Insanidade

12 Acerto de contas


Notas iniciais
Bem vindos ao encerramento da minha primeira obra. Espero que gostem ♥

Por um momento, pensou em desistir, fechar os olhos e deixar que a moleza a consumisse de vez, mas pensou nas filhas e no bebê que estava esperando. Com isso, tomou uma vitalidade inesperada, abrindo mais os olhos e se impulsionando com mais força na direção do objeto, finalmente o alcançando e, com firmeza, acertando a cabeça de Daniel com o máximo de força que conseguiu. Com o choque, ele vai ao chão, caindo a sua esquerda.

Recuperando o fôlego, tossindo muito sem parar de se mexer, tratou de golpear o homem várias vezes, como se a vida dependesse disso, acertando onde fosse possível, mirando principalmente na cabeça.

Depois de uma sessão de golpes que ele tentava impedir, uma linha de sangue escorria da testa de Daniel, já inconsciente.

Olhando ao redor pensando em uma forma de atrasá-lo ainda mais, percebe o grande armário velho à frente. Sem pensar duas vezes, largou a ferramenta e, com as duas mãos, empurrou o imenso objeto de madeira, que caiu bem em cima do alvo, derrubando caixas e outras coisas pesadas nele. O homem nem ao menos se mexeu com o peso, ainda apagado.

Após o armário cair, a mulher teve uma visão melhor do que estava na parte de baixo dele, uma maleta preta e nova. Lembrou imediatamente do dinheiro que Daniel tinha que depositar no banco. Será que ele poderia ter sacado, planejando ir embora? Depressa, verificou, encontrando vários bolos de notas de 100. Provavelmente estava tudo ali. Só precisava da chave da porta e poderia sair do porão.

Chegou perto do corpo de Daniel, que tinha as pernas para fora do armário caído, e procurou em seus bolsos, primeiro verificando na abertura no lado da roupa que estava virado para cima, entretanto, não encontrou nada.

Chegou mais para enfiar a mão no bolso virado para o chão, temendo que ele acordasse, mas fez mesmo assim, era sua única chance. Sentiu a pressão do corpo dele contra o chão em sua mão, mas com dificuldade, continuou sua procura, apalpando dois objetos pequenos e metálicos. Ao puxar, viu duas chaves da mesma cor.

Reconheceu sem muito esforço a primeira em formato redondo, sendo a que abre a porta da frente. Em segundos intensos e frenéticos, deduziu que ele havia trancado a porta da sala também, para evitar de todas as formas que ela escapasse. Desgraçado!

Ainda tomada pela adrenalina, analisa a chave quadrada e mais antiga, constatando ser a do porão, aliviada.

Correu para a liberdade, feliz, subindo as escadas. Ao colocá-la na fechadura, começou a ouvir Daniel se mexer, ficando aflita.

— Ângela, sua desgraçada — falava em voz baixa.

Ela girou a peça, que pareceu emperrada. Após barulhos mais fortes de objetos amontoados se chocando, deduziu que Daniel lutava para sair debaixo da estante. Seu coração já martelava no peito, temendo novamente por sua vida, murmurando em desespero aumentando cada vez mais o tom. Meus deus, meus deus...abre logo, abre. Descansou a mala em um degrau, de forma a ter suas mãos livres para tentar abrir a porta.

Suas mãos trêmulas chacoalhavam a maçaneta, lutando para fugir. Girou com mais força, temendo quebrar a chave. Ela então tirou o objeto e inseriu novamente, ouvindo a porta destrancar. Respirou aliviada e abriu.

Ao sair, agarrou o objeto preto e pôs o pé para fora, sem olhar para trás, no entanto, sentiu a mala sendo puxada. Gelou na hora, viu as mãos do homem agarrarem o objeto, a assustando de uma forma que a fez soltar, fazendo Daniel cair alguns degraus com o impulso, enquanto Ângela saltou para fora, levantando-se com pressa para travar a entrada.

Removeu a chave do lado de dentro e encostou a porta, a encaixando na fenda.

Enfim, o pior aconteceu. Ouviu um estalo ao movê-la e viu que segurava agora uma chave partida. Ela pensou rapidamente no que faria, ouvindo passos na escada cada vez mais claros. Para sua sorte, o armário de sapatos, de ferro, era bem ao lado da porta. Rapidamente, agarrou o metal e o arrastou, deixando cair e bloquear a passagem.

No mesmo momento, a porta se abriu e o braço de Daniel tentou escapar, conferindo que algo impedia sua abertura. Sem conseguir movimentar a porta, ele começou a se chocar contra ela, gritando em cada pancada. Ângela viu que aquilo não o deteria por muito tempo. Precisava arrumar um jeito de pará-lo e impedir que ele fugisse, levando o dinheiro.

Corre para a sala, procurando a bolsa que deixou no sofá, mas não estava lá. Seu celular estava dentro dela, de forma que teria que chamar a polícia por outro modo.

Agarrou o telefone fixo e digitou o 911

— Boa noite, delegacia de polícia, qual sua emergência?

— Oi! Eu preciso de uma viatura, é urgente! O meu marido quer me matar, ele matou outras pessoas também! Venha o mais rápido que puder, eu consegui prender ele no meu porão, mas não sei por quanto tempo, me ajude por favor! — dizia falando as palavras tão rápido que foi um milagre não ter errado nenhuma.

Distraída, Ângela não percebeu que o barulho de Daniel cessou.

— Ok, senhora. Poderia por gentileza me passar seu endereço?

— Rua Hunting, número vinte e… — antes de completar, um breu arrepiante tomou conta da sala. A luz havia sido desligada.

O interruptor fica localizado no porão. Daniel incessantemente lutava para impedir a mulher de ganhar a guerra.

Precisava agir agora, sabia disso. Poderia fugir da casa, ir até a residência vizinha e acionar novamente a polícia, mas compreende que a essa altura do jogo, cada segundo conta. Não poderia arriscar deixá-lo livre. No entanto, também tinha conhecimento que sozinha, com as mãos vazias, não conseguiria fazer nada.

De repente, uma imagem surgiu, iluminando seus pensamentos, a espingarda. Voou para o andar de cima e foi em direção ao escritório do pai. Ao entrar, seu primeiro movimento foi abrir uma gaveta e procurar uma lanterna.

Já em mãos, apontou e viu, em cima da escrivaninha, descansando sob ganchos na parede, a coisa que poderia salvá-la.

Repousou a lanterna virada para cima na mesa, subiu na cadeira e tirou o objeto metálico na mesma hora, sentindo o peso em suas mãos. Já havia visto na tv o manuseio da arma, mas se esforçou para aprender na prática.

Forçou com as mãos até a espingarda dobrar-se e ela conferir se havia balas nas aberturas, vendo que não, fuçou as gavetas tentando achá-las. Na última, avistou uma caixa verde com a foto de um lobo e soube que era aquilo o que procurava. Inseriu duas munições, fechou o objeto e correu de volta para baixo. As batidas e gritos de Daniel pararam de ecoar pela casa quando ela já estava na metade dos degraus. Ele conseguiu sair. Pensou.

Apressou os passos e se colocou em frente a porta, parando um Daniel apressado que firmou os pés no chão cessando sua velocidade. Ela apontava a peça e a luz em sua direção, se esforçando para sustentar os dois com uma mão só.

— Nem mais um passo. — disse colocando firmeza na voz — eu juro que se você tentar fugir, ainda mais com isso — fixou os olhos no objeto preto na mão dele — eu vou...

— O que? — interrompe. — Fala. O que? — largou a mala no chão — vai ter coragem? Você sabe pelo menos mexer nesse troço?

Engatilhou, fazendo ele dar um passo para trás.

— Eu não estou de brincadeira. Depois de tudo o que você fez, eu tenho motivos de sobra. Você matou meu pai, tentou me matar, tá roubando o futuro das nossas... — engoliu em seco, sentindo um nó na garganta — das minhas filhas. — Travou depois da frase, sentindo um aperto no peito, um medo. Acabara de descobrir que todo seu casamento era uma mentira. — Eu não fazia ideia do quão infeliz você era. Eu achei que eu te fazia feliz. — lágrimas escorreram de seus olhos e sua boca tremeu. Naquele momento, a última coisa que uma pessoa normal falaria é de relação, mas ela não se conteve. Aquilo fazia parte de si, a capacidade de se humilhar ainda mais.

— Eu nunca fui tão infeliz, até casar com você. — para Ângela, aquilo selou o que já não tinha mais volta. Se lhe restava um pingo de consideração por Daniel, lá no fundo, por todos os anos vividos, acabou agora.

Ele deu um passo lento, a fazendo tremer as mãos e ficar aflita.

— Eu já disse pra você parar! — tentava segurar a arma sem tremer, mas a tarefa parecia impossível. Ele não estava cedendo às suas ameaças.

— Desculpa Ângela — fala pausadamente — , mas eu não vou parar. — se aproxima a passos lentos enquanto ela deixa explícito no olhar, seu medo — Você vai ter que me matar se quiser impedir que eu saia daqui. Eu não vou pra cadeia. Essa noite, um de nós vai morrer. — Agarrou a ponta do cano e encostou na testa. — É a sua chance. — aguardou alguns segundos, sem resposta. — afastou apenas o suficiente para encarar sua expressão temerosa e os olhos vermelhos com lágrimas, da pessoa que não tinha coragem de matá-lo. — Pelo visto vai ser você. — Tira a mão sorrateiramente das costas revelando uma chave de fenda.

Ao pensar em atacá-la, Ângela percebeu o objeto e as intenções, se assustando ao ponto de uma só vez, apertar o gatilho que, com o impulso, ergueu sua direção, acertando na cabeça de Daniel, fazendo miolos espalharem por toda a sala e respingar no rosto da mulher que fechou os olhos, gritando desesperada.

A arma e a lanterna foram de encontro ao chão, fazendo a segunda rolar em direção a um canto da sala, iluminando a massa encefálica do homem que enfeitava o papel de parede verde, agora decorado também pelos respingos de sangue, que escorriam em direção ao chão.

Tendo as costas coladas na porta, Ângela se arrasta, repousando, fraca, até ficar sentada no chão, tendo seu choro ecoando pela casa silenciosa.

Recusava-se a abrir os olhos, em estado de choque e negação, não acreditava no que acabou de fazer. Suas mãos tremem mais do que nunca e um alienígena ameaça saltar de seu peito.

Abriu os olhos, erguendo a cabeça, evitando olhar o corpo no chão e o cenário de filme de terror. Olha a abertura da sala e se arrasta até a entrada, se esquivando ao máximo para não encostar no marido.

Empurra a porta, que desliza suavemente pelo ar até fazer um pequeno barulho ao encostar na parede, revelando uma luminosidade natural.

Apoia o ombro ali mesmo na abertura, de costas ao marido. Fitou seu olhar na janela bem a frente, vendo uma bela, brilhante e inflada lua.

Encarava o céu através do vidro, hipnotizada, não percebendo o que acontecia bem atrás de si. A mulher tentava esquecer o que havia acabado de fazer, mas toda vez que lembrava, lágrimas voltavam a escorrer de seus olhos. Tentava desconectar-se da realidade a qualquer custo, mas sempre aquela imagem horrível retornava, junto com o choro. A cabeça doía e a exaustão tomava cada vez mais espaço no seu corpo.

Uma cólica começava a incomodá-la, mas nem a pressão na região abdominal a libertaram do choque. Sentiu o meio das pernas quente e algo escorrer.

A mulher colocou a mão direita pressionada sobre a roupa na região da virilha e trouxe aos olhos, vendo sangue. Se aquilo era o que realmente ela achava que era, o tempo que levaria para se recuperar da melancolia extrema, só aumentava. Chorou ainda mais, abaixando a cabeça, extremamente cansada e abalada.

Passaram-se alguns minutos daquele jeito, até começar a escutar um barulho atípico. De repente, uma forte onda de calor bate em suas costas, como se um corpo em chamas estivesse ali. Um alto estalar de ossos também fora ouvido, acompanhado de vários outros. Um movimento de arrastar se fez presente e um grunhido fraco e rouco a deixou paralisada.

Temia, com todo o resto de equilíbrio, humanidade e consciência que tinha, olhar para trás, no entanto foi o que fez.

Tomou coragem, a sua última migalha de coragem e virou lentamente e, aos poucos, sua visão de canto de olho se tornava cada vez mais clara, ganhando forma.

Se arrependeu no mesmo instante, vendo uma das coisas mais aterrorizantes que já vira em toda sua vida.

Sua boca abriu, mas sem grito, tremia. Uma onda de eletricidade percorria todo o seu corpo. Ficou em estado tão perplexo que demorou alguns segundos para expressá-lo, em um verdadeiro, pavoroso e ensurdecedor grito de horror, que fora acompanhado pelo berro estridente e ameaçador da criatura, que agora, não era mais Daniel e sim sua forma mais pura de monstruosidade e completa insanidade.

Notas finais
Aqui encerramos. Obrigado a você que chegou até o fim. Espero que tenha curtido essa jornada. Em breve trago mais obras. Um abraço e até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!