Inocência Ultrajada
6 Capítulo 6 ALIADOS
Notas iniciais
Ao entrar no salão principal, Ikki retirou o braço que, instantes antes, estavam sobre os ombros de Shaka. O som das gargalhadas e vozes eufóricas trouxe um breve sorriso aos lábios do jovem anfitrião. Parecia que o tempo havia retornado e, naquele lugar, só residisse alegria e bem-estar.
Pena Dohko não estar vivo para celebrar também... Pensou, enquanto olhava para tudo e todos, sentindo a mão forte de Ikki tocar-lhe o ombro.
Dezenas de velas e archotes presos à parede iluminavam o espaço vasto que agora exibia mesas fartas com muito pão, assados e vinho. O aroma era delicioso e os homens à serviço de Ikki estavam sentados juntos numa mesa larga e conversavam, animadamente.
Com uma voz agradável, Shaka saudou a todos e foi tomar o seu lugar como proprietário da Fortaleza. Ikki sorriu e preferiu fazer como sempre, indo sentar-se junto aos seus homens e sendo recebido por Milo que já guardara um lugar para ele.
Orientando os criados e certificando-se que tudo estava em ordem, sir Kamus foi o último a sentar e Milo percebeu que ele estava acompanhado de um cão. Imediatamente, o jovem cavaleiro atirou um osso para o animal que sacudiu a cauda demonstrando felicidade.
- Beowulf! Não! – ordenou Kamus e o cão se recolheu sem tocar no osso.
Milo olhou para Kamus e perguntou:
- Seu cão não come ?
- Meu cão só come o que eu servir a ele. – respondeu Kamus, secamente.
- Ah... Bem, isso serve como uma medida de cautela, não é?
- Não só de cautela, mas também de disciplina. Ele não se aproxima de estranhos e obedece somente a mim.
Nem bem Kamus concluiu sua frase, Milo estalou os dedos atraindo o cachorro para si.
- Isso garoto... Não seja tão desconfiado quanto esse seu dono. –disse o grego acariciando a cabeça do animal e sendo lambido esfuziadamente.
- Beowulf! – falou Kamus irritado.
O cão continuava se refestelando sob os toques de Milo e pouco respondia às ordens de seu dono.
- Beowulf! – gritou Kamus, mais uma vez e o cão o obedeceu.
- Calma milorde... Os animais também gostam de um carinho de vez em quando. – retaliou Milo.
Kamus não respondeu. Apenas ordenou que o cão fosse para determinado lugar e fulminou Milo com o olhar mais gélido que soube expressar.
- Hã... sir Kamus! – chamou Milo.
- O que é? – perguntou sem se virar.
- Gosta de resolver enigmas?
- Depende. – respondeu Kamus desconfiado.
- Diga-me: O que são vários nobres acorrentados no fundo do fosso de um castelo?
Franzindo o cenho, Kamus desconfiou da pergunta, mas mesmo assim respondeu:
- Um atentado.
- Não, Um bom começo! – falou Milo rindo e enfrentando o olhar furioso de Kamus.
- Se não tem mais nada a fazer, sir Milo, mantenha sua boca ocupada com o jantar! – falou Kamus enquanto Milo ria gostosamente, sendo acompanhado por alguns soldados que tinham ouvido a piada.
Kamus caminhou a passos largos em direção à cozinha. A irritação cedendo espaço para um leve sorriso e um balançar de cabeça.
Um bom começo... De onde esse homem tira tanta tolice!? Pensou Kamus enquanto via seu cão continuar abanando o rabo na direção do salão.
A noite estava clara e, após o jantar, Kamus resolveu verificar os postos de vigília, antes de se recolher. O aroma dos carneiros assados banhados em molho de ervas, ainda preenchia o ar da noite, quando sons de cascos à distância atraíram a atenção do jovem ruivo.
Havia algo se aproximando da Fortaleza e pelo som, era uma tropa. Ouvindo um longo assovio, Kamus recebeu o alerta dos poucos guardas que estavam nas ameias e, quando fez menção de voltar para o salão, quase deu de cara com Milo.
- Problemas? – perguntou o cavaleiro.
- Ainda não sei. Alguém se aproxima e já estão bem próximos da ponte. – respondeu Kamus.
- Vou chamar um dos nossos homens que tem um talento excepcional para enxergar bastante longe. – falou Milo.
- Pois bem, faça-o e já alerte todos os seus companheiros. – disse Kamus.
Minutos depois, Mu era levado até a ameia norte. Sem nenhuma dificuldade, ele pode vislumbrar o estandarte que vinha à frente. A figura de um leão negro sobre o fundo dourado.
Por um instante, o coração de Mu acelerou como se aquela figura estampada no estandarte fosse a representação simbólica do homem que liderava aquela expedição. O jovem artesão das armas do grupo de Ikki agradeceu aos deuses pela visão abençoada e por toda a beleza que se sobrepunha aos horrores das muitas batalhas que já vivenciara.
Franzindo o cenho, Kamus ergue a mão, sinalizando que estava tudo bem. Com voz grave e tranquila, ele ordenou.
- Baixem a ponte! É lorde Aiolia quem se aproxima.
A comitiva já estava toda no pátio quando Shaka foi receber Aiolia que desceu de sua bela montaria, um corcel negro, parecendo que tinha saído direto de um conto heroico ou mitológico.
- Saudações milorde! – disse Shaka sorrindo.
Do lugar onde estava, Ikki percebeu a felicidade de Shaka e o simples fato dele sorrir daquele jeito o fez sentir todos os seus nervos tensos, de imediato.
Aiolia deu uma gargalhada e abraçou Shaka de forma esfuziante.
- Você não muda mesmo, Shaka! Desde quando temos essa formalidade entre nós? – disse Aiolia beijando-o, de leve, nos lábios.
Agora não eram apenas os nervos, mas também as entranhas se retorcendo numa autêntica explosão de ciúme.
Alto, ombros largos, belo rosto e nobre de postura, Aiolia sacudiu a cabeça fazendo os cabelos acobreados brilharem sob a luz dos archotes. Era um homem cuja presença jamais seria ignorada e cujas ações eram guiadas por um rígido código de honra. Afilhado de Dohko, Aiolia não estava presente quando a tragédia abateu-se sobre a Fortaleza Virgo, porém ao saber do ocorrido, tratou de fazer-se presente.
Shaka afastou-se do abraço apertado e procurou Ikki com o olhar. O moreno permanecia distante e ao lado de seus homens com os braços cruzados e uma expressão grave. Estranhando a postura de Ikki, Shaka tratou de encaminhar seus novos hóspedes para depois conversar com ele.
- Estou com visitas, milorde. Portanto, comporte-se! – respondeu Shaka ainda sorrindo.
- Visitas? Seriam aqueles que nos observam de longe? Cheguei a pensar que fossem seus soldados. Bem, antes de tudo, peço perdão pelo tardar da hora. A razão de eu estar aqui foi que, ao chegar soube de seu pai, então vim direto para cá. Achei que precisaria de mim. – disse Aiolia.
- Eu sabia que estava viajando, então pedi a ajuda de sir Ikki. Ele e seus homens estão hospedados aqui. Vou apresentá-los mais tarde!
- Humm... Então acho que talvez não sejamos bem-vindos. – disse Aiolia, sério.
- Mas que absurdo está dizendo, meu amigo! Virgo pode acomodá-los, com certeza. – falou Shaka. – Venham, devem estar cansados e com fome. Ainda tem muita comida. –Entrem e fiquem à vontade, enquanto falo com sir Ikki. — completou, indicando a porta do salão principal.
Ikki ficou parado, tomado por uma forte irritação, mas mesmo assim ficou atento a toda movimentação e teceu alguns comentários com Milo.
A tropa de Aiolia era em número de vinte, ao todo, e os homens estavam bem nutridos e pareciam eficientes, embora Milo observasse que muitas das espadas e machados estivessem em péssimas condições. Pareciam também gostar de seu senhor e portavam-se com relativa educação.
Ikki sabia que Dohko era apreciado por muitos, devido a sua natureza justa e pacífica. Somente por isso, estava ali para defender a Fortaleza e seus habitantes. Porém, a chegada de mais um lorde do porte de Aiolia, certamente traria um conflito entre lideranças, fato que o orgulho de Ikki não iria tolerar.
- Milorde, acho que teremos mudanças por aqui. – disse Milo.
- Isso, veremos. – disse Ikki franzindo o cenho. – A Fortaleza Virgo é nossa responsabilidade e todo aquele que desejar oferecer ajuda deve reportar-se a mim. Agora vamos, quero falar com todos e deixar a situação bem clara. Depois vou ter com Shaka.
Quando fazia menção de dirigir-se ao alojamento, Ikki ouviu seu nome. Era Shaka que voltava sozinho e caminhava sério e devagar, em sua direção. como se estudasse cada passo dado.
O moreno parou, mas não se virou. A cena de Aiolia beijando Shaka ainda fervilhava dentro de si. Precisava se acalmar e voltar ao normal. Se é que isso seria possível...
- Ikki! – falou Shaka, novamente.
Inspirando fundo, Ikki virou-se e encarou Shaka. A lua incidia sobre o rosto do lorde moreno, emprestando-lhe uma beleza sobrenatural.
O som dos animais noturnos já adentrava a noite e Shaka pode perceber, sob a pálida luz, que o homem a quem apreciava estava aborrecido. Muito aborrecido!
A expressão do loiro era de seriedade misturada à confusão. Sentia o olhar furioso sobre si e não sabia a causa de tal mudança.
- O que foi? Porque não esperou que eu o apresentasse à lorde Aiolia? – perguntou ele.
- Achei que, pelo nível de intimidade existente entre vocês dois, seria indelicado de minha parte atrapalhar. – respondeu Ikki num tom perigosamente calmo.
- E desde quando... você me atrapalha?- perguntou Shaka com um tom calmo e gentil.
- Não nos conhecemos profundamente, milorde! Não desejo outorgar-me uma intimidade que possa constrangê-lo. Agora, se me dá licença tenho que organizar o dia de amanhã com meus homens. – respondeu Ikki.
- Ikki... – falou Shaka tocando o ombro e depois rosto do moreno num gesto terno e inusitado.
Os rostos estavam perigosamente próximos. Ikki sentia o ar quente da respiração de Shaka e ouvia a sua, tornar-se ofegante e descompassada. De repente, toda aquela raiva transformou-se em outro sentimento, algo quente e aliciante que o fazia navegar no azul daqueles olhos profundos e límpidos.
Os dois permaneciam fixados na intensidade daquele olhar em um silêncio absoluto que era quebrado, somente, pela respiração entrecortada, pelo estremecer dos corpos e o retumbar dos corações.
Então, tomado de coragem, Shaka roçou seus lábios nos de Ikki, enquanto dizia baixinho:
- Jamais menospreze a importância que tem para mim, milorde... Temos um pacto, esqueceu?
O contato com aqueles lábios macios, a carícia da mão em seu rosto e as palavras ditas com tanta veracidade atiçou o fogo que ardia dentro de Ikki, acordando seus sentidos de tal modo que o autocontrole se esvaiu por completo.
Com um movimento forte, ele segurou Shaka pelos cabelos e cobriu seus lábios com a boca ávida, gemendo baixo ao senti-lo abrir a boca e buscar a sua língua com igual ardor.
As bocas moveram-se quase em desespero, para depois retornar aos movimentos suaves que se intensificavam a medida que o beijo se tornava mais profundo, mais íntimo.
Ikki deliciava-se com a umidade da boca de Shaka espalhando-se no calor da sua e puxava-o de encontro a si, sentindo seus corpos corresponderem àquele encontro como se estivessem predestinados.
Imersos na sensação de pertencimento e prazer, eles não perceberam a aproximação de um homem que, ao presenciar a cena, estancou por alguns segundos e depois deu meia volta, deixando a cena tão rapidamente que nem percebeu outro observador nada discreto em seu caminho...
- Sir Kamus, que feio ficar espiando os outros. – disse Milo rindo ao deparar-se com o jovem cavaleiro.
Com um leve rubor que, à noite passava despercebido, Kamus defendeu-se, tentando manter sua postura inabalável.
- Eu não estava espiando, vim falar com Shaka e... achei melhor deixar para depois.
- Não foi isso que pareceu... Confesse que tem uma tendência ao voyeurismo. – provocou Milo.
- Ora, milorde! Poupe-me de suas asneiras e coloque-se no seu devido lugar! – grunhiu Kamus exasperado.
- Meu lugar? Onde? Na sua cama? – falou Milo, rindo.
A ação não durou o tempo do bater de asas de uma borboleta. Aliás, Milo viu milhares delas quando aterrissou entre os arbustos, após levar um soco certeiro no nariz.
Estonteado, ele só percebeu que Kamus se aproximava para pegá-lo pela gola da camisa e falar algo que o zumbido na cabeça não deixava ouvir direito.
- Fique longe de mim, seu... seu pervertido! – gritou Kamus antes de empurrá-lo novamente em direção aos arbustos e deixar o local a passos largos.
Clap! Clap! Clap!
O som de palmas fez Milo passar a mão no nariz que sangrava e tentar ver o autor das mesmas. Viu a mão bem cuidada estendida em sua direção e agarrou-a com força.
- Então milorde, finalmente encontrou alguém que não se deixa seduzir pelas suas piadas de mau gosto! – falou Afrodite pegando um lenço e pressionando sobre o nariz de Milo.
- Aquele... mal-amado dos infernos! Acho que quebrei o nariz. – falou Milo meio fanhoso.
- Não... Apesar de tê-lo tirado do sério, sir Kamus apenas descarregou sua tensão em você. Se ele quisesse feri-lo de verdade, teria dado um soco em sua boca e quebrado os seus belos dentes.
- É? E como você pode ter certeza?
- Simples, pelo nível da reação dele, você o perturba mais do que ele ousa admitir... Agora venha, vamos cuidar desse machucado.
Quando os lábios entreabertos buscaram o ar, Ikki sentiu seu corpo vibrar de desejo e Shaka tremeu de excitação e ansiedade. Nada daquilo fora planejado e, mesmo assim, parecia que cada palavra e ato havia orquestrado aquele momento...
A boca de Ikki encontrou a de Shaka novamente e ele se deixou envolver pela doce treva daquele beijo. Beijaram-se muitas vezes, até começarem a rir aflitos e excitados com a descoberta do prazer que emergia tão intenso e natural entre os dois.
Ikki abraçou Shaka com força e ternura e eles ficaram um tempo unidos desta forma, sem dizer nada, apenas sentindo o calor dos corpos e a magia do encontro.
Porém, quando Ikki fez menção de dizer algo, um grito de pavor tirou-os do idílio de forma abrupta. Shaka olhou para o céu e viu a lua cheia ser encoberta por uma manta negra, fazendo-o estremecer...
E sem que pudesse controlar, um medo profundo instaurou-se no coração do jovem lorde e ele afastou-se de Ikki, temendo que os erros do passado o tivessem amaldiçoado...
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