Notas iniciais
Bem vindos ao meu universo.

Daniel dirige em alta velocidade. Enquanto que com a mão esquerda ele guia o veículo, com a direita ele segura uma garrafa de bebida que acabou de comprar em uma loja de conveniência, e toma o líquido como se o conteúdo alcoólico fosse água. Repetia o gesto de segundo em segundo e fazia a mesma careta depois de todas as goladas. Apesar da bebida descer rasgando seu peito ele não se incomoda, pois é justamente a sensação que o agrada.

O vento gelado entra pela janela e refresca seu rosto. Sua camisa amarrotada e suja de álcool denuncia que o dia não havia sido bom.

Daniel puxa a gola de sua gravata sem tirar os olhos da estrada. Ele movimenta seu pescoço de um lado para o outro tentando facilitar a retirada do tecido. Após conseguir, ele respira fundo sentindo uma sensação de alívio. Tirar aquela gravata era como tirar uma coleira. Uma que o prendeu durante todos esses anos que trabalhou no local. Lugar que apesar de não ser o seu preferido, era o que ele tirava seu sustento.

Anos e anos aguentando toda àquela má educação dos clientes, àquele povo fofoqueiro, àquele patrão insuportável que ele sempre puxava o saco com o objetivo que um dia, aquilo servisse pra alguma coisa, mas não serviu. O cargo de gerente que Daniel tanto esperava receber foi dado a outra pessoa, Michelle Rodrigues. A vagabunda que entrou a pouco menos de um ano e provavelmente só conseguiu porque estava tendo um caso com Charles, seu chefe. Esse era seu grande mérito, dar para Charles. Até ele daria se pudesse, melhor que trabalhar duro tantos anos pra nada. Durante 10 anos de sua vida, foi só isso que ele fez, perdeu tempo.

Falta pouco para chegar em casa e ter que contar à esposa grávida que perdeu o emprego. O que ele fará de agora em diante? Com tudo e depois de tudo? Ele não vê saída, só um grande abismo.

Daniel joga a cabeça para trás só aproveitando um pouco o momento antes do desespero. Uma sensação de repente começa a inundá-lo, a vontade incontrolável de rir e assim o faz. Gargalha, cada vez mais alto. O som inunda o carro e o faz parecer um maluco, rindo sozinho com toda a sensação o preenchendo. Depois de um tempo, para. Pelo menos ali nada poderia tirar a incrível sensação de liberdade. Só agora, estava livre, finalmente livre. Sorri ao pensar nisso.

Volta os olhos para a estrada e vê rapidamente uma figura negra e estranha antes de sentir o baque. Ele imediatamente pisa no freio. O carro parece passar por cima de algo, já que antes de parar ele ergue-se.

Daniel segura forte o volante, assustado. Olha pelo retrovisor algo jogado na estrada. Sai do automóvel, cambaleante e se aproxima com cuidado percebendo que só há ele ali, na estrada completamente vazia. Está escuro, sendo levemente iluminado pela luz da lua. Os faróis do carro que deveriam fazer o serviço estavam na direção oposta à que o homem olhava.

Uma poça vermelha se forma em volta do que parece ser um animal. Ele tem os pelos sujos de terra e sangue. Há muitas feridas em volta do corpo que não parecem ter sido causadas pelo acidente.

Nos machucados, há sangue e pus. O cheiro é nauseante. Aquele animal parece que já está morto há algum tempo. No momento em que Daniel se afasta, ouve um rápido grunhido. Hesitante e sem acreditar no que acaba de ouvir, ele chega mais perto do animal e, achando que aquele som é coisa de sua cabeça, toma uma atitude impensada. Lentamente coloca sua mão perto do focinho da criatura para verificar a respiração. Repara em seus enormes dentes e no conjunto que se assemelha a um cachorro com alguns detalhes mais avantajados e um pouco deformados. Aquilo não é um cachorro, não pode ser.

Tirando Daniel de seus pensamentos, o animal estranho abre os olhos brilhantes e morde o pulso direito do homem de maneira forte e dolorosa, que grita assustado ao mesmo tempo que puxa o braço tentando se soltar, mas o animal não o larga, foi quando Daniel, por desespero, começa a pisar na cabeça daquele bicho até ele soltá-lo.

Após o homem esmagar a cabeça do animal, consegue se livrar da mordida. Estranha como não foi difícil fazer aquilo, visto que o crânio se desfez como uma fruta.

Segura o braço dolorido e sangrando. Ele se move a passos largos em direção ao veículo. Prestes a entrar, Daniel olha para a criatura. Ao espreitar os olhos, percebe um amontoado de vermes se movendo na massa vermelha, gosmenta e levemente esverdeada que havia na cabeça esmagada do estranho animal. A imagem de revirar o estômago em conjunto com o cheiro putrefato e a dor em seu punho fez com que uma forte queimação subisse rápido da barriga de Daniel, que instintivamente se contorce lançando para fora de seu corpo os últimos goles da bebida que tomou.

***

Daniel sai do carro na garagem um pouco zonzo e segura a maçaneta da porta que havia ali, respira alguns segundos e gira. Na cozinha, sua esposa, de costas para ele, frita o que parecia ser bacon e ovos. Daniel repara que a esposa, como está com as mãos ocupadas fazendo o café da manhã, segura um celular entre o rosto e o ombro enquanto murmura alguma coisa. Daniel tem a roupa amarrotada e um olhar caído, já vomitou mais de uma vez durante a madrugada. Agora, só queria deitar e dormir.

Mandy, sua caçula de 6 anos, o vê e corre para abraçá-lo. Ângela vira-se, desliga o fogo e descansa o celular no balcão.

— Querida, suba vai chamar a sua irmã pra tomar café, agora. — a menina obedece e sobe correndo as escadas. — O que deu em você? — dirige-se ao homem enrugando a testa — como é que você faz isso? Me deixa a noite toda preocupada, não atende o telefone e ainda por cima chega em casa nesse estado? — faz uma cara de nojo sentindo o cheiro do marido.

— Eu fui demitido — diz Daniel de uma vez só. Seus olhos começam a ficar vermelhos e encher-se de água.

— Ah amor.. — A expressão de Ângela passa de irritada para desanimada. Faz uma voz de desânimo, puxa Daniel levemente pelo braço e o guia até uma cadeira. Ele senta e ela pergunta o que aconteceu.

— Aquele desgraçado do Charles deu o cargo para outra pessoa — Daniel fala entre soluços — Depois de tanto tempo ali, é isso que eu ganho. Eu fiquei puto de raiva, falei o que não devia e acabei sendo mandado embora. — encerra com as palmas das mãos nos olhos como se segurasse as lágrimas.

Sua esposa em pé puxa a cabeça de Daniel com as mãos pressionando-a contra a sua barriga, de modo a tentar confortá-lo.

— Não se preocupe, a gente supera isso Daniel. — fala, olha para cima e respira fundo, sentindo ele quente. Ela olha para baixo e enquanto ele se afasta um pouco e limpa as lágrimas com as costas das mãos como uma criança, ela também vê em seu pulso direito, uma marca de sangue. Parece que Daniel se machucou feio — O que é isso no seu braço?

— Ah.. — ele balança a cabeça em sinal de negação — pra completar eu ainda atropelei um bicho na estrada. Quando eu saí pra ver o que era, ele me mordeu.

Antes que Ângela possa dizer alguma coisa, o telefone toca. Ela aperta os olhos e lança um sorriso sem dentes ao marido, em seguida pede um segundo a ele e vai atender.

Ele não ouve nada da conversa. Sua atenção está concentrada na noite anterior. Mais do que triste, está apavorado. Não sabe o que fazer.

— Amor. — A mulher volta depois de alguns minutos, com o telefone pressionado contra o peito, de forma a impedir que quem estivesse do outro lado da linha, a ouvisse — é o meu pai. Eu contei o que aconteceu e ele quer que a gente vá visitá-lo. O que você acha?

Daniel a fita por alguns segundos antes de desviar seu olhar para baixo e pensar seriamente na decisão, até que a olha novamente e balança a cabeça em sinal positivo. A expressão dela após o sim do marido naquele momento é de surpresa, ela parece um pouco preocupada antes de dar mais um sorriso e voltar ao telefone. Isso é o que ele mais precisa no momento, um tempo longe de tudo.



Notas finais
O que será que mordeu Daniel na estrada? Será que a situação vai piorar ou melhorar na nova cidade? Fiquem e descubram.