Insanas Doses de Amor
2 Delírio?
Notas iniciais
Era para eu estar morta.
Morta. Completamente sem vida.
Era para ter dado certo.
Tais pensamentos preenchiam infinitamente o interior de Wendy. Ela não encontrara nenhum sentido no fato de os médicos terem conseguido salvá-la; e a realidade era que nem o Doutor Marck compreendeu o sucesso daquela emergência. Mas, queiram ou não, aconteceu.
Talvez fosse quase oito horas da manhã, no entanto, o céu havia acordado completamente cinza e sem emoção, aparentando, assim, ser tão tarde que o mais recomendável era permanecer deitada na cama o dia todo. E Wendy até levou em consideração essa ideia, porém, o tempo já não tinha muita importância em sua vida. Na verdade, ela estava tentando encontrar algo que a fizesse querer continuar respirando.
Rente à janela, ela observava as pessoas que caminhavam normalmente pelas ruas da cidade. Estava começando a chover; e as gotas da chuva, que caíam aos poucos e deslizavam lentamente pelo vidro, causavam a impressão de que o céu chorava por toda a humanidade, lamentando o futuro destinado para a raça mais capaz de transformar o impossível em conquistas. E, quem sabe, chorava também — com dor e desespero -, por ela.
O seu coração não parava de lembrá-la que ainda permanecia viva, e que teria de responder pelo ato da noite retrasada. O seu pai, um renomado empresário, mal a olhava nos olhos, vi-a como uma aberração que arruinara a sua famosa reputação. Todos sabiam do ocorrido; e, provavelmente, foi o assunto mais comentado pelos cidadãos do município. Afinal, ela era filha de uma pessoa importantíssima, poderosa e conhecida, como poderia ter problemas? Como poderia cometer atitudes insanas?
A menina queria, somente, nunca ter existido, pois desse modo as coisas seriam extremamente mais fáceis. Contudo, ela não possuía essa alternativa, nem ao menos tinha o direito de morrer. Restava, então, procurar um jeito de se afogar dentro do próprio universo caótico existente em si. Encher, sem explicação ou como, os pulmões com as lágrimas dos diversos choros escondidos.
Um som de buzina na garagem a despertou de seus atormentados devaneios, obrigando-a pegar as duas malas pretas ao lado da cama e sair do quarto. Wendy não gritou ou ficou aborrecida com o seu pai quando soube que a mandaria para um centro de reabilitação, mas isso não significa que achava aquela atitude correta. O lugar onde seria sua nova casa era um famoso instituto, que, aparentemente, visava “curar” as aflições e entre outros problemas das pessoas. Era exatamente isso que ninguém entendia: não havia cura para alguém que sentia a mente, a alma e o coração gritando para alertar que aquele mundo não a reconhecia. Que o corpo podia até estar ali fisicamente, porém, internamente, jamais estaria completa por inteira. Não ali.
Enquanto descia as escadas da casa, imaginou meios de fugir daquela situação. Talvez pudesse jogar-se diante dos degraus e torcer para finalmente deixar de respirar, ou simplesmente sair correndo e tentar fugir. Mas, no fundo, sabia o quanto esses pensamentos eram insignificantes ilusões, servindo apenas para torturá-la com falsas esperanças.
Quando chegou na garagem, caminhou em direção à caminhonete cabine dupla e esperou que o seu pai quebrasse o silêncio. No entanto, ele não fez isso, apenas pegou as malas e as pôs dentro do carro, voltando em seguida para o banco do motorista. Wendy suspirou fundo; e, sentindo o corpo amolecer de tristeza, optou em deixá-lo quieto, entrando logo no veículo e se afundando no assento, — uma falha tentativa de ficar invisível.
Não tinha algo mais terrível do que enxergar a decepção nos olhos de alguém que representava o seu porto seguro. Infelizmente, ela não sabia certamente se ele ainda continuava sendo o seu protetor, ou pior, será mesmo que o seu pai um dia fora verdadeiramente a luz iluminando o caminho? Ela não conseguia silenciar essas vozes, as quais a faziam duvidar da única pessoa em quem amava. Porém, a verdade é que seu pai realmente nunca esteve presente, e agora, quando tinha a chance de conversar com a sua única filha, preferiu mandá-la para um lugar isolado, deixando-a sozinha, como de costume.
A viagem até o local destinado não era longa, entretanto, o tempo parecia estar passando tão lentamente que Wendy pensou em já estar há décadas naquele carro. Durante todo o percurso, ela acompanhava com os olhos as distintas árvores que se semelhavam com borrões escuros quando a caminhonete passava em velocidade. Era um caminho distante da cidade, cheio de pinheiros, insetos barulhentos e raramente uma ou outra casa surgiam de vista; exceto isso, não havia absolutamente mais nada e nem ninguém.
As lágrimas começaram a escapar dos olhos claros de Wendy; escorriam incontrolavelmente pelo rosto da jovem e traçavam um caminho transparente em sua pele. E por mais frias que elas estivessem, aquele choro queimava. Queimava como um brasão encostando-se ao corpo, deixando uma insuportável marca. Mas, para ela, a marca significava que todas as pessoas estão sozinhas no mundo. Ninguém nunca poderia socorrê-la.
Era engraçado por um lado, pois ela odiava chorar, e, recentemente, não conseguia guardar as coisas dentro de si. De algum jeito, sempre precisavam sair do seu interior.
A caminhonete felizmente estacionou, permitindo que a menina saísse do automóvel e escondesse o rosto, fazendo com que as lágrimas misturassem-se com as fortes gotas da chuva. E, aos prantos, ela ouviu o que, talvez mais tarde, desejaria jamais ter escutado.
– Aparentemente, não é apenas o céu que está chorando. – Um sussurro desconhecido ecoou pela mente de Wendy, formando leves cochichos confusos dentro de sua cabeça.
Ela virou-se e encarou o pai, entretanto, esse ainda estava dentro do carro e completamente quieto. A garota observou em sua volta, procurou a voz doce e chocante que falara contigo; contudo, com exceção do vento chacoalhando as árvores do campo aberto, havia apenas ela e o homem que a trouxera, ambos silenciosos. Wendy imaginou se já estava enlouquecendo de vez ou se era alguém fazendo alguma brincadeira maldosa.
– Senhor Rubens? – Uma mulher, vestida elegantemente, chamou a atenção dos dois. – Sou Karoline Balt, a vice-diretora do Instituto Nova Ideia.
A senhorita Balt, que trazia dois guarda-chuvas escuros, andou apressadamente de encontro a Wendy e a Henry, depois fez um gesto de cumprimento com as mãos enquanto esboçava um sorriso possivelmente falso.
Em resposta a pergunta, o homem, o qual também apertava a mão de Karoline em sinal de respeito, apresentou-se.
– Prazer, sou Henry Rubens. – Ele correspondeu ao gesto de saudação da vice-diretora e continuou – E essa é Wendy Rubens, a filha a qual te falei.
A senhorita Balt apenas aumentou o seu charmoso sorriso, que era assustadoramente vermelho graças a um forte batom, e logo começou a caminhar em uma direção contrária a deles.
De início, o local aparentava ser um grande espaço vazio com enormes campos e florestas por todos os lados. Porém, um pouco distante de onde eles encontravam-se, um muro extremamente alto erguia-se e deixava o lugar semelhante àquelas fortalezas de bases militares. Gigantesco, provavelmente, é uma palavra muito simples para descrever as tais paredes. Aquilo definitivamente lembrava uma extensa muralha feita de tijolos, e essa era destacada com arames farpados e cortantes na parte superior. Fora isso, havia também um letreiro dourado com o nome da instituição.
– Muita segurança para pessoas as quais eles julgam insanas, não é mesmo? – A mesma voz sussurrou novamente para Wendy, mas aquele som, que invadia com um impacto sobrenatural, não se parecia com o de alguém familiar, pelo menos, não para ela. A jovem sentiu o coração disparar ao perceber que Karoline e Henry continuavam conversando calmamente, sem darem sinal de estranheza ou espanto.
Com toda certeza eles falavam sobre ela; o seu pai aconselhava a vice-diretora do modo como cuidar da – problemática – filha, o que resultava em um exagero na descrição da complexidade de Wendy, e a senhorita Balt alegava estar acostumada com todos esses problemas e que o INI (Instituto Nova Ideia) era o lugar ideal.
Sem perceber, Wendy já estava em frente ao imenso portão de ferro que permitia a entrada para o centro de reabilitação. Por um minuto, ficou imaginando se aquela porta era o único meio de entrar e sair do Instituto, e por que somente um portão para um muro que contornava a imensa região? As perguntas terminaram, por fim, sem respostas, pois Henry e Karoline também haviam chegado.
– Está na hora. O senhor precisa se despedir. – A mulher afastou-se de ambos para que pudessem se abraçar.
– Espere um instante, ele não vai entrar comigo? – Wendy ficara pasma com a voz que a atormentava, contudo, aquela súbita notícia provocara algo mais. Talvez uma mistura de palidez e medo.
– Lamento querida, mas não é permitida a entrada de pessoas que não estejam necessitando de nossa ajuda. – Karoline suspirou um pouco para servir como disfarce, então fingindo realmente sentir algo. — Acreditamos que pode ser perigoso, caso algum indivíduo tente fugir ou até mesmo agredir os responsáveis de outros colegas. Espero que compreenda.
A garota não entendia exatamente o porquê de estar tão nervosa, entretanto, sabia que o ambiente anormal e a mulher de lábios cor de sangue colaboravam de alguma maneira.
– Filha, não piore ainda mais as coisas. Vamos acabar logo com isso.
Ele aproximou-se de Wendy, depois a abraçou como se fosse um brinquedo que seria encaminhado para a caixa de doações. Ela sentiu a barba dele arranhar levemente o seu rosto, e ouviu Henry dizer que aquela atitude era para o bem dela. De fato, era um pedido de desculpas; mas a dor não diminuía.
Foi um adeus simples e breve. Ninguém chorou ou disse palavras amorosas, porém, com exceção da senhorita Balt, também não sorriram.
Wendy observou o seu pai se afastar enquanto era ensopado pela chuva, que na hora já se tornara uma tempestade, e em seguida viu a caminhonete ir embora pela mesma estrada vazia de antes. Ele estava voltando para casa, mesmo sem ela.
– Até quando vou ficar aqui? – Wendy indagou olhando para a mulher, e esperou que a resposta fosse somente alguns dias.
– O tempo que acharmos necessário. – A mulher pousou rapidamente os olhos na menina, e logo os desviou para o portão, o qual estava se abrindo. Mas o sorriso se manteve intacto.
Antes que pudesse discutir sobre esse critério, o barulho das portas se afastando, as gotas tocando violentamente o chão e os trovões a impediram. E, além disso, o seu mais recente distúrbio também a atrapalhou.
– Seja bem vinda ao inferno, Cordis.
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