Insensível.
17 Capítulo 17.
Notas iniciais
Com Akashi de volta, Rakuzan estava perfeitamente em sintonia.
Os passes do capitão revelavam exatamente o que os outros jogadores precisavam para executar jogadas de precisão impecável. Isso era tudo o que Seirin não queria nos minutos finais.
A competição ficou intensa novamente, mas eles não deixaram de marcar pontos da mesma forma.
— Akashi não parece incrivelmente normal? — Wakamatsu indagou.
— Normal? De jeito nenhum. — Imayoshi respondeu. — Como um armador, ele é um monstro, na minha opinião. Passes em alta velocidade mesmo estando parado, habilidade de driblar sem olhar para a bola, visão completa da quadra. À primeira vista, parece que Akashi está apenas distribuindo assistências, mas vai muito além disso. Os companheiros de time jogam melhor quando recebem passes dele. — Ele suspirou e concluiu seu raciocínio. — Passes perfeitos criam um ritmo perfeito. Além disso, com sua habilidade, ele consegue executar lances que deveriam ser considerados impossíveis facilmente. Ainda acha que ele é “normal”?
— A Rakuzan está bem mais poderosa no geral. — Hikari comentou, preocupada.
E isso não era o maior desafio que Seirin teria que enfrentar: com todos aqueles movimentos, Seijuro retornara ao Astral.
— Estamos só começando! — Kagami disse, avaliando a situação.
— Relaxa, esse jogo não vai terminar do jeito que você teme. — Akashi rebateu. — Eu só retornei a um estágio anterior, então não mudarei drasticamente. Porém, não posso garantir o mesmo para os outros quatro.
Parecia surreal: todos os jogadores de Rakuzan presentes na disputa estavam no Astral.
— Não pode ser! Eu pensei que apenas a Geração dos Milagres e o Kagami podiam acessar o Astral! — Tsuchida estava indignado com a situação.
— Isso não é o Astral completo. — Riko explicou. — Akashi ampliou as habilidades deles para um nível próximo do Astral.
— Pode ser considerado um falso Astral, então? — Indagou Hikari.
— Basicamente, sim. No entanto, no pouco tempo que resta, isso não é uma boa coisa para nós. — A técnica expressou com aflição. — Além disso, não podemos mais pedir prorrogação, então…
— A decisão será tomada no final do jogo. — Concluiu Hikari, sentindo a ansiedade consumi-la aos poucos.
* * * * * *
Mibuchi, Nebuya, Hayama e Mayuzumi estavam em seu auge. Era muito simples para eles atacar e defender, mantendo o desempenho impecável da Rakuzan.
Por outro lado, a Seirin estava chegando ao seu limite. Kagami havia se exaurido de sua energia espiritual, assim como todos os outros. As forças estavam diminuindo gradualmente. Mesmo chegando à final, não tinha forças para vencer a Rakuzan: a diferença era grande demais. Parecia que tudo estava chegando ao fim.
— Você consegue, Kuroko! — Alguém gritou das arquibancadas. — Não desista!
Ogiwara Shigehiro, aquele por quem Tetsuya derramara lágrimas durante o tricampeonato, seu melhor amigo, estava presente. Quando mostrou que não havia desistido do basquete, mesmo após o evento traumático que havia enfrentado, o jovem de cabelos azul-claros começou a lacrimar.
Havia razões para continuar lutando, e ele não poderia simplesmente desistir.
— Tetsu, Kagami, vocês nos venceram. — Daiki bradou, chamando a atenção dos jogadores da Seirin enquanto se levantava de onde estava sentado. — Se não derrotarem a Rakuzan, eu matarei vocês!
— Apenas para saberem, eu também estarei lá! — Ryota não queria ficar de fora, então imitou o gesto. — Vamos lá, Seirin!
— Vençam o Akashi, vençam a Rakuzan! — Midorima clamou, mesmo que não estivesse totalmente de acordo com a ideia.
— Ei, Muk-kun, você não vai dizer nada? — Perguntou Momoi.
— Ah? Não vou. — Atsushi respondeu, ocupado demais comendo seus salgadinhos.
No entanto, todos apoiavam a Seirin. Amigos, familiares, até mesmo adversários reconheciam a habilidade da equipe. Não havia ninguém que quisesse vê-los perdendo.
Hikari também queria mostrar seu apoio.
Quando chegou àquela cidade, seu único objetivo era derrotar Akashi e ajudar qualquer time que o enfrentasse. Ver a derrota dele, contribuindo para isso, seria o suficiente. A sensação de vazio que antes era apenas dela deveria ser preenchida.
Porém, agora ela não queria mais isso. Ela ajudou aquelas pessoas porque se sentia acolhida. Fez novas amizades que nunca a abandonariam e a entendiam desde o início. Huryome estaria ao lado da Seirin, independentemente do resultado da partida.
Ela se levantou do banco de reservas.
Olhou fixamente para Seijuro por um momento, mas depois admirou seus amigos.
— Tetsuya, Taiga, Seirin! — Ela sorriu, enquanto seus olhos brilhavam com determinação. — Lutem! Estamos todos com vocês!
* * * * * *
Houve uma mudança perceptível na equipe vestida de preto. A determinação deles não havia desaparecido por completo e estava se intensificando gradualmente durante aquela parte do jogo. O time coordenava os passes com as jogadas de Kagami, e a pressão que o Rakuzan estava enfrentando era evidente.
Mas como isso aconteceu tão repentinamente? Foi então que tudo se revelou. Taiga voltou para o campo, mas não da forma que todos estavam acostumados: ele estava no Astral, porém no nível da segunda porta, após ter mergulhado completamente. O talentoso jogador descobriu a chave para abri-la, inspirado pela determinação de Tetsuya em lutar pela equipe.
O verdadeiro alicerce do Astral não residia na solidão do jogo, mas sim na união de todos como um só, formando um time coeso. A chama da esperança ainda ardia quando Izuki, Kiyoshi, Hyuga e Kuroko entrelaçavam passes com apenas um olhar, em perfeita sintonia com Kagami. Os adversários tentaram em vão interceptá-los.
A contagem apontava 103 para Rakuzan e 98 para Seirin. Faltavam apenas quarenta segundos, e a diferença aumentava para sete pontos.
— Defesa! Concentração, pessoal! Se os segurarmos, venceremos! — Bradou Seijuro.
— Sim! — Responderam os jogadores vestidos de branco.
Seirin estava sendo duramente pressionada, pois o oponente entendia que precisava pontuar para sair vitorioso.
— Menos de 30 segundos… — Analisou Huryome, preocupada.
— Por favor… — Imploravam os demais colegas.
Em um instante crucial, Kuroko encontrou uma abertura. Kagami recebeu a bola, driblou Mayuzumi e Hayama e acertou um arremesso de três pontos.
Izuki destacava-se pela tranquilidade em meio à agitação dos colegas durante o jogo. Talvez estivesse elaborando uma estratégia para alcançar o sucesso, pois conseguiu roubar a bola de um passe errado entre Reo e Eikichi. Com o tempo se esgotando, precisavam marcar outro arremesso de três pontos para se aproximarem da virada.
Ao passar a bola para Junpei, depositaram total confiança no capitão. Hyuga demonstrou sua perspicácia ao simular um movimento, enganando a marcação de Mibuchi Reo, e converteu a cesta ao mesmo tempo que o juiz assinalou a falta cometida pelo adversário.
Quatro pontos adicionados para a Seirin.
— Isso! — Gritaram os torcedores da escola que vestia preto.
— Você é inacreditável, Junpei… — Refletiu Riko, orgulhosa.
* * * * * *
O lance livre aconteceria após a falta da Rakuzan. Os segundos finais definiriam o jogo por meio de um rebote, caso não fosse cesta. Com a bola batendo no aro, o rebote se tornava a última esperança.
Kiyoshi Teppei: aquele jogo marcante, seu último com a Seirin. Ele não desistiria, lutaria até o fim pela bola. Após uma disputa acirrada com Nebuya, saiu vitorioso. Os dois segundos finais se arrastavam na quadra, deixando os membros da Rakuzan sem saber o que esperar a seguir. Teppei passaria a bola ou tentar marcar?
No entanto, a resposta logo se revelou: Kuroko entrou em cena para jogar e vencer. Ao receber a bola, ele fingiu um arremesso, fazendo Akashi tentar impedi-lo.
— Acabou, Kuroko! — Gritou o capitão, determinado.
— Não, ainda não. — Respondeu Tetsuya. — Eu sou uma sombra.
Kagami se aproximou depressa, mesmo se localizando muito atrás do esperado. Tão logo começou a dar aqueles passos no ar e a garota soube.
[ Dois dias atrás ]
— Continua cometendo erros… — Suspirou Hikari ao presenciar a vigésima queda do maior.
O ruivo estava estendido no chão, furioso consigo mesmo.
— Que droga! Não consigo movimentar as pernas no ar. — Exclamou.
— Não se trata apenas de um salto de longa distância… — Explicou Huryome. — Você sabe pular alto, eu sei, mas não é apenas isso. Se um dia precisar chegar rapidamente à cesta estando distante, precisará ganhar impulso no momento do movimento. Além de confiar plenamente em Tetsuya quando ele lança a bola para cima, também precisará confiar em suas próprias habilidades. Se conseguir fazer isso, a ponte aérea melhorará consideravelmente.
— Eu confio… — Taiga se levantou.
— Kagami, por favor, não cometa erros desta vez. Estou ficando cansado de lançar. — Afirmou o garoto de cabelos azul-claros.
— Não é tão simples assim! — Retrucou.
— Kagami, vá até a outra extremidade da quadra. Enquanto não aprender, terá que ir o mais longe possível por enquanto. — Disse a azulada.
— O quê!? Se eu cair de novo o tombo pior!
— Encare isso como uma motivação. — Ela sorriu de forma provocativa.
— Ei! — Respondeu Kagami, impacientemente.
— Pare de reclamar! Vá até lá, salte e certifique-se de movimentar bem essas pernas. Você precisa de impulso suficiente para manter tempo, força e altura. Se simplesmente saltar de qualquer jeito, a gravidade irá te puxar mais rápido. Além disso, todos aqueles hambúrgueres que comeu devem estar pesando agora, tornando as coisas mais difíceis.
— O que você quis dizer com isso? — O craque a fitou. — Não é como se um hambúrguer fizesse eu ganhar peso extra!
— Você comeu uns quinze! — Retrucou Hikari.
— E você está me controlando, é isso?
— Apenas salte e mexa essas pernas!
— Eu gostaria de um milk-shake de baunilha agora… — Suspirou o mais baixo para o número dois, o mascote da equipe que possuía seus mesmos olhos.
[ Tempo atual ]
— Taiga… — Murmurou Hikari enquanto observava o salto. — Você conseguiu, afinal. — Ela sorriu, impressionada.
Chegou ao fim o tempo da partida. Kagami havia enterrado e a cesta valeu.
A Seirin conseguiu triunfar, vencendo a Rakuzan.
* * * * * *
A sensação da derrota era intensa naquele momento. Seijuro estava experimentando pela primeira vez algo tão doloroso que mal podia suportar.
— Perdi. O fracasso é uma sensação terrível. — Refletiu, permitindo que as lágrimas escorressem por seu rosto. — É difícil explicar a dor que sinto no peito e não sei se consigo manter a calma até o final, mas… É por isso que estou feliz por jogar basquete.
Após aceitar a derrota, o capitão da Rakuzan se aproximou de Kuroko e seus amigos. Estendendo a mão, finalmente disse:
— Você, Kuroko. — Avaliou suas palavras, em seguida corrigindo-as. — Não, foi o seu time que venceu. Aceitem os meus parabéns sinceros. E estejam preparados: na próxima vez, seremos nós os vencedores. — Sorriu.
— Respondeu o rapaz de cabelos azul-claros. — Vamos competir novamente, muitas e muitas vezes. — Estendeu a mão, cumprimentando Seijuro.
Enquanto todos se reuniam para comemorar, Hikari observava do banco. Poderia ter ido embora, deixando apenas um adeus, pois já havia alcançado seus objetivos. No entanto, ao olhar para aquele time, ela sorria sinceramente e não queria deixá-los.
— Você finalmente amadureceu. — Disse Midorima, observando-a das arquibancadas.
— O que você está dizendo, Shin? — Perguntou o amigo ao seu lado.
— Nada, Takao.
Enquanto observava a atmosfera festiva, Huryome fixou seu olhar em Akashi, ao lado de sua equipe. Eles estavam descansando no banco de reservas e conversando sobre a intensa disputa que ocorreu naquele lugar.
O capitão parecia abatido: havia derramado lágrimas.
Por outro lado, ela reprimia a vontade de se dirigir até lá e expressar tudo o que estava guardado dentro de si. No entanto, sabia que não era o momento apropriado. Ainda não reunira coragem suficiente para encarar aqueles olhos gentis que há tanto tempo ansiava ver novamente.
Akashi estava diferente e precisava lidar com algo que teria que aprender a suportar.
Distraída em seus próprios pensamentos, ela não percebeu o momento em que Seijuro a encarou da mesma forma: os olhares dos dois se cruzaram pela segunda vez desde o seu retorno.
Provavelmente aquele gesto simbolizava a vontade de expressar palavras retidas na garganta, esquecidas ou simplesmente dissipadas ao longo do tempo.
“Senti sua falta” “Eu queria muito te ver de novo”
No entanto, nenhum dos dois mencionou se aproximar. Sentados em bancos opostos, contemplavam a barreira erguida na última conversa que tiveram, durante os anos no ensino fundamental, tão sólida que não poderia ser quebrada naquele momento.
— Hikari! — Chamou Kuroko, se dirigindo à garota no banco. — Venha!
— O quê…
— Por que está aí sozinha? — Questionou Kagami. — Você também fez parte disso.
Quando estenderam a mão para ela, enquanto a equipe Seirin a aguardava, seus olhos azuis quase se encheram de lágrimas mais uma vez.
Contendo-se, apenas sorriu: um sorriso tão genuíno que poderia iluminar qualquer escuridão. Aproximou-se deles para celebrar a vitória de seu time favorito, enfim.
* * * * * *
O dia chegou ao fim rapidamente. O ar gelado encontrava de frente aqueles rostos radiantes demais pela conquista, enquanto a noite vinha encobrindo o último resquício laranja de um pôr do sol encantador.
— Vamos, Furi! Tire uma foto minha segurando a taça! Quero colocar de plano de fundo do celular. — Exclamou Koganei, cheio de entusiasmo. — Hyuga, me passe essa belezura!
— Desde que você não a deixe cair. — Respondeu o capitão, relutando um pouco antes de soltar o prêmio.
—Deixe-os se divertirem. — Disse Kiyoshi. — Acredito que já são responsáveis…
— Aquilo em cima do arbusto é o troféu? — Perguntou Hikari, observando a situação.
— O QUÊ! — Gritou Junpei, visivelmente furioso e desesperado.
— F-Foi sem querer! Não quebrou nada, olha! — Os amigos mostraram o troféu, coberto de folhas espalhadas por toda a extensão.
— Pelo amor de Deus, Hyuga! Como você permite que eles peguem o troféu assim? — Reclamou Riko. — Será que terei que intervir!?
— Piedade, por favor, técnica! — Choraram juntos.
— Estou com fome. — Disse Kagami. — Que tal comermos em algum lugar para encerrar as comemorações? Maji Burger?
— Excelente ideia. — Concordou Izuki.
— Ótimo, então vamos indo! — Junpei arrastava Furihata e Koganei pelos ouvidos.
— Ah…
— O que foi, Hikari? — Questionou Kuroko, olhando para ela.
— Esqueci minha jaqueta lá dentro. — Suspirou, voltando ao local. — Podem ir, eu alcanço vocês no caminho!
— E conseguirá? Sabe onde é o Maji Burger? — Questionou um deles.
— Bem, contanto que Kagami não desenhe um mapa, posso perguntar a alguém depois…
— Já disse que não tem mais graça! — Gritou Kagami na frente, ofendido.
Huryome riu e em seguida desapareceu pelos corredores do local.
* * * * * *
Algumas pessoas ainda comentavam lances ou falavam sobre seus jogadores favoritos. O entusiasmo de ter assistido a uma partida tão esplêndida pairava no ar.
— No andar de cima?
— Isso mesmo. As coisas esquecidas estão sendo reunidas na parte superior. Vá lá e diga que perdeu algo, então vão deixá-la procurar. — Explicou o funcionário responsável pela limpeza.
— Entendi. Tudo bem, obrigada! — Agradeceu Hikari e seguiu em direção à parte superior. Ao chegar lá, deparou-se com uma pilha de objetos amontoados em cima de uma mesa. — Será que as pessoas esquecem tantas coisas assim?
Passaram-se pelo menos dez minutos ali, até que finalmente conseguiu encontrá-la.
— Incrível, jamais pensei que seria tão difícil encontrar uma simples jaqueta… Mandarei uma mensagem para a Riko avisando que estou indo. — Disse enquanto pegava o celular na bolsa, ouvindo murmúrios vindos do corredor abaixo.
— Da próxima vez, vamos ganhar! — Exclamou Nebuya, soltando um arroto alto.
— Será que era necessário fazer isso aqui? — Questionou Mibuchi, indignado.
— Fiquei impressionado com a quantidade que ele comeu. — Comentou Akashi, um pouco incomodado com o arroto do amigo.
— Ah, isso não foi nada! Na próxima vez que jogarmos contra a Seirin, vou comer quilos a mais de comida. — Ele respondeu, cheio de orgulho.
— Desagradável… — Reo o encarou.
A garota que estava imóvel no andar de cima observou a cena.
Optou por descer pela escada seguinte, notando que os companheiros de equipe estavam se dando bem com Akashi. Para eles, a mudança deveria ser uma surpresa, então ela apenas sorriu comovida e seguiu seu trajeto.
— Hikari.
Ouviu seu nome e parou abruptamente. Seria apenas imaginação ou…
Ao olhar novamente, viu o capitão parado, olhando diretamente para ela. Sem dúvida, não era fruto de sua imaginação.
— É aquela garota de antes… — Kotaro sussurrou para Mibuchi. — Quem será?
— Não sei, mas parece que eles têm algo a resolver. Vamos? — Mibuchi respondeu, olhando para os outros.
— Akashi, nos encontre depois. — Eikichi falou enquanto saíam.
— Até breve.
Huryome acompanhou os Reis sem Coroa com os seus olhos azuis e, em seguida, fixou seu olhar nos olhos rosados.
— Caso estiver disposta, podemos conversar? — Ele perguntou com um tom ansioso em sua voz.
Ela demorou para responder, mas sabia que aquela conversa era inevitável.
— Sim. — A garota proferiu.
Ambos se encararam em silêncio, sem saber por onde começar.
O celular dela começou a vibrar em sua mão: Aida Riko ligava, claramente preocupada.
— Akas-
— Eu nunca te agradeci adequadamente pelo que fez naquela época.
Ela ficou em silêncio.
— Sei que em uma de nossas últimas conversas, eu disse que você não era mais necessária, o que não era verdade. — Ele fez uma pausa, parecendo escolher cuidadosamente suas palavras. — Você sempre foi essencial, não só pelo que fazia, mas por manter a equipe motivada e unida também.
— Fui apenas uma peça. — Hikari ainda conseguia sentir isso sob a pele. — Se cumpri bem o meu papel, então não há necessidade de agradecimentos.
— Você superou as minhas expectativas. Tanto que, no fim das contas, você acabou me derrotando.
— A Seirin é um time incrível, eu mal fiz nada. Eles lutaram com toda a determinação que tinham e defenderam aquilo em que acreditavam.
— Não seja tão modesta. Vi suas habilidades no jogo deles, especialmente quando enfrentei o Kagami. A sua intenção não era essa? Me vencer?
— A princípio, era. — A azulada respondeu após pensar um pouco. — Eu tinha a esperança de que a vitória me trouxesse algum alívio após tudo o que aconteceu. Mas, minha concepção mudou ao conhecê-los. Queria lutar junto deles, até o fim.
— Entendo.
— Se isso era tudo, então… — Ela começou a sair.
— Hika, espere, por favor.
— Não faça isso. — Ela retrucou imediatamente, lutando para conter as lágrimas. Virou-se rapidamente para que ele não notasse. — Não me chame assim. Você age como se tivéssemos intimidade mesmo depois de tudo o que você fez.
— Desculpe. — Ele evitou subir as escadas. Tinha consciência de que não era o momento adequado para se aproximar. — Não vou tentar culpar a outra personalidade nem pedir para esquecer o passado. Sou eu quem está presente exclusivamente em suas memórias mais dolorosas, então, sou o único responsável por tudo isso.
— Mais… Dolorosas? — Huryome pensou, descrente. Levou as mãos ao rosto para secar as lágrimas que teimavam em aparecer. — Se fossem apenas as memórias mais dolorosas, eu tentaria esquecê-las rapidamente. No entanto, são as lembranças daqueles dias de treinamento, dos sorrisos, dos olhares e dos momentos únicos que mais ocupam meus pensamentos. E absolutamente você é o responsável por isso.
— Hikari, não posso implorar por perdão, pois deixei uma impressão tão ruim em sua vida. Seria como pedir para esquecer, o que não acontecerá rapidamente e seria injusto com você. — Ele relembrou as últimas situações que viveram. — Abandonei muitas pessoas para evitar ser abandonado, mas acabei ficando solitário de qualquer maneira. Não sei se esperava um pedido de perdão ou desculpas, mas infelizmente não consigo te oferecer isso.
Ela compreendia a situação. Desejava que ele reconhecesse a culpa, mas agora que aconteceu, parece algo distante. Não obteve o que queria, afinal. Percebeu que o vencer não era a solução para preencher o vazio em seu peito, muito menos um pedido de perdão.
Talvez o tempo pudesse curar, mas se não resolveu até agora, então…
A garota de cabelos azul-marinho sabia o que poderia cicatrizar aquela ferida, mas se recusava a admitir: era apenas o fim.
Talvez a história deles estivesse chegando ao final naquele instante. Uma última conversa, apenas para acalmar os ânimos, antes de seguirem caminhos distintos. Era preciso encerrar aquele ciclo e romper os laços com Seijuro Akashi.
— Akashi. — chamou, virando-se para encarar os olhos gentis que um dia tanto adorara. — Acho que é isso. Sei que talvez não possa me pedir desculpas, e sinceramente, não sei se as aceitaria agora. Mas, já que voltou depois de tanto tempo, poderia fazer algo por mim?
O capitão da Rakuzan sentiu um nó na garganta.
— Sim.
— Então, por favor, pela última vez… Pode me olhar e sorrir novamente?
Desde que Hikari afirmara que tudo acabaria ali, ele não teve coragem de encará-la. Com aquele pedido, agora era ele quem se calava. E, assim, ela compreendeu que não seria possível.
— Como ousa fazer um pedido desses… — Ele começou, atraindo a atenção dela. — Justo quando está se despedindo de mim?
— Desculpe. — Huryome sorriu, apesar de não ter seu pedido atendido. — Eu gostaria de ter sentido algo outra vez. — Por um instante, lembrou-se dos velhos tempos. — Mas está tudo bem. Despedidas raramente trazem motivos para sorrir, não é verdade? — Ao descer as escadas, ela suspirou e optou por aquele caminho. Ao passar por ele, apenas baixou a cabeça. — Adeus, Seijuro.
Dessa vez, a despedida veio dela, e talvez, era a forma de retribuir na mesma moeda. Contudo, aquilo não doía apenas nele.
Assim, ela considerou estarem quites.
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