Insanidade

2 Antigo lar, novos problemas


Notas iniciais
A pequena cidade será um lugar de paz. Ou será que não?

Daniel acorda num pulo, limpa com a palma da mão direita a saliva que escorre de sua boca. Havia cochilado o caminho todo até ali. Não dirigiu por motivos óbvios. No carro, além deles dois, estavam as filhas Mandy, e a mais velha, Dorothy, de 14 anos.


— Daniel — chama.


— Oi — encara os olhos da esposa pelo reflexo.


— Que sangue todo era aquele no carro? Estava horrível. Você poderia ter me ajudado a esfregar se não estivesse nessa ressaca. — logo após falar em tom levemente grosseiro, ficou arrependida. Queria dar um desconto a Daniel nesse momento difícil — Que animal você disse que atropelou mesmo?


— Ah — coçou a cabeça tentando raciocinar — acho que era um cachorro, não sei direito, foi rápido.


— Um cachorro? Achei que tivesse sido um veado ou algo do tipo. Estava realmente muito sujo. Até amassou o nosso capô, olha só — Daniel se limita a responder mais alguma coisa e a esposa volta a controlar o veículo, só abrindo a boca novamente para avisar à família que chegavam à pequena cidade.


Daniel olha pela janela e vê a placa de bem-vindo. Observa os estabelecimentos e casas. Fazia algum tempo que não voltava no local. Sua atenção ficou em um bar que viu. Era pintado de vermelho e tinha uma placa com dizeres "Hot Drink" com a imagem de um martiny com uma pimenta vermelha mergulhada. Ele não estava ali 5 anos atrás.


Observa as fachadas das lojas desgastadas e como tudo na cidade parece velho ou sem atualizações. Tudo muito quieto e todo mundo muito contido, como sempre foi.


Depois de alguns minutos chegam à casa azul de 2 andares e estacionam. Daniel repara que em frente daquela casa, há uma outra, roxa, com um jardim muito bonito, uma pequena horta e uma grama bem cortada. Percebe-se que a dona da casa tem zelo por suas coisas. Em pé próximo a uma muda de rosas vermelhas está ela com um regador e um chapéu branco para amenizar o sol.


Ângela toca a campainha, mas não ouve nada. Antes de tocar a 2° vez, a senhora do outro lado da rua se aproxima acenando. Ângela percebe e vai em direção a mulher.


— Oi, você é Ângela? — Após ela confirmar, a mulher continua — prazer, eu sou a senhora Clark, amiga de seu pai. — sorri gentilmente ao tirar as luvas de jardinagem e apertar a mão da mais jovem e de Daniel — Ele saiu agora a pouco e disse pra eu entregar isso a você — tira do bolso uma chave prateada e entrega.


Ângela agradece e apresenta a família. A mulher então repara nos cabelos trançados e na pele negra brilhante das meninas e diz que elas são lindas. Angela agradece e diz o nome das duas. Enquanto Mandy corre e abraça a senhora, que a pega no colo, Dorothy força um sorriso e diz “oi”.


— Essa é a Mandy, a carinhosa. Enquanto essa aqui é a rabugenta — passa a mão na cabeça de “Dothy” que diz "mãe!" com cara de revoltada.


A mulher ri e coloca Mandy no chão. Antes de se retirar, seu cachorro Bob pula em Mandy para brincar. A pequena cai sentada no chão, mas não liga, visto que ri e chama o animal amarelo de fofinho o abraçando. Ângela se assusta com o gesto e a senhora Clark rapidamente trata de puxar o cachorro pela coleira.


— Menino malvado! Já disse pra parar de pular nas pessoas — disse ao levantar o dedo indicador e o repreender — esse cachorro é assim mesmo, mas ele ama crianças. — Mandy, já em pé, continua a fazer carinho nele que abana o rabo feliz — se quiserem, podem vir me visitar meninas. Eu faço um ótimo chá com biscoitos, e você pode brincar com o bob — referiu-se a menor — o que acham? — A menininha comemora levantando as mãos enquanto Dorothy finge animação de braços cruzados sem tirar os fones.


Quando Daniel aproxima para pegar sua filha, Bob o cheira e se afasta assustado, uivando baixinho e chorando antes de latir e rosnar, assustando a todos. Ângela puxa Mandy para mais próximo de si, temerosa, enquanto a senhora Clark se despede pela última vez e leva o cachorro para longe sem entender a situação.


Após o pequeno momento de tensão, a família entra em casa. No momento em que Ângela gira a maçaneta e vê o local, seu coração aperta e o sentimento de nostalgia lhe abraça por completo.


Enquanto revisitavam a casa, não demorou para Leroy chegar buzinando, atiçando a curiosidade da família e os fazendo saírem.


Lá fora, há um carro e, em sua garupa, um colchão que ele pede para o genro levar e colocar no antigo quarto de Ângela, no andar de cima. O mais velho nem se deu ao trabalho de cumprimentar o homem.


Leroy pega um pacote de lençóis rosa e dá para a filha levar, após dar um abraço apertado na filha única. Por fim, agarra uma gaiola e mostra para Mandy que pula de felicidades ao ver o coelhinho branco. Ela promete cuidar muito bem dele e abraça com força o avô, que praticamente acaba de conhecer, o agradecendo.


Dentro de casa, explica à filha que foi comprar algumas coisas para o quarto das garotas. Ele explica também que ela e seu marido podem ficar no quarto de hóspedes, pois lá há uma cama de casal. Ângela agradece e pergunta ao pai se na casa há material suficiente para ela preparar um bolo.


***


A família, animadamente, bate palmas repetindo o nome de Daniel várias vezes seguidas. Ele se curva em direção ao bolo de chocolate e apaga as velas. A esposa pergunta em tom animado para quem vai o primeiro pedaço. Ele corta e entrega a ela com um beijo agradecido.


Ele pede para Leroy se servir e cortar bolo para as meninas. Logo após, puxa a esposa para um canto.


— Amor, eu vou sair tá bom? Eu vi aquele bar na entrada da cidade e to indo lá — diz colocando seu casaco


— O quê? — fez uma cara de indignação


— Eu prometo que não demoro — deu um selinho nela que não teve nem tempo para raciocinar e se apressou antes que ela pudesse dizer alguma coisa


— Não vai encher a cara de novo hein, e não chegue muito tarde! — Ela fala alto, e ele concorda, pegando a chave de casa e batendo a porta.


Ao voltar para a mesa, seu pai lhe pergunta se era certo um marido não passar o aniversário com a sua mulher. Ela não o responde e direciona sua atenção às filhas perguntando se o bolo estava bom.


***


Ao chegar, Daniel tira a aliança e a guarda no bolso antes de entrar no estabelecimento. Ele ficou feliz que não foi muito difícil convencê-la. Ele nem tentou na verdade, mas porque sabia que até hoje ela permitia muitas coisas, até porque ainda era grata pelo que ele fez no passado.


Entra e vê que é um bar bem iluminado. Fica surpreso. Apesar de ser de beira de estrada, era bem cuidado. Há uma sinuca, bancos vermelhos bonitos no balcão principal e uma máquina de som ao canto que tocava uma música oitentista.


Ele senta e pede um Whisky duplo ao bartender. Enquanto o homem serve o copo, Daniel repara na prateleira colorida de bebidas atrás do homem. Enquanto olha os outros detalhes, ele observa uma moça bonita sentada ao seu lado esquerdo. Ela suga por um canudo uma bebida azul com uma laranja cortada na borda. Ela é bonita, cabelos loiros, aparentava ter na casa dos 20 anos.


— Aqui, senhor. — disse o homem de colete ao lhe dar o copo.


Daniel encara o líquido por um momento. Pensou em como sua vida andava, seu emprego, a família e o tempo. Hoje, ele completou mais um ano de vida insatisfeito. Ele bebe tudo de uma vez e pede outra, deixando o bartender e a mulher ao lado espantados.


— Opa! Vai com calma — fala a mulher rindo com cara de surpresa — assim você vai se afundar rapidinho.


— O quê? — ele pergunta confuso.


— Afundar. — repetiu imitando com a mão um avião caindo enquanto assobiava — eu já vi isso acontecer e não é nada bonito. O que houve? Trabalho ruim? Relação desastrosa? — falou olhando o marca de aliança no dedo dele — eu sei o que é isso, mas nem por isso eu to me afundando também. — disse sugando sua bebida.


— Eu não preciso de ajuda — ele fala segurando o copo novamente cheio. Ela arqueia as sobrancelhas, entorta a cabeça e volta a sua posição normal, já com o pensamento de deixá-lo em paz. — Quem você viu afundar? — pergunta curioso.


Ela o olha e dá um sorriso fraco.


— Meu pai — respira fundo lembrando — ele bebia muito, chegava em casa violento. Isso quase toda noite. Até eu não aguentar mais e ir embora — disse jogando o canudo fora e tomando toda a sua bebida direto do copo. Engoliu e continuou, com uma cara de desconforto — por isso falo pra você ter cuidado. Pra não machucar as pessoas que te amam e se importam com você — levantou-se tirando uma nota do bolso e colocando no balcão, e indo em direção à saída.


— Espera. — ele pede receoso vendo ela parar — fica mais um pouco.


Ela ficou e, em pouco tempo, os dois estavam jogando sinuca e tomando shots de tequila juntos. As horas se passaram entre muitas conversas e risadas. Naquela noite, já de volta ao balcão, bêbado, Daniel conta a ela que perdeu uma promoção no trabalho, foi demitido e agora não sabe o que fazer da vida e nem como irá pagar suas contas daqui pra frente. Fala tudo num ataque de riso, junto dela que dizia morar de favor na casa da irmã, que passou 4 anos se matando numa faculdade para acabar trabalhando naquela cidadezinha miserável por um salário horrível, além de agora estar ficando com um cara mais velho na tentativa de arrancar algum dinheiro dele.


Após a longa risada mórbida, que deixou a barriga deles dolorida, eles se entreolharam sérios. O coração de Daniel batia forte e nada mais importava, só o momento com aquela pessoa especial que conhecera há algumas horas, mas sentia como se fossem anos. Seria isso a incontestável química que havia entre eles? Ou a bebida fazendo efeito? Era bem provável que fosse a segunda opção, mas realmente não importava. Tudo o que fazia sentido pra ele estava ali naquele momento. Era como se depois de tanto tempo sem vida, ele finalmente estivesse vivo de novo.


Daniel fita com vontade os olhos castanhos claros da garota e não se controla, dando um beijo quente e bêbado que foi retribuído com toda intensidade e energia que nela sobrou.


***


Ângela abre a porta do quarto e vai até Daniel, que dorme profundamente, de bruços. Chega perto e vê que ele está sem a aliança no anelar esquerdo. Além da mão estar um pouco suja de sangue. Fica sem reação naquele momento. Engole em seco ao pensar o porquê da falta do objeto, mas ignora os pensamentos e trata de acordar o marido.


— Daniel, levanta — empurra o homem que geme — o papai trouxe uma mulher pra apresentar pra gente. Namorada dele, acredita? Mais jovem que eu, a menina. Fala amarrando o cabelo ondulado num coque de frente ao espelho. — bora, levanta — dá mais alguns empurrões nele. — você tá quente e fedendo. Vai tomar um banho. Eu te espero lá embaixo. — sai, batendo a porta do quarto.


Daniel levanta, sentindo um mau estar, dor de cabeça e o corpo quente. Sente o peito e a testa escorrer de suor. Estava com febre, ainda com sequelas da mordida, com certeza.


Desenrolou o curativo devagar e tirou as gases que saíram numa liga do pulso inchado e com pus com alguns pontinhos pretos na ferida que Daniel não identificou o que eram. Não entende como aquilo infeccionou tão rápido. O odor exalava no banheiro.


Liga a torneira e coloca o pulso embaixo d'água, apertando as feridas o máximo que pôde, tentando controlar a dor, até elas sangrarem e escorrerem numa mistura de vermelho e verde. Fez isso o máximo que pôde, até desinchar mais o local. O homem então lava bem o braço, o rosto, passa uma pomada e refaz o curativo. Tira a aliança do bolso e coloca novamente no dedo antes de escovar os dentes e descer.


Passa pela sala e ouve barulho de fritura. Entra na cozinha e vê a esposa no balcão falando com o pai, as filhas na mesa e uma garota loira de frente para o fogão que vira para ele logo quando o rapaz começa a achar a sua anatomia familiar.


Nesse momento, Daniel gela ao ver quem está ali: A GAROTA DO BAR!

Notas finais
No próximo capítulo os arcos começam a se entrelaçar de verdade. Deixe seu feedback e diga o que achou! ;D