Inocência Ultrajada
15 Capítulo 15 AMOR, ANTES DO CAOS... PARTE II
Notas iniciais
As paredes frias da caverna refletiam as chamas trepidantes dos archotes, criando uma atmosfera ainda mais sombria que a noite densa e sem luar.
Quando a “donzela” vira para a Terra a sua “face escura” o poder da magia atinge um grau tão elevado que só pode ser usado por quem pode dominá-lo...
As palavras ainda reverberavam na memória de Radamanthys, enquanto ele olhava para a superfície ondulante da água que brotava da rocha. A metáfora definia bem o período da lua nova, o mais perfeito para os sortilégios, para romper a matriz de ilusões que condenava o homem comum à ignorância e superstições.
O som borbulhante ia penetrando na mente do mago e, aos poucos, seus olhos transpunham a névoa, adentrando outro corpo e outro espaço-tempo...
“Virgo!”
As imagens dos preparativos para a batalha, das alianças e da traição misturavam-se como em um caleidoscópio... O mago sorriu, mas não de alegria. A perfídia, inegável companheira de seus atos, ameaçava retornar para si e ele não pode evitar um olhar de desdém para a visão que desdobrava como se ele estivesse lá.
“Kagaho, sinto tua hesitação!”
“Ousas pensar em me trair, changeling?”
“Tua ilusão de humanidade será tua derrocada, criatura abjeta!”
A voz profunda ecoou na mente de Radamanthys e em Virgo, o jovem escudeiro abriu os olhos, assustado.
Kagaho ouviu a voz de Radamanthys e seu pequeno corpo estremeceu. Olhou para o céu sem lua. “A lua negra” pensou. Era a hora propícia e, assim como o sol nascia todos os dias, Radamanthys a aproveitaria, fazendo-o esgueirar-se pelas sombras e registrar em seus olhos tudo o que estava sendo planejado. Ele o transformaria na criatura disforme, capaz de penetrar em qualquer ambiente e, na melhor das hipóteses, faria sua carne se contorcer de dor. Na pior, o mataria num estalar de dedos...
Respirando apressado, ele se lembrou de Afrodite e pensou em pedir a ajuda do mago, mas logo pensou que o cavaleiro tinha razão, quanto menos Radamanthys soubesse, mais chance seus amigos tinham de confrontá-lo.
Não...! Não envolveria mais ninguém nisso. Teria que romper o pacto sozinho, antes que o controle do mago negro se tornasse forte demais.
Apressado, saiu do alojamento e encaminhou-se para a casa das armas. No caminho, encontrou aquele cuja bondade e alegria havia tocado seu coração e tentou sorrir.
- Kagaho! O que faz tão apressado? Já jantou? – perguntou Milo passando a mão na cabeça do menino.
- Ainda não... milorde, mas estou à serviço. Depois vou até a cozinha como me ensinou! – disse ele dominando o medo em sua voz.
- Hummm... Vamos ver então, qual recompensa um garoto trabalhador como você merece. – disse Milo levando a mão atrás da orelha de Kagaho e fazendo surgir um biscoito doce de gengibre.
Kagaho riu e guardou o biscoito no bolso. Por um instante, seus olhos escuros fixaram nos de Milo e a coragem do cavaleiro pareceu passar para si também.
- Obrigado, milorde! – disse ele e correu para o seu destino.
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Naquela noite, em Virgo, havia um clima de expectativa e tensão antes da batalha, mas Shaka ordenou que todos tivessem um jantar farto e agradável. Havia música no ar, tocada pelos alaúdes e flautas, os archotes iluminavam o grande salão e a conversa estava animada. Todos confraternizavam, rindo e bebendo como verdadeiros companheiros.
Ikki sentado a pouca distância de Shaka, olhava-o de vez em quando e estranhava o distanciamento com que ele o tratava. Chegou a entreabrir os lábios para falar algo, mas quando ia fazê-lo, Shaka dirigia sua atenção a Aiolia que estava sorridente como nunca e, frequentemente, olhava para a mesa onde Mu e Aldebaran conversavam.
- Eu o estou aborrecendo, milorde? – perguntou Ikki, por fim.
- Como? Não seja tolo, milorde... Você seria a última pessoa a me causar aborrecimentos. – respondeu Shaka sorrindo e com um tom malicioso na voz.
- Pois é o que está parecendo. – disse Ikki aborrecido.
Shaka teve vontade de rir, mas continuou com sua representação. Naquela noite, queria mostrar-se diferente, mais ousado. Reconheceu que queria mostrar a Ikki outro lado seu...
Olhou bem dentro dos olhos de Ikki certificando-se de demonstrar todo o desejo que sentia de tê-lo mais uma vez em sua cama. Depois se levantou e falou de forma displicente:
- Acho que vou terminar esse vinho em meus aposentos. Já que não estou mais em confinamento, creio poder receber um convidado especial... Isto é, se ele aceitar o convite.
Ikki sentiu-se inflamar com aquele olhar. Era o mesmo de quando tivera Shaka em seus braços e o amara de forma intensa e apaixonada. Levantou-se, na mesma hora, porém, enquanto Shaka subia as escadas, Kamus se interpôs entre os dois.
- Preciso lhe falar, milorde. – disse o ruivo.
- Hã... Pois não, sir Kamus. Em que posso ajudá-lo? – falou Ikki um tanto ansioso.
- Não vi sir Milo no salão. Poderia pedir a ele para deixar os mapas em meus aposentos? Eu gostaria de analisá-los uma vez mais, antes de executarmos o plano.
- Sim, claro. Milo deve estar tomando banho e logo estará aqui.
- Obrigado, milorde. – disse Kamus e deixou o salão tendo Beowulf ao seu lado.
Sinalizando para Aldebaran, Ikki incumbiu-o de achar Milo e trazê-lo rápido até o salão. Estava inquieto e queria encontrar Shaka. A visão daquele olhar já conseguira provocar um estrago em seu corpo. De imediato sentiu seu membro dar sinais e sentiu-se como um adolescente em sua primeira incursão sexual.
Para seu alívio, viu Milo entrar no salão e foi até ele. O jovem cavaleiro nem parecia o mesmo de instantes atrás, quando lutara com Máscara da Morte. Tinha os cabelos lavados e, soltos. Seu corpo exalava um aroma de cedro e pinho e ele estava vivaz, como sempre.
- Milo, depois do jantar, leve os mapas de sir Kamus aos aposentos dele.
Os olhos de Milo brilharam... Quando retornara da luta com Máscara da Morte, uma das criadas que sabia ver o destino, através das linhas da mão, tinha pegado a sua e dito que um grande amor estava a caminho.
Sabia que era bobagem, mas internamente, queria acreditar, queria saber se tinha alguma chance com Kamus. Lembrou-se do olhar malicioso da criada: “Frieza e ardor num mesmo corpo, capaz de incendiar esta fortaleza...”. Você tem sorte, loiro. Completara ela, rindo.
- Vou levar agora mesmo! – respondeu Milo.
Ikki sorriu, sentindo no amigo a mesma urgência. Então galgou as escadas de dois em dois degraus até os aposentos de Shaka.
A grossa porta de madeira estava entreaberta e Ikki entrou um tanto cauteloso. O aposento estava na penumbra e imerso em um profundo silêncio, parecendo estar vazio.
Será que Shaka tinha cansado de esperá-lo? E se fosse isso, onde estaria? Pensou ele enquanto olhava para pequenas velas flutuando numa bacia com água perfumada, estrategicamente colocada no centro da pequena mesa perto da cama.
Lavanda... O aroma era inconfundível e trazia belas e quentes recordações. Ikki ficou ainda mais excitado e fechou os olhos para aspirar o perfume. Ali, parado, não percebeu um par de olhos verdes espiando atrás da cortina pesada que cobria a janela no outro lado do aposento.
Silencioso como um felino, Shaka esperou que Ikki investigasse todos os cantos do quarto até ficar de costas para ele. Assim que ele o fez, Shaka saiu do esconderijo e tapou-lhe os olhos com as mãos.
- Não se vire, milorde... – sussurrou ele às costas de Ikki.
Surpreso por aquele ato, Ikki obedeceu. Shaka inclinou-se, afastando a camisa do pescoço dele de forma lenta e provocante. Em seguida, colou os lábios sobre a curvatura do pescoço, lambendo, fazendo a língua deliciar-se com o gosto da pele morena.
Seus dentes alvos roçavam a pele de Ikki gentilmente e ele estremeceu, tentando virar o corpo para abraçá-lo.
- Não... Não se vire e não abra os olhos. – ordenou Shaka, começando a despir Ikki.
Embora gostando da sedução, Ikki não pode privar-se de sentir-se estranho pelo modo como Shaka estava conduzindo aquilo. A voz dele era profunda e, até o sussurro, embora sensual, continha uma agressividade velada.
- O que foi milorde? Está com medo de mim? – perguntou Shaka subindo as mãos por dentro da camisa até chegar aos mamilos de Ikki, acariciando-os com os polegares, enquanto lhe mordiscava o lóbulo da orelha e fazia-o sentir sua ereção entre as nádegas. – Será que sua consciência está intuindo que vou me vingar por ter me prendido e jogado fora, o presente que me deu?
Ikki gemeu e, mesmo a estranheza que sentia, foi cedendo lugar ao prazer despertado por aquelas mãos e aqueles lábios. Instintivamente, esfregou-se no corpo de Shaka e ele virou-lhe o rosto, movendo a língua em seus lábios, antes de adentrar a boca e fazer seu sangue ferver.
- S-Shaka... Você sabe que eu... eu só quis... – disse ele e sua voz estava tão enrouquecida que ele tentou abrir os olhos.
- Shhhh... não ouse abrir os olhos – disse Shaka passando o polegar nos lábios de Ikki e depois introduzindo-o na boca úmida e quente, enquanto se deslocava lentamente, indo até a beirada da cama.
Ikki não percebia que estava indo para trás até Shaka empurrá-lo sobre a cama e saltar sobre ele. Com o susto, abriu os olhos e surpreendeu-se, novamente, quando o jovem lorde aprisionou-o embaixo de si. Ele estava nu, e o pressionava de forma que sua ereção pulsava entre as suas coxas.
Os dedos compridos do loiro, por entre seus cabelos negros o mantinham parado, enquanto outros dedos o acariciavam e o provocavam num tormento de carícias íntimas e sensuais. Seu corpo semidespido foi acometido por uma onda prazerosa quando a mão de Shaka alcançou seu falo túrgido que já estava desconfortável naquela calça.
- Acho melhor tirar isso... – sussurrou Shaka afastando-se o suficiente para tirar as botas de Ikki e puxar-lhe as calças que acabaram no chão.
Quando Ikki ficou completamente nu e sentiu o peso do corpo de Shaka, seu corpo reagiu, deixando-o meio tonto de prazer. O sangue parecia circular com rapidez e seu falo pulsava com tamanha intensidade, que ele ofegou, erguendo o corpo
Ele tentou falar algo, mas Shaka enterrou sua boca na dele e as palavras se perderam no profundo, quente e sensual percurso dos beijos que ele depositava em sua pele.
- Esta noite, milorde... Se me quiser, terá que obedecer...- disse Shaka entre as mordidas que dava no lábio inferior de Ikki.
Macios, molhados e deslizantes, os lábios de Shaka passearam pela pele ardente, até atingir-lhe os mamilos e ali, deleitar-se ao senti-los tão duros em sua língua.
Entregue, Ikki gemia e se deixava explorar... Shaka permanecia firme em sua tortura, decidido a ver quanto poder tinha sobre ele.
Quando as unhas curtas arranharam, de leve, o abdômen de Ikki, ele arqueou o corpo e ofegou, sentindo seu falo tão intumescido que começava a doer. Ele queria tocar em Shaka, mas a cada tentativa era impedido pelas mãos ágeis que apertavam forte, as suas.
-D-deixe-me... tocá-lo. – falou Ikki transtornado.
- Não, milorde! Ainda não... – respondeu Shaka e, sorrindo, sentou-se sobre a pélvis de Ikki com uma perna de cada lado. Seu falo também túrgido roçando no dele, fazendo-o ofegar de forma mais profunda.
Quando as mãos de Ikki foram diretas para sua cintura, ele o impediu, novamente.
- Já disse que só me tocará quando eu deixar...!
Ainda com aquela expressão diabólica, ele agarrou o falo túrgido e lambeu-o, delicadamente, antes de posicioná-lo em sua entrada. Depois sentou sobre os joelhos, descendo o corpo lenta e profundamente... Gemeu deliciado quando sentiu a expansão e o latejar do falo dentro de si.
Ikki ofegou ao sentir seu falo ser engolido pelo corpo quente e estreito de Shaka. A forma como ele o fizera e os movimentos lentos que fazia nublou sua visão por alguns instantes...
- Você está se vingando... me fazendo sofrer por tê-lo protegido! – disse Ikki já no limite de sua sanidade.
- Está sofrendo muito... milorde? – perguntou Shaka ondulando o corpo e arrancando um gemido intenso de Ikki.
Em resposta, Ikki cravou os dedos no quadril estreito e puxou-o para baixo, mordiscando seu lábio inferior e introduzindo a língua em sua boca de forma voraz. As mãos fortes de Ikki correram pelas coxas bem feitas, apertando-as em toda a sua extensão, deixando marcas avermelhadas da pressão dos dedos.
Erguendo os quadris, Ikki projetava-se para cima e aprofundava a penetração. Shaka gemia e balançava o quadril, enquanto suas nádegas roliças era apartadas pelas mãos fortes de Ikki para que sentisse o falo possuí-lo ainda mais fundo...
Shaka fechou os olhos e gemeu alto quando Ikki deslizou as mãos pelas suas coxas, guiando-o para quase fora dele, puxando-as em seguida num ritmo forte que o atravessava por inteiro. Os movimentos intensos e sinuosos faziam Shaka ser tocado profundamente num determinado ponto em seu corpo que desencadeou os tremores que antecediam o clímax.
Sua respiração ficou mais acelerada e ele moveu-se mais rápido até sentir as mesmas mãos que o impulsionavam, segurar o ritmo e puxá-lo de encontro ao peito. Ofegante e quente, Shaka protestou, tentando retirar as mãos que o faziam parar. Seu corpo já sentia as ondas prazerosas imiscuindo-se em sua pele e em seu falo que latejou como se estivesse prestes a explodir.
Então de modo meio brusco, Ikki o segurou contra o peito, virou no colchão, ficando por cima dele, e o penetrou por completo, atingindo-o nas profundezas de seu corpo. Shaka mordeu o lábio e gemeu ainda mais alto. Ikki continuou a arremeter, forte, rápido e arquejante até que ambos fossem sacudidos por um violento tremor.
Shaka se contorceu numa espécie de delírio e gritou, cegado pelo orgasmo intenso desencadeado pela possessão viril do amante. Seu sêmen derramou-se abundante no tórax forte de Ikki, enquanto o via grunhir abafado e estremecer numa última e funda estocada, inundando-o também.
Arfante, Ikki desabou exausto sobre seu corpo.
- S-Sinto muito... – desculpou-se com voz trêmula. – Eu não queria machucá-lo.
Shaka sorriu e abraçou-o ainda mais.
- Não sou uma donzela milorde... – disse ele comovido. – Ainda bem que percebeu a tempo. – completou acariciando o rosto forte e suado do moreno.
- Perdoe-me... amá-lo me faz desejar protegê-lo de tudo. Sei que é forte... e o admiro muito por isso. – disse Ikki erguendo-se um pouco e beijando os lábios avermelhados de Shaka. – Estou muito pesado?
- Não saía daí. – Shaka franziu o cenho e o acariciou nas costas, sentindo a textura das cicatrizes e tocando, lentamente em cada uma.
Ikki percebeu pelo olhar de Shaka que ele se perguntava como ele as tinha adquirido.
- Foram feitas pelo meu pai. Eu e ele tínhamos visões de mundo diferentes e ele jamais me perdoou por isso. – disse ele, simplesmente.
- Sinto muito. Alguns homens não suportam que seus filhos tenham vida própria e acreditam que a crueldade vai lhes moldar o caráter.
- Não foi o seu caso... – disse Ikki tocando os lábios de Shaka com o dedo indicador.
- Não, e sempre honrarei meu pai por isso. Mas, agora milorde, vamos falar de coisas mais agradáveis... – falou Shaka tentando afastar as más lembranças e substitui-las por algo mais prazeroso.
- Como o quê, milorde? – perguntou Ikki roçando os lábios nos de Shaka.
- A linguagem dos sinais... sente esse? – falou Shaka levando a mão até o falo de Ikki, tocando-o com firmeza e suavidade.
- Hummm... Gostei deste...milorde... – gemeu Ikki, sentindo a turgidez voltar ao seu membro com espantosa rapidez.
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Milo andava com passadas largas no imenso corredor. Estava nervoso, pois ia ficar sozinho com Kamus em seus aposentos e temia por estar excitado, apenas, com a imagem do encontro formada em sua mente.
Deixou cair os mapas e praguejou, juntando-os rapidamente.
Ao chegar diante da porta de madeira maciça, fez o sinal da cruz, depois agradeceu aos deuses e por fim, passou a mão nos cabelos e cheirou embaixo dos braços. Só então, notou que Beowulf estava esparramado à frente da porta e abanava o rabo.
- Olá, rapaz! Então, como estou? — perguntou ao cão, afagando-lhe a cabeça.
O cão fez uma festa ao seu redor e depois, inesperadamente, saiu em direção às escadas, deixando-o sozinho.
Milo inspirou, novamente. Estava limpo, perfumado e extremamente ansioso. Bateu forte e esperou. Kamus abriu e cumprimentou-o com a mesma cortesia de sempre, abrindo espaço para que ele entrasse.
— Boa noite, sir Milo. Obrigada por trazer os mapas. – disse, enquanto dirigia-se a pequena mesa, cuja superfície estava abarrotada de livros e manuscritos.
— Puxa, quantos livros. – disse Milo sorrindo.
Kamus devolveu-lhe o sorriso e ofereceu-lhe uma taça de vinho.
— Eu estava organizando algumas coisas. – disse Kamus.
— Interessante... sempre faz isso antes de uma batalha?
— Faço. Se eu perecer, minhas coisas estarão em ordem e não darão trabalho para ninguém. Poderão ser doadas, postas fora, sei lá. – respondeu com simplicidade.
— Faz sentido. – falou Milo franzindo o cenho e concordando, embora fosse a última coisa que faria antes de seguir para a batalha.
— Não, não faz! Na verdade eu estava nervoso e sempre que estou nervoso procuro algo para organizar. – desabafou Kamus, após um longo suspiro.
— Nervoso por causa da batalha?
— Não. Nervoso por que... Por que...
— Por que... ? – indagou Milo se aproximando, enquanto sorvia mais um gole do delicioso vinho.
Kamus fitou-o sentindo aquela compulsão violenta que o fazia desejar beijar Milo e ir mais além. Não entendia o porquê de tanto desejo, já que nunca fora dado a paixões. Sua experiência era calcada na premissa que emoções intensas desencadeavam situações indesejadas. O sexo era vital ao homem, mas nem por isso precisava ser acompanhado de paixão ou amor. Bastava o desejo e sua satisfação.
Então porque sentia que com aquele homem seria diferente?
Praguejando baixo, colocou a taça de vinho sobre a mesa e puxou Milo de encontro a si, envolvendo sua cabeça entre as mãos e beijando-o profundamente. Milo manteve-se imóvel por um segundo, até seu cérebro processar que Kamus havia tomado a iniciativa.
Depois do impacto, sua língua fez um trajeto sensual procurando pela dele numa calorosa e excitante batalha, enquanto os corpos ficavam mais próximos e as mãos passeavam pelas costas um do outro.
Uma onda de calor desprendeu-se das carícias feitas com os lábios e as mãos, um verdadeiro bálsamo de luxúria injetado no sangue de ambos. Milo enfiava os dedos por entre os cabelos ruivos e puxava Kamus de encontro a boca ávida, enquanto o ruivo se esfregava em seu corpo e abria mais a boca para receber a língua quente e gemer, deliciado.
Kamus encostou Milo na parede, mordiscando os lábios para, em seguida beijar-lhe o pescoço e aspirar-lhe o cheiro, uma mistura de cedro, pinho e outro odor que mexia com os seus sentidos de forma arrasadora.
Levou a mão ao peito do cavaleiro e sentiu a excitação dos mamilos, assim como a ereção projetando-se de encontro a sua. Baixou a cabeça e tomou um mamilo, depois o outro, com a boca, sugando e provocando por cima do tecido leve da camisa. Milo projetou a cabeça para trás e agarrou os cabelos de Kamus sentindo um prazer tão intenso que seu membro latejou e endureceu, ainda mais, fazendo-o arfar junto a boca do ruivo que retornou à sua, sugando seus lábios e sua língua, num fulminante ataque de puro erotismo...
Mas, as roupas estavam no caminho. Com mãos febris, os dois despiram as camisas, depois o resto das roupas. Nus, olharam-se com desejo e Kamus sentiu os músculos da barriga se contraírem em excitação. Milo era belo, viril, tinha um peito forte e bronzeado.
As mãos de Kamus exploraram a pele quente com uma sensualidade estonteante. Exultou quando sentiu os mamilos enrijecerem, ainda mais sob seus lábios, vibrando com o poder de espalhar satisfação pelo corpo dele...
A cama arrumada, logo os acolheu e os dois uniram seus corpos numa fricção deliciosa, as coxas musculosas desfrutando uma da outra, os falos túrgidos latejando em uníssono...
Sentindo-se em fogo, Milo ofegou entreabrindo os lábios para sorver o ar. Cada toque de Kamus era como um archote acendendo sua carne ardente e, mesmo confuso com tanto prazer, ele se perguntava como aquilo era possível... Logo ele que já vivenciara o sexo com tanta sofreguidão, sentia-se como um adolescente descontrolado, nas mãos de Kamus.
Sim, o ruivo havia intoxicado os seus sentidos desde que pousara os olhos nele, pela primeira vez. Havia nele uma aura de mistério e, ao mesmo tempo, uma emoção trancafiada que parecia chamá-lo para trazê-la à luz... E somado a tudo isso, ainda havia a beleza indômita, personificada nos olhos expressivos, nos cabelos cor de fogo e no corpo másculo, sempre impecável em gestos e postura.
Ele apertava os ombros do ruivo e prendia o fôlego, quando ele mordeu, de leve a curvatura de seu pescoço e, em seguida o virou de costas, se encaixando entre as suas pernas, o membro viril sondando a entrada...
Desesperado para que ele fosse em frente, Milo elevou os quadris numa entrega que mexeu com Kamus e o deixou mais desatinado de desejo.
O ruivo mordiscou-lhe o pescoço e beijou-lhe as costas, numa trilha úmida e quente até chegar às nádegas redondas e bem feitas. Afastou-as e introduziu a língua, lambendo e provocando, até Milo gemer seu nome e se contorcer num pedido desesperado, agarrando-se aos lençóis e empinando os quadris.
Os olhos febris de Kamus brilharam com o gesto de Milo e, num movimento único, ele o penetrou. Ao sentir a cavidade quente e apertada, Kamus soltou um gemido profundo, assim como Milo ao sentir a dureza dele dentro de si.
Arfaram juntos, quando Kamus começou a mover-se, estocando de forma circular e lenta, preenchendo-o com um vigor delicioso, fazendo Milo grunhir e agarrar-se aos lençóis como se não fosse suportar tamanho gozo...
As peles traduziam em suor a tensão crescente que descompassava o coração e estreitava o contato dos corpos.
Kamus chocava-se, cada vez mais fundo e rápido nas nádegas de Milo, gemendo e arrancando dele ofegos e tremores... Quando sentiu o corpo ser atingido pelas torrentes do orgasmo, esgueirou as mãos entre as pernas de Milo, masturbando-o no mesmo ritmo que o penetrava e duplicando o prazer que os cavalgava com furor.
Milo estremeceu, gemeu alto e empurrou-se de encontro ao falo que o possuía, gozando nas mãos de Kamus, enquanto recebia o seu sêmen dentro de si. Por um instante, tudo ao redor evanesceu e os gemidos altos fundiram-se num só.
Kamus agarrou-se a Milo sentindo-se derramar no corpo dele, possuindo-o por completo, marcando-o na pele e em lugares mais profundos. Entrelaçou as mãos nas dele, com uma cumplicidade jamais sentida e permitiu-se sentir algo inédito, cuja força era inegável e cujo poder fazia ruir suas couraças de frieza emocional...
Deitaram-se de lado, encaixando o corpo um no outro. E assim permaneceram envoltos num gostoso casulo de intimidade, silêncio e sintonia.
Quando voltaram a se olhar nos olhos, havia paixão e riso, traduzidos em mais um beijo profundo e carícias cálidas, poderosos substitutos das palavras não ditas...
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O homem magro e um tanto curvado caminhava com um castiçal pelos porões adjacentes ao calabouço. Ainda não havia chegado a aurora, mas ele recebera as instruções em seu último sonho e apressava-se em cumpri-las com a subserviência que lhe era característica.
O caminho era úmido e frio, entretanto, ele conseguira, criar ali, um espaço para acomodar algo precioso, para não dizer sagrado e sentia um grande orgulho por isso...
Desde que seu senhor dera a ordem, Burn hesitara. Algo dentro de si recusava executar a ordem de queimar aquele corpo belo, mesmo sem vida. Cremar era coisa dos bárbaros, um ato que os normandos faziam para que seus guerreiros, mortos em combate, adentrassem o Valhala.
Mas ele não era bárbaro, era um cristão convertido e achava que a mulher, mesmo culpada, deveria receber os rituais fúnebres da Igreja. Então, lavou o corpo, descobrindo particularidades físicas que jamais sonhara. Pensou que quando o padre viesse, poderia explicar como aquilo era possível.
Tomado pela excitação, envolveu-o em lençóis de linho para que ficasse preparado. Naquela noite, sonhou com um enorme corvo que se transformava em padre e, no dia seguinte, resolveu que aquilo não era assunto da Igreja e desistiu de chamar o religioso.
Voltou ao porão, na manhã seguinte e deu mais uma espiada no corpo. Para sua surpresa, ele não apresentava nenhum vestígio da rigidez e coloração dos que eram tocados pela morte. Ela parecia dormir e sua expressão serena a fez parecer como uma santa...
Ele então, aguardou mais alguns dias e o milagre se revelou. O corpo de Hilda permanecia intacto e ele começou a ter sonhos proféticos...
“Seja o guardião da verdade. Guarde segredo até a hora certa. Você é o eleito, Burn.”
A boca com poucos dentes se abriu num sorriso. Recebera a honra de ser o escolhido e agora, possuía seguidores que o admiravam e o ouviam com atenção. Logo ele, um analfabeto que nem sabia falar direito. Agora, discursava na câmara escura, insuflado pela graça de sua santa mártir!
Ele construíra um altar e a colocara, cuidadosamente sobre ele. Os lençóis de linho substituidos pela seda pura em tom escarlate, roubada, por uma boa causa, de seu senhor.
Exigira que mantivessem a sua santa e a nova fé em segredo e, todas as noites, reunia seus seguidores em volta do altar, entrava em transe e dizia as palavras certas, aquelas que trariam abundância e proteção quando a batalha chegasse...
Agora, estava ali, certificando-se que ela estava bem acomodada. Olhou para o alto, onde uma pequena e única abertura deixava passar a luz, apenas um pequeno filete que incidia sobre o rosto pálido de Hilda, acentuando-lhe a aura de beleza mística...
Porém, ainda era cedo e a única luz vinha das velas do castiçal. Ele se aproximou, curioso, por achar ter visto a mão macia e pequena, estremecer.
Chegou mais perto e tocou-a com extrema devoção. O corpo delicado pareceu receber uma lufada de vento, um vento estranho e localizado que entrou pelos lábios, ligeiramente, entreabertos.
Burn arregalou os olhos e sentiu o coração disparar. Como se estivesse acordando de um longo sono, Hilda abriu os olhos e sorriu. Movendo o corpo com a sinuosidade de uma serpente, ela levantou-se, deixando cair os lençóis.
O criado fez menção de recuar ante aquela visão, porém Hilda fixou nele os olhos acinzentados e frios, estendendo ambas as mãos. O corpo voluptuoso e nu, revelando-se sem nenhum pudor...
Um misto de terror e excitação fez Burn engolir em seco. Então Hilda sorriu, embora seus olhos permanecessem vítreos, como se ela estivesse ébria. Com voz rouca e profunda ela falou:
- Venha, meu querido... Seja minha primeira oferenda em nome do caos...
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