Insanas Doses de Amor
1 Prólogo
Notas iniciais
Às vezes, quando ela acordava, levantar e começar o dia era mais terrível do que a ideia de morrer. E sempre foi assim, ou pelo menos, era como as coisas funcionavam na vida de Wendy.
Ela era uma garota com os seus 17 anos, de alma jovem, mas com um coração pesado e sozinho. Era só mais uma pessoa que já desistira de tentar ser forte, pois a dor sufocava-a de tal maneira que nem as palavras de um bom livro eram-lhe suficientes. Então, o que restava fazer? Para Wendy, o mundo havia tornado-se um pesadelo sem fim, e por mais que as antigas garrafas de vinho de seu pai tenham resolvido certos conflitos internos, agora não tinham efeito algum.
Wendy estava cansada, contudo, o cansaço passou a ser mais mental do que físico. E os cortes em sua pele pálida representavam somente uma falha tentativa de sumir.
Mas hoje, depois de muito tempo, ela encontrava-se preenchida pela coragem. Portanto, fez o que tanto desejava fazer: abriu a gaveta cheia de remédios e começou a tomá-los. Deixou o vinho descer e queimar por sua garganta, carregando vários comprimidos e sonhos despedaçados. Sentiu a vida se esvaziando e, sem temor, possibilitou que as lágrimas escorregassem infinitamente pelo seu delicado rosto.
Aos poucos, o seu corpo foi ficando leve e a vista mais pesada. Wendy permitiu-se cair no chão frio da casa e encostou lentamente a cabeça na mesa de madeira; o seu quarto, o qual estaria completamente escuro, se não fosse o pequeno feixe de luz que entrava pela janela entreaberta, ficou em silêncio. Nem mesmo a batida de seu coração aflito dava-se para ouvir, restando, enfim, apenas aquela menina vazia e uma carta — a qual tinha escrito tempos antes e com muito sufoco — sobre o criado-mudo.
A vida parecia, finalmente, ter seguido um caminho certo, mesmo que esse a levasse para o fim. Restando, assim, apenas as suas poucas palavras em um último desabafo.
“ 21/05/2024
— Destinado ao vento e ao silêncio.
Não sei dizer quantas vezes neguei a realidade que tomara posse de mim; não sei dizer quantas vezes fingi não sentir. Realmente, não sei dizer quantas vezes te apaguei da minha confusa mente.
Busquei em outros um refúgio, e queria acreditar na ilusão criada por mim. Pensei existir uma saída para os sentimentos que tanto me atormentavam, porém, vejo agora o quanto impossível era a realização desse desejo.
Descobri, da pior forma, que quando o coração pulsa de um jeito diferente, e apenas por causa de alguém, já é tarde demais para convencê-lo a se manter sozinho. Acredite, eu tentei. Tentei enganar minha alma com amores insignificantes e com sonhos bizarros, mas acabava sempre retomando a uma única pessoa: você.
Horas de sono foram perdidas devido a essa minha louca obsessão em te querer, e a distância inexplicável que criei insistia em deixar claro o meu medo de amar. E tu, com os olhos de uma cor semelhante ao breu da escuridão, constantemente tentava me reconfortar.
Não, não dá para descontar as complexidades nas frases. E eu sei que nunca seria capaz de pôr em palavras como foi o nosso amor – nosso complexo amor -, até porque esse era o nosso pequeno segredo: um jeito de amar tão doloroso, distante e único.
As pessoas não te entendiam; julgavam-te como um monstro, e eles também acabavam por me machucar. Meu coração não se importava com o que os outros diziam e apenas queria poder permitir que eu fosse eternamente sua, mas minha consciência enxergava os teus atos, e então, se tornou difícil de suportar.
A sua maldade, o seu olhar de fúria e o seu anseio pelo caos eram nítidos. Você nem ao menos escondeu ou disfarçou, e tenho a certeza de que o motivo era eu. Jamais negarei que admirava tudo em ti, inclusive a falta de compaixão em seu interior, contudo, o medo do futuro entre nós era como uma barreira de ferro, e essa aparecia a todo o momento em que você se aproximava de mim. Um calafrio espalhava-se pelo meu corpo, sentia-me sem controle e obrigada a fugir.
Você tinha essa complicada beleza por dentro, a qual causava boatos, sussurros ofensivos e, é claro, a minha atenção.
Quando te olhei pela primeira vez, percebi que ambos de nossos corações eram sombrios e amaldiçoados. Entretanto, você sempre foi somente uma consequência do mundo em que nos encontrávamos; toda a escuridão de sua alma nada mais era do que um minúsculo efeito criado pela sensação de solidão ao observar uma sociedade tão vazia.
E eu? E meu terrível coração? Esse era destruidor por natureza... E como gostaria de odiar tal fato, porém, está no meu sangue o dom de afastar todos e tudo de mim. Mas você sabia disso, e, mesmo assim, foi atrás do que lhe pertencia; talvez de um modo diferente, o qual carregava desespero, sorrisos provocantes e pensamentos sufocantes. Contudo, ainda buscou-me no inferno de meu próprio mundo. Obrigada.
Seu tom ameaçador refletia como um espelho, forçando-me a observar o que sentia. Posso dizer que doeu, e doeu não como uma agulha espetando a pele, e sim, como uma chuva em uma tarde cheia de planos para o verão. Era sempre assim, tudo tão diferente e ameaçador. E você tocou-me como um tornado. Beijou-me como um meteoro atingindo a Terra. Amou-me como se precisasse disso para viver.
Então por que insisti em fugir? Eu não sei! Minha mente gritava e você idolatrava o meu distúrbio amoroso, e esse, era o seu jeito de adorar-me. Adorar-me.
É óbvio que te temi; desejei-te; machuquei-te; afastei-te e te possibilitei uma fixação em mim. No entanto, também te amei. Apaixonei-me perdidamente, de um modo incomparável e assustador. Um amor que neguei, e sei que você adorava isso. Um amor que aparentavam os fantasmas das histórias, pois assombrava minha memória a cada suspiro.
E foi assim que tudo terminou. Você foi levado por um acidente, e eu fiquei por aqui. Fiquei sozinha, como havia previsto.
Mas, agora... Agora que termino de escrever minha carta de despedida, posso dizer – e sem medo ou dificuldade – que te amo.
Eu te amei. E ainda amo. E provavelmente te amarei até mesmo quando não restar mais nada meu nesse universo.
E, amor, hoje sou eu indo atrás de você.
De sua inexistente,
Ass. Wendy.”
Fale com o autor