Inocência Ultrajada
18 Capítulo 18 O CHAMADO DA BATALHA...
Notas iniciais
O sol já estava se pondo quando ele ordenara aos homens que permanecessem em posição de combate. Dali a pouco, a escuridão viria e as sombras seriam suas servas e mensageiras, como era propício a um mago negro da sua estirpe. O fundo do vale, onde se encontravam parecia um ventre sinistro, um palco cuidadosamente escolhido para as ações e encantamentos...
Com um brilho de escárnio nos olhos e ereto sobre o garanhão vermelho, Radamanthys elevou o olhar e depois o baixou, murmurando palavras em um idioma inumano, próprio das criaturas trevosas que invocava. Estava sem aliados dentro da Fortaleza Virgo e não admitia ser surpreendido. Era o momento de mostrar um pouco de seus reais poderes...
*“Asshanti, mer extavis, excetret in mortem” Disse ele e, seus olhos ficaram, totalmente, brancos. Seu corpo retesou-se como a corda de um arco e Radamanthys pareceu flutuar. Atrás dele, estavam Saga e Kanon, observando-o com uma expressão séria.
– O que será que ele está fazendo? – cochichou Saga ao ouvido do irmão.
– Disse-me ele que nossos inimigos devem receber uma mostra do nosso poder.
– E como ele espera fazer isso?- indagou Saga um tanto curioso com a postura do mago.
– Creio que já esta fazendo... – respondeu Kanon e uma onda de excitação percorreu-lhe o corpo.
Enquanto Radamanthys continuava seu ritual, Saga e Kanon observaram tudo mudar ao seu redor. Um vento frio e estranho ergueu o manto negro do mago e os seus também. Saga sentiu o ar em seu rosto, quase o obrigando a fechar os olhos, porém, manteve-os abertos e o que viu, a seguir, o fez estremecer. Sombras vivas saíam do corpo de Radamanthys como se fossem milhares de braços espectrais.
– M-Mas o quê? O quê é aquilo? – disse Saga com horror nos olhos quando as sombras voaram na sua direção.
Os gêmeos não tiveram tempo de analisar e nem de horrorizar-se, ainda mais. As sombras os transpassaram provocando um ligeiro mal-estar e após fazê-lo, rumaram direto a uma espécie de redemoinho que se movimentou em direção aos céus.
Radamanthys se voltou para os gêmeos como se nada tivesse acontecido. Esporeou seu cavalo e apenas disse:
– Esta é a hora, senhores! Ao contrário dos guerreiros comuns que avançam de dia, seremos os arautos da noite a destruir Virgo.
Sem nada dizer, os gêmeos seguiram o mago e as tropas continuaram seu deslocamento em colunas imensas, como grandes serpentes arrastando-se pelo solo. A cor negra imperando nas vestes e nos estandartes como um reforço sombrio da alma e da intenção daqueles homens.
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Na Fortaleza Virgo todos caminhavam, de um lado a outro, preparando caldeirões de óleo, afiando pontas de lança, selecionando flechas e construindo barricadas. Um burburinho de vozes e comentários sobre o que havia acontecido permeava os preparativos, porém não havia tempo para explicações detalhadas e racionais, assim sendo, a prioridade era organizar a resistência e proteção do lado de dentro da fortaleza.
Fora dos portões, os foços rasos e contendo estacas afiadas tinham sido cavados sob a liderança de Aiolia cujos homens eram bastante treinados em fazê-lo com uma rapidez e eficiência impressionantes.
Shaka olhava o céu escuro e sentia uma estranha serenidade, apesar de tudo. Viu quando Ikki deu as últimas instruções aos seus homens e olhou na direção onde se encontrava agora. Mesmo estando longe e um tanto escuro, notou a expressão tensa do homem que amava, mas também aquela coragem indômita que o tornava um líder respeitado e também amado.
Permitiu-se ficar olhando-o, por algum tempo. “Quando eu poderia imaginar sentir-me assim, amando tanto que, mesmo a possibilidade da morte não consegue me atingir... Te amo tanto, Ikki. Tanto!”
Falando com Milo e Máscara da Morte, Ikki não podia ver com exatidão o rosto de Shaka, mas se fechasse os olhos, sabia de cor as feições belas, o olhar forte e sereno, a boca que sabia ser ávida e quente na intimidade. Sorriu, mesmo que a tensão pairasse no ar e algo lhe martelasse o peito, gritando versos de morte... “Nunca pensei que amar fosse tornar-me tão mais forte que a espada. Entretanto, estou aqui, dando ordens como um soldado e rindo por dentro como um garoto só por vê-lo ali e saber que o amo mais que tudo!”
– Mais alguma ordem, milorde? – perguntou Milo vendo que o olhar de Ikki ficara um tanto distante.
– Não, Milo. Pode ir! – falou Ikki se recompondo.
Milo atravessou o pátio a passos largos e viu que Kagaho carregava baldes, caminhando com um pouco de dificuldade. Foi até ele, tomando os baldes da mão do garoto.
– O que está fazendo? Ainda está fraco e não quero que faça esforço! Deixe isso e vá juntar-se aos outros. Logo, eu os levarei até a passagem para que fiquem em segurança.
Kagaho sorriu. Milo o tratava como se ele fosse um menino normal e ele mesmo quase esquecia que era changeling. Achava isso engraçado e, ao mesmo tempo, temia por aquele homem. Havia uma densidade escura e profunda no ar e aquilo só acontecia quando Radamanthys invocava as sombras. Olhou na direção de Milo, embora seus olhos estivessem queimados e ele apenas distinguisse uma aura avermelhada de calor.
– Sou um changeling milorde. Recupero-me rápido e não preciso de tanta proteção.
– Isso quem decide sou eu e prá mim você é, apenas, um menino. Portanto não me desobedeça! – disse Milo empurrando Kagaho na direção do interior da fortaleza com uma palmada.
Kagaho sentiu um calor dentro do peito e, sem aviso, atirou-se nos braços de Milo e o abraçou forte com os braços pequenos que tinham a força dos de um homem feito.
– Eu o amo, milorde! Nunca esquecerei o que fez por mim. – disse ele baixo.
Milo sentiu-o estremecer em seus braços e beijou-o no topo da cabeça.
– Também o amo. Tenha muito cuidado. Não quero que nada de mal aconteça com você. Agora vá!
Kagaho foi, olhando uma única vez para trás. Então ele sentiu... Como se fosse apenas um vento forte, sombras adentraram o pátio da fortaleza criando redemoinhos de pó e fustigando a pele como areia, porém mais fina e mais cortante.
– Milorde... eles estão vindo! – sussurrou o menino.
Milo viu aquilo e gritou:
– Entrem nas casas e protejam-se! Rápido! E você Kagaho fique ao meu lado, vou tirá-lo daqui.
Houve correria e pavor, porém Milo puxou Kagaho para si e encostou-se no vão entre os estábulos e o caminho do poço. O ambiente, tomado por uma tempestade de névoa negra que mudava, constantemente, de forma e rasgava a pele daqueles que tinha sido pegos desprevenidos, entrando no nariz, na boca e nos ouvidos.
Afrodite já havia percebido a mudança... seus olhos vislumbraram além das sombras que dançavam à sua frente e, então, ele o percebeu. Distante, mas presente, a energia do mago negro estava ali, assim como a dos homens que ele liderava. Era como se o mal contido na alma dos mercenários tivesse tomado forma e se juntado às sombras da noite.
No centro daquele vórtex, por um instante, os olhos de Radamanthys surgiram maliciosos e estavam rubros... E, quando os seus, se encontraram com os dele, Afrodite sentiu sua cabeça latejar. Porém, o belo cavaleiro inspirou e apontou o dedo indicador para o centro do redemoinho que se expandia no pátio e murmurou:
–*“Asshanti, riamhéifeacht”!
De imediato, as sombras rodopiaram e crepitaram como se estivessem sendo queimadas. Com um som alto e surdo, elas desapareceram no ar da mesma forma rápida e inusitada que haviam se materializado ali. Alguns homens tossiam, outros esfregavam os olhos...
Desta vez, Afrodite cambaleou, sentindo uma forte vertigem e sendo amparado por Máscara da Morte. Ikki percebeu que a situação exigia rapidez e gritou para Aiolia que já estava preparado para dar início à primeira parte do plano:
– Aiolia, está na hora! Seus homens já estão posicionados?
– Os homens já estão à postos e arqueiros já estão preparados! – respondeu o leonino.
– Então vamos sair! Milo chame o Shaka e leve os velhos, mulheres e crianças para a passagem! Mu, Máscara da Morte, e Kamus, sigam-me! Afrodite, sei que está exausto, mas preciso de você! Acha que aguenta o esforço?
Afrodite olhou para Ikki com o nariz empinado, embora um pequeno filete de sangue escorresse dele.
– Essa pergunta não procede, milorde! Mesmo que estivesse morrendo, sei das minhas obrigações. – respondeu o cavaleiro.
Ikki assentiu com a cabeça, fitando os olhos profundos de seu subordinado.
– Excelente! Não esperava menos de um homem bravo como vós. Posicione-se na ameia mais alta da fortaleza onde a visão de tudo é ampla e privilegiada. Quero que, quando os arqueiros dispararem as flechas teu poder as faça incendiar-se e dirigir-se ao alvo com precisão. Podes fazer isso?
O jovem mago inspirou e assentiu com a cabeça. Máscara da Morte que estava ao seu lado, ocultava a preocupação que sentia e cedeu espaço para que ele passasse. Quando Afrodite caminhou em direção às ameias, ereto e orgulhoso, ele lançou-lhe um último olhar e o belo cavaleiro olhou para trás. Houve um instante de conexão intensa e Máscara esvaziou sua mente de tudo, menos das palavras que somente ele o fizera dizer um dia: “Eu te amo!”
Afrodite sorriu, fechou os olhos e soprou... No mesmo instante, Máscara sentiu um toque delicado em seus lábios e a frase que o acompanhava como um sussurro: “Também o amo...”
Já estavam todos prontos quando Shaka juntou-se ao grupo e Ikki chamou-o para ficar ao seu lado. Os olhares se encontraram e aquela compreensão silenciosa se estabeleceu entre os dois. Já haviam conversado sobre a estratégia a ser usada e agora, estavam juntos e assim permaneceriam até o fim.
O senhor de Virgo tocou no cabo de sua espada e depois se dirigiu ao homem que amava, tocando-o no braço.
– Parece que, finalmente isso tudo vai terminar. Ikki... eu quero que saiba o quanto sou-lhe grato por ter me devolvido a alegria e por ter me ensinado o que é o amor. Não importa o que aconteça, sempre vou amá-lo, seja nessa ou em outra vida.
– Pois eu digo que o amo nessa e em todas as outras vidas que por ventura hão de existir. Descobri que estar ao seu lado faz surgir o que há de melhor em mim... Vamos vencer esta batalha, Shaka e mandar esses gêmeos para o inferno! – disse Ikki com entusiasmo.
Shaka sorriu, mesmo sabendo que estariam em desvantagem. Ikki era inteligente e confiante, além de tudo. Tinha de dar créditos a ele pelo plano ousado que engendrara com tantos poucos recursos humanos. Pôs o cavalo em movimento, posicionando-se à frente e todos o seguiram. A cena que se descortinava, após o horror espalhado pelas sombras vivas, era o senhor de Virgo, belo e ereto, mostrando-se ao inimigo com apenas seis homens, ao seu lado!
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Radamanthys estava sério e, embora não demonstrasse, pela primeira vez sentia que se defrontava com um inimigo à sua altura. Seu filho era perigoso, mas não esperava que ele tivesse tal poder sendo tão jovem.
O encantamento que invocara exigia muito de um mago. O controle sobre as sombras, mesmo para um Antigo requeria muito da energia de comando que subjugava tais elementais. Não deixou de imaginar como seria tê-lo como aliado... Dois magos poderosos podiam conquistar o mundo.
A Bandeira, negra e dourada, do clã dos gêmeos, tremulou alto, e as torres de assalto que eram empurradas por vários homens, rangeram sobre a terra quando, finalmente, chegaram próximos à Virgo. O céu negro pareceu adquirir vida e Radamanthys sorriu quando os archotes que eram carregados iluminaram a noite. Saga e Kanon posicionaram-se à frente, erguendo as mãos e vislumbrando que um pequeno grupo que deixava a fortaleza.
Saga sorriu, reconhecendo, mesmo à noite, que Shaka estava liderando o grupo, o cabelo claro em movimento... Uma excitação contida percorreu-lhe o corpo e ele olhou para o irmão que mantinha os olhos fixos no movimento dos cavaleiros.
Então, como o esperado, os gêmeos presumiram que o grupo avançava para conversar. Radamanthys permaneceu em sua posição, atento e cauteloso. Porém, antes de chegar mais perto, o grupo desviou para surpresa dos três e disparou em direção à mata fechada próxima do local.
– Eles estão fugindo! – gritou Kanon.
– Isso é impossível, estamos em maior número. Vamos interceptá-los! E além do mais, isso me parece um plano louco! – disse Saga.
Porém, quando os gêmeos moveram os cavalos na direção do grupo, os homens de Aiolia saíram da floresta em um bloco fechado que se abriu, revelando um grupo de arqueiros. Flechas voaram contendo uma pequena bolsa cujo conteúdo era uma mistura de pólvora e pimenta forte.
Nas ameias, Afrodite gesticulou e quando as flechas cortaram o ar na direção das tropas, o fogo invocado pelo mago as fez explodir fazendo chover pó de pimenta sobre os inimigos que se viram envolto em uma poeira ácida que cegou boa parte dos homens. Sem dar tempo para que se recuperassem, outra leva de flechas foi disparada, agora contendo pó de betume e pólvora que, quando incendiados caíram como uma lama ardente que grudava na pele, queimando-a até os ossos.
Ainda eram muitos homens a serem derrotados, mas o que Ikki esperava era que a confiança deles fosse quebrada, só assim teria uma brecha que permitiria atacar Saga e Kanon. Guerreiro experiente, Fênix sabia que os mercenários combatem, somente, por interesse e quando se sentem acuados, o interesse maior passa a ser as suas vidas medíocres...
Os homens de Saga e Kanon se reagruparam e a cena era grotesca. Alguns tinham a pele do rosto descolando, outros, estavam com as vestes queimadas e o cheiro de carne queimada preenchia o ar. Porém, estranhamente, continuavam se reagrupando como se nada os tivesse atingido, as expressões vazias, a movimentação lenta e constante.
Ikki percebeu, Aiolia também. Os dois reagruparam os homens e Mu, Máscara da Morte e Kamus fizeram um semicírculo de proteção ao redor de Shaka.
– Shaka, permaneça perto de nós... até eu dar o sinal. Depois rompa o círculo como se tivesse tomado a decisão de fugir sozinho. – falou Ikki para o senhor de Virgo e depois, voltando-se para o leonino. — Aiolia, os arqueiros estão prontos novamente?
– Sim, à espera de meu sinal.
– Conte até cinco e mande-os disparar.
Afrodite permanecia na ameia, seus cabelos ondulando com o ar denso. No momento em que Aiolia ordenou e os arqueiros atiraram as flechas para cima, exatamente no meio do caminho entre as tropas de Saga e a fortaleza, Afrodite gesticulou e elas atingiram os pequenos fossos cheios de betume escondidos sob palha seca. Uma parede de fogo se elevou e o jovem mago ordenou que as chamas se lançassem sobre os soldados que empurravam as torres de assalto e, de imediato, elas se incendiaram e o fogo queimou todos que estavam no raio de um quilômetro.
Mesmo sob o efeito da droga que Radamanthys lhes tinha fornecido, para que não sentissem dor ou cansaço, aqueles homens se viam confusos com um ataque tão certeiro e violento vindo de grupos menores que, à primeira vista, não tinha nada de especial. Saga gritou para o mago que olhava a tudo com um indisfarçável prazer...
Poderoso, Radamanthys podia ter usado magia para contra-atacar, mas seu plano não era ajudar os gêmeos e sim fazê-los esgotar as forças que defendiam Virgo, compreender a extensão dos poderes de seu filho... Até ali, Afrodite demonstrava que tinha controle sobre os elementos e era um ponto-chave na defesa planejada.
– Radamanthys! O que está fazendo parado? Ajude-nos! – gritou Saga.
O mago olhou-o com certo desprezo, entretanto gesticulou e uma chuva forte e pesada desabou sobre o cenário da luta. Kanon então avançou, junto com dez homens na direção onde Ikki, Aiolia e Shaka se encontravam.
A chuva forte impedia que visse com clareza, mas mesmo assim, ele continuou a esporear seu cavalo. O chão lamacento e escorregadio fez seu garanhão negro tropeçar e ele caiu, sentindo a lama entrar em sua boca e narinas. Os homens ao seu lado continuaram com machados e lanças em riste e um brado foi ouvido dos que haviam ficado para trás, tendo como líder, seu irmão Saga.
Mesmo sem visibilidade, Ikki percebia pelo som que logo seriam alcançados e rezou para que Afrodite tivesse forças para continuar ajudando-os. Suas esperanças não foram em vão. Logo, a chuva converteu-se em vapor e bruma, fazendo com que o pequeno grupo ficasse oculto por um tempo.
Ikki e seus homens, junto com Aiolia, aproveitaram a chance e escoltaram Shaka de volta à fortaleza, porém, agora, sob ataque. Flechas voaram, da parte inimiga, mas não encontraram seu alvo, entretanto, quando estavam há alguns metros perto da ponte, uma flecha atingiu o cavalo de Ikki e ele caiu.
O vento, antes uma aragem fria, mudou de repente, tornando-se pegajoso e úmido fazendo um som lamentoso que impediu Aiolia, Shaka e os outros de ouvirem a queda do companheiro. Entretanto, como se fosse alertado por uma voz invisível, Shaka olhou para trás e viu que Ikki não estava com eles.
– Aiolia! Ikki não está atrás de nós! – gritou Shaka.
– Entre na fortaleza! Eu vou voltar! – respondeu Aiolia.
Mu olhou para trás e juntou-se à Aiolia, enquanto Camus e Máscara da Morte seguiram protegendo Shaka como ordenara Ikki.
Shaka protestou, segurando as rédeas de seu cavalo para voltar, mas nenhum dos dois deu ouvidos e ladearam seu cavalo prensando-o sem dar-lhe opção de retornar. Assim que entraram, uma chuva de flechas desceu dos céus.
Afrodite tentou e parou grande parte das flechas que se precipitavam mortais sobre o grupo, porém seu foco também estava fora da fortaleza, onde tentava proteger Ikki. O esforço era grande e Radamanthys sentiu que era hora de agir. Com prazer e orgulho, o mago negro elevou os braços e a escuridão, mais uma vez, curvou-se ao seu desejo...
Homens grotescos alcançaram Ikki, com a ajuda do mago negro. Em instantes, ele viu-se cercado pelo inimigo. Tomando a dianteira, atacou o maior do grupo fazendo a lâmina leve, forjada por Mu chocar-se com lâmina recurvada de ferro queimado do homem grandalhão que avançara com um grunhido. Desprezando o tamanho do homem, Ikki aparou o golpe e logo, Aiolia e Mu chegaram para ajudá-lo.
Além do retinir das armas, chutes e murros atingiam joelhos, ventres e costelas. Aiolia lutava com ferocidade e Mu também. Dentro da fortaleza Shaka estava furioso por não terem deixado-o voltar para ajudar Ikki.
– Porque fizeram isso? – gritou o senhor de Virgo.
– Seja sensato, Shaka, todo este cerco é para tomar a fortaleza e subjugar o seu senhor! Ikki está aqui para ajudar-nos a impedir isso e precisamos confiar que ele é forte o suficiente para tal. Foi ordem dele que o protegêssemos acima de tudo. Fique e lidere as coisas aqui dentro que eu e Máscara da Morte vamos sair! – falou Kamus.
– Eu também vou! – disse Milo juntando-se ao grupo.
Mais uma vez os portões foram abertos e os três saíram para ajudar os companheiros. Quando chegaram, mais inimigos estavam se juntando para lutar. Kamus e Milo desembainharam suas espadas e Máscara posicionou seu machado.
Com um grito de guerra, Máscara avançou erguendo o machado de dois fios e dois homens perderam, respectivamente, cabeça e parte do ombro. Milo enfiou a espada em mais um e Camus cortou o braço de outro.
Sangue vermelho vivo brotava dos cortes no braço de Ikki, “que falta fazia um escudo”, mas ele ria. Cambada de vermes frouxos! – gritava enquanto golpeava rápido com a lâmina afiada de sua espada. Sangue grosso e enegrecido gorgolejava dos cortes no corpo do inimigo, a ira e a incapacidade de reagir à altura era visível rosto deformado.
Um segundo homem tentava acertar sua lâmina pontiaguda em Aiolia, no entanto, o guerreiro o mantinha recuando com arcos largos feitos com a espada que ganhara de Mu, estranhando, mas gostando da leveza daquele aço forjado pelo sidhe.
Os inimigos continuavam chegando com espadas, bastões de aço e machados, mas não eram páreo para os guerreiros que lutavam ferrenhamente. Milo tomara o bastão de aço de um e agora reduzia o crânio de um homem a uma massa de ossos quebrados e pedaços de cérebro que espirravam pelo ar. Kamus decapitava mais um com sua espada, enquanto se virava e chutava outro com ferocidade.
Afrodite sentiu seu corpo estremecer e uma sensação de algo gelado tomar conta de sua pele e ossos fazendo-o vacilar. Shaka amparou-o, sentindo que o jovem mago estava em seu limite e olhou na direção onde Ikki e os outros estavam lutando por suas vidas. O senhor de Virgo sentiu seu coração disparar e, num ato desesperado e instintivo, ofereceu parte de si ao jovem mago.
– Afrodite! Escute-me... eu sei que o esforço que está fazendo é brutal e doloroso. Então, permita que eu o ajude! Use-me, tire de mim a energia que precisa. Sei que os magos podem fazer isso.
– M-Milorde... não sei se consigo.
– Consegue sim! Faça-o, deixe que eu o ajude! – falou Shaka.
– Eu ajudo! – disse uma voz infantil atrás dos dois.
– Kagaho... – sussurrou Afrodite.
– Sim, milorde. Posso ajudá-lo...
Afrodite tomou a pequena mão na sua e depois a de Shaka. Fechou os olhos e murmurou baixinho... Shaka também fechou os olhos, sentindo um formigamento percorrer todo o seu corpo. Pensou em Ikki e no amor que sentia e, de repente, uma luz dourada e branca resplandeceu em volta de si.
O jovem mago ofegou. Era tanta energia que seu corpo parecia estar carregado pelo poder dos raios que agora riscavam o céu. Foi então que, finalmente, ele compreendeu e aceitou, desfazendo dentro de si a dualidade que o fazia fraquejar: era um mago e já estava mais que na hora de fazer valer a sua herança!
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