Inocência Ultrajada
16 Capítulo 16 ESCOLHAS...
Notas iniciais
“Tua ilusão de humanidade será tua derrocada, criatura abjeta!”
A voz grave e profunda ainda ecoava em todas as partes do seu corpo. Não eram apenas os seus olhos a serem utilizados para espalhar o caos. Eles eram a parte mais fácil... Depois seria o corpo, a inevitável transformação que o levaria a unir-se aos outros servos, previamente, arrebanhados para o momento em que tudo viraria de cabeça para baixo.
O pior de tudo era que se sentia dividido. Por um lado, aquele novo mundo humano cheio de coisas interessantes e excitantes. Por outro, o chamado do caos, a força da consagração a um mundo mágico, cujos papéis pré-estabelecidos sempre foram cumpridos de uma forma ou outra.
Entretanto, a estranha emoção estranha que sentia cada vez que era tratado com generosidade, estava fazendo pender a balança. Agora mesmo, apertava forte o biscoito que tinha na mão. Um gesto simples, do belo cavaleiro, mas que acendeu ainda mais aquela chama rebelde em seu coração.
Milo era um homem forte, bonito e valente. Vira como ele enfrentara Máscara da Morte e sentia arder nele, a chama do verdadeiro guerreiro. E, tendo todas essas qualidades, o tratava com afeto, tocava-o sem sentir repulsa e brincava fazendo-o rir como nunca ninguém fizera, em sua vida. Ele era a sua âncora, aquele que o fazia sentir-se pertencente a um lugar, importante em sua insignificância...
Então, por Milo e por seus amigos, ele romperia o pacto, mesmo que isso significasse a sua destruição!
A Casa das armas estava fechada. Com a mão pequenina e trêmula, Kagaho disse as palavras e o ferrolho pesado se abriu revelando o interior escuro e silencioso.
Ele caminhou até a forja, conferindo o último trabalho de Mu, um pequeno punhal cujo cabo ainda não tinha sido encaixado. Olhou demoradamente para a lâmina e seus olhos rubros distinguiram os filamentos luminosos invisíveis ao olho humano, mas que para ele mostrava a purificação do aço, algo que só um sidhe tinha o poder de realizar.
Tomou-o, nas mãos com cuidado e reverência, depois o levou até as brasas que ainda ardiam na fornalha. Acionou o fole até surgir o fogo e lhe pareceu que as *Acthnici exultaram ao vê-lo ali, prestes a tomar-lhes emprestado o poder purificador do elemento...
Quando o calor preencheu o ambiente, posicionou o punhal no fogo até que a lâmina ficasse incandescente. O fato do punhal não ter um cabo que isolasse o calor lhe foi providencial, porque o metal aquecido queimou sua carne, fazendo-o antever a dor que ainda estava por chegar...
Então, murmurando palavras de renúncia ao seu mestre, Kagaho levou a lâmina aos olhos e a encostou sobre os mesmos.
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Milo acordou abruptamente, como se alguém houvesse tocado, suavemente em seu ombro. Sentiu que havia algo diferente naquele despertar... Era um sentimento de urgência aliado ao calor delicioso de outro corpo junto ao seu.
A luz das brasas da lareira, junto da lenha que ainda ardia produzindo um fogo baixo, imprimia um tom avermelhado ao ambiente, além de deixá-lo aquecido. Milo inspirou profundamente, tentando gravar todos os cheiros e o momento de entrega que tivera ali, assim como o prazer intenso de fazer amor e não somente sexo.
- Milo? – a voz sonolenta de Kamus soou rouca, mas ainda sensual aos ouvidos.
- Desculpe acordá-lo, mas tenho que ir. – Milo respondeu um tanto desconfortável.
Os olhares de ambos se encontraram e Kamus viu que havia certa angústia nos olhos de Milo.
- Arrependido? – perguntou Kamus, sério.
- Nunca, milorde... Esta noite foi a melhor coisa que me aconteceu, em muito tempo. Apenas, não sei explicar, é... como se eu tivesse que estar em um determinado lugar e... rápido. – respondeu Milo com aquele sorriso capaz de atingir Kamus em lugares, até então, intocados.
- E que lugar seria esse? – devolveu Kamus, levantando-se também.
- A Casa das armas. – disse Milo passando a língua nos lábios, enquanto seus olhos percorriam o corpo nu, de Kamus, com vívido interesse.
Kamus notou o desejo cintilar nos olhos azuis de Milo e sorriu, sentindo o rosto quente e um alívio no coração. Milo não estava inventando uma desculpa e parecia desejá-lo tanto quanto ele o desejava. O mais estranho era que ele também sentia um peso no ar como se algo estivesse errado, fora do lugar...
- Vou com você. – falou Kamus.
Milo sorriu, novamente, e num ato inusitado de afeto, abraçou Kamus e cobriu os lábios dele com os seus, beijando-o com uma ternura apaixonada e sendo, plenamente, correspondido.
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Mu levantou-se da cama ampla, enquanto Aiolia ainda dormia. Olhou-o ressonar e mover o braço procurando-o entre os lençóis. Tinham se amado na casa das Armas e depois ali, na cama que possuía o cheiro do leonino, as marcas da forma do seu corpo e o suor que ambos verteram ao chegar ao clímax muitas e muitas vezes...
Um sorriso tímido insinuou-se no rosto de Mu que, embora tenso, ainda maravilhava-se com o que tinha vivenciado. Sentia a doçura e a paz que os menestréis cantavam em suas trovas românticas, contrastando com o desejo e a paixão que permeava seu corpo. O despertar de um sidhe para o prazer lhe aumentava a longevidade e poder.
Sussurrando o nome de Aiolia, Mu se despediu acariciando os cabelos fartos do amante. O leonino suspirou dormindo, mas assim que Mu fez menção de se afastar, ele o segurou forte pelo braço.
- Onde pensa estar indo? — falou Aiolia franzindo o cenho.
- Preciso ir. – respondeu Mu com a voz serena.
Aiolia acariciou o braço que segurara com força, depois olhou Mu dentro dos olhos e sorriu. Os dentes alvos e alinhados embelezando o rosto viril.
- Não vou deixá-lo escapar tão fácil... Onde precisa rir com tanta urgência? É cedo ainda. – disse Aiolia.
- Tenho que terminar um serviço na Casa das armas, milorde.
- Agora?
- Sim, e não possuo muito tempo.
No princípio, Aiolia desconfiou da resposta de Mu e um princípio de ciúme insinuou-se em seu coração. Mas, ao fitar os belos olhos verdes e transparentes, ele soube que aquele que o despertara, violentamente, para sentimentos que ele julgava inexistentes, estava falando a verdade.
- Não vou deixá-lo trabalhar sozinho. Posso ajudá-lo, pois quando era um menino, aprendi muitas coisas com o ferreiro de meu pai. Embora, ele não se compare ao talento que você demonstra possuir. – disse Aiolia levantando antes que Mu esboçasse qualquer reação.
Por um segundo, Mu temeu a reação de Aiolia ao ser inserido num universo mágico. Sua intuição dizia que, nesta noite, as forças da ordem e do caos fariam sua primeira disputa.
Porém, como diriam as mulheres sábias de seu povo, nada era por acaso e as pessoas sempre estariam em seus devidos lugares se ouvissem a voz de seu coração. Se Aiolia queria acompanhá-lo, era porque seu coração ouvira o chamado.
- Ficarei muito honrado, milorde. – respondeu Mu.
- Não precisamos de formalidades na intimidade, gosto quando diz meu nome... – disse Aiolia aproximando-se como se fosse um felino.
- Então vamos, Aiolia... E fique longe, por favor. – disse Mu se afastando com um sorriso.
O leonino nem sequer cogitou obedecer a ordem e pulou em cima de Mu aproximando-se dos lábios finos e beijando-o com delicadeza. Com esforço, conteve a fome que ameaçava emergir, novamente, incendiando seu corpo e fazendo-o esquecer de tudo para tomá-lo em seus braços.
- *Mou... – sussurrou baixinho ao afastar a boca dos lábios de Mu.
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Afrodite levantou-se devagar, o corpo saciado e dolorido fazendo-o sentir-se apreensivo e feliz, ao mesmo tempo. Máscara da Morte dormia, o peito subindo e descendo com a respiração profunda...
Olhando-o com uma atenção terna, Afrodite admirou o rosto viril, agora suavizado pelo torpor após o orgasmo. A boca, levemente entreaberta, deixava escapar um som baixo e os lábios carnudos despertavam a vontade de beijá-los, de sentir-lhes a textura macia... a umidade em sua pele. Mas, não queria acordá-lo. Não sem antes saber o que estava acontecendo.
O ar estava denso e ouviam-se cochichos no ar, como se as *sílfides tivessem se metamorfoseado em bruma, tentando alertar para os perigos da madrugada. Afrodite elevou a mão, tentando depurar os sons. Fechou os olhos e deixou-se levar pelos cochichos...
“Muitos perigos estão vindo com a bruma dos mortos... O mago negro ama o jogo do poder... Vida e morte em suas mãos são como peças ilusórias de um tabuleiro.”
Inspirando, Afrodite abriu os olhos e colocou a túnica branca. Absorto em suas indagações, não percebeu quando Máscara da Morte levantou, enlaçando-o num abraço forte, a respiração quente e aliciante aconchegando-se em seu pescoço.
Fechou os olhos e permitiu-se deliciar com a proximidade do corpo forte que o fizera delirar de prazer, horas antes.
- Aonde vai? – perguntou Máscara da Morte roçando os lábios no pescoço alvo.
- Tem algo errado acontecendo. – respondeu Afrodite sentindo a pele arrepiar-se.
- Também sinto, o ar parece pesado demais. – disse Máscara depositando um beijo na curva do ombro de Afrodite.
- Creio que a batalha já começou... E é muito diferente do que pensávamos. Nunca pensei que seria assim, voltada para a sordidez do jogo de um mago. – disse o loiro afastando-se daquele abraço.
- Podemos enfrentá-lo. – falou Máscara da Morte com tranquilidade.
- Será? O poder dele está além de encantamentos e rituais. Ele os usa como um pano de fundo. Seu poder maior está em manipular a realidade visível e invisível, colocando a todos como seus peões.
- Você também é um mago, Afrodite. Se assumir seu poder, como deve ser, estaremos em pé de igualdade.
Afrodite encarou os olhos do amante com certa tristeza. Sabia que ele tinha razão.
- Eu nunca quis ser... um mago. Mas, parece que este poder está incrustado dentro de mim! Eu jamais usei meus poderes até aquele dia, quando a criada o enfeitiçou. Talvez eu tenha manipulado alguns acontecimentos sem ter consciência, mas, confesso que temo a extensão desse poder. – disse Afrodite fixando os olhos na expressão de Máscara da Morte.
- Eu sei. Durante algum tempo eu achei que era só uma boa coincidência a vida me oferecer certas facilidades quando o tirei daquela fortaleza. Depois, quando aconteceu o caso da criada, eu passei a sonhar com fragmentos daquele dia. Meus instintos me alertaram para o fato que, aquilo que aconteceu foi bem diferente da versão que contou aos outros. Mas, isso não importa. E quanto a manipular, não precisa ser mago para fazê-lo. Os homens fazem isso desde que o mundo é mundo.
- Mas não no nível que nos tornamos capazes de fazer. Os homens veem as coisas separadas em bem e mal. Um mago, apenas, se posiciona pela ordem ou pelo caos. Parece pouca diferença, mas é nesta visão de mundo que nosso poder se manifesta. Aqueles que optam pelo caos não possuem moral ou emoções que limitem seus desejos. Mas, mesmo o caos é necessário para o equilíbrio da vida.
- Melhor! Isso significa que quando arrancarmos a cabeça deste mago, tudo voltará a sua mais perfeita ordem.
Sem querer, Afrodite sorriu com o pensamento simplista e direto de Máscara da Morte. Então embainhou sua espada e olhou-o, novamente.
- Preciso ir à Casa das armas, agora. – disse ele.
- Espere, estamos juntos. Eu vou com você.
Afrodite pensou em realizar o ritual sozinho, mas em sua mente, uma voz dizia que ele precisaria da força do círculo dos guerreiros e que esta ajuda já estava à caminho.
- Está bem! Então vamos. – disse ele pegando um archote que estava pregado à parede, enquanto Máscara enfiava a camisa e posicionava-se ao seu lado.
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Seu corpo flutuava no ar junto ao espírito de uma ave brilhante. Lá embaixo, seu corpo adormecido estava entrelaçado ao de outro homem. Os dois haviam se amado de forma profunda e agora, o manto de estrelas, incrivelmente vívidas, vinha buscá-lo, afastando-o do belo amante...
Por um instante, ele desejou voltar para perto daquele que amava, mas uma luz intensa e avermelhada sugou-o para além, como se fosse um túnel imenso e afunilado que agora estava negro, silencioso e gélido...
Ikki...
Seu nome ecoou no vazio gelado e ele sentiu dor. Uma dor profunda que parecia rasgá-lo no peito. Seu coração acelerou, sua respiração ficou rápida e seus olhos arregalaram-se com a proximidade da morte...
Agora, via o rosto dela... Esmeralda, sua amada irmã que se fora tão jovem, vítima do descaso e da crueldade de seu pai.
Ikki...
A voz suave trazia de volta o sorriso tímido, o olhar amoroso e por fim, a morte trágica e as últimas e breves palavras: A vida não tem fim, meu irmão... Tudo recomeça... A Fênix nos ensinou... Acredite!
Tudo recomeça...
Ele tentou acreditar, tentou não deixar o ódio torná-lo um cético, mas a dor era grande demais. Ele gritou, mas não conseguiu ouvir a própria voz e então ela surgiu, terrível, imponente, tentando alcançá-lo com suas garras.
A ave dobrou suas asas sobre o seu corpo. Os olhos da criatura pousaram sobre os dele, intensamente negros como um túnel... E, de repente, eles eram o próprio túnel...
Uma ideia assustadora lhe ocorreu, estava morto. Havia perdido a batalha e agora Shaka estava à mercê de Saga.
Tentou lutar contra a paralisia de seu corpo, mas foi em vão.
Então, penas em tons de laranja e vermelho formaram uma imensa mortalha e cobriram seu corpo...
Uma sensação de bem-estar apoderou-se dele. Não precisava mais lutar, apenas flutuar na direção da luz que brilha, cada vez, mais intensa... Ele fechou os olhos.
Ikki...
A voz clamou, pela terceira vez, fazendo tudo ao redor, estremecer. Não era a voz de Esmeralda e sim da Fênix que olhava séria, quase zangada. As penas desprenderam-se de seu corpo e começaram a girar formando uma espiral...
Seus olhos se abriram e, ao invés das penas, ele vislumbrou punhais e espadas. Seu corpo flutuou em meio às armas, antes de despencar para o vazio...
- Ikki. – chamou Shaka ao vê-lo suado e quente, como se estivesse com febre.
O moreno abriu seus olhos lentamente e sorriu ao ver o rosto de Shaka tão próximo ao seu.
- Eu fiz alguma coisa? – perguntou com a voz rouca.
- Você arqueou o corpo e depois... ficou imóvel. E agora está ardendo em febre. – respondeu Shaka colocando a mão sobre a fronte de Ikki.
- Tive um sonho... Não se preocupe. – disse Ikki sentindo o corpo latejar.
- Está doente! Eu vou...
- Não, está tudo bem. Ajude-me a levantar. Preciso ir até... à Casa das armas. – disse ele.
- À Casa das armas? – perguntou Shaka com um ar de preocuapação.
- Sim, confie em mim. Precisamos ir até lá.
Shaka atendeu ao pedido de Ikki. Era um pedido estranho, mas em seu coração ele sentia que devia atendê-lo. Vestiu-se e ajudou Ikki a se vestir. Umedeceu um pano com água e passou no rosto de Ikki que sorriu e olhou-o com os olhos febris. Havia amor, coragem e intensidade naquele olhar.
Confie! Uma voz soou dentro da mente de Shaka e ele tratou de agir com presteza e rapidez.
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Kagaho não gritou quando a lâmina quente queimou seus olhos. A dor excruciante o fez cair de joelhos e arfar, mas ele, mesmo assim manteve a firmeza na mão pequena e proferiu as palavras:
“Meus... olhos... renunciam ao pacto de ver. Com o fogo, eu... ordeno que eles se fechem... para sempre!”
A pele deformou-se, tornando-se uma massa de carne queimada onde antes havia os olhos. A escuridão caiu sobre ele e a dor pareceu interminável. Caído no centro do círculo que traçara com o punhal, ele arfava e se preparava para o próximo passo, quando Afrodite, Máscara da Morte, Mu, Aiolia, Milo, Kamus, Ikki e Shaka adentraram a Casa.
Mesmo sem enxergar, ele sentiu a presença de todos e se encolheu.
- D-Deixem-me! – disse ele.
Diante da cena terrível, Milo adiantou-se e penetrou no círculo tomando Kagaho em seus braços.
- O que você fez garoto?! – gritou ele vendo o rosto deformado do menino.
- M-Milorde... deixe-me! Eu... preciso...protegê-lo. – disse Kagaho.
- Proteger-me? O que está dizendo? Você é uma criança! Sou eu quem tem que protegê-lo! – respondeu Milo, estreitando o corpo pequeno contra o peito.
- Solte-o, Milo. Ele iniciou o ritual e temos que terminá-lo. – disse Afrodite.
Com os olhos arregalados, Milo olhou para o companheiro sem saber o que fazer ou dizer. Kamus adiantou-se e tocou em seu ombro. A voz grave e calma buscando serenar a angústia do amante.
- Façamos o que ele diz, Milo. Fomos trazidos aqui com um propósito, você mesmo sentiu isso.
O tom de voz de Kamus e sua lógica trouxe Milo para a realidade do momento. Ele repetiu o gesto habitual de afagar os cabelos do menino e se afastou, sentindo um grande pesar em seu peito.
- Kagaho, vamos ajudá-lo. Não é preciso que continue este ritual de mutilação. Vou traçar outro círculo em volta do seu. Permaneça no centro dele e abra-se para mim. Dê-me este punhal e também a permissão para selar seu corpo. – falou Afrodite.
Kagaho sorriu fraco e levantou-se, assentindo com a cabeça e ficando no centro do círculo que agora, Afrodite traçava.
Todos os presentes olharam para o belo cavaleiro.
A figura de Afrodite pareceu ficar maior, seus olhos adquiriram um brilho sobrenatural, como se pequenas estrelas se fixassem no azul límpido de suas íris e seus cabelos pareciam flutuar, como se ele estivesse dentro da água.
Quando ele deu uma volta completa, ao redor de Kagaho, o círculo traçado adquiriu um brilho azulado e depois se extinguiu, iniciando o ritual comandado por sua voz.
Cada palavra parecia ecoar em todos os recantos do lugar. O ar tornou-se eletrificado, como se relâmpagos e trovões tivessem deixando seu rastro na atmosfera.
Afrodite pertencia à classe superior da linhagem dos Antigos. Uma classe que prescindia de treinamento ou outro fator externo. Quando chegava a hora, tinham seus poderes manifestados, acessavam ao conhecimento da linhagem que sempre estivera dentro de si, como uma biblioteca pessoal que se abria quando solicitada.
Eram chamados de magos “Aeternum anima”ou almas eternas, aqueles que reencarnavam muitas vezes em busca de sabedoria ou poder.
- “Em nome do equilíbrio, eu traço um círculo de perfeita harmonia”. “Quatro pilares, oito virtudes. Aqueles que eu chamo, de livre vontade, componham o círculo do guerreiro, alimentem-no com seu poder!”
Ao chamado de Afrodite, cada um dos homens, que ali se encontravam, sentiu uma estranha vibração dentro de si. Nunca haviam participado de um ritual, mas estavam conscientes e parecia que uma mão invisível os direcionava para o lugar que deviam ocupar.
E assim, cada vez que o mago falava, de dois em dois, eles iam fechando o círculo ao redor do menino, posicionando-se nos pontos cardeais que Afrodite indicava.
“Pilar do Poder, guerreiros do norte, façam-se presentes a Honra e a Força! (ao chamado responderam Ikki e Aiolia)”.
“Pilar do Divino, guerreiros do sul, façam-se presentes a Inocência e a Compaixão! (ao chamado responderam Shaka e Milo)”.
“Pilar da Sabedoria, guerreiros do leste, façam-se presentes a Temperança e a Fé! (ao chamado responderam Kamus e Mu)”.
“Pilar do Homem, guerreiros do oeste, façam-se presentes a Vontade e a Graça! (ao chamado responderam Máscara da Morte e o próprio Afrodite)”.
Quando o círculo se completou ao redor de Kagaho, luzes fantasmagóricas ondularam ao redor das tochas que iluminavam a Casa das armas. Rostos feitos de bruma formavam-se e dissolviam-se como se procurassem por algo.
Sombras flutuavam, mesclando-se a bruma e podiam-se ouvir vozes sussurradas e raivosas, outras em agonia, todas desejando romper aquele círculo e concentrar-se em Kagaho que permanecia no centro, trêmulo, mas firme.
Então a voz de Afrodite soou, novamente:
“Quatro pilares”.
“Oito virtudes”.
“Oito guerreiros à serviço do equilíbrio”.
“No centro, aquele que rompe o pacto de sangue!”
“Que a vontade suprema se cumpra!”
“Que o caos retorne ao abismo!”
“Que a ordem permaneça!”
“Com sangue foi marcado”.
“Com sangue será libertado.”
“Assim é e assim será!”
Ditas as palavras, Afrodite pegou um punhal e cortou o pulso. Depois, deu um passo para frente e deixou cair uma gota de sangue no lado interno do círculo e passou o punhal adiante.
Todos seguiram seu exemplo sem hesitar e logo, oito pingos de sangue mancharam o solo. Em seguida, os pingos de sangue ferveram e se elevaram como pequenos filetes de luz avermelhada formando uma barreira ao redor de Kagaho.
- Não importa o que aconteça, mantenham sua posição no círculo e fechem os olhos! – disse Afrodite.
Como uma confirmação às palavras do mago, imediatamente sombras disformes que reproduziam expressões de ira e terror lançaram-se sobre o círculo. De olhos fechados, os cavaleiros sentiam suas peles serem fustigadas por uma espécie de vento arenoso, enquanto vozes raivosas ordenavam que permitissem sua entrada no círculo.
Ikki sentiu o peito doer como no sonho e, abriu os olhos, numa reação instintiva.
A cena que presenciou poderia enlouquecer um homem comum. Havia ódio e dor, personificados em silhuetas de corpos dilacerados, sombras gigantescas projetando-se com armas cobertas de sangue e rostos conhecidos de homens que ele havia matado em batalha, assim como todas as crueldades que sofrera na infância.
Porém, ele permaneceu com os olhos abertos, encontrando o olhar de Afrodite, e também o de Mu, os únicos a permanecerem olhando a cena sem perturbar-se.
Tanto o mago, quanto o sidhe compreenderam o que estava para se suceder e assentiram com o olhar. Não era apenas Kagaho que seria libertado. Havia um embate a ser travado e Ikki era o escolhido para combater.
Imbuído da força do círculo, Ikki elevou os olhos com a mesma coragem que sempre guiara seus atos. Inspirou, e a figura de um pássaro transparente materializou-se acima de sua cabeça. Ele verteu mais sangue dentro do círculo e, como se estivesse em transe, falou alto, em meio ao turbilhão:
- Eu, Ikki de Fênix, entrego meu sangue ao poder deste círculo e me torno o receptáculo, aquele que aceita ser o hospedeiro da morte e do renascimento e assim, faço romper a treva que alimenta o caos.
Seguido às palavras de Ikki, ouve um estrondo. Um túnel se abriu no peito do cavaleiro sugando as almas e as sombras num redemoinho de trevas avermelhadas. Quando todas haviam sido absorvidas, Ikki sentiu desprender-se de seu corpo um espectro terrível, uma cópia perfeita de si que exibia uma aparência doentia e macilenta. A figura cambaleou e gritou, como se estivesse ferido de morte, desmanchando-se em seguida.
Ikki caiu de joelhos e foi amparado por Aiolia que estava ao seu lado.
- O-Obrigado. – disse com sinceridade para o homem que agora via como companheiro.
- Conte comigo, milorde! – respondeu Aiolia de forma franca.
Milo e Shaka, assim como os outros cercaram Ikki e Kagaho, certificando-se que estava tudo bem. Entretanto, antes que começassem as comemorações, ouviu-se um forte burburinho fora da Casa das armas.
O som assemelhava-se ao que se ouvia durante as procissões católicas, porém, num tom mais inflamado, como se alguém estivesse discursando. Somado a isso, havia um barulho metálico, como se armas estivessem sendo arrastadas pelo solo.
Kagaho apertou a mão de Milo, intuindo que outro servo de seu mestre tinha sido acionado.
Afrodite suspirou e olhou na direção de Ikki. O moreno viu a gravidade nos olhos azuis e compreendeu, sem que palavras fossem necessárias.
- Senhores, creio que nossa batalha está começando... – disse ele, ainda empunhando o punhal usado no ritual.
Notas finais
*sílfides= elementais do ar
*Acthnici= uma das classes dos elementais do fogo
*Mou= meu, em grego
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