Inocência Ultrajada
7 Capítulo 7 REDENÇÃO E PODER!
Notas iniciais
- O cão! Foi ele, milorde! Ele estava perto do corpo e depois correu para os estábulos quando... quando eu me aproximei! E-Eu vi as suas presas arreganhadas e... sujas de sangue! – gritava Eilinora com os olhos arregalados, as lágrimas escorrendo pela face alva e salpicada de sardas.
Caída sobre a mesa, com o corpo torcido num ângulo estranho, jazia uma mulher madura com a garganta lacerada. Os olhos estavam cerrados, mas os lábios entreabertos pareciam querer dizer algo. Algo que fora, violentamente, interrompido...
Ikki e Shaka entraram no aposento simples deparando-se com a cena trágica, enquanto alguns criados faziam o sinal da cruz e outros eram tomados por uma histeria coletiva por conta das superstições. Archotes iluminavam a tudo, emprestando dramaticidade sobre os rostos apavorados.
— F-Foi um demônio! O demônio possuiu o cão e ele a matou! – dizia um homem baixo e grisalho.
— É noite de lua cheia! Todos viram quando aquilo cobriu a lua e tudo ficou escuro... Eram os demônios e as feiticeiras! São eles que entram nos corpos dos animais e pessoas para fazer toda a sorte de maldades – completou a senhora gorda que ajudava na cozinha.
Shaka estava horrorizado, mas era o senhor da Fortaleza e devia manter-se lúcido mesmo que lhe custasse pensar com clareza ante a cena medonha. Com profundo respeito, aproximou-se olhando para o ferimento exposto e depois se voltou para os criados que se encolhiam perto da porta, enquanto Ikki olhava em volta do cômodo.
Havia um banco caído, uma bacia com água sobre a mesa, um copo vazio e uma poça de sangue que escorria e pingava no chão. Para um ataque, feito por um animal daquele porte, o ambiente estava organizado demais... Analisou Ikki coçando a cabeça.
— Onde está a fera... o cão que dizem ter feito isso? – perguntou Ikki respirando profundamente.
— Está encurralado nos estábulos, milorde! – disse um dos criados. — Os homens o cercaram com os forcados, mas...
— Mas, o quê? – perguntou Shaka.
— Sir Milo diz que ninguém toca no cão até que um tal Máscara da Morte vá até lá. Ele disse que cortará qualquer um que tentar passar antes disso. Até lorde Aiolia já foi até lá tentar demovê-lo.
— Milo?! Com licença, milorde, eu vou até lá. – disse Ikki estreitando os olhos.
Shaka olhou para o corpo, mais uma vez, e pensava no quanto o seu pressentimento, instantes atrás, estava correto. Quando tudo parecia encaminhar-se para um novo desfecho, as sombras desciam, novamente sobre ele e sobre aqueles que amava...
— Cuidem do corpo. – disse ele, por fim.
Quando se virou, encontrou Kamus com um semblante pesaroso, embora seu comportamento revelasse o autocontrole que lhe era peculiar.
Com um gesto, Kamus dispensou os criados, ficando sozinho com Shaka.
— Sir Kamus... O que aconteceu aqui foi horrível. Sabe qual fera eles se referem? – perguntou Shaka aflito.
— Sei. É Beowulf.
— Beowulf?! Não pode ser! Ele sempre o obedeceu e jamais atacou alguém. O que pode ter acontecido? – disse Shaka tentando achar um significado em tudo aquilo.
— Foi tomado pela loucura, assim como... certas pessoas que insistem em cometer os mesmos erros! – desabafou Kamus com a voz alterada e tomando Shaka pelo braço.
— Kamus, o que está fazendo? Por que diz estas coisas num momento como esse? – perguntou Shaka com mágoa na voz.
— Digo, porque é verdade! Porque, cansei de me omitir e depois vê-lo sucumbir às suas fraquezas. Fraquezas essas que não o atingem, somente, mas também acabam por prejudicar pessoas inocentes! Inferno, Shaka! Será que ainda não foi o bastante? Quantas tragédias precisarão acontecer para que enxergue a verdade?! – gritou Kamus.
Shaka só vira Kamus daquele jeito em duas ocasiões: quando Dohko pedira, em seu leito de morte que ele jurasse proteger a Fortaleza e jamais enfrentasse Saga sozinho e agora, quando seu olhar raivoso misturava-se a um sofrimento desesperado que ele teimava em esconder, mas que se revelavam na forma rude com que o tratava.
- Você jamais vai me perdoar, não é Kamus? – disse Shaka fechando os olhos e levando a mão ao peito como se pudesse evitar a opressão que sentia próximo ao coração.
— Quer saber? Eu tentei! Tentei por... mim. Tentei por Dohko, para que a morte dele não fosse em vão. Mas depois de vê-lo aos beijos com outro, eu creio que você é dominado pela luxúria e continuará a prejudicar a todos por sua fraqueza.
— O que existe entre eu e sir Ikki não é luxúria! É muito além disso. Eu nunca senti por ninguém, o que sinto por ele. Nunca! – gritou Shaka.
— Ah, é? Com Saga foram meses e, mesmo assim, você nunca soube quem ele era e foi tratado pior do que um vadio! Lorde Ikki chegou aqui há alguns dias...Não vá me dizer que foi amor à primeira vista! Ou melhor que isso, andou lendo as poesias eróticas que enaltecem os encontros furtivos e a permissividade com estranhos e resolveu experimentar também!
Shaka sentiu o impacto das palavras duras. Sabia que, em relação à Saga, Kamus tinha razão. A sensualidade do lorde o havia tocado de forma inexorável. Em parte por curiosidade, pela admiração por um homem cheio de experiências e histórias que descortinavam um mundo fascinante e culto, tão diferente do mundo restrito da Fortaleza Virgo. Por outro lado, Saga tinha despertado nele um orgulho poderoso, porque dentre tantos, ele, Shaka, fora o escolhido...
Um amargor subiu-lhe pela garganta ao pensar que alto preço ele pagara por uma ilusão: a morte de seu pai, o desprezo de Kamus, o julgamento velado daqueles que estavam sob sua proteção.
Entretanto, não havia mais tempo para autocomiseração. Estava feito, como bem dissera Ikki, o homem que não o julgara e que lhe despertara um sentimento inédito, forte e capaz de fortalecê-lo mesmo agora, quando o medo de ser um amaldiçoado ameaçava enfraquecê-lo e quebrá-lo, como se fosse um graveto.
Elevou os olhos, encontrando os de Kamus. Era o momento crucial, onde decidia abandonar de vez o personagem melancólico e culpado, uma sombra de si mesmo.
Era o senhor da Fortaleza Virgo. Já era hora de assumir tal responsabilidade de cabeça erguida, porque se não o fizesse, não teria aprendido nada e seria mesmo um fraco, indigno de liderar.
Lembrou-se de quando era pequeno e Dohko lhe dissera que ele era especial por sua sensibilidade e gentileza. Estavam em um campo florido e ele ficara inebriado com o perfume daquelas flores, mas triste pela vida breve das pétalas que se desfaziam ao vento.
Em um mundo onde os homens eram rudes, cada vez mais próximos da cobiça e do poder da força bruta, ser partidário da vida, como ele era, parecia uma utopia. Mas, não para o seu pai, que sempre lhe dissera: “Das ações de um homem, as mais nobres eram sempre em favor da vida. Embora, como seres falíveis, muitas vezes, os homems equivocados, enaltecem a morte.”
Agora, as palavras sábias voltavam a sua memória para confirmar sua decisão e guiar suas atitudes.
— Meu pai o considerava e amava como a um filho e eu, sempre o amei e sempre vou amá-lo como a um irmão. Dói-me saber que me acha um libertino, um fraco como acaba de dizer... E de certa forma, você tem suas razões para pensar assim. Não posso desejar que me perdoe, se nem mesmo eu, consigo me perdoar. Mas, mesmo que eu seja indigno, aos seus olhos, sou o senhor desta Fortaleza e, é como tal, que exerço o poder de livrá-lo da detestável tarefa de ficar ao meu lado. Eu o liberto, sir Kamus e também lhe concedo as terras e a propriedade de Corbenic, ao leste de Virgo para que se estabeleça e viva como quiser. Porém, antes disso, peço que me apoie nesta última e inglória tarefa de formar uma comissão que possa averiguar o que está acontecendo aqui. Minha intuição me diz que algo obscuro está por trás disso e não tem a ver com seu cão. – disse Shaka com voz firme, coração sereno e um olhar que refletia sabedoria e compaixão.
As palavras surpreenderam Kamus, assim como o olhar profundo e amadurecido do jovem lorde. Ele e Shaka tinham a mesma idade, mas costumava vê-lo como um irmão caçula. Desde que Dohko o adotara na Fortaleza, ele sentira-se com a responsabilidade de retribuir aquele amor, cuidando de seu filho, protegendo-o de qualquer ameaça. Buscara ser sempre íntegro, eficiente, honrado e...também falhara!
Falhara com Shaka, com Dohko, consigo. O ressentimento que jogava sobre o homem que amava como a um irmão, também era de si mesmo, porque se omitira em relação a Saga. O lorde, uma vez também tentara seduzi-lo com propostas veladas que ele julgara tolas e desprezíveis, mas que já revelavam o seu caráter duvidoso e envolvente. E o que ele fizera? Nada! Apenas o rechaçara e continuara fechado em sua couraça de proteção.
— E então, milorde... O que decide? – perguntou Shaka vendo a hesitação de Kamus.
— Decido ficar ao seu lado, se como senhor da Fortaleza Virgo, ainda confiar em mim para servi-lo. E não o faço apenas por um juramento ou dever, mas porque também o amo, como a um irmão. Perdoe-me, julguei-o com demasiado rigor e beirando ao desrespeito, quando eu mesmo tive minha parcela de culpa. Como eu disse antes, eu me omiti em relação a toda a situação que viveu. Saga tentou seduzir-me, uma vez, e eu jamais compartilhei tal ação. Eu subestimei o poder e a crueldade daquele homem. Se eu tivesse contado... Quem sabe tudo não seria diferente. – disse Kamus e sua voz denotava tristeza e cansaço.
Shaka aproximou-se do rosto que agora demonstrava todo o sofrimento que ficara tanto tempo trancafiado sob a máscara da ira. Tocou-o com suavidade, porque sentia uma compreensão profunda das emoções do amigo, do irmão que sempre estivera ao seu lado como um implacável anjo silencioso até o romper da tragédia.
Kamus, sempre tão correto, tão contido. Nunca se permitindo um deslize... Mas ele era humano e agora confessava uma culpa dolorida que Shaka sabia, pela própria experiência, ser como um fel amargo e venenoso que necessitava ser expurgado, vencido...
O jovem lorde sorriu ternamente. Em seu rosto suave, nenhuma expressão de raiva ou rancor. Então encostou sua testa na de Kamus e falou :
— Não tem importância... Mesmo que tivesse falado, não mudaria o fato que eu achava que ele tinha me escolhido. Eu estava cego, Kamus... Mas, não estou mais!
— Shaka... – disse Kamus, comovido.
Inesperadamente, o cavaleiro puxou Shaka de encontro a si e um silêncio cúmplice e libertador pairou num abraço forte e emocionado. Ainda havia muito a ser dito, mas por hora, o que mais importava era que ambos resgatavam o afeto, o vínculo maior que os unia, novamente, como irmãos...
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— Acorde! Como pode estar dormindo com todo esse barulho?! – perguntou Afrodite sacudindo o homem que dormia profundamente.
— Me deixe, homem! A não ser que tenha uma boa razão... deixe-me dormir. – resmungou Máscara da Morte.
Sem fazer-se de rogado, Afrodite encheu uma caneca com água e despejou-a sobre o rosto dele, fazendo-o levantar-se de imediato xingando e olhando-o com raiva.
Afrodite não se perturbou e ficou a observá-lo, à luz bruxuleante das velas.
Máscara da Morte estava seminu. O torso musculoso mostrando uma estranha tatuagem que parecia dançar sob aquela luz mortiça, elevou-se revelando algumas cicatrizes e o magnetismo poderoso daquele corpo. Os cabelos repicados e negros, agora molhados, cascateavam pelos ombros emoldurando o rosto de contornos másculos e acentuando a expressão perigosa e sensual que tanto podia atrair, quanto afastar.
Ele passou a mão nos cabelos e olhou do modo peculiar que o fazia ser temido por boa parte de seus companheiros. Era um olhar intenso e perscrutador, acentuado pela linha forte das sobrancelhas e que parecia estar sempre devassando além da alma... Além disso, os intensos olhos azuis possuíam um brilho cruel e incomum que ele, orgulhosamente, dizia ser típico dos assassinos...
— Está bem, Afrodite! O que aconteceu? – perguntou ele menos exasperado ao fixar o olhar no azul sedutor dos olhos do belo cavaleiro.
— Milo precisa de você! Enquanto roncava sob o efeito deste vinho de segunda classe, uma mulher foi assassinada e dizem ter sido por um cão! Todos querem sacrificar o animal, mas Milo diz que só permitirá se você constatar que foi mesmo o tal cão. – respondeu Afrodite olhando para os odres com desprezo.
Máscara da Morte franziu o cenho. Cães domesticados não costumavam matar se não fossem treinados para tal e a loucura entre animais era rara. A não ser que maus tratos desencadeassem a insanidade, um animal jamais trairia seu dono, diferente dos homens que traíam e matavam até quem tinha seu próprio sangue. Por isso, costumava dizer que não se importava em matar gente, já um animal era outra história...
— Onde ele está? – perguntou antes de beber mais um gole de vinho de um dos vários odres espalhados ao lado da esteira, enquanto Afrodite fazia uma careta enojada.
— Nos estábulos! Agora coloque uma camisa e vamos, não temos muito tempo. – disse Afrodite olhando-o de cima a abaixo.
Máscara sorriu de um jeito malicioso, antes de se aproximar com extrema hagilidade e dar uma sonora palmada na bunda de Afrodite.
- O que foi, está excitado em me ver assim? – perguntou ele rindo.
Imediatamente, Afrodite pegou-o pelo pescoço encostando um punhal em sua garganta e sussurrando rente ao seu ouvido:
- Mantenha suas mãos longe de mim, ou alguém mais morrerá esta noite, milorde!
A lâmina afiada e a proximidade excessiva da pele fez escapar um filete de sangue do pescoço de Máscara da Morte que gargalhou alto, enquanto torcia o pulso de Afrodite obrigando-o a aproximar o rosto do seu.
- É disso que eu gosto em você... É tão insano quanto eu. – disse Máscara rente aos lábios que exalavam um hálito quente e ofegante.
Afrodite virou o rosto, tentando não revelar o quanto aquela proximidade o afetava. Máscara gargalhou, mais uma vez, passando a mão sobre o fino corte e levando o próprio sangue aos lábios.
O belo cavaleiro sentiu a respiração descompassar e o calor do corpo de Máscara da Morte o fez viajar no tempo, quando haviam se conhecido e criado um forte laço de cumplicidade. Um laço que nenhum dos dois entendia de forma racional, mas que os unira de um modo único, quatro anos antes...
A vida de Afrodite começara no dia em que Máscara da Morte invadira a Fortaleza Branca, nas altas e verdejantes terras ao sul de Orkney e matara o homem que o tinha aprisionado num ciclo de violência e abuso desde que ele tinha doze anos.
Possuidor de uma beleza ímpar, desde o nascimento, Afrodite tinha sido criado como mulher pela mãe doente e acometida de insanidade. Ela escondera o fato de seu marido até sua morte, quando então o autoritário lorde descobrira que sua filha era, na verdade, seu “filho”!
A descoberta só ocorrera, porque lorde Adham tentara abusar da “filha”, constatando com redobrado gosto, que poderia esbaldar-se sem que houvessem consequências indesejáveis como uma gravidez. E assim, por três longos anos, submeteu Afrodite a todos os seus desejos obscenos e perversos.
Quando Afrodite fez quinze anos, seu pai foi assassinado e a Fortaleza Branca tomada por mercenários. Um dos mercenários era Máscara da Morte, um jovem irascível e violento que se unira àqueles homens por necessidade de sobrevivência.
Naquele dia, após o assalto à Fortaleza, os homens comeram, beberam e violentaram as mulheres mais velhas, guardando as donzelas como uma deliciosa iguaria...
Preso no quarto, Afrodite não gritou, nem implorou como as jovens que via serem arrastadas pelo chão frio e úmido. Todo o tempo encarou aqueles homens rudes e rezou para que quando chegasse a sua vez, ele tivesse forças para reagir ou, pelo menos, conseguir um punhal para tirar a própria vida. Não seria abusado por mais ninguém, repetia para si mesmo!
Foi então que Máscara da Morte o encarou. Podia sentir a luxúria nos olhos azuis que eram tão escuros quanto uma safira e tão experientes que parecia os de um homem vivido num corpo jovem.
A lembrança do olhar que ele lhe lançou quando tinha dito que não era uma mulher e sim um homem, tinha ficado gravada para sempre em sua memória.
- Você só pode estar brincando... Nenhum homem pode possuir uma beleza coma a sua. – dissera Máscara da Morte com um fascínio que beirava a adoração.
- Pois digo e provo! Meu pai me violentou, mas eu juro que nunca mais um homem me possuirá! – gritara Afrodite despindo o vestido que fora obrigado a ostentar por tantos anos.
Nessa hora, o líder do bando aproximou-se e beijou Afrodite, violentamente. Em resposta, foi mordido com tanta força que ficou sem um pedaço do lábio inferior.
- M-Maldito! Você vai ver! Não foi só o seu pai que teve o prazer de possuí-lo! Todos os meus homens vão provar desse seu corpo! — gritara Jamian, chamado de o Corvo.
Os olhos azuis de Afrodite faiscaram e ele encostou-se à parede como um animal encurralado. A boca delicada suja de sangue...
Máscara admirou o enfrentamento daquele olhar que continha tanta ira quanto o seu e tomou uma decisão inusitada. Passou a espada nos próprios companheiros, começando por Jamian que ele sempre considerara um chefe covarde e desprezível.
O sangue jorrava, enquanto Afrodite olhava aturdido para a cena dantesca. Braços, mãos, cabeças decepadas espalhavam-se aos pés dos dois empapando o chão de sangue. Tomado por um frenesi insano, Máscara da Morte eliminava um a um com uma ferocidade jamais vista por alguém como Afrodite.
Quando terminou, Máscara sorriu como se nada tivesse acontecido e estendeu a mão suja de sangue na direção de Afrodite.
- Vamos? – disse ele com os olhos brilhando.
- Vamos. – respondeu Afrodite cobrindo a mão rude com a sua.
Juntos, eles deixaram a Fortaleza para os criados que ainda restavam e se embrenharam no mundo.
Afrodite manteve seu juramento e jamais se deixou tomar por um homem. Máscara divertia-se nos prostíbulos e iniciava o amigo na arte de matar. Ambos partilhavam da companhia um do outro como amigos e companheiros de batalhas, tornando-se mercenários conhecidos e colocando suas espadas a serviço de quem pagasse mais.
Numa mudança de estação conheceram sir Milo e foram convidados a integrar as forças de lorde Ikki, numa missão que agradou a ambos, já que o recrutamento feito por um Lorde era, dependendo do nobre, algo bastante rentável.
Vistos juntos, os dois eram a antítese um do outro. Porém, o que ninguém sabia era que aquele vínculo, por mais esquisito que podia ser, tinha sido a redenção de ambos...
- Vamos? – perguntou Máscara estreitando os olhos ao ver Afrodite arfar pensativo e entreabrir os lábios como que a espera de um beijo...
- C-Claro! Isto é, se você me soltar! – disse o cavaleiro puxando o braço.
- Foi você quem começou... – respondeu Máscara dando as costas e indo rápido em direção à porta para que o amigo não o visse.
Se ficasse ali mais um tempo, Afrodite veria a possante ereção que se formara entre as pernas musculosas de Máscara da Morte ao sentir-lhe o hálito quente, o perfume da pele, sempre macia e cheirosa...
Alheio ao fato, Afrodite sorriu, balançando a cabeça e sentindo um ardor no local onde Máscara havia batido com sua mão enorme. Enfiou seu punhal na bainha e saiu atrás do companheiro fechando os olhos por um instante para sentir o cheiro daquele homem que desejava, mas que não ousava confessar...
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Máscara da Morte cruzou o pátio interno em direção aos estábulos. Seus passos firmes como os de um felino, aliados à constituição viril atraiam os olhares das criadas que haviam se recolhido e, mesmo com todo o clima de terror devido à morte misteriosa, suspiravam e se abanavam com leques e mãos aflitas. Desde que Ikki chegara com seus homens, havia uma excitação no ar, principalmente com a presença daquele tipo de homem.
Afrodite percebia os olhares cobiçosos e tentava abstrair dizendo a si mesmo que era melhor assim. Máscara gostava das mulheres e um dia acabaria unindo-se a uma. Enquanto esse dia não chegasse, continuaria igual. Eles seriam companheiros de armas e ele o amaria em segredo. Como sempre o amara e como sempre o amaria...
Na porta dos estábulos estava Milo, com a espada em riste e balançando a cabeça ao ouvir lorde Aiolia. O lugar plenamente iluminado pelas tochas e a postura dos homens e mulheres ali presentes sugeria um clima de caça às bruxas.
Ikki chegou logo depois tendo que romper o círculo formado por soldados e habitantes da Fortaleza. Máscara da Morte não teve dificuldades em romper o cerco já que, pelo olhar dele, todos já sabiam que era melhor sair da frente.
- Então, Milo, qual é a situação por aqui? – perguntou ele espiando para dentro.
- O cão está ensanguentado e com medo, mas abanou a cauda prá mim. Nenhum animal acometido pela loucura faz isso. – respondeu Milo.
- Eu vou entrar. Por acaso o dono dele está por aí? – disse Máscara bocejando e levando a mão à nuca.
- Sim! Eu sou o dono dele. – disse Kamus surgindo detrás da massa de homens.
- Bom! Venha comigo, fique ao meu lado e imite o que eu fizer. – disse Máscara.
Kamus assentiu com a cabeça e entrou ao lado de Máscara da Morte, passando por Milo que o encarou, percebendo uma sutil mudança no olhar do ruivo ao retribuir o olhar.
Enroscado, no fundo do estábulo, Beowulf tremia e arreganhava os dentes cada vez que ouvia um movimento próximo a si. Colocando um archote bem na entrada e longe do animal, Máscara abaixou-se e engatinhou na direção dele, devagar, como se também fosse um animal. Todo o tempo, mantinha o contato visual, buscando uma conexão...
Beowulf rosnou e ganiu, ao mesmo tempo, ao encarar Máscara da Morte e Kamus que repetia os mesmos movimentos lentos e estudados. O cão farejou e abanou o rabo, avançando e recuando com movimentos nervosos e hesitantes.
- Bom garoto... deixe-nos ver o que fizeram com você... Venha aqui... – disse Máscara da Morte num tom caloroso e firme.
Sentindo que não havia hostilidade, Beowulf chorou e correu na direção dos dois, esfregando o focinho em Kamus e enchendo-o de lambidas. Aliviado, o cavaleiro reagiu de forma afetuosa pela segunda vez, naquela noite.
E enquanto ele festejava seu dono, Máscara buscou uma tocha e analisou o pelo escuro que estava ensanguentado no pescoço e nas costas. Sentindo-se seguro, Beowulf continuava amigável e Máscara aproveitou para tocá-lo e sentir seu hálito.
- Seu cão não enlouqueceu, foi drogado. A língua dele está azulada e o hálito com cheiro adocicado. O mais estranho foi que ele não comeu, nem bebeu... Alguém jogou algo nele, senão teria enlouquecido de verdade. Milo estava certo, tem algo muito estranho acontecendo por aqui... Gostaria de falar com a criada que disse ter visto o cão atacar. Ah! Também me deixem ver o corpo da morta, antes de iniciar os rituais fúnebres. — disse Máscara olhando sério para Kamus.
- Eilinora está repousando. Pedirei a um dos criados que o acompanhe até o lugar onde ela está. Shaka mandou cuidarem do corpo, mas pedirei que o deixem vê-lo antes de proceder ao enterro. Mas diga-me, como sabe essas coisas? – falou Kamus.
- Instinto de sobrevivência, um tempo de aprendizado com a escória e... experiência em matar. – respondeu Máscara acariciando Beowulf mais uma vez e indo na direção de Milo que já havia dispensando o aglomerado e conversava com Ikki, Shaka, Aiolia e Afrodite.
Enquanto isso, no cômodo fracamente iluminado, Eilinora repousava a cabeça no colo de Hilda que acariciava os cabelos ruivos e cantava uma antiga canção de ninar. A criada estava com os olhos fechados, o corpo relaxado, após beber uma infusão cuidadosamente preparada para fazê-la esquecer...
Inconsciente de ter sido usada como instrumento de confusão e morte, Eilinora não desconfiava do destino que a aguardava e acreditava que aquela criada de modos gentis era sua melhor amiga.
Habilmente, após ter se infiltrado na Fortaleza, Hilda conquistara a confiança de alguns criados e começava a insuflar a desordem, confiante que quando Saga e Kanon atacassem, encontrariam um grupo desunido e imerso em conflitos...
Seus lábios se abriram num sorriso ao pensar no quanto era delicioso aquele jogo de intrigas e perversões que Radamanthys engendrara para torná-los ricos e poderosos. Usar de magia era excitante, porém criar o caos com ações tipicamente humanas era muito mais divertido...
Suspirava deliciada, quando sentiu uma presença mexer com seu corpo. Parado à porta, um homem a olhava com interesse e demasiada atenção.
- Pois não, milorde! Em que posso ajudá-lo? – perguntou ela erguendo-se da cama.
Máscara da Morte sorriu. Os dentes brancos surgindo entre os lábios carnudos chamaram a atenção de Hilda, assim como o magnetismo do corpo elegantemente musculoso que evocava um erotismo intenso e primitivo, fazendo seu corpo corresponder com um arrepio...
- Você não é Eilinora. – disse Máscara cruzando os braços na altura do peito.
- Não, eu me chamo Hilda. Minha pobre amiga está dormindo. Foi um choque muito grande para ela. Mas, como soube que não era eu? – perguntou Hilda com a voz suave e sentindo a excitação concentrar-se entre as suas pernas.
- Simples! Você é como eu... — respondeu Máscara com o olhar fixo nela.
- C-Como o senhor? Não entendo como posso...
- Nós não nascemos para ser a vítima. – falou Máscara da Morte.
E enquanto falava, ele a olhava de forma deslizante, iniciando pelos seios e descendo pela cintura, detendo-se na curva dos quadris até chegar à junção das coxas. Cada vez mais excitada, Hilda fitou aqueles olhos frios que pareciam queimá-la.
- Tem razão, milorde... Mas, eu adoraria ser uma vítima em seus braços. – disse ela, sussurrante.
Como uma pantera, Hilda deixou o lugar onde se encontrava e avançou na direção de Máscara da Morte. As mãos se elevando para tocar o peito másculo e rijo, o olhar lânguido...
Os olhos de Máscara da Morte brilharam num azul escuro que mais parecia um vórtex de sensualidade e violência. Porém, quando ela o tocou, ele a segurou pelos pulsos com tanta força que a fez gemer. Então roçou os lábios no pescoço, próximo à orelha e falou baixo e rouco:
- Mas, eu não desejo ser uma vítima nos seus... milady!
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