para fazer de tudo uma tortura perfeita para ele. O teto do clube parecia realmente raso com o papel de parede preto que os revestia, ele só havia percebido isso agora. Todos juntos, de alguma forma, ele se sentia como um pássaro em uma gaiola, preso lá dentro.
Levantando-se, Alex tropeçou em seu caminho em direção à porta. Ele precisava de um pouco de ar fresco, pelo menos. A compreensão o atingiu e o pânico começou a tomar conta. As paredes do clube pareciam cada vez mais apertada ao seu redor. A necessidade de ar fresco se transformou na necessidade de algum meio de fuga. Ele tinha que sair, e isso significava que ele tinha que passar pelos corpos entrando e saindo da pista de dança. Alex cerrou os dentes, percebendo que simplesmente precisava suportar tudo isso e forçou seu caminho até a porta do outro lado da pista de dança.
Ele nem teve a cortesia de pedir licença, abrindo caminho entre os bêbados. Ele continuou cerrando o punho com força, tentando ao máximo não desmaiar no meio do caminho. Ele esbarrou nos ombros e pisou nos pés, ignorando o grito de dor e os protestos lançados contra ele. Uma garota particularmente disse a ele para se foder depois que ele esbarrou nela quase com muita força. Ele ignorou e continuou tropeçando em seu caminho, a porta de alguma forma parecia cada vez mais longe de seu alcance. A certa altura, ele teve que abrir os braços, tentando abrir caminho e separar os corpos.
"Merda."
"Ei, idiota."
"Qual é a porra do seu problema, você..."
"Assassino."
Alex congelou em seus pés, os olhos arregalados e o coração batendo forte no peito. Tudo ficou quieto por um momento, como se alguém tivesse parado o tempo antes de retomá-lo quase instantaneamente.
O que ele acabou de ouvir?
Não, ele ouviu errado. Era impossível para ele ouvir tal coisa. Mesmo que tenha feito isso, provavelmente ouviu errado, ou simplesmente não foi endereçado a ele.
Engolindo em seco, Alex continuou andando, tentando alcançar a porta. Ele estava tão perto, conseguindo abrir caminho pela pista de dança quando uma garota, loira e aparentemente muito bêbada, esbarrou nele. Ela trancou as mãos em volta do pescoço dele, rindo palavras em seu pescoço. Sua respiração enviou arrepios por sua espinha. Esta era definitivamente a última coisa que ele precisava. Em outros dias, ele de bom grado colaria seus lábios nos da garota, mas com a cabeça rachando e o suor escorrendo, ele nem se importou muito com uma garota se esfregando nele. Ele arrancou as mãos da garota de cima dele, mas ela o abraçou ainda mais apertado, seus lábios deslizando ao longo de seu pescoço e indo direto para sua orelha.
"Assassino."
Seu sangue gelou. Ela puxou a orelha dele mais uma vez antes de tirar o braço e desaparecer de vista, bem quando Alex estava prestes a perguntar o que isso significava. Ele não estaria errado sobre isso, estaria? Isso fez seu corpo tremer, seus olhos se arregalaram e a batida em seu coração ficou mais alta. A sala começou a girar ou foi Alex quem o fez, porque ele se virou para procurar a loira. Ele entrou na pista mais uma vez, refazendo seus próprios passos.
Seus olhos pegaram o cabelo loiro da garota. De alguma forma, a porta não significava nada para ele agora, apenas um mero toque de distância e estava atrás de suas costas agora, esquecida.
"Ei, você. Espere um segundo, eu..."
Ele estendeu o braço e conseguiu agarrar o ombro da garota antes que alguém esbarrasse nele novamente por trás, chegando muito perto de sua orelha. Ele tropeçou para frente e a garota desapareceu mais uma vez de vista. Ele estava prestes a alcançá-la novamente, surgindo através dos corpos quando ouviu as mesmas palavras sussurradas atrás de suas costas, soando cristalinas e cada vez mais reais.
"Assassino."
Ele se virou, olhos arregalados para não encontrar ninguém parado atrás dele. Quem disse isso? O que isso significava? Foi endereçado a ele? Isso não seria possível, seria?
"Assassino."
E não foi preciso um corpo esbarrando nele ou um ombro roçando para que ele ouvisse, sendo falado em sussurros abafados, bem próximo ao seu ouvido.
"Assassino."
Ninguém estava olhando para ele, mas ele ainda podia ouvir as palavras sussurradas para ele, ecoando por toda parte. Como se estivesse na fila, sua dor de cabeça bateu forte. Ele lutou para ficar parado, sua cabeça parecia que ia rachar. Ele cobriu os ouvidos tentando bloquear os ruídos, corpo curvado e olhos fechados. Não fazia nenhum sentido para ele, mas isso fez sua dor de cabeça piorar ainda mais.
"Assassino."
"Não."
"Assassino."
"Pare com isso."
"Sr. Motorista Maluco."
"Cale a boca!"
E os sussurros finalmente obedeceram. Abriu os olhos lentamente e a primeira coisa que viu à sua frente foram seus próprios pés, parados na calçada fria e um cigarro aceso entre os dedos. Ele piscou, tentando determinar se o que estava vendo era genuíno ou não.
"Sr. Motorista Maluco?"
Ele ergueu a cabeça devagar. As batidas haviam diminuído. Assim como a dor de cabeça. Alex sentiu-se total e quase repentinamente melhor. As paredes não o estavam mais confinando e não havia mais corpos esbarrando nele. O ar já não era tão sufocante e ele podia até sentir a brisa fria do outono acariciando suas bochechas. Ele percebeu que estava do lado de fora, parado na calçada.
"Eu sei que você gritou para eu calar a boca, mas você está bem, Sr. Alex Webber?"
E na frente dele estava o rapaz estranho, aquele com quem ele tinha se encontrado dias atrás. Ele se lembrava daqueles olhos verdes e do sorriso irritante. Isso o lembrou de Luka, embora ambos tivessem suas próprias maneiras de perturbá-lo. Ele estava dentro do clube momentos atrás, parado entre corpos compactados com o teto caindo sobre ele e a dor de cabeça dividindo sua cabeça em duas. Como ele conseguiu encontrar a saída, porque claramente não se lembrava de ter saído pela porta? Tudo o que ele lembrava eram as vozes e os sussurros, dizendo-lhe que ele era-
"-tudo bem. Estou perfeitamente bem."
O menino inclinou a cabeça para o lado, aparentemente não convencido por suas próprias palavras. Alex passou os dedos pelos cabelos. Ele estava suando muito. O que foi isso? Um efeito ruim do uísque? Provavelmente algo que ele comeu ou bebeu antes, reagindo mal com o álcool? Ou talvez fosse Scott colocando um ácido muito ruim em sua bebida sem que ele soubesse.
Ele suspirou, tentando organizar seus pensamentos. Ele não se lembrava de ter saído, mas se lembrava de querer porque a atmosfera estava insuportável. Olhando ao redor, ele se viu bem na frente do clube, a porta estava localizada a apenas alguns metros à sua esquerda. Ele realmente não ficava chapado e se aventurava em lugares que não conhecia, então pelo menos isso era um bom sinal.
"Ei, Motorista Maluco."
O rapaz à sua frente acenou com as mãos, tentando chamar sua atenção. Ele olhou para o garoto e percebeu que havia outra pergunta que ele tinha em mente no meio de toda a sacanagem que acabou de acontecer.
"O que você está fazendo aqui?"
O estranho ergueu a sobrancelha.
"Saindo?"
Alex estalou a língua.
"Não, quero dizer por que você está aqui, na minha frente, agora."
"Eu encontrei você lá dentro, todo esquisito e essa merda. Então eu te trouxe para fora e você vomitou ali mesmo na esquina antes de acender esse cigarro pra se acalmar", disse o rapaz, apontando a direção em que aparentemente havia vomitado. Ele nem se lembrava disso. Isso explicava por que ele se sentia melhor, então.
"Você me encontrou lá dentro?"
"Sim, eu fiz. Quanta coincidência, certo?" ele disse, o rosto radiante com um sorriso com o qual Alex de alguma forma se familiarizou. "Eu estava tipo-, espere, aquele é o cara que me atropelou? E cara, eu estava certo. É estranho ver você aqui, Alex."
E Alex pensou que deveria ser ele quem deveria dizer essas palavras.
"É estranho ver você aqui. Você não é jovem demais para clubes?" ele disse.
"Eu tenho vinte um, se quer saber. Não que aparente, eu acho."
A julgar pelo rosto e pelo sorriso, claro que era. Mas, novamente, não era da conta dele, se o garoto conseguiu entrar no clube com identidade falsa ou não. Nem era da sua conta, onde o estranho rapaz resolveu se aventurar. Vê-lo aqui foi uma coincidência tão grande que quase não parecia real. No entanto, lá estava o mesmo cara com quem ele havia batido no outro dia. Ele tentou dar uma olhada nas pernas do estranho, apenas para ver a ferida escondida sob o jeans que ele usava. Não havia como dizer se a ferida havia cicatrizado ou não, mas Alex podia apostar que havia se formado em uma crosta tão feia quanto a dele.
"Como está a perna, cara?"
O estranho sorriu antes de responder. "Perfeita. Tenho uma amiga que é boa em massagens e ela me ajudou com o músculo torcido. O momento mais angustiante para mim agora é tomar banho, porque feridas e sabonete não são a melhor combinação de todas."
Ele sempre falava demais para o gosto de Alex. Então, novamente, todo mundo sempre fazia.
“Eu não devolvi seu lenço,” ele deixou escapar, lembrando-se do tecido, ainda bem dobrado em seu criado-mudo. Ele deveria tê-lo trazido se soubesse que iria encontrar o menino. Mas, novamente, era claro que ele não saberia.
“Está tudo bem, Motorista Maluco. É seu,” ele disse, sorrindo.
Alex ergueu a sobrancelha. Aquele cara acabou de lhe dar o lenço de graça? Ele meio que achou estranho.
“Alex Webber.”
"O que?"
“Não me chame de 'motorista maluco.' Eu realmente me sinto como um destruidor”, ele deixou escapar, embora achasse desnecessário repetir o próprio nome, já que o estranho de alguma forma havia tomado conhecimento disso dias antes. Isso o lembrou. Ele não havia perguntado como ele sabia seu nome.
O estranho deu-lhe um pequeno sorriso e ele percebeu que até então nem sabia o nome dele, marcando-o em sua mente com apelidos como 'o garoto estranho' ou 'aquele garoto que eu bati', com o último soando totalmente errado.
"Mas você é, no entanto", disse ele. "Você bateu em mim."
Alex estalou a língua. Sua cabeça parecia leve e a dor de cabeça havia desaparecido completamente de alguma forma. Ele respirou o ar frio e achou tudo mais fácil de entender e conviver. Ele se sentia muito melhor.
"Na última vez, como você sabia meu nome?"
O garoto estranho riu.
“Está escrito na porta do seu apartamento.”
É claro. Onde mais ele poderia saber então? Ele não era um psíquico ou algo assim (porque se fosse, ele teria sido capaz de evitar o acidente em primeiro lugar agora, não é?). O apartamento tinha o nome dele, escrito em negrito ao lado da porta. Ele deveria saber.
Alex estava prestes a perguntar novamente, desta vez tentando colocar um nome para o garoto misterioso quando alguém o chamou por trás. Alex se virou, vendo Oliver saindo do clube, procurando por ele.
“Alex, estávamos procurando por você. Pensávamos que você tinha ido embora.”
“Só saí para tomar um pouco de ar e fumar”, disse ele com indiferença, deixando de fora a dor de cabeça da conversa e, o mais importante, a parte em que teve um apagão. Ninguém precisava saber disso. Ele estava perfeitamente bem.
Oliver se aproximou dele, semicerrando os olhos, tentando ver melhor seu rosto. Ele odiava isso, percebendo que Oliver estava determinando por si mesmo se Alex estava realmente bem ou não, tentando encontrar qualquer vestígio do que quer que pudesse estar errado que estava escrito em seu rosto.
“O que é isso na sua testa?”
Merda. O boné que ele usava para esconder a cicatriz estava em sua mão. Ele havia tirado antes.
“Não é nada,” ele disse, evitando contato visual e colocando o boné ao mesmo tempo apressadamente. Parecia que ele estava fugindo da pergunta.
Oliver suspirou. Quaisquer palavras que ele tivesse na ponta da língua já haviam desaparecido ele olhou para Alex como se estivesse cansado de dar outra palestra. Alex também sabia que estava cansado de ouvir outro. Oliver aparentemente teve a mesma ideia que ele. Nenhum deles precisava de consolo ou sermão naquele momento, e em silêncio os dois haviam concordado com isso.
“É uma crosta, cara. Ele se machucou no acidente,” o estranho de repente entrou na conversa.
Ao ouvir isso, Alex estremeceu. Que porra? Ele estava tentando encobrir isso especialmente de Oliver e de repente veio esse cara estranho falando exatamente o que ele estava tentando desesperadamente esconder. Ele não tinha boas maneiras, participando de conversas assim?
“Eu não sofri um acidente!” ele acrescentou rapidamente.
“Você sofreu um acidente? Que tipo? Você não está ferido, está?”
“Mas é verdade. Você meio que sofreu, Alex.” O garoto estranho acrescentou com um tom alegre.
"Cale a boca", disse ele, virando a cabeça ligeiramente para ver o estranho, ainda de pé em seu lugar, rindo. Vendo aquilo, teve vontade de bater naquele cara pela segunda vez com o carro.
E agora ele meio que se arrependia de não ter batido nele até que ele realmente morresse ou algo próximo a um coma. Ele não seria capaz de ser tão irritante então, quando tudo o que ele poderia fazer era ficar deitado na cama do hospital. Alex virou a cabeça para encarar Oliver, aparentemente confuso. Claro que ele estaria. Ele só podia esperar que Oliver não ouvisse claramente ou tivesse tanta dificuldade em entender as palavras do garoto estranho.
"Quem é-?" ele perguntou.
“Ninguém é importante. Esqueça isso, Oliver,” ele disse rapidamente, cortando a pergunta de Oliver.
Então, novamente, ele ainda não conseguiu descobrir o nome do estranho. Ele permaneceu anônimo e Alex sentiu a necessidade de pelo menos saber seu nome. Então, novamente, ele não encontrou a necessidade de apresentar o referido estranho ao amigo. Fazer isso só aumentaria as perguntas de Oliver e ele estava tentando evitar isso.
“Ei, isso é maldade. Pelo menos você pode me apresentar ao seu amigo!” O garoto exclamou.
Alex gemeu e Oliver apenas olhou para ele com os olhos confusos. Ele tentou encontrar as palavras perfeitas para explicar a situação sem soar muito extremo, porque a palavra 'Eu bati nele algumas noites atrás com meu carro' soava bastante dura e Oliver inegavelmente estaria em pânico, sua palestra para ele não seria pararia por uma semana inteira. Do jeito que ele era, ele provavelmente chegaria a confiscar a chave do carro.
Como se Deus estivesse sendo tão gentil com ele naquela noite, desta vez alguém apareceu para chamar o nome de Oliver. Tyler novamente, e Alex certamente não sabia o que ele estava fazendo, mas foi o suficiente para tirar Oliver de cima dele, virando-se para ver o homem saindo pela porta do clube.
“Scott está fazendo uma cena. Ele está claramente bêbado. Nós precisamos de você."
Deus abençoe Scott e sua estupidez.
"O que? O que ele fez agora?” perguntou Oliver.
“Ele está em um ataque de choro, falando sobre Jasmine e merda assim. E quando eu digo merda, quero dizer literalmente, merda,” Tyler respondeu com cara de divertido. Ao ouvir isso Alex sentiu vontade de rir, mas conseguiu manter a boca fechada.
Oliver olhou para Tyler e depois para ele, aparentemente preocupado. Ele não sabia por que Oliver tinha que sempre olhar para ele daquele jeito, como se algo pudesse acabar mal se não tivesse os olhos em Alex mesmo por um mero segundo. Como se houvesse algo errado com Alex, seu olhar descrevia. E Alex odiava porque ele estava bem.
“Eu tenho que ir ver o Scott. Você vai ficar bem?”
Alex deu de ombros, dizendo as mesmas palavras que ele lembrava como um mantra.
"Sim. Estou bem."
Oliver como sempre, não parecia muito convencido, mas Scott parecia uma preocupação maior por enquanto.
"Você está indo para casa, então?"
Suas palavras falavam mais de uma sugestão do que de uma pergunta e ele entendeu a mensagem por trás disso. Além disso, ele também sentia que este seria o momento perfeito para voltar para casa. Ele já tinha saudades de seu apartamento.
"Sim, eu acho."
Oliver assentiu e então correu de volta para a entrada do clube com Tyler. Pouco antes de entrar, Oliver se virou mais uma vez, aparentemente não convencido com sua resposta. Ele sempre fazia isso e Alex não sabia por que tinha que fazer isso. Ele era tão difícil de acreditar? Suas palavras cheiravam a mentira e engano?
“Você tem um amigo tão legal,” o garoto estranho disse novamente e Alex meio que esqueceu por um minuto que ele ainda estava lá, parado atrás dele.
"Sim, ele é."
Mesmo que a atenção de Oliver pudesse ser problemática, ele ainda estava feliz por poder chama-lo de amigo, porque ele não era de abandonar seus amigos assim. Com Oliver pelo menos ele sabia que não ficaria para trás. Ele suspirou, pensando que talvez ele estivesse sendo mau, desviando a atenção de Oliver assim.
“Qual é o seu nome, garoto?” ele perguntou.
“Você nem sabe o nome da pessoa em quem bateu”, disse o garoto, com as mãos apoiadas na cintura.
“Apenas me diga o nome,” ele rosnou.
O estranho sorriu e de alguma forma Alex teve a impressão que não conseguiria esquecer aquele sorriso, sendo impresso em seu cérebro. Ele pensou como o sorriso iria assombrar sua noite e como isso seria estranho, porque ele certamente não sabia a explicação por trás daquela estranha sensação e premonição.
“Vou dizer isso uma vez e você nunca será capaz de esquecer o nome da pessoa em quem você bateu.”
As palavras do garoto ecoaram em sua cabeça. Seria verdade, ele estranhamente sentiu.
“Sou Xavier. Xavier Sharpe.”
Xavier Sharpe. Olhos verdes, sorriso desagradável, um pirralho completo, e de alguma forma ele conheceu esse garoto em particular porque bateu o carro nele no meio da rua às 3 da manhã.
Xavier.
E ele não conseguiria esquecer aquele nome, mesmo quando voltasse para seu apartamento. O sorriso e o nome estavam marcados profundamente na raiz de seu cérebro, tomando a maior parte de seus pensamentos enquanto ele estava deitado de costas na cama, tentando ganhar o sono que parecia estar sempre fora de seu alcance. No final ele conseguiu de alguma forma, com o sorriso de Xavier Sharpe ainda ecoando em sua mente e o nome do garoto na ponta da língua.
Xavier.
O cara em quem ele bateu o carro às 3 da manhã.
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