Insólito Ardor

3 02. Presunção


Notas iniciais
Hoje é dia de que? Isso mesmo, de capítulo novo o//// Quero agradecer pelos comentários, fico muito contente que estejam apreciando a história, de verdade. Aaaaah, esse mês são dois capítulos, certo? Pelo que estava vendo no calendário, março vão ser dois capítulos *o* Interessante. Agora sim capítulos que fazem jus à mim: quase 5.000 palavras ♥3333 Enfim, sem mais delongas Boa leitura!

02. PRESUNÇÃO

[...]

A nave de Slade partiu, levando consigo uma convidada mais do que especial até Arelyn. Mantendo uma distância segura da mulher, Slade sentava-se ainda em sua cadeira de comando, enquanto Koryand'r prostrava-se perto dos atiradores.

O caminho foi silencioso, sem provocações ou algum desvio de rota, exceto pela pequena parada em Heller onde Koryand'r entrou em contato com o líder do esquadrão militar do imperador Markov, Garfield, pedindo auxílio naquela missão mínima.

Com um atraso de quase duas horas, a nave Aleryana pousou no hangar militar da Cidade Central descendo deles uma Tamaraniana e um Helleriano com ares completamente diferentes dos soldados comuns daquele planeta.

Com repulsa, Slade chamou-os até a sala do Marechal para uma breve reunião a fim de deixá-los informados de tudo que precisavam saber sobre o grupo encrenqueiro da cidade.

[...]

— Dick, o café está na mesa. — chamou Rachel sentando-se a mesa passando manteiga em uma fatia de pão.

— Já vou. — avisou o rapaz de dentro do quarto fechado.

Rachel deu de ombros e continuou a comer enchendo um copo com suco de Aracna e servindo-se da bebida verde. Dick saiu arrumado, com uma calça jeans, camisa social azul marinha e um sapato esporte fino; papeladas em mãos e uma gravata jogada por cima dos ombros completavam o visual.

— Estou atrasado. — resmungou jogando os papéis em cima do sofá e sentando-se a mesa: — Tenho uma reunião importante da construção do prédio imperial no centro. — comentou.

— Não sei porque você ainda faz trabalhos para eles, até onde sei nós lutamos contra esses gastos desnecessários de dinheiro. — comentou Rachel.

— Será que não é porque eu tenho de colocar comida nessa casa? — ironizou ele.

— Idiota. — resmungou a garota limpando a boca e se levantando.

— Já esta atrasada? — comentou ele zombeteiro.

— Não mais do que você. —retrucou dando-lhe um beijo na bochecha e saindo de casa apressada para a faculdade de enfermagem.

Em Arelyn, as mulheres não eram muito bem valorizadas. Portanto, existiam certos serviços os quais elas eram aptas a fazer; dentre eles enfermagem — curas, medicamentos, poções —, e mecânica. Além, lógico, do trabalho militar que rendia o respeito total e absoluto na Cidade Central.

Rachel apressou o passo pelas ruas movimentadas da manhã de uma nova semana. Mochila nas costas, um caderno grosso de cura e olhos atentos, a Azurathiana seguiu caminho pelas largas ruas da cidade central observada por centenas de milhares de câmeras. Toda a cidade era monitorada por câmeras e escutas a fim de diminuir a criminalidade — obviamente a privacidade espairecia junto —, sendo comprovada a diminuição dos roubos da Cidade Central.

Assim que Dick terminou o seu café, uns cinco minutos após Rachel deixar o apartamento, saiu seguindo caminho até o centro onde mostraria seus planos para o novo prédio imperial do Ra's.

Como arquiteto do império, ele era o responsável por parte dos desenhos de futuras obras, sendo bem reconhecido pelos militares em questão.

Conseguiu chegar a tempo para a reunião com engenheiros escolhidos à dedo pelo próprio Imperador, Dick sentou-se no seu lugar à mesa para iniciar a reunião.

O líder daquele grupo começou a falar sobre infraestruturas e a importância de aumentar as instalações hospitalares na grande cidade. Outro homem rebateu a afirmação do iniciador, afirmando que a necessidade de Aleryn se dava aos prédios governamentais, sem ligação alguma com o povo.

A discussão se estendeu por alguns poucos minutos, dividindo o grupo da sala em dois. Dick somente assistia a discussão infundada, já que a instalação já havia sido decidida e seus papéis de propostas estavam em mãos.

Richard pigarreou chamando a atenção dos homens:

— Senhores — começou: —, vamos tentar não discutir sobre isso. Já foi decidido o que será feito.

— O rapaz está certo. — comentou um senhor de aparentemente sessenta anos: — Parem de agir como mulheres e sentem-se. Afinal o arquiteto imperial tomou a palavra.

Como alunos comportados, obedeceram a ordem do superior sentando-se a contra gosto em suas cadeiras. Richard agradeceu o senhor com um aceno e seguiu para frente.

Colocou os papéis na scanner que mostrou na tela a estrutura do mais novo prédio de Ra's. Inspirou fundo e começou o debate.

[...]

— Está atrasada logo no primeiro dia? — zombou uma mulher de cabelo rosa e uma roupa social branca e preta, uma das professoras da Universidade, a qual também deu aulas no Ensino Médio para Rachel.

— Desculpe professora, culpa do Dick. — respondeu ela correndo pelos portões. A mulher riu subindo as escadas para a sala dos veteranos.

Rachel chegou até as catracas validando seu cartão com uma moça para então prosseguir. Assim que entrou na faculdade se sentiu fascinada. Parecia tão simples por fora, mas por dentro era maravilhosa.

O espaço coletivo da faculdade era uma cúpula imensa, com o teto totalmente de vidro, podendo ver o céu estrelado — tanto de dia como de noite — com nitidez, os bancos eram também de um vidro azul reforçado, o piso era branco e liso, quase escorregadio, e várias mulheres e moças conversando entre si.

A universidade a qual se encontrava era exclusiva para mulheres, desde as professoras até alunas. Portanto, encontrar homens ali dentro eram em ocasiões especiais: Guardas fazendo ronda, conselheiros da escola ou eventos onde parentes apareciam; este último era o mais raro.

Rachel inspirou fundo e rumou até sua sala para começar seu primeiro dia de enfermagem.

[...]

Slade havia entrado em parafusos com aquela reunião. Tanto a Comandante de Tamaran quando o de Heller faziam perguntas ao Marechal em zombaria aos Aleryanos. Palavra por palavra, tudo o que saia de suas bocas eram ofensas grotescas que faria qualquer um esconder-se de vergonha. Slade detestava-os com todo seu ser.

Assim que deixaram a sala para fazer uma ronda na cidade, o Marechal cuspiu-lhe umas poucas palavras: "Não os provoque, não quero Heller e Tamaran contra nós, Wilson".

Slade grunhiu. Desde quando ele provocava seres de fora? Afinal ele era somente um Aleryano contra dois monstros, e era exatamente isso que o perturbava. Afinal de contas, o quão perigosos eles poderiam ser?

[...]

Depois do dia puxado, Dick jogou-se no sofá exausto permitindo-se fechar os olhos por breves momentos no aconchego das almofadas. Sentiu seu corpo relaxar, mas claro que o barulho da porta da frente quase sendo arrancada por Rachel o perturbou.

— já chegou? Que bom! — exclamou a irmã mais nova deixando suas coisas na mesa: — Hoje foi tão incrível. Nunca imaginei que uma Universidade fosse daquele jeito. Era tão... gigante! — comentou aproximando-se do irmão gesticulando com as mãos totalmente fascinada.

Dick sorriu:

— Que bom que gostou, sabia que era bem a sua cara. — respondeu o homem sorrindo-lhe amoroso: —Já teve alguma aula importante, ou só apresentação?

— Só apresentação. — afirmou indo até a cozinha atrás do refrescante suco de Aracna: — Quer um copo?

Dick aquiesceu levantando-se em resmungos cansados. Pegou o copo oferecido pela irmã mais nova debruçando-se no balcão da cozinha. Bebericou um pouco do suco levando os olhos até o rosto radiante de Rachel que o encarava.

— O que foi? — perguntou curioso. Ela sorriu aproximando-se:

— Gilders, lembra? —sua voz saiu animada e totalmente empolgada; já Richard não demonstrou animação. Estava exausto.

— Verdade. — respondeu somente isso virando o copo: — Combinamos que seria hoje?

— Dick. — Rachel o repreendeu: — Você prometeu!

— Eu sei, eu sei. Só uma pergunta inocente. — afagou os cabelos azuis da caçula ouvindo protestos da mesma: — Vamos depois da janta, pode ser?

Ela sorriu aquiescendo radiante.

[...]

Rachel entrou em seu quarto fechando a porta inspirando fundo. Estava tão ansiosa para ir à Gilders que nem mesmo conseguia controlar direito seus poderes, o que lhe custou duas ou três latas de lixo explodindo nas ruas do caminho da Universidade até o apartamento.

Claro, conferiu que ninguém percebeu que era ela para não a ligarem com a Corvo. Era uma oportunidade única, e poder participar dela com Dick era o maior dos seus sonhos sendo realizados.

Agachou-se ao lado de sua cama:

— Silkie. — chamou ela acenando para baixo da cama. De lá, saiu um animalzinho, mais parecido com uma larva gigante, sorridente e aparentemente faminto.

Ela o pegou no colo acariciando-o: — Como está meu bichinho lindo? Está com fome?

O animal resmungou como se entendesse o que Rachel perguntara. Assim, a maga o deixou na cama e foi atrás de seu compartimento secreto no guarda-roupa em busca da ração do animalzinho.

Pegou o grande pacote enchendo seu pote e servindo-o ainda em cima da cama. Não se importou com a sujeira que ele estava fazendo, ela limparia depois. Agora tinha de escolher a roupa que usaria para a festa, e precisava ser perfeita para que fosse notada por ele.

[...]

A noite caiu, e junto dela vários jovens começaram a lotar as ruas. Entre eles, vários membros dos Titãs Alelos passeavam pelas ruas rindo e se divertindo em mais uma noite estrelada.

Como Aleryn era um ponto de comércio muito importante, ter diversos seres de diversas constelações era muito comum, portanto quando o grupo passou ao lado de Korynd'r e Garfield mal notaram o olhar analítico que a dupla lhes lançou; claro, exceto SuperBoy.

O rapaz retornou o olhar na mesma intensidade chamando a atenção de Logan para si. Se Cassie não o tivesse chamado com certeza teria começado uma briga sem cabimento com o Helleriano.

Partiram assim para lados opostos com Connor totalmente incomodado.

Garfield bufou irritando: — Sério, todos daqui parecem ter algum problema comigo. — resmungou sem ânimo algum. Koryand'r riu.

— Você é verde, Gar! Eles só se interessam. — relembrou a mulher o segurando pelo braço enquanto o mesmo grunhia ofendido:

— E isso é motivo para me encararem com desdém? Eu acho que não. — cuspiu ainda irritado.

— Você também os encara. Se parar de olhar para todos como se fosse devorá-los, talvez parassem de reparar em você. — ponderou Koryand'r tirando um sorriso de Garfield.

— Você faz a mesma coisa, sabia?

— Mas sou tamaraniana. Serei temida de qualquer forma. — dando de ombros, a ruiva soltou sem braço descendo os dedos até a mão do Logan que a enlaçou fortemente.

Garfield sorriu puxando-a para perto roubando-lhe um beijo. Koryand'r sorriu deixando-se levar pelos carinhos do rapaz, nem se importando se estavam na rua, ou costumes velhos e antigos sobre conservação.

— Vamos fazer uma patrulha, irei pelos céus. — avisou a amante soltando-se dele e voando por cima dos prédios altos. Garfield apressou o passo como se estivesse preste a iniciar uma maratona, esticou os braços para frente pulando e tocando as mãos ao chão as quais transformaram-se em patas, e o resto do corpo ganhou pelos.

Com um grunhido amedrontador, a fera partiu pelas ruas causando pânico a quem passava.

[...]

— Não acredito que estou indo em uma balada. — comentou Rachel radiante colocando alguns adereços em seu corpo coberto por um vestido transversal preto.

— Acredite. — salientou Dick sentado na cama lilás da irmã caçula: — Mas não é nada disso que você pensa. É chato, barulhento e trabalhoso.

— Trabalhoso? — indagou a caçula rindo.

— Claro, você indo desse jeito terei muito trabalho para espantar tanto homem. — comentou ele piscando-lhe o olho.

Rachel corou:

— Richard!

— Ora, é a verdade. — emendou o rapaz encarando as horas: — Mas sim, você está linda.

Ela sorriu para seu reflexo no espelho. Afinal de contas, fora chamada de linda por ele, certo?

— Olha a hora, chegar cedo não é legal, mas chegar no dia seguinte já é apelação. — ralhou o rapaz recebendo um sinal obsceno com os dedos da irmã.

— Já estou pronta, ok? — falou ela pegando sua bolsa: — Podemos ir?

— Claro. — respondeu o rapaz indo até a saída seguido pela irmã ainda visivelmente corada.

Deixaram o condomínio as dez horas da noite e seguiram para as ruas. Estavam exclusivamente claras naquela noite com tantos cristais florescentes dispersos pelo ambiente, em tons verdes e azuis. Talvez para alguns estivesse meio fúnebre, mas pare eles estava ideal para uma saída de solteiros.

Gilders não ficava tão longe de seu apartamento, levando somente uns cinco minutos de caminhada, conversa e risos.O caminho repleto de jovens festeiros aproveitando mais um dia, como muitos outros foram: alegres e cheios e vida.

Chegaram em frente a grande edificação. Diferente do que Rachel imaginara, Gilders não passava de um imenso prédio com luzes e um letreiro escrito em uma língua a qual desconhecia. Ficou curiosa, mas decidiu somente animar-se.

Haviam várias pessoas em frente à fachada conversando e rindo, bloqueando o espaço de entrada.

— Esse lugar é controlado por Tanagarianos. — comentou Dick vislumbrando o arredor: — Um pequeno grupo deles, na verdade. Dizem que foram banidos.

— E porquê vieram para cá? — indagou Rachel curiosa ainda tentando entender o significado dos símbolos no letreiro.

— Aqui é um planeta liberal. O que mais tem aqui são marginais. Me surpreende que não saiba disso. — a encarou antes de segurar em seu braço e entrar no edifício. Sequer foi barrado ou exigido alguma espécie de passaporte; o que intrigou e muito a irmã mais nova.

Assim que entraram, Rachel permitiu-se ficar de queixo caído perante o interior. Um imenso salão dividido em dois andares; o térreo e um mezanino com corredores de segurança os enlaçando; luzes de todos os tipos, pessoas dançando, bebendo e rindo; um grande bar bem no canto esquerdo da pista, pegando toda a parede de fora à fora. A pista de dança era rebaixada dois degraus, e mesas, sofás e cadeiras dispostos todos no segundo andar com acesso pela escada central larga, como encontrada em castelos e palácios de renome.

Realmente, era belo. A decoração era escura, dando um ar fúnebre ao ambiente, mas ao mesmo tempo refinado. Era — sem dúvidas — um lugar luxuoso.

— Uau!

Foi tudo que Rachel conseguiu dizer ou demonstrar. Dick somente riu:

— Achei que teria outro tipo de reação. — zombou da cara de fascínio da caçula: — Mas sim, "uau".

— Você gosta desse lugar? — perguntou a irmã entusiasmada já descendo para a pista de dança e se misturando à multidão.

— Não. Muitas músicas irritantes, além de ser chata e cheia de luzes. Prefiro bares. — respondeu seguindo com dificuldade a irmã.

— Eu amo musicas desse estilo. — gritou eufórica.

— Bom pra você.

— Queria saber dançar, mas por culpa de um certo alguém nem consigo. — ralhou, mas sem decepção nenhuma na voz.

— Queria o que? Que te trouxesse aqui com identidade falsa? Até dias atrás ainda estava nas fraldas.

— Ha-ha. Engraçado você! — Rachel deu de ombros atravessando a pista e chegando ao bar: — Mas obrigada mesmo assim, Dick.

Ele aquiesceu sentando em uma das banquetas:

— Pode ir dançar se quiser, qualquer coisa é só lembrar das coisas que te ensinei.

— O que?

— Primeiro chuta, depois soca. — respondeu ele sorrindo acompanhado de Rachel. Ela aquiesceu indo até a multidão e começando a dançar, ainda que desengonçada.

Richard sorriu para ela pedindo uma bebida quente ao barman na sequência. Acomodou-se na bancada, e começou a contagem regressiva de duas à três horas para poder deixar aquele ambiente barulhento.

[...]

As ruas estavam lotadas, o céu estrelado como nunca dava um ar cósmico à Cidade Central. Além das pessoas, vários animais vagavam por lá. Alguns não muito conhecidos afora, como Snuts, Kroctuus e Vênisses. Os três lembram muito um felino — ou grifo conhecido mitologicamente — alado. Um deles estava passeando por entre as pessoas, pelos num tom verde claro, olhos amarelos e asas em um verde mais escuro.

As pessoas lhe abriam passagem para nãos serem pisoteadas. Seus olhos analisavam tudo, desde pessoas brigando à uma criança chorando pelo pirulito que caíra no chão; tudo estava em seu alcance.

O animal grunhiu pegando impulso do chão e voando até os prédios mais altos. Pousou na beirada de um edifício imperial ficando em pé sobre duas patas. De um felino alado, transformou-se em um homem de pele esverdeada e roupa de batalha vermelha e branca.

Sorriu sapeca à Koryand'r sentada na beirada a seu lado. Ele fez o mesmo roubando um beijo rápido dos lábios da moça.

— Estava me procurando? — perguntou Garfield risonho.

— Não preciso. — respondeu ela: — Você só se transforma em animais que causam medo às pessoas. Recebi dois pedidas na rua de crianças para tirá-lo de uma das barracas. — falou a mesma continuando a encarar o horizonte.

— Eh? Por que não foi lá me buscar? — indagou.

— Porque você viria aqui de qualquer maneira. — falou sorrindo: — Achou algo de interessante?

— Nada. — respondeu agora sério: — A cidade é calma. Sem roubos ou brigas de punhos e sequer uma algazarra. Tudo tranquilo.

— Se realmente tivesse os tais "jovens arruaceiros" não teria toda essa calmaria. — afirmou Koryand'r.

— O Marechal nos informou sobre os ataques à naves de prisioneiros. Talvez eles somente ataquem locais estratégicos. — ponderou Garfield.

— É uma possibilidade. Mas não sabemos quantos são, quem são ou o líder. — balbuciou a mulher pensativa.

— Escutei muitos soldados falaram sobre o Corvo. — relembrou Garfield: — Talvez ela seja a líder.

Koryand'r negou:

— Ela deve ser o soldado invencível deles, ou algo parecido. Um líder não se expõe assim. — refletiu levantando-se da beirada: — Bom, vou sobrevoar mais uma vez a cidade. A noite vamos tentar nos entrosar.

O rapaz arqueou a sobrancelha:

— Você já vai beber? — perguntou ele decepcionado.

— Talvez, mas não foi nesse sentido que falei. — ela sorriu-lhe levantando voo e sobrevoando os prédios abaixo das estrelas gigantes e coloridas.

[...]

Rachel já havia se misturado à um pequeno grupo de garotas dançando empolgadas. Ela podia garantir que estava se divertindo, com aquelas músicas a dança e a risada daquelas garotas, a empata sentiu-se normal como em poucas vezes em sua vida.

Rodopiou no lugar trombando com um rapaz. Ela se desculpou voltando à roda de meninas que riram dela. Rachel sorriu sem graça procurando o olhar inquisidor do irmão como se dissesse "estabanada" com um simples gesto.

Contudo não o encontrou no balcão, muito menos ao redor de si. Pensou em procurá-lo, mas isso os faria se desencontrar. Ficou levemente perturbada, mas voltou à dançar com as garotas sem tirar os olhos do bar.

Um pouco afastado, Richard conversava intimamente com uma das meninas da festa. Mesmo preferindo a paz e sossego de alguns bares, sair para dançar tinha suas vantagens: mulheres sedentas por carinho.

Ele beijava a garota em um canto mais escuro da festa dando atenção exclusiva para a moça de mais ou menos vinte e dois anos entre seus braços.

Não era fã de festas, mas já que estava ali não custava nada se divertir um pouco. Depositou alguns beijos no pescoço da moça que repuxava sua camisa amassando-a consideravelmente.

Dick já quase não escutava mais o que acontecia ao redor, mas claro que um alvoroço gigantesco com a música sendo bruscamente interrompida chamou a sua atenção — e a da moça, claro.

Ambos olharam para a entrada da balada sem ver nem ouvir nada além de murmúrios e resmungos de quem também não via. Dick adentrou entre a multidão alvoroçada aproximando-se de onde Rachel estava, concluindo que deveria ter ficado lá atrás.

Koryand'r entrou na balada assustadoramente séria. Seu vestuário passava insegurança às pessoas ao redor, além dos raivosos e sedentos olhos verdes. Ela passou rapidamente o olhar pelos clientes da boate descendo para a pista de dança.

Andou normalmente até o balcão apoiando-se nele:

— Conhece essas pessoas? — colocando a imagem de Asa e Corvo, Kory esperou pacientemente o homem a sua frente voltar a respirar.

— Todos conhecemos, Senhorita. — respondeu temerosamente. A tamaraniana grunhiu.

— Quero saber se sabe onde eles estão! — bradou a moça perdendo o pouco da paciência que tinha.

— Não sei, Senhorita. Ninguém sabe.

— Então está me dizendo que você, o barman da boate mais famosa de Aleryn, onde provavelmente todo o tipo de ser passa por aqui lhe confidenciando tudo, não sabe onde esses arruaceiros estão? — cuspindo as palavras cheias de escárnio, Kory abriu caminho pelo balcão prensando o homem à parede do fundo pelo pescoço, erguido alguns centímetros do chão.

— Senhorita...

— Perguntarei mais uma vez... Onde eu acho os Titãs Alelos?

— No prédio Aragona. Dizem que muitos deles moram por lá, mesmo que não sabia de ninguém que os tenha visto. — respondeu o homem agonizado: — Mas são só rumores, senhorita!

Koryand'r sorriu soltando homem que desabou ao chão.

— Toda história tem seu ponto de verdade, e é nisso que me prendo. Agradeço a colaboração. —acenando ao homem, andou até a saída do prédio silencioso deixando de vez o pequeno reinado Tanagariano em Aleryn.

Rachel sentiu as pernas fraquejarem. O terror corria por seu corpo ao imaginar aquela mulher assustadora descobrindo-a. Dick chegou ao seu lado tocando-lhe no ombro reconfortante.

A festa demorou um pouco à voltar, mas assim que o fez recomeçaram a dançar, e o Líder dos Titãs Alelos deixou a boate com sua caçula.

[...]

— Dick se acalme. — pediu pacientemente Rachel enquanto o irmão andava de um lado para o outro perplexo.

— Não tem como me acalmar sabendo que uma Tamaraniana está caçando nossos pescoços. — grunhiu o rapaz bagunçando os cabelos com resíduo de gel em alguns poucos fios: — Nunca imaginei que apelariam para a força bruta.

— Literalmente falando. — resmungou a garota soltando uma pesada lufada de ar: — Não tem como eles acharem nosso esconderijo. Somos cautelosos, e evitamos chamar atenção desnecessária mesmo sem o uniforme.

— Talvez você aja assim, mas duvido e muito que o Connor ou a Cassie sejam discretos. — Rachel não poderia discordar desse argumento. Se havia alguém capaz de fazer até o próprio Ra's prestar atenção em algo eram eles.

—Independente disso, a questão do esconderijo eu te garanto que é impossível, a menos que um dos nossos seja capturado. — ponderou: — Podemos fazer uma reunião de emergência amanhã e avisar sobre ela.

A proposta de Rachel era tentadora, mas Dick achou arriscado demais sair uniformizado por esses dias, já que estavam sendo caçados. Negou com a cabeça sentando-se — enfim — no sofá.

— Vamos esperar a poeira abaixar antes de fazer uma reunião geral. — decidiu massageando o pescoço tenso: — Até lá nada de poderes. Ouviu, mocinha? — Richard apontou-lhe o dedo brincalhão, mas com uma ponta de preocupação na voz.

— Sim, senhor! — Rachel bateu continência deixando a sala com um "Boa Noite" e um beijo no rosto de Dick. Assim que ela saiu o rapaz fez questão de ficar lá por mais um tempo.

E lá se foi toda a madrugada.

[...]

Garfield e Koryand'r se encontraram durante a noite no quarto que estavam compartilhando durante a hospedagem. Nenhum dos dois avançou nas pesquisas, o que era deveras curioso.

O povo parecia simpatizar com o ato vândalo, e isso surpreendia ambos de forma alarmante. A Tamaraniana fez questão de ir vasculhar o prédio do qual o homem da boate havia mencionado, ainda que não houvesse nem dez por cento de chances de estarem certos.

Já Garfield propôs que tentassem por baixo, literalmente pelo Subterrâneo de Aleryn. Contudo, Kory não aprovou a ideia os deixando empacados.

Se havia uma coisa que ambos odiavam eram falta de informações, e por X'hal faltavam milhares. Precisariam de dias até juntar informações as quais o Governo deveria ter obrigatoriamente.

Decidiram que fariam isso pela manhã, assim que repusessem as horas de sono perdidas ou ajustassem o horário biológico de seus corpos.

O que viesse primeiro.

[...]

Richard e Rachel chegaram no corredor de sua casa após a costumeira rotina de estudos e trabalho. Como sempre, Rachel dispunha em seus braços livros sobre cura e salvamento, o qual se baseava seu curso.

Já Dick chegava com duas sacolas numa mesma mão — aparentemente do supermercado —, enquanto a outra procurava as chaves no bolso da calça jeans.

Em seus olhos podia-se notar grossas bolsas causadas pela noite nada descansada. Cismado com a ideia da dupla estar cada vez mais perto deles, Dick arquitetou ideias, planos, armadilhas, tudo que pode para tentar estar um passo a frente de dois comandantes de guerra na ativa.

A sua sorte foi exatamente não ter tido nenhuma reunião no trabalho, apenas entrega de projetos e retirada de novos. Dick resmungou por não conseguir achar as chaves em seu bolso.

Vindo do lado oposto do corredor, Garfield e Koryand'r vasculhavam o prédio anunciado pelo barman de cima à baixo, desde a portaria até o terraço cheio de entulhos. Levados até lá por especulações da possível moradia de membros dos Titãs Alelos, ambos se dispuseram a monitorar o local.

Ao entrarem no campo de visão de Garfield, o Helleriano aproveitou a presença dos dois moradores do prédio para fazer um rápido interrogatório. Sem um pingo de discrição, o transmorfo aproximou-se de frente para Dick que teve o simples reflexo de acertar o braço do homem com um dos revestimentos de aço dos fios elétricos que passavam pela parede.

Rachel deu um salto pelo barulho da colisão e das sacolas caindo ao chão.

— Bem audacioso em atacar um soldado. — ridicularizou Garfield.

— Já fomos assaltados desse mesmo modo. Prefiro me prevenir. — comentou Dick em seu tom irônico de sempre.

— E como alguém entraria aqui com o porteiro monitorando a entrada? — perguntou Kory sem muita curiosidade.

— Que porteiro? — indagou: — Não tem porteiro aqui.

— Então, quem era o homem lá embaixo? — insistiu Garfield.

— Provavelmente era o John. — avisou Dick já normalizado endireitando a coluna: — Ele é meio louco e pensa ser o porteiro. — deu de ombros deixando o pedaço de metal encostado na parede de onde fora arrancado; arrumaria mais tarde.

— Compreendo. — meneou Garfield: — Temos umas perguntas, e gostaríamos de sua colaboração. — pediu levantando seu olhar para a garota atrás de Dick concentrada na conversa adulta. O Grayson pareceu entender a indireta.

Pediu para Rachel entrar na casa, já que aquele era um assunto mais sério entre adultos. Ela aquiesceu avisando que começaria a aprontar a janta. Pegou as sacolas do chão e entrou no apartamento deixando-os sozinhos.

— Bom, o que desejam saber?

— Você possui alguma informação sobre os Titãs Alelos? — começou Koryand'r.

— Nada que não sejam rumores ou fatos nos noticiários. — respondeu sério.

— Recebemos uma informação que dizia que neste prédio há titãs residindo. Concorda com isso? — complementou Garfield.

— Não sei dizer. Ninguém a não ser o John me parece suspeito; mesmo que loucura não seja de fato um fator para incriminá-lo. — calculou ainda sério.

— Tem razão. — comentou Kory: — Sabe onde podemos conseguir informações sobre eles?

Dick pensou bem antes de responder. Provavelmente mandá-los para o subterrâneo seria a melhor ideia para arrancar pistas de onde viviam. Entretanto, todos que conheciam suas verdadeiras identidades ou a base eram integrantes dos Titãs, e nenhum deles morava mais naquele buraco de rato. Essa havia sido a primeira precaução do jovem Asa.

— Provavelmente o subterrâneo. Eu vim de lá, e infelizmente a grande maioria não teve a mesma sorte que eu em conseguir estudo e trabalho. —relatou: — Muitos odeiam o Império do Ra's.

— Interessante. — mediu Kory: — Pensamos em começar por baixo, mas nem sempre devemos julgar algo pela simples aparência.

Garfield tossiu forçado, ressaltando a sua ideia inicial de ir até o Subterrâneo desde o início.

— Bom, de qualquer forma agradeço a ajuda. E desculpe o incômodo. — assim, Garfield saiu seguido por Kory.

Dick inspirou fundo e entrou no apartamento trancando a porta com certa lerdeza. Encostou a testa na madeira soltando o ar que nem percebera estar segurando.

— Estão muito perto.

Notas finais
"NÃÃÃÃO! VOCÊ JUNTOU KORY E GAR, COMO PODE? MALUCA RETARDADA" - Sim, juntei MUAHAHHAHAHA Galera linda, antes que venham me atirar pedras, eu DISSE {com todas as letrinhas}, que teriam casais malucos, lembram? ótemo! "Ain, o nome da bebida Aracna é parecida com o prédio que é Aragona", É sim boy. Eu não sou criativa ao extremo! É tudo com A, lembra aranha, e se contentem ruehruehrue PS.: Lembrem-se que o significado de Dia e Noite aqui é diferente. Será explicado melhor no próximo capítulo. Então não pensem que por ser dia está claro ;) Estranho, mas vocês vão entender melhor depois ruehrueu Mas enfim, gostaram? Acharam bom? Ah, se acharam algum erro ortográfico por favor me avisem. Eu revisei muito esse capítulo, mas por ele ser maior talvez algo tenha passado. Por via das duvidas mais tarde eu olho novamente, mas ajudaria muito se me avisassem ;) Agora que eles chegaram as coisas começaram a complicar. Sao dois profissionais, e isso vai complicar a vida dos nossos revoltosos :3 Bem, deixem sua opinião sobre a história, me ajudaria muito a saber o que estão achando. Dia 23/03/2016 terá o próximo, então até lá! Obrigada por lerem até aqui! Beijos