Insólito
11 Capítulo 10
CAPÍTULO 10: AS MENTIRAS QUE SEUS LÁBIOS DIZEM
Taichi estava em seu quarto, fones de ouvido. Era sábado e a senhora Yagami fazia a limpeza, passando o aspirador pela casa e contando com a ajuda dos Digimons para limpar as janelas. Mesmo com o volume no máximo, podia ouvir os protestos da irmã, que desejava um pouco de paz na véspera de seus exames admissionais na Academia T.
Viu o celular sobre a mesinha de cabeceira acender e atendeu o aparelho.
“Takeru?”
“Está ocupado?” A voz do menor parecia séria.
“Bem, na verdade não.” Realmente não estava, mas mesmo que estivesse, Takeru era motivo para arranjar um tempo livre.
“Você poderia se encontrar comigo?”
Taichi não pensou duas vezes, se arrumou rapidamente e correu encontrar seu amado diante da banca de revistas.
Takeru parecia sério e preocupado, provavelmente por causa dos exames. Os garotos entraram na banca, folhearam várias revistas, conversaram frivolidades. Taichi aproveitou a oportunidade para comprar seu periódico de esportes. Quando saíram, o líder convidou-o para tomarem um sorvete. Takeru virou-se para ele, os olhos indiferentes, a língua umedeceu os lábios e as mãos foram para os bolsos.
“Eu quero terminar.”
Taichi sentiu como se o chão abaixo dos seus pés tivesse sumido, e caísse lentamente em um buraco sem fim. Os lábios de Takeru ainda se moviam, dizendo coisas que o moreno já não ouvia. Tudo a sua volta parecia frio e distante, e mesmo o menor, parado poucos metros a sua frente parecia à milhas dali.
“Eu sinto muito.” Disse, concluindo o discurso. Fez uma breve mesura e saiu, com as mãos ainda enfiadas nos bolsos. Taichi o viu se afastar vagarosamente, desviando com habilidade das pessoas que lotavam o centro comercial àquela hora da tarde.
O líder estava imóvel, parado diante da porta da banca de revistas que tanto gostava, com o periódico esportivo nas mãos. As pessoas passavam por ele, apressadas. Mas ele não via os rostos ou ouvia as vozes, ele não sentia nada.
Não sabia como seus pés o haviam levado de volta para casa. A mãe ainda estava ocupada com a faxina, Hikari com a cara enfiada nos estudos. Ouviu a mãe protestar quando bateu a porta do quarto, mas nem se importou, jogou a revista em um canto qualquer e sentou na cama. Os olhos estavam cheios de lágrimas, mas o moreno se negava a deixá-las cair. Sua mente estava em torvelinho. Repassava o pouco que se lembrava das palavras de Takeru, nada naquelas palavras fazia sentido. Takeru estava estranho fazia alguns dias, mas Taichi achou que era por causa dos exames. Não iria deixar as coisas terminarem tão simples assim.
Puxou o celular do bolso, imaginou que o loiro não atenderia sua ligação. Selecionou o envelope e decidiu mandar uma mensagem. Olhou as últimas mensagens que trocara com o adolescente. No topo, a mensagem de uma semana atrás. A mesma quantidade de tempo que Takeru andava diferente.
Taichi se lembrava vivamente da situação. Estava em uma cafeteria com Yamato e Koushirou, os três ansiosos para ver a lista de aprovados da universidade. Koushirou puxou seu laptop e conectou-se ao wi-fi disponível. Abriu o site da Toudai[1] e procurou pela página de aprovados. Izumi Koushirou figurava com o nome entre os primeiros da lista. Ishida Yamato estava um pouco abaixo e espantosamente Yagami Taichi também estava na lista. Taichi não era um aluno dedicado aos estudos, por isso não estava nem um pouco crédulo em ser aceito na Toudai, em curso que ele escolhera as pressas, apenas porque necessitava marcar a opção. Ao ver seu nome na listagem não sabia se ficava feliz ou assombrado. Num misto de êxtase e excitação pegou o celular e enviou uma mensagem para a pessoa que mais desejava compartilhar tal conquista.
Passei na Toudai, precisamos comemorar :)
A resposta demorou, e quando veio, não era nem metade do que o líder esperava. Tá. Duas letras, sem compromisso, sem sentimento algum, nem uma carinha boba para complementar, nem beijos nem abraços, sequer o nome tinha sido assinado.
Taichi fechou o celular atirando-o sobre a cama. Finalmente as lágrimas escorreram pelo rosto bronzeado. Ele não sabia mais o que pensar.
=8=
As semanas que se seguiram foram ocupadas e tumultuadas. Os pais Yamagi estavam muito atarefados procurando um apartamento para o filho em Tóquio, reunindo toda a documentação necessária para a faculdade, reunindo mais documentos, necessários para a matrícula da caçula na Academia T, comprando uniformes e livros antes do início do ano letivo de ambos.
Taichi tentava manter Takeru longe de seus pensamentos. Não concordava com aquela separação, mas não sabia como abordar o outro, que argumentos usar ou o que justificar. Que palavras usar contra um “eu não quero mais, acho melhor nos separamos”? Ocupou-se então com a mudança, em gastar seu tempo visitando os amigos, jogando as últimas partidas de futebol (ele não teria tanto tempo livre na faculdade), passando um tempo extra com Agumon, pois o prédio para onde mudaria não aceitava animais, o que incluía Digimon.
Certa noite acordou com o som do celular. Esquecera completamente de tirar o alarme do calendário. Abriu o aparelho, piscando com letras coloridas a anotação Três meses com Takeru. Desligou o alarme e fingiu não se importar, a data não significava nada agora que não estavam mais juntos. Os dois meses que passara com o adolescente, mesmo às escondidas, tinham sido os melhores da sua vida, mas agora isso tudo não passava de lembranças. Sentiu suas lágrimas molharem o travesseiro. Respirou fundo, em uma semana estaria em Tóquio.
=8=
Takeru pegou o calendário na mesinha de cabeceira e correu os dedos pelas folhinhas, procurando por uma data específica. Ela não estava marcada a caneta, mas estava bem viva em sua memória. Passou o dedo pelo dia em questão, um sábado, como se tentasse se agarrar a lembranças presas no papel. Nunca iria esquecer a declaração de Taichi, nunca esqueceria que aquele dia marcava muito mais que isso.
“Três meses...” falou para ninguém. Uma lágrima escorreu pelo rosto e pingou no chão, produzindo um som incrivelmente alto.
Sentiu o desespero e a desolação invadi-lo. A mensagem que Taichi lhe mandara, sobre a universidade o atormentava. Ele estava preso em Odaiba, enquanto seu amado iria para Tóquio. Seu mundo estava desmoronando. Por que todas as pessoas que amava sempre o deixavam?
As palavras que havia treinado diante do espelho, por dias a fio, pareciam não ter o menor sentido. Rompera com Taichi de forma tão maquinal, que conseguira dizer tudo o que queria olhando para o namorado, sem derramar uma lágrima sequer, sem deixar que a voz lhe traísse. Não desejava deixar o garoto que tanto amava, com quem demorara tanto para se acertar. Mas aquela era a melhor forma, ele não estava pronto para outra despedida.
Notas finais
Nota: Não sei se alguém percebeu, mas a ideia era que os títulos dos capítulos fizessem alusão aos brasões... Esse capítulo quebrou meu esquema.
Nota 2: O ano letivo japonês começa em abril e termina em fevereiro do ano seguinte. Infelizmente eu não sabia disso, por isso a fanfic segue o ano letivo inglês, de setembro a julho.
Nota 3: eu queria terminar ainda esse ano, mas acho que não vai rolar, espero que continuem me acompanhando no ano que vem :)
Fale com o autor