Insanidade

11 O que eu não sei


Notas iniciais
Penúltimo capítulo no ar. Nesse teremos altas revelações e o início de um grande embate.

Ângela estacionou furiosa. Nem ao menos tirou a chave da ignição, se apressando em entrar na casa para encarar os olhos de Daniel e confrontá-lo.

— Daniel! Daniel! — Grita, mas ninguém responde. Cruza o corredor a passos largos, à procura do marido, verificando primeiro na cozinha e depois na sala. Notando a ausência dele, tirou a bolsa do ombro e a largou no sofá.

Iniciou o andar nos degraus na escada principal, a fim de subir ao segundo andar, mas de canto de olho, observa a porta entreaberta do porão. Sentiu que devia olhar no andar de baixo e mesmo sem entender o motivo, seguiu a intuição. Lá, apenas um amontoado de caixas, objetos quebrados, embrulhados, além de uma estante empoeirada, cuja tinta desbotava em várias lascas. Por último, havia também o freezer branco, onde o pai costumava guardar as carnes.

Não avistou nada importante no cômodo, nenhum sinal dele. Colocou o pé no degrau, pronta para voltar, mas algo chamou sua atenção, tornando impossível sair dali. Seus olhos encaravam um pingente dourado entre os degraus da escada, no chão sujo. Ao buscar o objeto e analisá-lo, dois detalhes a deixaram perplexa, sendo o primeiro, o fato do acessório em forma de sereia ser notoriamente de alguém que conhecia, Ashley. Em segundo, a mancha vermelha cobrindo metade dele, indo da calda do ser místico até o final da correntinha. Processou por alguns segundos o que via. O que aquilo significava? Obviamente, algo muito grave deve ter acontecido aqui. Lembra muito bem que a loira usava aquilo na última vez que a viu.

— Ashley? — chamou, voltando a direcionar seus olhos ao cômodo. Não tinha certeza se esperava receber resposta para aquele chamado.

Não perdeu tempo e começou a vasculhar o local, desembrulhando caixas e os outros objetos presentes. Olhou bem os detalhes, principalmente em se tratando do chão. Notou se havia mais vestígios de algo. Poderia não haver mais nada, no entanto, uma parte do piso, próximo a escada, parecia estar mais polida se comparado ao restante, como se alguém recentemente tivesse limpado o local. Agachou, com dificuldade, para verificar melhor. Passou a mão, sentindo o assoalho liso, além do cheiro fraco, mas reconhecível de desinfetante.

Assustada, olha novamente para o ambiente, sendo tomada pela energia mórbida que exalava dali. Ao encarar o freezer mais uma vez, um pensamento macabro passou pela sua cabeça. Será?

Aproxima-se, notando um pequeno cadeado impedindo sua abertura. Sem perder tempo, agarrou um martelo na estante e o golpeou de uma vez só, rompendo a tranca. Ao segurar a alça, engoliu em seco torcendo para sua intuição ter falhado novamente, nunca quis tanto uma coisa. Infelizmente, não foi o que aconteceu. Tomou coragem e levantou a porta, fixando seu olhar na cena perturbadora bem à sua frente.

No compartimento gelado, havia um corpo desmembrado que fora distribuído por todo o local, dividindo espaço com as carnes de animais, empacotadas que ali haviam. Ângela avistou pernas, coxas, um tronco e por último e mais aterrorizante, uma cabeça cujo olhos e boca continuavam abertos, petrificados pelo congelamento. Nas partes humanas, era possível observar cristais de gelo sobre todos os pedaços, deixando tudo com um aspecto ainda mais macabro. Quando Ângela encarou aqueles olhos e aqueles fios loiros, agora esbranquiçados pelo frio, teve certeza de quem era, Ashley.

Soltou a porta do freezer, caindo sentada. Os olhos esbugalhados, o olhar de perdida e o coração acelerado evidenciaram o nível de seu choque. Cobria a boca com as mãos, pensando se tinha visto direito ou se estava alucinando. Por um momento parecia que o mundo tinha parado. Levantou cambaleante, só conseguindo pensar que precisava sair daquela casa o mais rápido possível.

Correu em direção às escadas, mas foi surpreendida por Daniel a observando da porta. Ele a fechou, trancando-a e guardando a chave em seu bolso. Começa a descer os degraus lentamente, fazendo a mulher dar passos assustados para trás, sem deixar de encará-lo.

O clima era de completo silêncio, sendo possível ouvir apenas a respiração pesada e o andar de Ângela, que parou ao encostar no freezer.

Daniel finalmente chegou ao fim dos degraus, depois do que pareceu uma eternidade sua descida. Ele olhava seriamente os olhos abalados da esposa, então tratou de se explicar:

— Não era pra você ter visto isso — suspirou fechando os olhos — não agora. Me desculpa, isso estava fora dos planos. — A mulher continuava em completo silêncio, não parecendo ter coragem para dizer nada — Eu sei que eu lhe devo alguma explicação. Coisas demais aconteceram desde que chegamos aqui. Se você quiser, pode perguntar. Agora é a hora.

— O…o quê? — Estava surpresa com a pergunta. Balbuciou antes de falar. Estava tentando recobrar a sanidade para poder dizer alguma coisa — Que porra tá acontecendo Daniel?! — soltou num grito. — O que você tá fazendo?!

— Me livrando dessas correntes, Ângela— disse fazendo o gesto levando os pulsos a frente do corpo.

— "Correntes"? — falou para si tentando compreender.

— Dessa porcaria de prisão que você me colocou no dia que você engravidou! — a cada palavra, a confusão no olhar de Ângela era maior — há exatos 14 anos, lembra? A gente se conheceu, ficou junto e um mês depois você anunciou a gravidez. No final do ano letivo, eu recebi a minha tão sonhada carta de aceitação para Oxford. Era o meu sonho e você destruiu. Você destruiu tudo isso quando se recusou a fazer um aborto. Eu idiota e ingênuo, resolvi abdicar do meu maior sonho, algo que mudaria a minha vida, pra ficar com você e formar uma família. Eu achei realmente que eu seria feliz assim e olha só onde chegamos! Eu não estou feliz! Eu estava completamente errado! Se eu tivesse estudado, hoje eu seria um excelente arquiteto, seria rico, eu teria a vida dos meus sonhos e não precisaria ter um emprego de merda aturando humilhações como eu tive que aturar. Hoje a minha vida seria outra. — Soltou um ar preso pela boca jogando a cabeça para trás — Ahh.. como é bom poder dizer isso. — fitou novamente a mulher — Você não faz ideia do quanto isso estava entalado.

Ângela ouvia tudo horrorizada. Por um momento, esqueceu tudo o que aconteceu anteriormente naquele dia, só focando naquele monólogo ridículo e ingrato.

— Você não vai fazer isso comigo! Você não vai falar como se a culpa fosse minha! Você acha o que? Que filho se faz sozinho? Você me engravidou! Você decidiu ficar e assumir a sua responsabilidade como pai! Eu não te pedi pra ficar, você decidiu sozinho. — falou dando entonação nas palavras que se referiam a Daniel — Mesmo assim, eu sempre fiz tudo pra você, fiz tudo pra ser a melhor das esposas pra que você visse o quão grata eu era por não me deixar sozinha. Aguentei todas as reclamações, todo o seu mau humor, aguentei você falando horas sobre como seu trabalho era chato, você sabe como isso acabava com a minha cabeça?! Mas eu ficava ouvindo tudo porque eu era a sua esposa e é isso o que uma boa esposa deve fazer, dar apoio! Aguentei todos os porres, inclusive aguentei o que nenhuma mulher aguentaria, suas inúmeras traições! Os vários e vários chifres que você meteu na minha cabeça, seu desgraçado! Tive que aguentar isso até mesmo aqui, porque pelo visto você não se aguentou e teve que pegar até a mulher do meu pai, antes de matar ele de desgosto! — disse já sem fôlego.

— Então você já sabe? Ah ótimo, isso facilita tudo. É menos uma coisa pra contar. Não me importa o que você "acha" — fez aspas com as mãos — que foi difícil pra você. Você não fez mais que sua obrigação como mulher. Nada disso se compara à obrigação de um pai de família! A pressão que eu sentia me consumia a cada ano, a cada dia, a cada minuto, a cada segundo do tempo que passou. Tempos esses que nunca vão voltar. É por isso mesmo que agora que o seu pai morreu, o dinheiro que ele deixou vai ser meu! É o mínimo que você me deve por tudo isso. É o mínimo! — berrava.

— Só por cima do meu cadáver. Só assim eu vou deixar você ir embora sem pagar pelos seus crimes. — dizia com sangue nos olhos. — Se você realmente acha que vai ter um final feliz, você está muito enganado.

Daniel gargalhou.

— Você acha mesmo que pode tentar me impedir? Outras pessoas que tentaram atrapalhar a minha vida tiveram o que mereceram. Ashley, que me entregou a você e tentou ir embora como se eu não fosse nada. — Começava a numerar nos dedos, abaixando um a cada nome. — Seu pai, que tentou me mandar pra longe e ainda por cima me agredir, mas esse foi fácil demais, então eu nem sei se devo contar — olhou de forma sádica para Ângela que parecia se enfurecer cada vez mais de ódio — e por fim, Charles, meu ex-patrão, que deu o cargo que eu tanto queria, para outra pessoa. — o olhar de Ângela foi de surpresa mais uma vez — Ah, verdade. Esqueci de contar essa parte. Você vai gostar de saber o que aconteceu. Naquela noite que eu passei fora de casa, foi quando a minha jornada começou.

“Eu tinha acabado de sair da empresa e fui a uma lojinha de conveniência comprar uma garrafa de vodka pra me ajudar a esquecer o desastre que foi tudo aquilo. Eu bebi bastante, tentando por um segundo apagar toda a vida infeliz que eu tinha e as responsabilidades que só iam aumentar a partir dali. Foi quando eu vi, do estacionamento, um carro bonito parar e entrar na loja. Sabe de quem era? Dele mesmo. Daquele grande filho da puta careca! Aquela puta daquela Michele e ele entraram e eu fiquei observando. Ela saiu com as compras e foi para o carro esperar por ele. Por um momento que pareceu um sinal divino, ele parou bem ali na passagem pra pegar a chave dele que caiu, foi quando eu vi a oportunidade pra me vingar por todos aqueles anos e acelerei o máximo que pude, batendo nele com força. Eu lembro perfeitamente que o rosto dele acertou em cheio o nosso capô, sujou bastante de sangue e ele deve ter perdido alguns dentes, mas foi delicioso de ver. Depois que ele caiu no chão, eu passei com o carro algumas vezes por cima dele antes de ir embora. Tudo isso acompanhado pelos gritos daquela prostituta desgraçada”. — Sorria ao lembrar

— Meu Deus — Ângela ouvia a história de Daniel atentamente, não sabendo se era possível ficar ainda mais chocada do que já estava. Pensou bem, conectou os pontos e viu que tudo fazia sentido. O sangue no carro que ela lavou, a rapidez com que Daniel aceitou visitar seu pai, sendo que ele normalmente hesitava em ir, provavelmente aceitou como forma de fugir da cidade. As pistas estavam ali o tempo todo, só ela que não viu.

— E mesmo assim, tudo isso foi só o começo. — continuou Daniel. — logo depois que eu matei ele, eu atropelei um animal estranho que me mordeu. Até hoje eu não entendi o que aconteceu ali, mas eu fiquei diferente. É como se aquela mordida tivesse me mudado de algum modo. Hoje eu me sinto mais corajoso, mais forte, sem dor, me sinto de uma forma que eu achei que nunca iria me sentir. Claro que tem o seu preço. Eu comecei a sentir fome, mas uma fome diferente de tudo o que eu já havia sentido. Pensando bem, é como se tivesse níveis. Primeiro, eu comecei a sentir desejo por carne crua, eu lembro que eu acordei no meio da noite e o seu pai me flagrou comendo a carne que ele guardava na geladeira. Isso foi no dia seguinte a eu ter quebrado a tv dele pra tentar impedir vocês de receber notícias sobre mim, pois provavelmente deviam estar me procurando depois do que eu fiz com meu chefe.

“Enfim, logo depois eu senti um outro desejo, um desejo por carne viva. Era incontrolável, tanto que me fez atacar o Elvis e se eu me lembro direito, o cachorro da Sra. Clark, mas daquele dia eu me lembro pouco, pra você ter ideia do quão insano eu tava. Naquele momento eu ainda não entendia o que estava acontecendo comigo. Depois desse, eu senti um desejo cada vez maior e mais mortal. Depois de matar a Ashley, eu comi ela, não dessa forma que você pode pensar, mas no sentido literal da palavra. — deu risadinhas, se sentindo melhor por compartilhar aquilo tudo. — Aqui mesmo, onde eu estou em pé. Por último, mas não menos importante, o desejo mais estranho e prazeroso que eu já tive a honra de realizar. — Daniel puxou seu moletom e o lançou longe, junto com o pedaço branco de tecido, agora manchado de vermelho, que envolvia seu braço, revelando detalhes assustadores da sua fisionomia. — Olha só que legal — deu um giro em 360°, possibilitando a Ângela ver as várias marcas de faca em suas costas, peito e braços, sendo os últimos os mais dilacerados, parecendo ser onde Daniel havia concentrado sua maior atenção. Ângela já estava se sentindo em um tremendo show de horrores, sendo completado pela macabra obra da automutilação — Comer a própria carne parece doloroso, não é? Pra mim não. Eu não tô sentindo nenhuma dor, acredita? — falou beliscando a própria pele como prova — Nada. Eu sou como uma divindade, poderoso e intocável. Nada pode me parar.”

Ângela sentiu seu estômago revirar e curvou-se, colocando toda a pouca refeição que havia ingerido no dia anterior para fora, já no limite da situação.

— Já chega. Eu não aguento mais isso. — fala limpando os resquícios de vômito que escorriam dos lábios — Você tá me deixando maluca. Você é doente. Eu só quero ir embora daqui. — falou se virando e apoiando as mãos no freezer, tentando manter-se de pé.

— Eu sinto muito Ângela, mas eu não posso deixar você sair. Você assinou sua sentença de morte ao abrir esse freezer — Agarrou um pé de cabra de uma das caixas ali presentes e se aproximou lentamente dela, que estava ao ponto de ter um colapso — Não se preocupe, será rápido. Você e o nosso bebê irão conhecer o meu estômago por dentro. — Ângela arregalou os olhos horrorizada com a fala, ainda de costas — Eu ainda não sei o gosto de um feto, mas deve ser tão bom quanto a mim, até porque tem o mesmo DNA que o meu. Deve ser uma delícia. — Daniel sentiu sua boca salivar enquanto pensava — se for bom de verdade, talvez as meninas não sofram com a sua morte. Todos estarão juntinhos no mesmo lugar. — Ergueu o braço e pegou impulso para acertar de uma vez só a cabeça de Ângela, mas a mulher que aparentava fraqueza, de repente tomou uma atitude inesperada.

Em fúria, ela virou na direção dele e o empurrou a toda velocidade, gritando, até os dois se chocarem contra a parede e caírem no chão. O pé de cabra soltou da mão de Daniel e se arrastou, ficando a poucos passos deles. Ângela foi a primeira a repará-lo, engatinhando para pegar e se defender, mas ao esticar a mão para agarrá-lo, sentiu alguém puxar seu tornozelo a arrastando para trás. Ela caiu de costas no chão. Antes de ter tempo para fazer qualquer coisa, Daniel já estava em cima dela, com os dedos pressionados em seu pescoço com uma ira incontrolável no olhar.

— Você não vai destruir a minha chance de ser feliz, sua puta. — Apertou com mais força para ela apagar o mais depressa possível.

Ângela sentiu a cabeça inflar e a visão embaçar. Olha para o lado, avistando o pé de cabra longe por uns 3 centímetros de seus dedos nervosos que se esticavam para alcançá-lo. Com uma das mãos, tentava empurrar os braços dele, sem sucesso. Já sentia que sua vida acabaria ali mesmo.



Notas finais
Se gostou comente. Próximo capítulo encerramos a história.