Inocência Ultrajada

4 Capítulo 4 CUMPLICIDADE...


- Perdoe-me! – Já abusei demais de sua generosidade. – disse Shaka se recompondo.

Imediatamente, suas lágrimas secaram e ele voltou à postura distanciada, buscando o afastamento peculiar a sua personalidade fleumática. Não era da sua natureza compartilhar fraquezas e sofrimento. Sempre se recolhia em sua solidão e dela retirava toda a força que necessitava para ir em frente. Isso, nem a paixão por Saga tinha conseguido modificar. Ele permanecia acessível por alguns momentos, mas nunca se entregara verdadeiramente...

- Não faça isso. – Ikki murmurou sem tirar as mãos fortes dos ombros de Shaka.

- Milorde... mais uma vez obrigada por me ouvir. Creia-me, sua atenção para comigo foi como um bálsamo, mas agora estou bem. De verdade. – respondeu Shaka forçando o afastamento daqueles braços vigorosos que o tinham acolhido de um modo que todas as barreiras que ele erguera contra a dor tinham ruído de um modo avassalador.

- Olhe nos meus olhos enquanto digo isso, Shaka. Não existe ninguém sobre a terra que não tenha tido um deslize ou um pecado como dizem os religiosos. Eu juro pela minha honra que jamais vou julgá-lo e me coloco como alguém em que possa confiar e contar.

Uma rajada de vento os atingiu, fustigando os cabelos de Shaka, fazendo os longos fios dançarem ao redor de ambos, como se a natureza referendasse aquele momento e os levasse de encontro a algo maior que eles mesmos.

Ikki ergueu a mão direita no ar.

- Vamos fazer um pacto. – disse ele.

Shaka levou a palma de encontro à dele. Seus dedos longos e um tanto vacilantes encontraram o calor dos dedos firmes e calejados.

- Vai confiar em mim milorde?- perguntou o cavaleiro sustentando o gesto.

- Ikki... eu...

Paralisando-o com o olhar, Ikki baixou a mão até a altura do peito de ambos. Depois apertou a de Shaka e levou-a de encontro ao peito. Seu coração bateu forte sob a mão alva de Shaka. Aquele gesto significava mais um vínculo do que uma mera promessa. Sério, Shaka estremeceu ao sentir que tinha uma amizade verdadeira e desejar, em seu íntimo, que fosse algo mais...

- Confie... Shaka. É um pedido que lhe faço. Deixe-me ser seu amigo. – disse Ikki sem deixar de fitá-lo nos olhos.

- Muito me honra sua amizade e lealdade. – falou Shaka sentindo uma emoção inédita que tratou de esconder sob um tom de voz calmo e controlado.

Ikki lhe soltou a mão, rompendo o momento de cumplicidade. Shaka inspirou e rumou em direção à cancela que dava para o pátio central. Ikki seguiu-o em silêncio e ambos experimentavam, a seu modo, uma euforia diferente. Haviam dito o nome um do outro com uma sonoridade permeada de um sentimento genuíno, despojaram-se de seus títulos e selaram um pacto de amizade e confiança. Por hora, era o que tinham e isso bastava.

A Fortaleza já estava em movimento quando os dois retornaram. Os pensamentos rodavam num torvelinho na mente de Shaka, enquanto Ikki pensava em reunir-se com seus homens e traçar uma estratégia para resolver logo aquele conflito. A segurança de Shaka e de todos os habitantes da Fortaleza tornara-se ainda mais prioritária agora que sabia de toda a verdade.

Cansado e suado, mas ainda com muita energia, Ikki entrou no grande salão do castelo com a ideia de subir diretamente aos seus aposentos no terceiro piso da edificação para pegar os mapas e alguns instrumentos. Deixara ali suas coisas e fizera questão de ficar junto com seus homens no alojamento. Uma criada já havia preparado a refeição da manhã e deixado sobre uma pequena mesa ao lado da tina com água para a higiene da manhã.

Sir Milo foi ao seu encontro aos pés da escadaria, evitando que Ikki chegasse a pisar no primeiro degrau. O alegre cavaleiro tinha uma expressão meio séria e carregava um odre cheirando a vinho temperado com especiarias.

- Não é cedo para beber vinho, Milo? – perguntou Ikki olhando para o odre.

- Estou contente em vê-lo, milorde. Tenho muitas novidades para contar e... bem, o vinho faz parte da minha, digamos, interpretação.

Ikki franziu o cenho e sorriu.

- Então me acompanhe. Treinei hoje cedo, ontem dormi tarde e não fiz minha higiene pessoal como deveria. Acho até que vou pedir que encham a tina para eu tomar um banho.

- Banho? Mas prá quê se vamos nos sujar ao longo do dia?

- Digamos que faz parte da minha interpretação de nobre... – respondeu Ikki rindo.

Enquanto Ikki subia lentamente a escada. Milo desapareceu pelo salão. Ressurgiu pouco depois com uma cesta de frutas, logo alcançando Ikki ao galgar os degraus de pedra de dois em dois.

Noite passada, após conversar com sir Kamus, Ikki pedira à Milo que sondasse o cavaleiro e descobrisse se a antipatia que ele sentia por Shaka era mais profunda, ao ponto de comprometer sua lealdade. Assim que entraram nos aposentos do terceiro piso, Milo foi logo dizendo:

- Não sei como irá me recompensar pelo trabalho que tive ontem, milorde.

Ikki fechou a porta, apontando para Milo um assento diante da lareira. Algum criado ocupara-se em atear fogo às toras de lenha e o desjejum parecia convidativo. Colocando o cinturão com a espada embainhada num canto, Ikki sugeriu:

- Vamos tomar um pouco de leite enquanto você me conta tudo.

Milo fez uma cara azeda ao convite de beber leite, mas aceitou mesmo assim. Afundando-se na cadeira coberta com peles, deixou escapar um suspiro.

- Sir Kamus é um homem honrado, mas... tem um humor do cão! O homem não aceita brincadeiras e fica sempre com aquela cara de quem está sentindo o mau cheiro de alguém.

- Bem, isso não é novidade. Mas, tem certeza que ele é leal? O modo como ele olha para Shaka...

- Shaka? Hummm... vejo que estamos confraternizando... – disse Milo sorrindo malicioso.

- Milorde Shaka! – emendou Ikki. – E deixe de ver malícia em tudo!

- Perdão milorde. Não pense que eu tencionava insinuar qualquer maledicência quando falei...

- Sei, e existem fadas e duendes! Como se eu não o conhecesse, sir Milo! – retrucou Ikki.

Milo riu e Ikki também. O homem de confiança de Ikki, além de estar sempre inventando uma brincadeira, era franco e tinha coragem e dizer o que pensava. Muitas vezes, esse modo de ser atraía problemas, mas para Ikki eram essas qualidades que faziam de Milo um homem em que se podia confiar a vida, sem hesitar.

- Eu me arrisco a colocar minha confiança no ruivo. Ele tem ressentimentos, porque acredita que lorde Shaka era amante do inimigo. Mas é extremamente competente e um excelente espadachim. Também é ele que tem cuidado da segurança da fortaleza antes da nossa chegada e creia-me, ele é muito perspicaz... – falou Milo, agora, seriamente.

- Ruivo? Agora, quem está confraternizando...? – inquiriu Ikki em tom sarcástico.

- Sir Kamus é uma tentação... Frio por fora, mas minha intuição me diz que sob aquela aparência gélida jaz um amante em potencial. – disse Milo pegando uma fruta do cesto e mordendo com gosto.

- Diga-me, Milo. Como é... amar um homem? Quer dizer, as mulheres são nosso oposto natural e o relacionamento com elas é considerado o certo, o mais condizente com a natureza e sua função reprodutiva. Como você lida com isso?

- Ah, milorde... As mulheres são fantásticas com suas nuances, sua visão astuta e seus corpos quentes e generosos. Mas, os homens, eles nos revelam facetas de nós mesmos que tentamos esconder numa relação homem-mulher. Entre iguais, essas barreiras inexistem, e o corpo... Ah, o corpo masculino é deliciosamente apertado, não precisa de muitas preliminares e o prazer é enorme. É claro que também ser preenchido pela virilidade de um amante é um deleite considerável... – disse Milo com um brilho nos olhos.

Ikki sorriu com a forma tranquila que Milo falava de sua sexualidade. Então bebeu mais uma caneca de leite e mudou de assunto. Minutos depois, ele encontrava-se pronto para liderar seus homens com a finalidade de explorar o território ao redor da Fortaleza Virgo e avaliar o estado de prontidão de seus homens e dos que faziam a segurança interna.

Ao crepúsculo, já sabia o suficiente sobre a localidade e o seu povo para concluir que a resolução dos problemas tinha que ser fora dali. Shaka tinha razão, fora Kamus e uns poucos guardas, os habitantes eram pacíficos e, em sua maioria, mulheres, crianças e velhos. Ikki sabia que se podiam usar meninos de dez anos como aprendizes de cavaleiros e colocá-los como peões num conflito. Porém, sua natureza protetora se recusava iniciar crianças muito cedo, principalmente, com um inimigo como Saga.

Depois da conversa com Ikki, onde haviam feito um pacto de amizade, Shaka encheu-se de coragem para entrar no aposento que não suportava passar na frente. Não deixava de ser irônico que, o primeiro contato com Ikki o levara para aquele lugar... O lugar onde vivenciara o prazer e a dor.

Com um archote na mão ele abriu a porta pesada e iluminou o quarto amplo. A primeira coisa em que ele colocou os olhos foi no enorme baú de madeira trabalhada onde guardava os livros secretos... Livros raros que ganhara de Saga, e que devorara com entusiasmo próprio de quem sempre valorizara os prazeres da mente. Alguns eram de temática ligada à alquimia, outros, romances heróicos e trágicos. Os que ficavam bem no fundo eram ilícitos e proibidos... a literatura erótica que Saga fizera questão de incitá-lo a conhecer e... experimentar.

“De forma alguma, o sexo é somente uma necessidade do corpo... Ele não começa entre as pernas, mas na mente.”

Podia ouvir a voz rouca de Saga falando ao seu ouvido, ali mesmo naquele quarto. Sentiu-se estremecer ao lembrar como tinha permitido que ele o seduzisse e dos atos que se seguiram naquela noite em que se entregara a ele...

- Eu quero que você esqueça tudo o que aprendeu... Toda essa baboseira sobre pecado, sujeira e se entregue a mim... Somente a mim. — disse Saga levando a mão de Shaka aos lábios e fazendo-o introduzir os dedos em sua boca.

Saga falava enquanto tomava o seu rosto entre as mãos macias e passava o polegar sobre seus lábios entreabertos. Shaka olhou-o, com um misto de excitação e medo. Eles haviam descoberto muitas afinidades e uma intensa paixão surgira entre os dois.

Então, naquela noite, enquanto todos dormiam, Saga foi até seu quarto e o puxou para perto de si, alojando-o contra o seu corpo de um modo que o tamanho de sua dolorosa ereção não era mais segredo.

- Seja meu, Shaka... Permita-me levá-lo onde ninguém mais pode fazê-lo. – sussurrou mordendo-lhe o lóbulo da orelha.

Um torpor, seguido de um desejo imensurável se espalhou pelo seu corpo e Shaka cedeu, deixando-se tocar e beijar num frenesi de dor e prazer até que seu corpo parecia implorar pelo final, pela posse definitiva...

Experiente, Saga desnudou-o e tomou o corpo nu nos braços, jogando-o na cama. Tirou as próprias roupas e retirou do bolso de uma delas, um lenço de seda e finas tiras de couro.

- Você confia em mim...? – sussurrou ele ao ouvido de Shaka.

- Sim... eu confio... – gemeu o jovem ao sentir a boca quente do lorde em seus mamilos túrgidos.

- Então feche os olhos... – disse ele vendando-o.

Shaka estremeceu, mas concordou. Então Saga continuou a sussurrar e beijá-lo enquanto amarrava seus punhos à cabeceira da cama, bem acima da cabeça de modo que ele não pudesse se mover. Depois, foi a vez dos tornozelos serem amarrados aos mastros no pé da cama.

Agora o corpo de Shaka estava pronto para ele. Imóvel, submisso...

Saga se posicionou entre as pernas do jovem e Shaka sentiu certo pavor. Colocando as mãos na cintura nua de Shaka, sentindo os ossos dos quadris sob suas palmas, o lorde apertou-o com posse e firmeza.

- Você me tentou e agora eu possuirei você...- disse ele sorrindo malicioso.

Ele correu as mãos pelo corpo de Shaka, sobre seus mamilos, seu ventre e seu falo. Shaka gemeu e arqueou o corpo de encontro aos toques lentos e intensos. O rosto dele estava enrubescido e ele fazia pequenos movimentos compulsivos para cima contra as amarras que o continham, pressionando a si mesmo contra as mãos de Saga.

O lorde sorria, seu falo pulsava de ânsia em possuir aquele corpo virgem a seu bel-prazer. Ele se posicionou sobre Shaka e se inclinou para frente, mordiscando os mamilos para senti-los enrijecer em sua boca e marcá-los, arrancando suspiros de prazer e um pouco de dor.

O jovem gemeu mais alto, sua pele começou a ficar úmida e escorregadia com o suor e com a saliva de Saga. O experiente lorde sentou na cama entre as pernas afastadas de Shaka. Ele estava tão rijo que quase sentia dor. Então tocou a ponta de seu sexo pulsante na entrada que se abria para ele. Shaka arfou e levantou os quadris, quase suplicando.

- Sinta-me... Diga que é meu! – falou Saga também em seu limite.

- S-Sou... Sou seu. – gemeu Shaka um tanto hesitante, mas levado pelo desejo de seu corpo inexperiente.

Saga sorriu e acariciou a pele suave da coxa interna de Shaka, cada vez mais sutilmente próximo de seu local secreto. Mais uma vez ele roçou o falo no corpo do amante até vê-lo se contorcer buscando pela concretização do que iria acontecer. Mas ainda não seria o momento, pensou o lorde com um prazer sádico...

Deslizando pela cama até por o rosto entre as coxas de Shaka, Saga deixou seus longos cabelos roçaram a perna dele, enquanto se inclinava para tocar com a língua a sua entrada e, ao mesmo tempo, subir e deslizá-la em toda a extensão do falo que gotejava de pura excitação. Shaka grunhiu e se contorceu na cama. Privado da visão, seus sentidos estavam exacerbados e cada carícia de Saga levava-o ao ápice de um prazer que ele desconhecia existir naquele grau.

Saga arranhou as coxas alvas, enquanto engolia o falo latejante de Shaka, arrancando gritos abafados e movimentos desesperados dos quadris se projetando de encontro a si. Sorrindo, o belo lorde se levantou e cobriu o corpo do jovem com o seu, apoiando-se nos cotovelos para penetrá-lo.

E então o fez num único e rude movimento, como um aríete abre caminho numa propriedade tomada de assalto.

Ele sentiu a resistência e seu prazer duplicou. Shaka gritou, mas desta vez de surpresa e dor. Os lábios entreabertos arfavam e os pulsos começavam a exibir as marcas das tiras de couro que se tornavam apertadas.

Uma enorme força primitiva se apoderou de Saga e ele estocou mais uma vez, arrancando um gemido longo e sentindo-se engolido de uma forma deliciosa.

- S-Saga... – gemeu Shaka com o corpo tenso.

- Silêncio, meu amor... A dor é necessária e logo se transformará em prazer. – ele se inclinou para frente desamarrando as mãos de Shaka e o movimento o fez penetrar ainda mais fundo dento dele.

O jovem gemeu e estremeceu ainda mais e ele o beijou, recapturando os lábios em seus dentes alvos e movendo-se, agora, gentilmente, até ouvi-lo gemer de outro jeito e corresponder aos movimentos, agarrando-se aos seus ombros.

Shaka sentiu seu corpo doer e, ao mesmo tempo ser invadido por uma ânsia voraz que parecia não ter fim, até que foi atingido por uma convulsão dos sentidos que o fez gritar e atingir o orgasmo.

Saga moveu-se rápido e fundo, tomado pelo frenesi de possuir o corpo que sempre desejara. Num último impulso, se desfez dentro de Shaka, com um gemido gutural e ficou deitado, exausto e imóvel em seus braços.

Depois de algum tempo ele se moveu para tirar a venda e soltar os laços que prendiam os tornozelos de Shaka.

À luz da lareira seu corpo pálido reluzia como bronze e a expressão do jovem era solene e imóvel.

- Shaka...- disse ele beijando-o e sentindo um prazer secreto em vê-lo ainda arfante e sonolento.

Tomou o jovem nos braços e acariciou as marcas das tiras, beijando-as com reverência. Shaka tocou seu rosto com um olhar ainda inocente e adormeceu, enquanto Saga pensava que aquele ato tinha sido perfeito e que o jovem, dali para frente, jamais o esqueceria...

Jamais esqueceria a sua primeira vez. Não fora nada dos romances cantados pelos trovadores, nem dos casos contados nos romances. Fora algo estranho que, mesmo trazendo prazer, deixou uma marca indelével de algo que o marcou com uma espécie de culpa mesclada ao desejo. Saga se parecia com um ser dúbio, metade anjo, metade demônio. Excitava-o com palavras, para depois iniciá-lo em formas diferentes de fazer amor, um amor obscuro com gosto de proibido...

Então a imagem de prazer se esvaneceu e o dia em que Saga o arrastou para aquele mesmo quarto encheu-o de horror, novamente.

Os olhos do amante estavam rubros e seu sorriso era um esgar diabólico que o fez estremecer e implorar.

- Saga, não! – gritou ele, enquanto era arrastado pelos cabelos para dentro da Fortaleza.

O lorde correu uma das mãos por seu corpo, enquanto a outra o agarrava com uma força sobre-humana.

- Você é meu e fugiu de mim! Como ousou esquecer o que somos um para o outro?!

- Saga... você sabe o que eu sinto, mas, por favor!

Em resposta, Saga puxou-o contra a rigidez latejante e o beijou, mordendo seu lábio inferior, introduzindo a língua em sua boca. Os lábios de Shaka se abriram num arquejo e ele, embora com medo, rendeu-se ao beijo violento, com esperança que o homem por quem se apaixonara ressurgisse.

Estava frio quando Saga levou-o para o quarto e o desnudou rasgando as roupas e jogando-o na cama.

- Você merece ser torturado... assim como me torturou. – disse Saga tirando suas roupas sujas de sangue e partindo para cima do jovem com um olhar predador e selvagem.

Tomando o lençol nas mãos, Saga o rasgou em farrapos sob o olhar atônito de Shaka. Com os olhos arregalados ele sabia que seria amarrado, mas agora era diferente. Havia um brilho de maldade na forma como o lorde o tratava e ele resolveu não mais se submeter.

- Não vou deixar que faça isso! – gritou Shaka levantando-se da cama.

Saga gargalhou e antes que ele percebesse, o lorde o esbofeteou com força, fazendo-o cair sobre a cama novamente. Com um filete de sangue escorrendo pelo canto da boca, Shaka preparou-se para lutar, sentindo uma sensação ruim dentro de si. A paixão cedendo espaço ao ódio...

Foi então que Kanon surgiu no quarto e olhou para o irmão. Os dois sorriram, beijaram-se de forma lasciva e partiram na sua direção. O irmão de Saga exibia um laço destinado a caçar animais e avançava dentro do espaço do quarto, olhando fixamente para Shaka.

Com o rosto quente devido à bofetada, Shaka tentou reagir, mas não conseguiu. De forma certeira, o laço foi colocado em volta de seu pescoço, fazendo-o arfar quando Kanon puxou, apertando a tira de couro.

- N-Não! – gritou o jovem, mas de nada adiantou.

Os dois irmãos suplantaram, facilmente, a reação do jovem que esperneou, mas sendo asfixiado, ficou rapidamente sem forças e parou de lutar. Com horror, Shaka sentiu seus braços e pernas serem amarrados com força por Saga, sua pele marcada pelo tecido apertado com fúria, enquanto Kanon continuava sufocando-o com o laço.

Por um instante, achou que o matariam daquela forma, mas o que se seguiu, foi pior que a morte.

Enquanto Saga o penetrava com força e violência, Kanon afrouxava o laço o suficiente para enterrar seu sexo em sua boca, sufocando-o ao empurrá-lo até sua garganta.

Shaka pensou que não suportaria. Então tudo parou. Kanon retirou-se de sua boca, fazendo-o tossir e Saga parou de estocá-lo. Com um olhar cúmplice, os dois se aproximaram do jovem e abriram mais as suas pernas. Shaka se debateu, inutilmente ao sentir as mãos fortes apartando suas coxas com tanta força que as marcas dos dedos se transformaram em pontos roxos em sua pele.

Então os dois se posicionaram de forma a penetrá-lo, ao mesmo tempo. Empurrando os corpos contra o seu, dilacerando-o com brutalidade impiedosa.

Um grito de horror saiu dos lábios trêmulos de Shaka. E então, em meio a violência, sangue e dor excruciante, tudo ficou escuro...

O archote estremeceu em suas mãos e Shaka sentiu seu corpo reviver aquele momento como se tivesse sido marcado a ferro. Ainda podia sentir o corpo ferido e violado, coberto de sêmen e sangue, a febre que assolou seu corpo como se tentasse expurgar os toques obscenos e a crueldade. Mas, o pior tinha sido acordar e ver o olhar de seu pai transparecendo ódio e dor como ele nunca vira...

Pai, perdoe-me... Sussurrou entre dentes, na esperança que onde Dohko estivesse, pudesse absolvê-lo da culpa que ele carregaria pela eternidade.

Ikki passava no corredor e olhou na direção do quarto, vendo as sombras da tocha projetando formas bruxuleantes nas paredes de pedra. Empurrou um pouco mais a porta pesada, encontrando Shaka imóvel no centro do quarto.

- Lembranças ruins? – perguntou ele entrando sem pedir licença.

Shaka virou a cabeça lentamente, tentando não deixar Ikki perceber seu desconforto.

- Sim, mas pretendo deixá-las aqui mesmo, trancafiadas nas sombras. – respondeu Shaka dissimulando a dor persistente em seu coração.

- Permita-me dar-lhe um conselho, milorde. Coisas ruins não devem ser trancafiadas nas sombras e sim trazidas à luz. Deixe-as ir embora para longe de si e verá que não são nada mais que lembranças. Se deixá-las aqui, elas se transformarão em fantasmas e irão assombrá-lo para o resto de sua vida. Deixe que se vão e construa coisas novas!

A forma como Ikki via a vida e a força de suas palavras trouxeram um novo ânimo para o jovem lorde. Expulsando o horror de sua mente, Shaka abriu as janelas do quarto e, imediatamente, a luz da lua cheia banhou todo o interior. A dor que ainda residia em seu coração pareceu esfriar junto com a brisa marinha que vinha junto com a luz lunar.

Olhou para Ikki, percebendo os cabelos molhados e a perfeição do corpo, acentuada pela túnica verde-musgo de lã macia a acentuar-lhe os ombros e braços musculosos. Os mesmos braços que o acolheram e aqueceram com uma intimidade jamais vivenciada.

- Obrigado, milorde. Sua sabedoria e generosidade continuam a me surpreender e... fazer-me acreditar no ser humano. – disse Shaka sorrindo timidamente.

Ikki sorriu ao indagar:

- Permite-me escoltá-lo para longe deste ambiente pouco favorável? Que tal compensar a minha... generosidade com um jantar? Gostaria de aprender as sutilezas de um mestre na arte da espada, enquanto devoro um bom pedaço de carne.

- Será um prazer. Contudo, não acho que seja uma sutileza trapacear e pisar no pé do inimigo. – respondeu Shaka, agora sorrindo de forma aberta.

- Só me resta acreditar que perdi para um homem que estava sem comer, porque ele era mais esperto que eu. – respondeu Ikki brincando.

- Não, milorde... eu apenas aproveitei-me de sua maneira cuidadosa de tratar os outros. Uma maneira que devo dizer, o torna um homem fascinante e especial.

Ikki sentiu a voz falhar. Shaka olhava-o com genuíno interesse e tocava-o gentilmente no ombro. Não estava acostumado a receber elogios que não fossem pela sua destreza e força em combate.

O ar entre eles tornou-se mágico, como se a brisa, a lua e a própria noite conspirassem para que dissessem a verdade sem medo das consequências. Então os dois sorriram um para o outro e desceram as escadas abraçados numa gostosa cumplicidade...

Notas finais
Mais uma vez, obrigada: DEATHMASK, SION NEBLINA, KASSIMINHA,DARKYUMI, JULIA_LEÃO, LAISCULLEN, SUPERCILIADF, DDD, BELLE_PRINCESSE,MYSTICSHAKA,e quem mais chegar!!! BJSDesculpem a demora em responder aos reviews, mas eu o farei, podem esperar!!!