Insensível.
16 Capítulo 16.
A solicitação de pausa da Escola Seirin foi atendida.
Depois de Akashi executar movimentos impressionantes, ultrapassando suas próprias habilidades, ninguém poderia pará-lo naquele momento. Não era à toa que se destacava, pois naquele estado, podia jogar sozinho, prescindindo do time completo.
No entanto, Kagami não se rendeu.
— Deixem ele comigo. — Garantiu para os amigos, que prontamente concordaram.
— Kagami, fará isso sozinho? — Questionou Furihata, surpreso tanto com o craque quanto com os demais que concordaram.
— Por que todos concordaram tão facilmente? — Indagou Fukuda
— E qual é o problema com isso? — Interrogou Hyuga. — Sempre foi assim que jogamos, especialmente contra a Geração dos Milagres, onde precisamos lidar com esse tipo de situação. Em algum momento, confiamos no nosso craque. — Afirmou confiante. — Se não tivéssemos um, estaríamos em maus lençóis, mas temos o Kagami, o que é suficiente. — Sorriu, depositando sua confiança em Taiga através de um toque “amigável” em seu braço.
Os demais integrantes da equipe Seirin imitaram o movimento. Todos, inclusive aqueles no banco apenas observando.
— Você sabe o que isso quer dizer, Kagami. — Riko afirmou, repetindo o gesto. — Essa batalha vai determinar quem vencerá ou perderá. Vença por nós!
Outra mão também imitou o gesto e, quando ele notou, viu que era a de Hikari.
— Mesmo passando por esses dois dias tumultuados, onde tive que suportar suas queixas, sei que valeu a pena. Vá em frente, Kagami! — Falou a garota de cabelo azul-escuro.
E então, o jogo recomeçou.
* * * * * *
— Aomine, tenho pensado. — Imayoshi começou após uma longa reflexão. — Você disse algo antes: “Ele está mais profundo no Astral”. O que isso realmente significa?
— Ah, — Suspirou Daiki. — É uma metáfora. Ao adentrar no Astral, a pessoa se depara com uma imensa porta que conduz a um oceano interior. Quanto mais concentração, mais profundamente a pessoa mergulha. Se mergulhar o suficiente, chegará no fundo. É nesse ponto que ela se encontra plenamente imersa no Astral, o que eleva ao máximo seu desempenho. Contudo, existe uma porta ainda maior, guardada por uma entidade sem rosto.
— E se alguém abrir essa porta, o que acontece? — Indagou Shoichi, demonstrando curiosidade.
O talentoso jogador da Touou vislumbrou-se desconfortável, apesar de tentar dissimular.
— Quem sabe? Nunca a abri. — Declarou. Ao ver Taiga assumir sua posição na quadra e enfrentar diretamente Akashi, ele concluiu: — Mas sei que por trás dessa porta existe um Astral de proporções ainda maiores. Kagami só terá chance de vencer se abrir a segunda porta.
Seijuro ainda estava causando problemas para a Seirin, mesmo alternando entre defesa e ataque. No Astral, ele ganhou um campo de visão e ação consideravelmente maior. Em um roubo de bola, o número quatro obteve uma vantagem. Kagami tentou impedir, mas acabou no chão. O quebra-tornozelo era irritante.
— É hilária a forma à qual você luta. — Ele zombou enquanto arremessava. — Fique aí no chão. — Acrescentou pontuando para Rakuzan
No entanto, Akashi ainda estava distante de sua equipe. Um estranho jogando só para ele.
— Se- — Reo tentou chamá-lo.
— Você se ocupe dos arremessos de três pontos durante a defesa. — Seijuro respondeu friamente. — Acredito que consegue lidar com isso. Mas, se não conseguir, farei eu mesmo, pois não espero nada de vocês.
A Rakuzan não era mais tão unida como antes.
* * * * * *
— Nada adianta. — Ponderou Kagami após mais uma jogada fracassada, incapaz de superar a defesa forte de Akashi e pontuar. — No meu estado atual, não consigo melhorar meu jogo. Alcancei o fundo do meu potencial, mas não consigo abrir a nova porta que vislumbro. Preciso afastar o obstáculo que se encontra diante dela. Não será aberta se eu apenas esperar! O que devo fazer?
Um toque em seu ombro chamou sua atenção e lá estava Kuroko, encarando-o.
— Kagami, por que não desiste? — Pronunciou, deixando todos ao redor, incluindo Kagami, surpresos.
— Por que diz isso, Kuroko!?
— Não estou falando para desistir da competição. — Disse o garoto de cabelos azul-claros, sorrindo. — Desista de lutar sozinho.
Tetsuya estava certo, embora Taiga relutasse em admitir tão rapidamente.
— Eu disse que conto com você, mas talvez seja uma carga pesada demais. Se necessário, permita-me ajudar a carregar esse fardo. — Concluiu Kuroko.
— Consigo me virar sozinho! — Retrucou o mais alto, porém reconsiderou ao notar o olhar azul-claro fixo nele. — Não, estou enganado. Não adianta lamentar porque a porta está trancada. Temos que lidar com a situação.
— Kagami?
— Está bem. Aceito sua ajuda. Jogaremos juntos!
A dupla se uniu mais uma vez, e certas coisas Akashi não conseguia prever mesmo com o Olho do Imperador.
Foi o que aconteceu quando ele tentou marcar mais pontos para a Rakuzan. O capitão passou por Kagami, como era de se esperar, mas não contava com a presença de Kuroko logo atrás.
O Olho do Imperador havia falhado?
— O Tetsuya estava focado exclusivamente no Kagami. — Observou Hikari, sentada no banco. — Ele conseguiu antecipar os movimentos, não de Akashi, mas do próprio amigo. A fraqueza na habilidade de Akashi é revelada: ele só consegue prever os movimentos de quem está à sua frente. Porém, ele jamais imaginaria que o Tetsuya estivesse por trás. — Ela sorriu, impressionada.
— A capacidade de observação que Kuroko desenvolveu… — Midorima lançou um olhar breve para a garota de cabelo azul-escuro. — Junto ao tempo que jogaram juntos… — Ele encarou Kagami e o restante do time da Seirin. — Permitiu que fizessem isso. É diferente do Olho do Imperador de Akashi. Kuroko não consegue usar isso contra os adversários, mas consegue se valer disso com os aliados com os quais criou uma ligação sólida.
Naquela jogada, conseguiram bloquear Seijuro completamente. No entanto, a ação não havia terminado.
Ao iniciar o contra-ataque, Akashi ficou paralisado em seus próprios pensamentos, por cometer um erro pela primeira vez. Era crucial para eles marcarem pontos.
Taiga avançou em direção à cesta, passando por Kotaro, que não conseguiu detê-lo.
Todos estavam torcendo pelo craque naquele momento.
Mas o capitão da equipe Rakuzan não permitiria que esse erro passasse impune: afinal, ele raramente errava.
Conseguiu alcançar Kagami tão rapidamente quanto o número dez havia feito anteriormente. No entanto, ele esqueceu que Kagami não estava sozinho. Kuroko abriu espaço para a execução da jogada: era o início de uma ponte aérea.
Seijuro tentou interceptar, saltando o mais rápido que podia.
— Faça a cesta, Kagami! — Era o grito daqueles que acreditavam no talento do jogador do time.
Determinado, Kagami pensou:
— Deixem comigo, eu vou fazer! Estou carregando as esperanças do time e farei essa cesta!
A porta começou finalmente a se abrir. Taiga fez a cesta, surpreendendo até Akashi e seu Astral.
— Ele… Ele fez? — Exclamou Hikari, impressionada.
— ELE FEZ! — Gritaram os amigos.
Aquele foi apenas o primeiro erro de Akashi Seijuro, o Imperador, que agora jazia no chão, sob os olhares de Kuroko Tetsuya e Kagami Taiga.
* * * * * *
— Ele errou? — Refletiu Huryome, vendo Akashi falhar em uma cesta que normalmente faria sem dificuldades. — Entendi. Ele está sentindo impotência pela primeira vez. Parece tão frágil agora.
— Nunca vi Akashi desse jeito. — Comentou Aomine. — Ele está perturbado, saindo de seu estado Astral.
— É uma surpresa para alguém que sempre foi tranquilo durante os jogos — Acrescentou Atsushi.
— Ele fez outra jogada incrível!. — Exclamou um espectador, admirado com a habilidade de Kagami.
O astro do Seirin estava em seu auge, diminuindo a vantagem conquistada com muito esforço pela Rakuzan, enquanto Seijuro cometia erros consecutivos nos dribles e arremessos. E, no meio das jogadas, ele enfrentava uma batalha interna.
O medo da derrota, algo que ele nunca havia experimentado, se espalhava por seu corpo. Ele percebeu que seria incapaz de vencer sozinho, então, ao se ver com a bola de basquete, a passou para Reo.
No entanto, Mibuchi não reconheceu Akashi, nem mesmo depois daquela jogada. Um passe tão ruim? Como ele poderia mostrar suas habilidades se nem o capitão conseguia tanto? Acabou errando o arremesso.
Kotaro também percebeu que Akashi estava piorando muito e estava irritado. Não faria mais nenhum esforço? Era isso?
Ao reduzir a diferença no placar para apenas uma cesta, Nebuya agiu com violência ao segurar a camisa de Akashi, ameaçando-o.
Quem era aquele sujeito? Não passava de alguém sem utilidade. Por favor, substituam esse capitão fraco, pelo amor de Deus.
Enquanto Seijuro permanecia em silêncio, o treinador do Rakuzan foi eventualmente forçado a pedir um tempo.
— Kuroko? — Chamou Kagami, enquanto limpava o suor do rosto.
Entretanto, Tetsuya estava distraído, observando Akashi. Não apenas ele, mas a Huryome também estava.
Eles notaram a grande disparidade no desempenho do número quatro da equipe adversária, e algo estava claramente acontecendo. O olhar enfraquecido de Seijuro não conseguia disfarçar a situação.
Ela deveria estar se sentindo feliz, não é? Era esse o desfecho que ela desejava? Testemunhar sua queda e declínio para o mesmo abismo que a havia consumido?
Neste momento, tudo o que ela conseguia sentir era pena.
Enquanto isso, no banco de reservas do Rakuzan, a revolta era evidente contra o homem de cabelos cor-de-rosa.
— Você será substituído. — Declarou o treinador ao capitão.
Entretanto, Mayuzumi tinha outros planos.
— Espere. — Disse Chihiro, levantando-se. — Ele está envergonhado. Será que supôs que eu o consolaria ou encorajaria? Jamais faria tal coisa. — Por fim, pôde expressar o ódio que guardara nos primeiros momentos. — Depois de tudo o que foi dito, isso é tudo que pode fazer? Você não se parece em nada com o homem que conheci. Na verdade, quem você é?
Mayuzumi não entendia, mas aquela pergunta mudaria o curso da situação.
Akashi Seijuro, o garoto destinado desde jovem à vitória.
Falhar era considerado sinal de fraqueza e algo que jamais poderia acontecer. A superioridade era essencial para aquela família.
Mesmo após perder a figura materna, que, sem dúvida, o amara acima de tudo, não permitiram que ele parasse. Expor sentimentos era desnecessário, porém, não conseguiu evitar o desânimo, acabando por sufocar as emoções. Encontrou amparo na única coisa que lhe trazia conforto: o basquete.
Enquanto se mantivesse em primeiro lugar, seu pai permitia que jogasse. O esporte era o legado mais valioso deixado por sua mãe e funcionava como um alívio para ele. Os treinos da equipe Teiko nunca foram um problema, por mais rigorosos que fossem. Naquela quadra, encontrou amigos que compartilhavam o mesmo objetivo e superavam juntos os obstáculos. A experiência no segundo campeonato foi excelente.
No entanto, a equipe passou a priorizar cada vez mais o sucesso, acima de tudo, conforme suas habilidades se desenvolviam, gerando o medo de ficar para trás e perdê-los. O medo de ser abandonado novamente se transformou em pânico. Ele sentia a necessidade de evoluir a todo custo, mesmo que isso significasse se afastar das pessoas para evitar sofrimento.
Assim, essa segunda personalidade começou a tomar controle gradualmente.
No terceiro campeonato, a equipe acompanhou, contudo, não era mais o mesmo: a sensação de união e carinho havia sumido. Porém, a vitória foi a coisa mais fácil de conquistar. Ele se tornou invencível e a Teiko tornou-se tricampeã.
Buscando apenas a glória e deixando de lado o resto, ele perdeu de vista o motivo pelo qual desejava ser mais forte. Ao finalizar o ensino fundamental, os amigos se tornaram adversários, inimigos, esquecidos e deixados para trás.
Ele não podia resistir ao ímpeto de vencer. Queria provar a todos que era imbatível. O sentimento de fracasso se tornou seu ponto fraco, algo que, até então, ele não havia experimentado. E não imaginava que poderia doer tanto.
“— Você não precisa de mim?” — Desafiou seu implacável alter-ego.
“— Correto. Fique aqui para sempre." — Respondeu.
Após refletir e entender, Akashi se libertou do falso eu.
Ao se erguer do banco e encarar Mayuzumi, seu colega notou algo diferente: havia uma aura singular no ambiente, bem distinta da anterior.
— Como se atreve a questionar quem sou eu? — Sorriu, determinado. — Sou Seijuro Akashi, é claro. Por favor, emprestem-me as suas forças novamente, para podermos vencer. — Concluiu o capitão.
* * * * * *
92 para Rakuzan, 90 para a Seirin.
A emoção certamente tomaria conta dos últimos cinco minutos daquele jogo.
— Tetsuya. — Huryome chamou, antes que ele entrasse em quadra.
— Sim?
— Antes de você ir, eu quero pedir desculpas.
Kuroko olhou para ela, tentando entender.
— No último jogo da Teiko, em que disputavam o tricampeonato, eu testemunhei o desfecho. Vi o quanto você sofreu. Senti muito, mas não consegui ajudar e optei por abandonar você em vez de tomar alguma atitude. Amigos não fazem isso. — Ela suspirou. — Mesmo assim, você me acolheu desde o momento em que pedi ajuda. Acho que nunca conseguirei retribuir.
— Eu agradeço, por tudo o que me ensinou.
— Acredito que ainda não seja o suficiente. — A garota sorriu, tocada.
— Você estar aqui é o suficiente. Sei que teve seus motivos para voltar, mas ao olhar nos seus olhos, vejo a razão que a mantém presente: encontrou pessoas em que pode acreditar novamente, assim como eu. Hikari, seus olhos agora brilham novamente, com aquela determinação única que só você possui. — Ele sorriu enquanto se dirigia para a quadra, em direção ao time.
Ela permaneceu imóvel, observando aquela equipe que conhecera recentemente. Refletiu sobre as palavras de Tetsuya e, em seguida, sorriu.
Imediatamente, pegou o cartaz que fez e começou a torcer, com toda a paixão que tinha dentro de si.
— Vamos, Kagami. — Disse o garoto de cabelo azul-claro, cheio de entusiasmo.
— Com certeza. — Respondeu o mais alto, determinado.
* * * * * *
O jogo reiniciou e Akashi estava com a posse da bola. Uma sensação perturbadora percorreu o corpo de Taiga ao ver o número quatro avançando em sua direção, revelando uma habilidade completamente diferente, deixando-o surpreso. Ao tentar bloqueá-lo, Seijuro driblou Taiga com incrível facilidade.
No entanto, Kuroko ainda estava lá, e os dois trocaram olhares desafiadores. Quando o fantasma tentou roubar a bola, Akashi interveio.
— Quanto tempo… Kuroko! — Disse ele.
Foi nesse momento que Tetsuya percebeu que o antigo Akashi estava de volta.
Em uma finta rápida, Seijuro passou a bola para Reo que, instantaneamente, sentiu a diferença.
Em um lance rápido, Seijuro passou a bola para Reo, que imediatamente sentiu a diferença. O passe foi perfeito, elevando de alguma forma sua habilidade. Ao realizar o arremesso, ele acertou uma cesta de três pontos com sucesso.
— Belo arremesso. — Elogiou Akashi. — Bom trabalho, Mibuchi.
— Akashi me elogiou? — Refletiu Reo, incrédulo. Olhou para as mãos, confuso. — Nunca fiz um arremesso tão confortável antes. O que está acontecendo? Isso está ficando emocionante… — Sorriu, satisfeito.
— Esse passe me disse tudo. — Afirmou Kise.
— São os passes que costumávamos receber. — Pensou Midorima.
— Isso significa que… — Observou Murasakibara.
— O antigo Akashi voltou. — Completou Aomine.
No meio da quadra, Kuroko comunicava aos colegas a situação.
— O quê? Sério? — Clamaram em uníssono.
— Agora que o verdadeiro Akashi despertou, certamente está mais forte do que nunca.
— Ou seja, o jogo de verdade começa agora. Certo, vamos nessa! — Exclamou Kagami, empolgado com o desafio.
No banco da Seirin, certa garota também percebeu a transformação.
— Mibuchi arremessou com tanta confiança… Nem mesmo o Hyuga conseguiu pará-lo. Antes, estavam nervosos. Esse passe firme do Akashi, esse estímulo repentino, só poderia acontecer se…
Sua feição mudou completamente quando fitou o jogador número 04 da Rakuzan.
O olhar doce e simples quando os olhares de ambos se cruzaram, indicou seu regresso. Ela reconheceria aquela expressão quase instantaneamente: ali estava Seijuro Akashi, com quem compartilhara momentos significantes demais.
Seu coração disparou, mas não de medo como da última vez que se encontraram. Agora, era pura saudade de ver aquele semblante, um ponto de apoio constante nos primeiros dias na Teiko.
De repente, lágrimas surgiram em seus olhos.
— Hikari!? — Exclamou Riko, surpresa, atraindo a atenção dela, fazendo-a desviar o olhar dele. — O que houve? Você está se sentindo mal?
— O quê? Como…
— Você está chorando! — Gritou Furihata, assustado.
— Eh? O que foi? — Perguntou Koganei. — O que fazemos quando uma menina chora sem motivo aparente? — Parecia desesperado por um instante, mas Aida fez questão de acalmá-lo, dando um “tapinha” em suas costas.
— Aconteceu algo, Hikari? — A amiga tornou a fitá-la.
Huryome percebeu a lágrima escorrendo em sua bochecha e cuidou prontamente de enxugá-la com a mão.
— Me desculpem, acho que me deixei levar pela emoção da competição. Mas ficarei bem! — Com um gesto simples, ergueu a placa e continuou torcendo pelos amigos.
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