Inocência Insana.
1 Pequena fuga.
Notas iniciais
Eu já poderia imaginar oque Adam iria fazer comigo quando eu chegasse, afinal sai de casa, se é que posso chamar aquilo de casa, esta mais para uma cabana meio surrada, mas é meu único lar. Por fim cheguei na minha casacabana no meio da floresta de Ontário, Canadá. Caminhei lentamente até a velha porta de madeira rustica a empurrei de uma vez na esperança de não ver Adam ali, entrei lentamente na sala que tinha cheiro de lenha, me lembrei que dentro de alguns dias iria começar a nevar. Fui tirada de meus devaneios quando sinto alguém pegar em meu braço com força, não conheço ninguém com tamanha força a não ser meu irmão, na verdade eu não conheço ninguém a não ser ele.
— Onde estava Annabel? – Ele respirou fundo apertando ainda mais meu braço, olhei no fundo de seus grandes olhos cor mel, e logo desci para sua boca rosada carnuda, seu nariz era fino, seus cabelos loiros. Éramos realmente diferentes. Já que citei a cor de seu cabelo; ele estava usando um lindo topete, alguns fios de seus cabelos brilhavam. Ele me puxou para mais perto, agora eu já sentia meu braço latejar. Não o respondi mas soltei um murmúrio de dor — Não irei perguntar novamente Annabel.– Ele rosnou.
— Eu sai, não é obvio?- Eu disse em um tom burlesco – Estou farta de ficar trancada aqui, não há nada a fazer, apenas limpar o que parece nunca estar limpo e ouvir suas reclamações todo santo dia. – Respirei fundo fitando o chão de madeira.
— Anna, eu te amo e só quero lhe proteger, você sabe que não deve sair daqui de modo algum. Eles podem lhe ferir se souber que você é diferente – Adam disse preocupado. Quando nossos pais foram assassinados nos mudamos para o Canadá, antes morávamos em Curitiba, Brasil. Eu tinha apenas quatro anos de idade e Adam dez. Viemos morar com uma tia mas ela faleceu por conta de um ataque cardíaco poucos dias antes do aniversario de vinte anos de Adam. Ele sempre foi um excelente irmão, sempre cuidou de mim, e quando descobriu que com quinze anos de idade eu podia fazer coisas que outras meninas não podiam, na verdade ninguém poderia resolveu me manter trancada. Bom, era o que eu pensava até o mesmo me contar que também era diferente; ele tinha uma força surreal além de poder fazer outras coisas e eu? Eu nunca soube controlar o que posso fazer, as vezes meus olhos mudam de cor, ficam negros como se minhas pupilas se delatassem por completo entretanto, só acontece quando estou furiosa. Adam me contou que uma vez quando criança fiz nossa chaleira levitar, eu não me lembro disto. Ele sempre me manteve aqui, me ensinou tudo o que sei, ler, escrever, cozinhar isso não muito bem porque ele é um desastre na cozinha. Meu irmão tem medo que eles descubram que sou diferente e me façam algo. Sei que tem receio de me perder, afinal sou tudo o que tem. Eu queria muito saber por que sou tão diferente...
— Eu entendo, porém o que não entendo é o porquê de você poder sair ver pessoas, visitar lugares, namorar e eu não. — Pronunciei a palavra “namorar” em um tom baixo.
— Namorar? – Ele soltou meu braço com certa força. Aquela palavra saiu de sua boca como algo repugnante, senti-me indiferente, normal. – Por céus Annabel você só tem dezessete anos, não vai namorar e nem pode. Nunca poderá – Ele levou sua mão direita ao meu maxilar o apertando, olhou em meus olhos que agora já estavam a encarar os deles – Não quero que você repita isso nunca mais, e nem que saia desta floresta, caso contrário – Ele inspirou rapidamente e soltou todo o ar vagarosamente em meu rosto, fazendo-me sentir seu hálito lembra-me, menta com canela Logo ele terminou sua bronca. – Eu mesmo mato você. – Rolei meus olhos irritada com o que acabará de ouvir. Pus minhas mãos sobre seu peito e o afastei fazendo o mesmo soltar meu maxilar com brutalidade.
— Tudo bem, seja como quiser. Fica tranquilo nenhum humano me viu, na verdade só fui até a estrada próxima á floresta. Apenas. – Disse e me retirei subindo os degraus de madeira que rangiam a cada passo até meu quarto. Passei pelo corredor e deparei-me com a porta de meu quarto aberta. Ah, claro que ele iria vir me procurar aqui. Murmurei. Fui de encontro ao meu espelho, com uma moldura dourada velha que não combinava nada com a decoração do meu quarto. Afinal nada aqui combina, nunca liguei para isso. Encarei meu reflexo com piedade de minha aparência, meus cabelos negros ondulados, um pouco abaixo de meus ombros, meus olhos azuis pareciam ressaltar mais as minhas olheiras, minha pele pálida eu parecia mais um defunto. Acho que o defunto é mais bem apresentável que eu. Prendi meu cabelo em um coque frouxo logo após notar quão magra eu era, bem que eu poderia ter um corpo mais atraente. Pra que se eu nem teria quem admira-lo. Caminhei até minha cama retro, bem antiga. Joguei meu corpo sobre a mesma sentindo o meu corpo afundar em meu colchão, coberto por uma colcha completamente branca.
— Anna – Ouvi alguém chamar pelo meu nome, reconheço esta voz mas estava tão baixa. Eu se quer poderia mexer meu corpo.
— Annabel, eu preciso que o deixe! – Novamente a voz dizia, baixa e vagarosamente, aquela voz feminina era delicada, tão doce. Por fim consegui me mover, abri meus olhos e fitei o teto de meu quarto que agora estava embaçado, acabará de voltar ao normal aos poucos. Ah, sim eu dormi. Novamente esse sonho, Droga! Respirei fundo me repreendendo em pensamentos quando vi Adam entrar em meu quarto, ele vestia uma camisa xadrez, grande que atingia sua cintura. O que me incomodava era aquela calça preta apertada. Odeio esse tipo de calça jeans, não há razão só não gosto mesmo. Ele ainda me encara. Por fim indagou algo:
— Ficara bem se eu passar a noite fora? – Ele me olhou severo e curioso.
— Sim, mas posso saber onde vai? – Questionei já sabendo sua bela resposta.
—Não. Vê se come, fiz macarronada sei que gosta- Disse e por fim saiu. Sei que não fez porque eu gosto, fez simplesmente porque só sabe fazer isto. Levantei me da cama e caminhei até o banheiro que ali havia. Passei pela porta já tirando minha regata azul bebê e a jogando em um cesto de roupas ao lado direito da pia de mármore branco. Com dificuldade tirei minha calça jeans, já disse que odeio calça jeans ne? Entretanto tenho mais que qualquer outra peça de roupa. Tirei minha calcinha e entrei no box girando o registro fazendo aquela água quente cair sobre minha cabeça, molhando meus cabelos descendo rapidamente ao meu corpo fazendo me relaxar. Lembrei nitidamente daquela voz, quem será essa que me chama quase todas as noites? A voz nunca diz nada além de: “Anna”’, “Annabel, eu preciso que o deixe!” . Isso me deixa atormentada, nunca contei para Adam, ele diria que é loucura minha. Por fim terminei meu precioso banho depois de alguns minutos minuciosos. Enrolei a toalha em volta do meu corpo pequeno, fui de encontro a minha cômoda peguei minhas peças de roupas necessárias. Vesti e em seguida pus uma blusa leve cor violeta, eu gosto de violeta. Peguei o pente e passai em meus cabelos rebeldes na esperança de ajeita-los. Impossível. Logo meu estomago faz um barulho desagradável, fome. Calcei meus pequenos chinelos brancos e desci. Terminei minha feição e pus o prato com meu talher dentro da pia, fitando a floresta pela janela da cozinha. Acho que vou sair um pouco não há problema algum. Eu acho. Olhei para o relógio e marcava sete e onze da noite. Me dirigi a porta da sala e a empurrei. Rapidamente senti o vento gelado em meu rosto fazendo me respirar mais fundo e sentir um arrepio delicioso. Desci os degraus da velha varanda daquela casacabana mórbida. Caminhei em direção a floresta, sentindo todo aquele frio. Deveria ter pego meu casaco, me repreendi. Continuei caminhando até chegar ao meu destino um velho tronco caído ao meio da floresta, provavelmente ele deve esta ali a alguns meses o descobri a pouco tempo e já o considero. Vejo que sou meio mentecapta quando trato um simples tronco de uma arvore onde me sento, como algo vivo. Depois de poucos minutos caminhando cheguei a ele. Ali estava meu único amigo, solitário, molhado, será que estava feliz ao sentir minha presença? Droga, acho que estou perdendo minha sanidade. Me sentei sobre ele e fitei ao meu redor rapidamente, apenas arvores a vista. Não me sinto só, só entediada as vezes. Como posso sentir falta da presença de alguém se nunca realmente tive alguém? Apenas Adam e minha tia mas ele é frio, rude a maior parte do tempo e minha tia se foi. Não sinto falta dos meus pais, eles se foram quando eu era muito nova, se quer lembro da aparência deles. O que mais me encabula é Adam nunca me falar sobre a morte deles, quando o indago ele simplesmente muda de assunto por fim desisto a única coisa que sei é que o nome da minha mãe era Lucye do meu pai era Lucas. Passei minha mão sobre o tronco, hum...,seria legal ter meu nome aqui. Pensei comigo mesma. Levantei me e caminhei pela área examinando cada espaço em busca de algo afiado para cravar meu nome no meu amigo quando ouço vozes femininas, uma delas ria incessantemente e a outra falava que uma outra pessoa havia a dispensado porque ela era “Oferecida demais.” Ela não estava com uma voz nada boa, parecia furiosa enquanto contava com vigor de detalhes o que o tal menino a disse e a outra apenas ria. Ouvi uma terceira voz, agora mais grave, masculina. Gritava para as garotas:
“MEL, VAMOS. TEMOS QUE FAZER O CARRO PEGAR E NÃO VAMOS FICAR TRANQUILOS COM VOCÊS DUAS SOZINHAS AQUI.” – Sua voz grave fez uma onda de arrepios passarem pelo meu corpo. Caminhei mais um pouco tomando cuidado para que eles não me avistassem, me escondi atrás de uma arvore e pude finalmente avistar as tais garotas. A loira alta sussurrou não muito baixo, na altura perfeita para que eu pudesse ouvir. . “Nossa! o que tem de gato tem de chato”. Disse e rolou os olhos, assim como faço quando estou com raiva. A morena apenas riu, ela parecia ter a mesma idade que eu e a loira me aparentava ser um pouco mais velha, poderia eu me arriscar a dizer que ela poderia ter uns vinte e três anos. Só um palpite. A loira logo gritou de volta
“JÁ ESTAMNOS INDO, KEILA VEIO FAZER XIXI” – A morena, Keila deu um leve tapa no braço da loira a repreendendo. A loira que agora sei que se chama “Mel”, obviamente um apelido, apenas riu. E acendeu um cigarro, aquilo não era um cigarro. Não sou tão estupida assim, sei o que é um cigarro e aquilo não era.
“Por quê não disse a verdade Mellanie?”. Questionou a morena...
“Ele é um chato, se souber que fumo isso não vai nem querer me olhar. Odeio meninos certinhos.” Novamente Mellanie revirou os olhos. Vi dois garotos correrem em direção a elas, mas apenas um me chamou atenção. Branco, cabelos negros cortado modernamente em um topete que me faz lembrar o de Adam, Sua boca pequena e desenhada perfeitamente. Céus, esse homem foi desenhado por anjos. O outro estava com um sorriso estampado em seu rosto ao ver a cara de surpresa que as meninas faziam. Parecia ter a mesma estatura que o homem desenhado por anjos, não eram tão altos. Cabelo ruivo, havia algumas sardas em suas bochechas coradas. Estava com a mesma jaqueta que o branquelo de cabelos negros, parecia de alguma escola, provavelmente. E novamente vi calça jeans preta em meu dia, ambos usavam.
“Deveriam ter me chamado para fumar também, puxa, vocês são más”. Disse o ruivo em um tom brincalhão, fingindo estar triste mas logo puxou o “cigarro’’ da mão da garota e tragou.
“Eu não sabia que gostam deste tipo de coisa”. Disse o Branquelo lindo. Ele parecia estar com raiva, ao certo pelo que os três jovens faziam naquele momento.
“Ah, qual é. Relaxa cara se não curte não fuma”. Disse a morena dando de ombros.
“Vamos sentar ali pra terminar isto logo”. Disse Mellanie apontando para meu amigo tronco. Oh, droga! Tenho que sair daqui. Eles caminharam em direção ao tronco. Minha reação absoluta no momento foi correr, então fiz. Ouvi alguém gritar:
“MERDA, DE ONDE SAIU ESSA GAROTA”. Com certeza foi Mellanie. Eu estava apavorada demais pra me virar, só ouvi passos atrás. Céus, alguém estava correndo atrás de mim. Vão me matar, como sou burra. Senti algo cortar minha barriga parei e olhei para baixo, um galho me cortou. Ótimo! Senti uma pancada forte nas costas e cai com tudo no chão. Me virei e dei de cara com o Branquelo, ele me olhava indiferente. Eu estava tão assustada, meus olhos lacrimejavam a essa altura do campeonato. Ele abaixou sua mão até minha altura...Era pra eu pegar? Ele quer me ajudar?
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