Angelique tentou levantar-se, mas a sensação de tontura a dominou sem pudor fazendo-a cair sobre os macios lençóis de seda. A nova criada Lenore adentrou o quarto afoita com os gritos da menina.

- Minha senhora! Deus!- disse ao ver os lençóis da cama e o vestido da Condessa ensanguentados.

A, a criada cobriu a boa e sua expressão de espanto estava escancarada em seu rosto pálido. Sem demoras a antiga ama de Angelique também com o mesmo nome da nova criada e lady Josephine vieram ver o que estava acontecendo.

-Me tragam uma bacia com agua morna e algumas toalhas, rápido. — ordenou a Lenore que tinha conhecimentos sobre o ofício de parteira para os criados que olhavam curiosos inertes na porta.

Lady Josephine aproximou-se da cama, seus olhos se estreitaram formando dois pequenos lagos rasos de água. As duas Lenores ajeitaram a pobre menina sobre a cama, Ange estava pálida feito uma vela branca seus olhos se reviravam por causa da dor que não passava.

-Vou morrer, vou morrer. -sussurrava Ange enquanto segurava os lençóis com tanta força.

A ama apressou-se a pegar as toalhas e as molhou no balde com a agua morna, rapidamente pousou das toalhas sobre a testa da Condessa, Lenore era uma parteira muito experiente.

- Me passe uma toalha, por favor. — solicitou a Lady Josephine que estava próxima.

Sem questionar Josephine pegou uma toalha dentro do pequeno balde e antes de entregá-la torceu-a. Naquela altura a pobre menina estava praticamente sedada por uma dor que não passava.

Lady Josephine olhou a com ternura por um breve momento, nenhuma das três mulheres ali presentes saberia como dizer que a jovem teve um aborto espontâneo, a parteira aproximou com cautela enquanto retorcia ambas as mãos.

-Minha senhora, sinto muito, mas perderá o bebê. — murmurou cabisbaixa.

Os olhos azuis de Angelique se arregalaram rapidamente suas mãos pousaram sobre sua pequena barriga que nem ao menos começara a seformar, sentiu seu corpo tremer por inteiro.

-Não é verdade! Isso não pode ser! SAIA DAQUI SUA MENTIROSA! — berrou impaciente entre lagrimas.

Sem coragem para desobedecer as ordens de sua senhora, sabia muito bem do que Angelique era capaz quando contrariada. Fez um gesto para a outra Lenore indicando que deveriam deixar o quarto, mas ela exitou olhando para a menina que criara com piedade.

- Podem ir, deixem que eu cuido dela. — disse Josephine enquanto tomava a Condessa nos braços.

Mantendo o rosto pressionando o colo daquela que agora se tornara sua melhor amiga, Angelique deixava que as lágrimas escorressem livremente molhando todo o vestido da Lady que acariciava-lhe os cabelos com ternura.

Era a única que não via Angelique como uma criança, mas sim como uma mulher de aparência jovem sofrendo nas mãos de um marido cruel como o Conde.

Para Josephine, Angelique apesar de jovem era como uma amiga e confidente, por isso a trataria sempre como uma igual.

- Ange, compreendo o que está sentindo, mas vai passar, você poderá ter outro bebê quando o Conde voltar. É jovem e saudável assim como o Theodor e tenho certeza de que não demorará a engravidar de novo. Isso acontece, já vi acontecendo com outras mulheres, algumas de minhas amigas já sofreram abortos e hoje são mães. — explicou Josephine.

- Mas e se não acontecer? Não aconteceu com você, não foi? Você não se tornou mãe. — Angelique ergueu a cabeça perguntando.

- Meu caso foi diferente, nunca cheguei a engravidar porque meu marido é estéril. — disse a Lady.

- Como pode saber que é ele e não você que não pode ter filhos? — perguntou a Condessa.

Lady Josephine deixou um suspiro escapar, pois aquela era uma das partes mais tristes de sua vida embora soubesse que era algo comum pelo qual a maioria das mulheres naquela época passavam.

- Porque Gerard é um mulherengo. Me trai com diversas mulheres. Criadas, cortesãs e até mesmo mulheres casadas da Côrte. Gerrard é incapaz de resistir a uma mulher, especialmente se ela for jovem. Sei que ele é estéril porque apesar da enorme quantidade de amantes, nunca engravidou nenhuma delas. Ouvi dizer que ele teve uma espécie de febre quando criança que embora não tenha afetado sua masculinidade, afetou sua capacidade de gerar filhos. — explicou Josephine tristemente.

Mas ao contrário de Angelique, acreditava que ao menos havia sido bom não ter tido uma criança, pois Gerard era um assassino e podia imaginar o quanto seria horrível ver um filho seu sendo corrompido pelo próprio pai até tornar-se uma pessoa ruim.

Levando novamente a cabeça aos braços de Josephine, perguntou-se mentalmente se ela própria não havia sido a culpada daquilo ter acontecido.

Teria sido porque se agitara correndo pelos jardins do Castelo quando estava tão feliz comemorando aqueles momentos de felicidade? Deveria ter sido mais cuidadosa e seguido melhor os conselhos de Lenore ficando quieta enquanto esperava seu bebê.

Talvez tivesse sido uma péssima idéia mandar trazer alguém jovem e cheia de vida como Zélie, que a instigara a fazer aqueles passeios.

Ou será que também não teria sido um castigo por ter desejado a morte do próprio Conde?

Sempre haviam lhe ensinado que era errado desejar a morte de alguém, mas ela não conseguia evitar.

Adormeceu novamente nos braços de Josephine porque seu corpo ficara fraco devido a perda de sangue e no dia seguinte mandou que Lenore levasse Zélie de volta para casa, não pretendia sair daquele quarto nos próximos dias, pois estava triste. A única pessoa que permitia que entrasse ali para lhe fazer companhia era Lady Josephine, com ela sentia-se bem.

Mandou que escrevessem ao Conde comunicando o que havia acontecido, pois ela mesma não tinha ânimo de escrever para contar-lhe aquilo. Simplesmente evitava tocar no assunto sobre o bebê fechando-se no quarto agora escuro com apenas a companhia de sua amiga.