Insanidade
10 A verdade tem gosto amargo
Notas iniciais
Subiu as escadas, trocou de roupa rápido e levou suas filhas para ficarem com a Sra Clark novamente até ela retornar. Apesar de Dothy, sua filha mais velha, estar já crescida, não achava seguro ela sozinha com a irmã mais nova, pois era paranóica com a ideia de acidentes.
Tocou a campainha e em poucos segundos a gentil mulher apareceu.
— Oi, Sra Clark, desculpe incomodar, mas será que você pode tomar conta das meninas por uns minutos até eu voltar? Eu preciso resolver umas coisas e não tenho com quem deixá-las.
— Claro que posso. Podem entrar, por favor. — A pequenina abraçou a mulher pela cintura e entrou. Dothy por sua vez deu um leve sorriso. Não gostava de ficar fora de casa.
— Muito obrigada, Sra Clark. Eu não demoro. — disse fazendo menção de ir, mas antes que pudesse, foi chamada.
— Ângela, só um minuto. — A mulher virou erguendo as sobrancelhas aguardando o assunto. — Eu não quero de forma alguma pressionar você ou te chatear. — falou calmamente, tomando cuidado com as palavras — mas sobre aquele vídeo que mostrei a você semana passada, eu ainda espero uma resposta sua.
— Ah — não soube bem o que responder. Naquele momento, não tinha certeza de nada. — Não. — Mesmo assim, preferiu protegê-lo. — Não é o Daniel. Eu sinceramente não sei quem é aquele maluco no vídeo, mas não é o meu marido. — afirmou erguendo a cabeça, tentando parecer segura do que disse.
A mais velha ouviu, assentiu e se despediu, fechando a porta.
Longe dali, Daniel adentrava a Agência bancária da cidade. Era pequena, mas a única que tinha. Esperava que suprisse sua necessidade. Consigo, carregava uma mala preta para colocar o dinheiro. Infelizmente, não poderia usar a de Ashley, já que agora era a prova de um crime.
Sentou numa mesa onde havia uma mulher mais velha de óculos e coque atendendo.
— Pois não? — falou tirando os olhos do computador.
— Boa tarde. Eu vim aqui descontar esses cheques. — entregou para a mulher que ajeitou os óculos, analisando cuidadosamente os papéis.
Enquanto isso, Ângela estacionou o carro marrom de Leroy em frente a funerária. Viu que a porta estava aberta e entrou. Não demorou muito para Richard aparecer. O homem de bigode segurava um copo de plástico com café, que deixou descansando em cima da mesa da recepção ao vê-la.
— Ângela! Que prazer ver você aqui. — ele sorriu, mas não encostou nela. — A que devo a visita? Está tudo bem? Você está bem?
— Estou sim, obrigada. — sorriu de forma fraca, desejando se livrar rápido daquela conversa. — Eu sei que você pode achar estranho, mas espero que possa me ajudar — ele ouvia com atenção. — Será que você poderia procurar nas câmeras de segurança, as imagens do dia que meu pai morreu? Eu preciso muito ver.
— Oh — Richard pareceu impressionar-se com aquele pedido. — Eu posso sim, deve estar nos arquivos ainda. Normalmente tem um prazo que o sistema exclui automaticamente, mas acho que ainda estão lá. — ela sorriu agradecendo. — Mas você quer mesmo ver isso? Quer dizer, isso é meio estranho, não? Não querendo julgar a sua decisão, mas posso saber o porquê? — Ângela bufou desviando o olhar. Não queria ter que dar explicações para ninguém, mas Richard não era ruim, além de ser amigo de anos do pai. Ela preferiu contar.
— Digamos que eu tenho motivos para acreditar que a morte dele tem muito mais coisas por trás do que contaram pra nós, mas só vendo para ter certeza. — Ele parece se contentar com a resposta, mas a curiosidade era explícita em seu rosto — Pode me mostrar agora? — Ele concordou, a levando até a antiga sala de Ashley.
Ali, ele procurou nos arquivos de vídeo, a data em específico. Ela comentou que era para ele olhar as câmeras da sala do legista e assim o fez. A imagem acelerada revelou, de princípio, o dia normal, tendo apenas o legista fazendo seu trabalho como sempre e indo embora. Aceleraram, no entanto, a imagem de Ashley e Daniel entrando lhes chamou atenção.
— Dê o play. — falou curvada em pé ao lado do homem na cadeira. — Tem como aumentar? — ele clicou no botão de volume até o áudio ficar entendível.
Ao observar os dois entrando aos beijos e se despindo, Richard olhou para Ângela sem mover a cabeça, tentando não chamar sua atenção. Pela reação dela, concluiu que o conteúdo da imagem não lhe era surpresa.
Com uma feição descontente, pediu para que o homem avançasse mais um pouco. Ele só voltou a dar play após Leroy aparecer no vídeo. Os dois acompanharam a filmagem.
Chocados com a discussão, cada um reagiu da sua forma. Após Leroy ser carregado pelos dois para fora do ambiente, Ângela, com voz de choro, disse que Richard já poderia tirar o vídeo. Tentou caminhar para longe, mas sentiu-se fraca e caiu ajoelhada.
— Você está bem? Eu ajudo a se levantar. — estica as mãos para a moça que ergue o braço pedindo para que ele se afaste, ainda ajoelhada com a cabeça apoiada no antebraço. — eu vou buscar água pra você — avisa e sai, dando espaço a ela.
Imóvel, apenas deixava as lágrimas rolarem. Infelizmente dessa vez o choque foi tão forte que apenas chorar não resolveu nada. Por fim, ela gritou, um grito forte e cheio de dor. Fez de uma vez só, parando apenas quando não havia mais ar em seus pulmões.
— Desgraçado!! Desgraçado!! — Ângela esbravejava em fúria batendo os punhos no chão.
Ela não acreditava no que acabara de ver. As palavras que saíram da boca de Daniel foram cruéis. Não sabia quem era aquele homem, mas não era quem estava ao seu lado há tanto tempo. Não conseguia aceitar que aquele era Daniel, um homem que trai a família e mais ainda, o maior responsável por causar a morte de seu pai. De todas as situações que esperava ver, aquela era a mais terrível das várias que imaginou. A partir de agora, as coisas não eram mais as mesmas, sendo necessária alguma atitude de sua parte. Precisava olhá-lo, encará-lo e esclarecer tudo o que estava acontecendo. Se ele fora capaz disso, do que mais seria? A história pavorosa de Ashley poderia ser real? Precisava ir para casa urgente e impedir Daniel de fazer qualquer coisa que atente contra sua família.
Levantou, agarrou sua bolsa e saiu dali o mais depressa possível, ignorando totalmente o homem que voltava com um copo d'água, ainda atônito.
Em casa, Daniel percebeu que a esposa e as filhas não estavam. Não fazia ideia para onde poderiam ter ido, mas ficou feliz, assim poderia esconder a mala recheada com mais facilidade. Ele sabia muito bem onde iria deixar, no porão. Ultimamente, esse tem sido o melhor lugar para esconder coisas, visto que as filhas têm medo e a esposa não entra simplesmente porque nada no lugar lhe interessa.
Ele vai ao porta malas e agarra o objeto preto o levando para dentro. Ao descer as escadas do porão, ele rodou o lugar à procura do canto ideal. Olha a estante velha com várias caixas de ferramentas,livros velhos e outras coisas que não soube dizer o que eram. Afastou uma caixa pesada e colocou a maleta em pé encostada na parede atrás dela. Perfeito. À noite, quando Ângela estivesse dormindo, iria aproveitar para escapar. Assim, quando ela acordasse, até perceber o que tinha acontecido de fato e decidir acionar as autoridades, ele estaria bem longe dali. Hoje era o dia de se libertar de vez, finalmente, sua vitória viria. Só mais algumas horas desse inferno e estarei livre.
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