Insomniacs

3 Capítulo Três - Anestesiado


“Você sabe onde fica meu apartamento, não sabe?” Ele perguntou a Xavier naquela noite na frente do clube.

“Sim, como eu poderia esquecer aquele prédio chique? Você é herdeiro ou algo assim, isso eu sei.” Disse o garoto, dando de ombros.

Herdeiro. Essa palavra o fez revirar os olhos.

“Então passe lá quando quiser, vou deixar o porteiro avisado e com o lenço que você deixou comigo.”

Ele ainda se sentia mal de ter aquele lenço consigo, e queria que a oportunidade de devolve-lo chegasse o quanto antes. Ele até mesmo pensou em comprar um novo para Xavier, já que seu sangue havia manchado o pano e a ideia daquele garoto ficar andando por aí com um lenço manchado do sangue de um estranho era perturbadora.

“Ou talvez eu possa comprar um novo para você.” Ele disse rapidamente, tendo pensado melhor.

Xavier ergueu as mãos, claramente rejeitando a oferta. “Não se preocupe, Alex, o lenço é seu agora.”

Aquele garoto realmente estava lhe dando o lenço? Não, Alex não conseguia aceitar isso. Por mais idiota que fosse, a ideia de ficar com as coisas das outras pessoas (mesmo sendo algo tão simples como um lenço), o deixava desconfortável. E mesmo assim, aqui estava Xavier não parecendo se importar nem um pouco com isso.

“Você está fazendo eu me sentir mal, sabe...” ele disse.

Rapidamente se arrependeu de ter disso essas palavras, porque um sorriso malicioso iluminou o rosto de Xavier.

“Então eu tenho uma proposta para fazer você se sentir melhor. Faça o que eu digo e estaremos quites, compensando você ter me atropelado.” Disse ele, sorrindo. No fundo de sua mente, Alex pensou que o garoto poderia muito bem participar de um comercial de TV com aquele sorriso.

O que ele poderia querer, então? Dinheiro? Isso não seria problema para Alex e ele preferiria que fosse assim, terminando esse estranho relacionamento com uma simples quantia de dinheiro. Comprar alguma coisa que Xavier quisesse? Contanto que seu cartão de credito pudesse pagar e, mais importante, se estivesse abaixo de seu limite, ele provavelmente conseguiria comprar.

“Me pague um jantar e eu estou satisfeito.”

Ele ergueu uma sobrancelha. Isso foi bastante fácil. Sim, fácil.

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A pancada na cabeça foi o que acordou desta vez. Não era como suas dores de cabeças normais que sempre começavam quando ele punha os pés na rua. Isso era diferente, embora familiar até certo ponto, algo que ele conseguiu com cinco doses de uísque, ele percebeu. Ele gemeu e se levantou da cama, tentando alcançar a pia do banheiro, se arrependendo de não ter comprado analgésicos e aspirinas.

O problema de passar seu tempo trancado no apartamento era não ter como diferenciar as horas e os dias. Cada vez que o sol surgia era sempre uma manhã e cada vez que não aparecia era sempre uma noite. Se era segunda feira ou domingo não fazia a menor diferença, e ele mal se preocupava em olhar o seu celular para ver a data, muito menos o mês. Ele sabia, porém, que aquele dia era uma quarta-feira porque era o dia em que Scott viria visita-lo.

Ao sair para a sala de estar, sentiu o corpo rígido de dolorido, mesmo tendo tido uma boa noite de sono, o que no seu caso era uma raridade. Ele se sentou no sofá, olhando para o telefone fixo na mesinha ao seu lado, uma luz vermelha piscando — seus amigos acabaram ligando para aquele telefone, já que não conseguiram contata-lo em seu celular que ele tinha abandonado em algum lugar de seu quarto desde que ele tinha se retirado para sua solidão, a bateria provavelmente já tendo acabado a aquele ponto.

Com um movimento, ele apertou o botão do telefone e a primeira mensagem de voz encheu a sala silenciosa.

A primeira mensagem começou com uma série de ruídos cacofônicos, seguidos por um toque de baixo e ruídos altos de batidas. Quem estava deixando uma mensagem do outro lado da linha provavelmente estava um lugar com música alta. Ele pensou em quem poderia ser, então fez uma careta e revirou os olhos quando a voz de Scott veio do alto-falante, rouca e arrastada. Uma mensagem bêbada, é claro. Por que Scott não podia ligar para outra pessoa que não fosse ele?

“Oi, Alex.” Disse Scott, não soando como um espertinho dessa vez. Por um momento, ele pensou que Scott provavelmente havia discado o número errado, mas ao ouvir seu nome sendo falado em voz alta, ele só pôde suspirar, pensando em deletar a mensagem, sabendo que não conteria nada significativo ou importando, mas então o rapaz do outro lado da linha falou novamente: “Estamos preocupados com você.”

Alex congelou. Por que Scott precisou ficar bêbado para dizer isso agora? Ele poderia dizer que estava preocupado com um Alex Webber perfeitamente bem em qualquer outro dia, um em que ele estivesse sóbrio, mas não, ele havia escolhido levantar esse assunto mesmo quando estava bêbado.

“Não vemos você há tempos. Você é assim, nós sabemos, você gosta de ficar sozinho e tals. Mas já fazem semanas, você não acha que é demais? Talvez eu esteja pensando demais niss—”

Alex gemeu, apertando o botão de deletar a mensagem enquanto Scott continuava falando coisas desconexas. Ele pôde ouvir a voz de Oliver ao fundo antes que a mensagem se fosse do seu telefone com um bipe agudo.

Ele suspirou, pensando que uma mensagem estúpida de Scott era tudo o que ele receberia antes que outra voz viesse do alto-falante.

“Ei, Alex? É o Oliver. Eu só quero saber se você chegou bem em casa.”

A julgar pelos sons ao fundo, ele tinha mandado aquela mensagem de dentro de um táxi ou já chegando em casa.

“Me ligue, ok?” ele continuou.

Alex pensou que seria o fim da mensagem, mas houve uma pequena pausa e o próprio Oliver não desligou o telefone. Ele esperou, sentindo como se o próprio Oliver estivesse pensando em dizer o que o incomodava.

“Pensando bem, eu sei que você não vai,” disse Oliver, seguido de uma pequena risada.

Alex abriu um sorriso, imaginando Oliver fazendo a mesma coisa.

“De qualquer forma, espero que esteja se cuidando. Vou tentar visitar você em breve. Se há algo que você queira comer, me diga, ou eu vou assumir que você vai gostar de frango.”

Não, ele não gostava de frango, e Oliver sabia disso melhor do que ninguém. Oliver o estava provocando para ver se Alex iria pegar o telefone e ligar para ele para lhe dar satisfação. Alex riu. Seu amigo certamente sabia como jogar com ele.

A mensagem terminou com um bip e Alex orou aos céus para que fosse a ultima, mas logo uma voz diferente falou pelos alto-falantes de repente. Desta vez, era de tom baixo e profundo, que não combinava nem um pouco com o dono daquela voz, que era Percy Fitzgerald.

“Alex! Eu esquecia minhas chaves e queria saber se você faria a gentiliza de busca-las para mim?” Ele disse, rindo ao telefone. “Você pode, sabe, se apressar? Porque eu meio que esqueci de alimentar o Gomez e ele vai ficar chateado comigo, então você pode se apressar?”

Aquele pirralho. E ele ainda tinha a cara de pau de pedir que Alex se apressasse. Ele deveria ter recusado a oferta da Sra. Fitzgerald de trocar as chaves do apartamento caso uma emergência acontecesse, o que ele pensou que seria apropriado caso se, de alguma forma, Percy se esquecesse de desligar o fogão ou algo assim. Isso não incluía a emergência estupida (que acontecia com frequência demais) de o pirralho estupido e imprudente da casa ao lado esquecer as chaves.

Alex, não disposto a tal estupidez, apertou o botão novamente e apagou a mensagem. Em todo caso, ele daria uma desculpa simples de estar ocupado e deixaria o garoto choramingar o quanto quisesse, tendo que ficar sentado esperando a mãe no saguão. Além disso, o garoto devia ter ligado para ele horas atrás e qualquer ajuda que Alex pudesse oferecer seria inútil a esse ponto. Isso não o impediu, porém, de desejar que o gato Gomez arranhasse o rosto de Percy.

Ele se levantou do sofá e pensou em voltar para a cama quando o telefone tocou mais uma vez, fazendo Alex gemer, já andando no meio do corredor em direção ao quarto.

“Nah, esqueça o que eu disse, Alex, acontece que mamãe chega em casa mais cedo. Desculpe incomoda-lo!” A voz de Percy brilhou novamente, soando muito como a luz do sol.

Ele odiava o sol.

Alex se deitou na cama novamente, olhando para o teto enquanto seus dedos batucavam em sua barriga. Ele deu uma olhada em seu celular esquecido na mesa de cabeceira, ao qual ele não tocava há semanas — estava meio feliz com essa decisão, sentindo-se em paz, sem notificações irritantes para incomodar o seu mundo. Ele pensou que se livrar do telefone fixo na sala fosse o próximo passo e isso parecia uma ótima ideia.

O pensamento de ouvir um telefone qualquer tocar o deixava doente.

Fiel às suas palavras, Oliver bateu a sua porta por volta das cinco da tarde, e Alex tratou de colocar um gorro e tentou esconder a cicatriz em sua testa debaixo de sua franja escura, antes de abrir a porta para seu amigo. Oliver havia trazido um pouco de carne para cozinhar, confirmando que a coisa do frango não havia passado de uma mera ameaça. A voz de Oliver preencheu o apartamento enquanto ele contava sobre o que tinha se passado na ultima noitada de seus amigos.

Logo Alex estava sentado na mesa de jantar com o estomago cheio, encarando um prato vazio enquanto Oliver lavava a louça. De repente, Oliver se virou para ele com aquele mesmo olhar preocupado que ele reservava exclusivamente para Alex.

“O que?” Alex perguntou, desconfortável.

Ele não gosta nem um pouco de quando Oliver olhava para ele daquele jeito.

“Sinceramente, Alex? Estamos muito preocupados com você.”

Alex zombou. Ele certamente não queria ter essa conversa agora. Ou nunca, na verdade.

“O que há para se preocupar? Eu estou bem.”

Isso era verdade. Alex estava bem. Perfeitamente bem.

Oliver parou com as costas contra a pia, sua mão agarrando o balcão da cozinha. Ele engoliu seco antes de voltar a falar, e Alex percebeu que seu amigo estava tão relutante quanto ele em trazer esse assunto à tona.

“Não, você não está. Claramente não.”

“Por que? Estou funcionando bem, não estou?”

“Ficar trancado nesse apartamento por dias não é funcionar direito.”

Alex cerrou os dentes, tentando evitar os olhos de Oliver. Por mais que odiasse aquele olhar, o sentimento que se instaurava dele era muito pior. Culpa. Uma pequena parte dele se sentia culpado de deixar seus amigos preocupados, mas uma parte maior se intrometia naquele pensamento e o chutava para fora, não deixando espaço para qualquer outra emoção.

“Você parou de ir para a faculdade. Os professores ainda não perceberam, mas em algum momento eles vão e vão reprovar você.”

Essa culpa se transformou rapidamente em aborrecimento ao ouvir essas palavras, e o aborrecimento o fez olhar para Oliver com um olhar penetrante e um sorriso condescendente estampado em seu rosto.

“Então é sobre isso, hein? Está preocupado comigo estudando? Eu posso faltas meio ano se eu quiser e ainda me formar alguma hora, então não se preocupe com isso, Oli. Sério.”

Oliver franziu os lábios, percebendo que havia trazido o assunto errado a tona. Se era com a faculdade que Oliver estava preocupado, ele deveria ter parado de se importar com Alex completamente. Oliver deu um passo a frente, puxou a cadeira da mesa e se sentou ali, parecendo uma mãe pronta para repreender o filho. Talvez fosse assim que deveria ser, mas os pais de Alex nunca fizeram tal coisa, porque o que ele tinha como pais eram praticamente duas pessoas estranhas que o deixavam de lado, apenas pagando as contas de seu apartamento no fim do mês.

“Não, não é isso, Alex. Você sabe o que eu quero dizer.” Disse Oliver, sendo extremamente paciente.

“Não, eu não sei, Oli.”

Ele não era exatamente conhecido por ser teimoso, mas enquanto ele estivesse bem, ele realmente não via razão alguma para Oliver e Scott continuarem se preocupando com ele como se ele fosse uma criança. Ele era um adulto de vinte e cinco anos, perfeitamente capaz de cuidar de si mesmo, porra. Mesmo quando era criança, seus pais o deixavam se virar sozinho. Ele estava acostumado a ficar sozinho e atenção indesejada como essa só tornava tudo mais desconfortável.

Oliver suspirou. “Estamos apenas preocupados, ok? Você continua dizendo que não há nada de errado, que você está bem, mas nós sabemos que você não está, quer você perceba ou não.”

Ele pensou sobre isso, absorvendo as palavras, especialmente a ultima parte. Quer ele perceba ou não. Ele poderia não estar bem e não perceber? Duvidava muito disso.

“Eu não sei se é um problema com seus pais ou outra coisa. Luka, eu e Scott estamos preocupados, você não sai desse apartamento e fica dizendo que—”

“Estou ocupado, Oli.”

Ele reciclou essa desculpa várias vezes, lembrando-se dela como a palma da mão. Isso e “estou bem” eram palavras com as quais ele havia se acostumado, as usando para evitar sair. Verdade seja dita, ele estava longe de estar ocupado, sem nenhuma tarefa a cumprir ou qualquer objetivo a alcançar. Ocupado era simplesmente uma desculpa complementar e padronizada para perguntas e servia muito bem para fechar a boca das pessoas. Ocupado era uma palavra mágica que fazia todo mundo entender qualquer situação.

“Você não está fazendo nada, Alex.”

A sensação voltou, aquela culpa estranha subindo por seu estomago. Oliver viu através dele e ele agora não conseguia encontrar nenhuma outra desculpa para dar. Seu amigo o levou ao limite e agora ele se sentia cansado e farto. Alex soltou um suspiro.

“Ok. Eu não consigo dormir. Feliz agora?”

Na verdade, ele não pensava nisso como um grande problema. Conseguia funcionar perfeitamente com apenas três horas de sono por dia. Qual era a diferença de fazer isso quando estudava para as provas da faculdade e fazer isso quando não tinha nada melhor para fazer a não ser sentar no sofá e olhar para a parede?

“Você não consegue dormir?” Oliver ergueu uma sobrancelha.

“Mais ou menos três horas por dias, mas vezes passo três noites sem dormir. Depende.”

Ouvir essas palavras aparentemente satisfez Oliver, porque o olhar acusador rapidamente se transformou em simpatia. Alex não estava mentindo, ele realmente estava sofrendo de insônia — de alguma forma, porém, ele sabia que esse não era seu problema real, ou pelo menos haviam questões mais importantes para se preocupar ao invés do fato de que ele não conseguia dormir. Ele não pretendia mencionar o apagão que teve, embora tivesse certeza absoluta de que aquilo tinha sido apenas efeito do álcool.

Mas, novamente, ele não tinha nenhum problema para começar.

“Você foi ao médico?”

“Não.”

Ele pensou em mentir inicialmente porque sabia que Oliver faria uma cena por isso. Ou pior, ele o faria prometer ir Alex era péssimo em recusar promessas. Então, novamente, Oliver viria com mais perguntas, seja para qual médico ele havia ido ou qual remédio ele havia receitado, então um simples não parecia ser a melhor resposta a ser dada no momento.

“Você deveria, Alex. Pode ser sério, e—”

“Acho que não é nada. Estou acostumado a dormir pouco, vai ficar tudo bem.”

Oliver fez uma careta. “Isso é sério, Alex.”

A parte de não dormir não era, na verdade.

Eles ficaram em uma competição de encarar, embora Alex não tivesse disposição para mais discussões. Ele só queria ficar sozinho.

“Eu vou comprar um remédio, vou cuidar disso.” Ele disse enfim, se conformando com a derrota.

Isso deixou Oliver feliz. Ele disse para Alex se cuidar melhor depois, quebrando a discussão. A conversa aparentemente o satisfez, pois ele não tocou em mais nada, limpou a cozinha e saiu logo em seguida. Ele disse algo como 'cuide-se' enquanto Alex fechava a porta, trancando-a. A conversa esgotou todo o seu corpo e ele se apoiou no sofá mais uma vez, suspirando. A culpa ainda estava lá.

Alex não era um mentiroso. Ele disse sobre tomar algum remédio, mas não disse nada sobre ir a um médico de verdade.

Além disso, não era a falta de sono que o assombrava. Também não era a dor de cabeça, pois ele só sentia isso sempre que pisava na rua. Foi simplesmente a sensação fugaz de nada que o consumia.

Ele acabou sentado em seu lugar favorito como sempre, na frente de sua televisão favorita em cima de seu sofá favorito, fazendo sua atividade favorita de nada favorito. Oliver foi para casa e a noite caiu rapidamente. Ele não sabia as horas e realmente não se importava em ver isso, pois a manhã viria mais tarde e nada mais teria qualquer significado significativo para ele.

Ele estava no meio de uma aposta, imaginando quantas noites sem dormir passaria sentado no sofá antes de conseguir dormir de novo, quando percebeu algo se movendo pelo canto dos olhos. Ficar preso por muito tempo em seu apartamento tinha um efeito estranho nele. Não que ele fosse medroso, pois esse era totalmente o papel de Luka a ser preenchido. Foi simplesmente a curiosidade que o levou a virar a cabeça, imaginando o que poderia ser que ele tinha visto pela última vez. Ele não acreditava em fantasmas e mesmo que houvesse um, ele duvidava que ele teria tal reação em relação a ele. Ainda assim, desta vez Alex virou a cabeça levemente, tentando olhar para o corredor escuro que levava ao outro quarto vazio que ele havia deixado desocupado.

Ele teve que admitir que às vezes pensava que estava vendo sombras, movendo-se por conta própria. Ele pensou que fosse nada mais do que a luz pregando uma peça em seus olhos. Outra coisa seria vozes, até que ele percebeu que provavelmente não ouvia a voz de outra pessoa há tanto tempo que começou a imaginar pessoas falando em sua cabeça. Sempre haveria uma explicação científica para todas essas pequenas coisas.

Mas então veio a percepção do que havia acontecido na boate e Alex estremeceu.

Não, foi o álcool, foi?

Algo o fez se levantar do sofá, olhando para o corredor escuro. Não havia ninguém lá, não é? Por que ele se importava em se levantar, caminhar em direção ao corredor, acender as luzes e checar, então? Mas foi exatamente o que ele fez, e ele realmente não conseguia entender o verdadeiro significado por trás de sua ação além da simples resposta de que estava curioso.

Seu apartamento era grande o suficiente para ter três cômodos diferentes. A suíte principal estava sendo usada como seu próprio quarto, que ele quase nunca usou nas últimas semanas. A outra era seu escritório e continha praticamente todas as suas coisas da faculdade e qualquer outra coisa inútil que ele tinha. O último era um quarto simples e vazio que foi deixado sem vigilância, estando lá apenas para uso de seus amigos que dormiam lá às vezes sem avisar durante o tempo em que Alex Webber não era um cadáver vivo como era agora.

Ele parou com a mão na maçaneta da porta, pensando se iria ou não abri-la. Por que ele estaria curioso sobre o que quer que estivesse atrás da porta? Era apenas mais um quarto. Ele se sentia sendo puxado para lá por forças inexplicáveis. Alex zombou, percebendo o quão boba sua ação era. Ele estava imaginando coisas. O que ele esperava? Ele abriria a porta e veria um cadáver caído em cima da cama? Ou talvez uma maldita mulher parada na frente da porta, gritando na cara dele? Ele sorriu levemente, finalmente tirando os dedos da maçaneta. A covardia de Luka era contagiosa, ao que parecia. Ele não tinha medo de nada. Ele era corajoso e se orgulhava de admitir isso. Fazer check-in em um quarto vazio era algo bobo da parte dele. Certamente não haveria nada esperando por ele atrás daquela porta e ele já sabia disso.

“Eu não sou um covarde,” ele disse para si mesmo, sorrindo.

Alex virou os calcanhares e foi nesse momento que seu telefone tocou. Ele gemeu baixinho, sabendo que seria Scott ou Oliver. Provavelmente Luka, ou até mesmo a Sra. Fitzgerald do apartamento do lado. Provavelmente Percy seria estúpido novamente. A ideia de atender o telefone e manter uma conversa o irritava, então ele simplesmente recostou-se no sofá e deixou o telefone tocar sem parar, sem a intenção de atender.

O toque terminou não muito depois de alguns segundos e um bipe veio logo depois, sinalizando que a pessoa iria deixar uma mensagem de voz.

Ele apenas ficou lá, esperando a voz do outro lado da linha falar, imaginando se seria um de seus amigos estúpidos ou Percy. Provavelmente poderia até mesmo seus outros parentes irritantes, embora ainda não fosse o mês para eles deixarem uma ligação desnecessária. Houve um ruído estático do outro lado da linha. Quem quer que fosse, ele ou ela provavelmente estava tendo uma recepção ruim. A mensagem terminaria ali mesmo, pensou, quando alguns segundos se passaram sem que nenhuma voz fosse ouvida. Ele percebeu que não deveria ser exagerado com uma mera mensagem também. A estática continuou e antes que ele percebesse que estava errado, porque podia ouvir claramente então, uma única voz, sussurrando aquela única palavra pelo telefone que ecoou em seu próprio apartamento. Seus olhos se arregalaram e ele estremeceu. Ele estava imaginando isso, não estava? Isso não podia ser verdade. Ele não estava ouvindo uma voz em seu próprio receptor, dizendo que ele era um-,

"Assassino."

Alex pegou o telefone naquele momento, levando-o ao ouvido e gritou um “alô”. O que o saudou foi o bipe monótono e constante do outro lado da linha, avisando que quem ligou já havia desligado o telefone.

Ele bateu o telefone novamente, olhando para ele com descrença escrita claramente em seus olhos. Seu sangue gelou. Isso era algum tipo de piada cruel? Ou talvez ele tenha comido algo ruim que o deixou com essa paranoia? O que isso significava? Ele não era um assassino. Alex Webber não era um assassino. Ele era—

O telefone tocou novamente e Alex assistiu horrorizado, seu dedo congelado. Era a mesma pessoa? Quem poderia ser? Ele deveria pegá-lo, não deveria? Ele engoliu em seco. Não, ele disse para si mesmo antes. Ele não era um covarde. Seu coração estava batendo forte, o baque lento começou a voltar em seus ouvidos novamente. Com um aperto rápido, ele pegou o telefone e o trouxe mais uma vez ao ouvido.

"Quem é?”

“Alex! Graças a Deus você atendeu. Achei que você estivesse dormindo. Eu meio que esqueci minhas chaves de novo.”

Naquele momento, Alex não sabia se deveria suspirar de alívio ou ficar chateado. Não era ninguém além de Percy, o pirralho estúpido do apartamento ao lado. Ele caiu no sofá imediatamente e soltou um grande suspiro, o telefone ainda descansando entre o ombro e a orelha. Ele esfregou os olhos, tentando tirar aquela ansiedade de seu sistema.

“Você poderia, por favor, por favor, me trazer as chaves reservas? Não posso entrar no apartamento sem elas. Quero dizer, posso subir de elevador até o meu nível, o porteiro certamente memorizou meu rosto até esse ponto, mas realmente não estou com vontade de ficar agachado na frente da minha porta ou bater na sua para descobrir que você provavelmente não está em casa.”

Não era nada além de Percy. Deus, por que ele estava tão assustado por causa de um telefonema?

“Estou no saguão agora, Alex, como você sabe, já que é muito mais confortável esperar aqui no sofá e são quase 11 horas, ainda tenho lição de casa para fazer. Meus pais estão fora até a próxima semana e eu meio que— ei Alex, você está aí?”

Alex xingou baixinho. Ele nem percebeu que suas mãos estavam. Por mais que ele odiasse o pirralho, o garoto deu a ele algum alívio agora com sua série de palavras desnecessárias.

"Sim, sim, eu ouvi você", disse ele, com a voz trêmula.

Percy pareceu notar isso porque sua voz se tornou preocupada e ele perguntou: "Alex, você está bem?"

Alguém que ele não conhecia apenas ligou para ele, repetindo a mesma palavra que ouvira na boate. Alguém acabou de deixar uma mensagem para ele em seu correio de voz, dizendo que ele era um assassino, a mesma palavra que ele ouviu antes de apagar. Tudo sobre isso era impossível, mas o correio de voz não poderia estar errado, poderia? Então ele estava bem?

Ele engoliu em seco antes de responder. Sua voz rouca e seus dedos ainda tremiam levemente, mas as palavras ainda saíam de seus lábios como sempre.

"Não. Estou bem. Estou perfeitamente bem.”

A dor de cabeça veio assim que ele pisou fora de seu apartamento. Começou instantaneamente e Alex gemeu ao longo da viagem de elevador, batendo o pé impacientemente no chão. Ele odiava andar de elevador. Ele odiava como parecia tão sufocante. Ele nunca teve problemas com um espaço fechado antes, mas achou o elevador angustiante.

Quando ele chegou ao saguão, Percy veio saltitando em sua direção, seu rosto cheio de felicidade, como uma criança de três anos faria ao ser apanhada por seus pais no jardim de infância. Só que desta vez, Percy Fitzgerald era um adolescente em seu último ano do ensino médio. Isso era o que sua certidão de nascimento e boletim escolar diziam sobre ele, embora Alex acreditasse que ele ainda parecia demais com uma criança. Eles voltaram para o elevador e Percy quicou, seguindo-o alegremente. A volta parecia dez vezes mais lenta do que a descida. A dor de cabeça também não ajudava, pois havia se intensificado de novo exatamente como quando ele saiu com seus amigos. Ele alcançou sua própria têmpora, massageando-a lentamente.

“Você parece uma merda, Alex.” Percy disse de repente.

Ele gemeu. Na verdade, ele não planejava iniciar uma conversa, esperando que o pirralho mantivesse a boca fechada. Claro que não. Por que Alex pensaria que Percy dominava a arte da serenidade?

"Você também." Ele respondeu.

O garoto zombou, aparentemente gostando da resposta que ele havia dado.

“Mas realmente, você parece pálido, Alex. Quero dizer, você sempre foi pálido e magro como um cadáver, mas agora você realmente parece terrível.” Ele disse, dando um leve toque de simpatia sob o insulto.

Todos os seus amigos tinham que se preocupar com ele e agora seu vizinho estúpido também? Que mal Alex fez a este mundo, realmente? Não era como se ele segurasse uma placa com luzes de néon no topo de sua cabeça que dizia: 'ei, olhe para mim, preciso de ajuda e não estou bem'.

“Cale a boca, pirralho. Só não se esqueça de trazer suas chaves da próxima vez, certo? Estou cansado de ver seu rosto.” Ele devolveu, tentando soar o mais maldoso que pôde.

De alguma forma, Percy apenas riu e estranhamente Alex se lembrou de Xavier. Xavier era tão pirralho quanto Percy, embora fosse mais velho. Engraçado. Aqui ele estava de repente pensando se Xavier realmente apareceria ou não.

“Nah, você ainda virá atrás de mim na próxima vez que eu esquecer as chaves de novo.”

O que havia com esses caras, realmente? Por que eles se agarravam a ele como se ele fosse algum tipo de mãe ou irmão mais velho?

Ou talvez tenha sido ele quem se agarrou a eles sem que ele percebesse.

“Não fique muito convencido, seu merdinha.”