Insanidade

3 As piores decisões


Notas iniciais
Hoje vamos conhecer uma chave fundamental desse enredo :D

— Daniel, essa é Ashley, minha namorada. — Diz Leroy após levantar e ir para próximo da moça.


Ele tenta disfarçar o choque daquela informação. A encara surpreso e assustado. Ela, por sua vez, deixa a frigideira que segurava escapar de suas mãos ao vê-lo. O objeto foi ao chão virado para cima fazendo o óleo quente respingar após o baque, sujando tudo ao seu redor, incluindo a perna de Ashley, já que caíra uma parte considerável nela. Ela gemeu ao sentir a ardência. Após rápidos segundos processando a dor, ela se desculpou por ser tão desastrada e se agachou, com dificuldade, dizendo que limparia tudo.


Todos se afastam no susto. Ângela manda as filhas para a sala e diz que subirá para pegar o material de limpeza e que não era para Ashley se preocupar. Enquanto isso, Leroy correu atrás de um kit de primeiros socorros que tinha, para cuidar das queimaduras da namorada.


No momento, a cozinha é só deles. Daniel a ajuda a se sentar e começa:


— Namorado?! — falou um pouco alto e ela o mandou abaixar o tom — esse é o cara mais velho que você arranca dinheiro? O pai da minha mulher?


— O que?! — esticou o pescoço pra ver se alguém vinha, vendo que não, continuou — Tá me cobrando, é? E você que ainda é casado? Mostra sua mão agora, quero ver — disse ela mesma puxando a mão dele e fixando seu olhar no dedo anelar — aí está. Pelo visto não era só uma marca, mentiroso, filho de uma puta! — gritou em forma de sussurro após soltá-lo. A expressão dele é de desconcertado.


— A minha relação com ela não anda lá essas coisas, tá bom? — tenta se explicar.


Ela vira o rosto para o lado não querendo mais ouvi-lo.


— Isso não interessa, ontem você me contou que tinha se separado e que não tinha filhos. Qual o seu problema?!


— Nenhum, mas eu gostei de você. Se eu dissesse que era casado você olharia pra mim?


— Claro que não! Você acha mesmo que eu vou querer essa encrenca pra mim?


— Exato. — Ela gargalha como se não acreditasse naquele diálogo. — Mas você deixa o velho te chamar de namorada, sendo que você fica traindo ele, não é? — ela direciona seu olhar para ele, séria — você não é muito melhor que eu, Ashley. Você trai, eu também, acontece. Não foi só eu, você também esqueceu de contar algumas coisas ontem à noite. Namoro é muito mais pesado. Então, estamos quites. — sorriu para ela com cara de quem acreditava fielmente naquilo.


Leroy volta com o kit de primeiros socorros e Daniel sai deixando Ashley pensativa.


Após a limpeza da bagunça todos se sentaram à mesa, comiam. As meninas já haviam merendado e estavam em outro cômodo da casa.


Ashley está com a perna enfaixada. A queimadura não foi grave, apenas deixou sua pele com uma vermelhidão. Ela passou uma pomada que Leroy lhe deu, aliviando a dor.


Ele corta seu bife enquanto comenta que havia deixado um descongelando em um prato na geladeira, mas que sumiu essa manhã. Pergunta se a filha ou o genro comeram, mas negam. Ele estranha.


Por um momento que parece uma eternidade, eles ficaram em silêncio.


—Então — Daniel começa — Como vocês se conheceram? — pergunta, quebrando o estridente clima desconfortável.


Leroy o olha. Não esperava a pergunta repentina. Ri olhando para Ashley e começa a contar.


— Faz alguns meses que ela veio trabalhar na funerária que eu sou sócio. Eu me interessei nela, passou um tempo e eu a chamei pra sair. Ela relutou no início, mas depois aceitou, pra minha felicidade.


— Pouco tempo depois ele me pediu em namoro — completa Ashley — no carro. Foi uma coisa simples, porém linda. Olha só o que ele me deu de presente depois disso. — ergue o colar dourado com um pingente em formato de sereia, mostrando para o casal.


— Nossa, que lindo. — Ângela força um sorriso, tentando achar normal a situação. — E foi caro? — soltou, temendo ser indelicada, mas tarde demais.


Leroy ia responder, mas Ashley interveio.


— Mesmo se fosse de plástico, eu amaria do mesmo jeito. Pra mim o que importa é o significado.


“Sei”. Pensou Ângela.


— E o que você faz na funerária, Ashley? — Pergunta Angela, ainda curiosa.


— Eu cuido da parte administrativa. Gosto muito de lá, mesmo que nos últimos dias o trabalho tenha aumentado muito, mas eu entendo. Cidade pequena é assim mesmo, até porque só há uma funerária aqui. O jeito é aguentar.


Leroy se preocupa com o que a namorada disse e indaga se ela precisa de ajuda, ela disse que não queria incomodá-lo com esses assuntos, mas sim. Ela pensava que talvez não desse conta de tanta papelada para resolver. Em seguida, por sorte, Daniel se oferece, mostrando conhecimento em informática e áreas afins.


Antes de Leroy pensar em outra possibilidade, Ashley concorda com a ideia, antes de lançar um sorriso para Daniel que significa muito mais do que uma simples gentileza.


***


Daniel abre a porta da sala de produtos de limpeza e sai abotoando a camisa, enquanto Ashley veste sua calça.


Passaram-se alguns dias desde que Daniel resolveu trabalhar com Ashley. A infecção de Daniel cessou e sua saúde e principalmente sua libido estavam melhores do que nunca.


No começo, Ashley até tentou bancar a difícil, mas em pouco tempo já estava o agarrando e o levando para as salas livres.


Normalmente, o dono do local, Richard, saia e deixava os dois para arrumar e fechar tudo. Confiava a chave à garota porque seu amigo Leroy confiava nela. Ao final de toda noite, Daniel a deixava em casa de carro, assim poupando Leroy do trabalho.


— Ashley, eu pensei que talvez a gente pudesse arrumar outro lugar pra nós. Na funerária é perigoso. Qualquer dia a gente corre o risco de sermos pegos. Você não acha? — fala tentando não tirar os olhos da estrada, mas viu a moça dar de ombros antes de respondê-lo.


— Pode até ser, mas assim é muito melhor, é mais excitante. — sorri demonstrando animação, dando um beijo no pescoço de Daniel, o deixando arrepiado.


Após deixá-la na casa de Amanda, sua irmã mais velha, ele parte.


***


Ângela mastiga sua comida distraída, até perceber que o pai está com o olhar fixo no prato, sem mesmo tocá-lo.


— Pai? — pergunta preocupada — O que houve? Não gostou da comida?


— Não filha. Está muito bom — disse, enfiando o garfo em um pedaço de frango e levando até a boca. Mastiga e faz cara de prazer sorrindo para ela.


— Que bom que gostou — sorri fracamente, com desconfiança no olhar — , mas não parece ser só isso. Fala pra mim, o que foi de verdade? — Como ele demora a responder, a filha continua — Pode falar pai. Quem sabe eu possa ajudar o senhor.


Leroy pensou bem. Talvez é disso que ele precisa, conselho feminino.


Leroy explica para a filha que ultimamente sente com cada vez mais frequência a distância de Ashley. No fim, pergunta se ela sabe alguma forma de trazê-la mais para perto dele.


— Bom… — Ângela pensou, até que teve uma ideia. Mesmo não gostando da loira, ela resolveu que o melhor é ajudar o pai e, se possível, fazer o seu velho um pouco mais feliz — sabe pai, eu sei como o senhor é, típico homem que esquece aniversários e não leva pra sair. Algumas vezes é bom mudar, sabe? Eu pensei em uma coisa, mas só se o senhor concordar.


***


Ângela está em sua cama dormindo. Vira-se para o lado onde deveria estar o marido e estica o braço. Não sentindo nada, ela abre os olhos. Daniel não está ali. No entanto, ele já havia chegado em casa. Estranha.


Sai do quarto e vê a porta do banheiro ao final do corredor, aberta, mas com a luz apagada, indicando não haver ninguém ali. Decide conferir no andar de baixo.


Desce as escadas forçando os olhos a enxergar na escuridão. Entre as opções de conferir na sala ou cozinha, escolhe a segunda, visto que os feixes de luz escapando da fresta inferior, chamam sua atenção. Empurra a porta e constata que o brilho vem da geladeira aberta. A claridade branca e fraca ilumina parte do cômodo, mas não havia ninguém ali além dela. A mulher se aproxima e a fecha, no entanto, no mesmo momento, escuta uma pancada forte que a faz tremer. Era um som característico de vidro quebrado seguido por algo batendo no chão.


Em silêncio, ouve apenas seu coração pulsando forte no peito e a respiração acelerada. Pensa ter ouvido passos rápidos, depois visto um vulto, visível pela fenda da porta entreaberta, que passou correndo em alta velocidade. Seu coração acelerou ainda mais e ela deu alguns passos para trás. Engoliu em seco, assustada, querendo evitar esse sentimento, pois provavelmente era o marido, mas de madrugada, com a falta de luz, era quase impossível manter-se corajosa. Depois de um momento, não ouviu mais nada.


Respira fundo, toma coragem e anda a passos lentos, percorrendo a cozinha até chegar ao corredor principal. Tateou a parede em busca do interruptor e ligou a luz.


Na sala, fez a mesma coisa, vendo o local vazio. Enxergou a televisão caída de tela para o chão. Confusa, ela olha para as janelas procurando qualquer sinal de arrombamento, porém tudo aparenta sua perfeita normalidade. Só pode ser ele, mas por quê? Até aqui?


— Quem está aí?! Eu estou armado! — ouve a voz do pai, que ecoa no corredor.


— Sou eu, pai! — disse seguindo a voz.


Sai da sala e vai até o pé da escada. Para sua surpresa, ele segurava o que parece uma espingarda.


— Que barulho foi esse?


Pensa em indagá-lo sobre a arma, mas resolve responder sua pergunta, tendo que se colocar como culpada, visto que sabe muito bem o que está acontecendo e não quer deixar Daniel com a imagem manchada aos olhos do pai, mais do que já era.


— Nada pai. — tenta — Eu acabei ficando com sede, desci pra beber água e acabei tropeçando. — se espreguiçou, bocejando falsamente — Me desculpa, mas eu acho que quebrei a tv da sala — Mantém uma expressão como a de quem fez uma besteira grande e não sabe como contar — , mas não se preocupe, eu vou pagar pelo estrago, prometo.


— Minha televisão? — ele vira a mira da arma para cima e descansa, desfazendo a expressão de preocupação — não, tudo bem. Já estava começando a achar que alguém tinha invadido a casa. Amanhã a gente conversa sobre esse lance da tv, tá bom? — ela confirma com a cabeça e ele vira voltando ao quarto. Dá alguns passos e para como se tivesse se lembrado de alguma coisa — Só me explica mais uma coisa — olhou para a filha de volta — como foi que você desceu para beber água e acabou na sala, sendo que a cozinha fica do outro lado?


— Ah... — Ela desviou de seu olhar tentando pensar rápido numa resposta — estava escuro — tentou outra vez. — Eu desci com sono e acabei confundindo os lados. — Gesticulava até demais, voltando a encará-lo torcendo para que ele acreditasse.


O pai a observa por uns segundos, balança a cabeça e voltar definitivamente ao quarto. Angela respira aliviada e faz o mesmo.


Daniel está deitado como se nem tivesse se mexido, parecendo estar num sono profundo. A esposa então tranca a porta e deita ao seu lado.


— Daniel? — chamou baixinho olhando o marido que apenas continua a dormir. Pensa que no momento ele está sob forte estresse, devido aos acontecimentos recentes. Tenta entender a situação. Por fim, o abraça e retorna ao sono.

No dia seguinte, o pai levou a TV para o conserto e Ângela pensou em falar com Daniel sobre o acontecido, mas por algum motivo não fez. No fim das contas, não era muito importante. Esperava que trancar a porta resolvesse. Às vezes sim, outras não. São fases e fases.

Notas finais
Daniel não é nenhum santo, mas quanto tempo será que sua máscara irá durar? Diga o que gostou e o que acha que precisa ser melhorado ;D Até a próxima!