Insônia
1 Insônia
Notas iniciais
Primeira caneca de café
O computador está desligado, mas a luz irritante do estabilizador continua a piscar como um vagalume sádico. Quero estourá-lo na parede. Se ao menos eu tivesse dinheiro para comprar outro...
A cortina está fechada há algumas horas, talvez dias. Não consigo lembrar. Onde deixei minha calça? Quero cup noodles ou qualquer coisa que pare o ronco da minha barriga.
Onde deixei meu celular?
Ah! Sobre a minha barriga! Não é ela que está roncando, é ele.
“Henry diz: Hey, onde você está?”
Em casa, otário. Mofando. Como sempre.
Segunda caneca de café.
Que horas são? Acordei as nove de ontem... Ou foi de anteontem? Não me lembro de dormir de novo.
Por outro lado, também não me lembro de acordar.
A geladeira está cheia de post-its irritantes. Meu desejo de arrancá-los é quase sexual, mas não posso. Sem eles, não faço nada. Eles são minha memória.
Pego o leite gelado e o entorno sobre o café fervente. Quando o líquido finalmente desce por minha garganta, não fura meu esôfago, embora eu deseje que o faça. A língua adormece e eu acordo.
Volto ao segundo andar, de onde eu nem queria ter saído. Bato a porta do meu quarto com força, sem me preocupar com o barulho. Não é como se ainda houvesse alguém ali para reclamar.
Pessoas como eu não suportam humanos.
Eles fedem a empatia.
Terceira caneca de café.
A bateria do meu celular acaba, mas meu relógio faz questão de estalar cada segundo bem alto na minha mente.
Um segundo a mais. Um segundo a menos.
Levanto da cama com o cobertor ainda em volta de mim. Preciso comer algo mais substancial que saliva ou o sangue da minha língua. Não sei quando comecei a mordê-la.
Não me lembro.
Os corredores da minha casa soam estranhamente silenciosos à noite. Não que agora seja noite. Só aqui dentro.
Da casa ou de mim?
Caminho lentamente até o freezer, me perguntando o que tem para o jantar. Quando o abro, por mais que sinta frio, é um frio acolhedor. Quase... aquecido.
Retiro um dos pedaços de fígado congelado, tomando cuidado para não derrubá-lo no chão. Comida é algo precioso, principalmente quando está com seus dias contados. Não sei o que vou comer quando ela acabar.
Talvez eu não precise saber.
Aqueço o fígado no fogão. O cheiro que sobe é maravilhoso. Apesar de ainda haver arroz na despensa, não o cozinho. Este é o tipo de prato que merece ser comido com o tempero da minha alma.
Solitária.
Quarta caneca de café.
O sono vem apesar da cafeína. Entre cada dose, tento aumentar o intervalo de tempo na esperança de aproveitar ao máximo o efeito. Tudo que eu consigo é senti-lo cada vez mais fraco.
Morrendo.
Não sei há quantas horas tomei a primeira caneca. Não sei nem mesmo se foi a primeira.
Minhas mãos tremem. Tento aquecê-las no cobertor, mas o tremor só piora. Estou perdendo o controle.
Colapsando.
Quinta caneca de café.
Entre um estalar e outro do relógio, fecho os olhos. É menos de um segundo, mas é o suficiente para que eles cheguem até mim, sibilantes como cobras.
Eles sussurram coisas, mas não os ouço.
Esfrego os olhos até que ardam e lacrimejem. Ordeno para que se abram. As pálpebras voltam a se fechar.
Apesar de tudo, não durmo.
Tampouco os ouço.
Sexta caneca de café.
Não consigo ver a luz por detrás da cortina, provavelmente por ela não estar lá. Meus olhos queimam e sinto meus pensamentos lentos, mas não consigo dormir.
Talvez eu não queira.
O livro que eu estava lendo caiu da cama na página 96... Ou 69? Aquilo é um zero?
Meus olhos insistem em se fechar e, toda vez que isso acontece, meu coração acelera. Não posso dormir.
Eles vão me pegar.
Posso ouvi-los rastejando sob meus olhos, implorando pelo meu sono. Eles vão se alimentar de mim. Vão comer a minha alma.
Sétima caneca de café.
Espeto alfinetes sob as minhas unhas para que a dor me impeça de dormir. Não sangro, mas sinto o sangue escorrer.
Ouço algo tremer sobre a bancada do banheiro. É meu celular descarregado.
“Henry diz: A gente ta preocupado com você.”
Apago a mensagem sem responder.
Olho no espelho, sem saber como entrei no banheiro. O vidro está líquido, quase como se fosse me afogar. Vejo todos os meus parentes de pé atrás de mim. Nenhum deles possui olhos.
Quando me viro para o espelho, percebo que nunca o estive olhando.
Quando me viro para trás, não vejo nada. Algo escorre por minhas bochechas.
Só então percebo que não furei apenas meus dedos.
Furei também meus olhos.
Oitava caneca de café.
De alguma forma, consigo chegar à cozinha apesar do escuro e dos alfinetes. Só me lembro de por que andei até ali quando encho, às cegas, mais uma caneca com café e leite.
Meu estômago arde. Parece que vai se fazer em pedaços.
A dor espantou o sono, mas preciso garantir que a cafeína continue circulando em meu sangue. Com o polegar e o indicador, os dois únicos dedos que não furei, seguro a alça quente da caneca e volto ao segundo andar.
Estranhamente, quase não tropeço.
Acho que me acostumei a viver na escuridão.
Nona caneca de café.
Se eu não parar, vou morrer. Nenhum ser humano sobrevive a tanta cafeína assim. Por outro lado, não me sinto como um ser humano.
Será que um dia fui?
Os alfinetes já não estão em meus dedos. Depois de algum tempo, o incômodo que eles provocavam parou de fazer efeito, então precisei arrancar as unhas com um alicate para conseguir algum resultado. Como nem assim senti dor, precisei substituí-las, uma a uma, por pedaços de vidro.
Pedaços de espelho.
Não me lembro de ter andado até o alicate, muito menos até o espelho. Meus passos parecem ser não só cegos, mas inconscientes.
Também não me lembro de ter caminhado até o freezer e, de lá, tirado um pedaço de coração congelado, o último. Nem de ter voltado à cozinha e o esquentado.
O cheiro é divino.
Mordo a carne cozida, sentindo o resquício de humanidade que circula por ela. Lembro-me de quando o coração ainda batia no peito de minha mãe. Ela não gostou da ideia de eu arrancá-lo. Nem meu pai ou meus irmãos.
Mas eu tinha fome.
Muita fome.
Agora nada disso importa. Mortos não falam.
Principalmente os congelados.
Décimo copo de café.
O ar do meu quarto está abafado. Não consigo respirar.
Não consigo mais manter a cafeína no meu corpo e quanto mais ela sai, mais eles falam. Uma hora, eu vou ouvi-los. Eles sabem que vou.
Eles querem comer minha alma de novo.
Da última vez, eu senti fome. Muita fome. E matei todos.
Agora que todos estão mortos, quem eu vou matar?
Vomito sangue pela terceira vez. Sei que é sangue porque sinto o gosto.
Ouço um ruído de computador, mas não me lembro de tê-lo ligado. Quando me aproximo, sinto que há mais alguém comigo, alguém que não estava ali, e sei que os pesadelos me pegaram. Sei que eles me pegaram porque volto a ver.
Com a visão, vem a fome.
Me aproximo mais um pouco e vejo, através de toda a escuridão, um humano. Ele olha atentamente para a tela do computador, lendo uma história.
“...Lendo uma história.”, a tela repete.
Talvez eu não precise procurar por comida.
Eles vão me pegar.
Eles vão te pegar.
Te peguei.
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