Inocência Ultrajada
12 Capítulo 12 FÊNIX E O LEÃO
Com uma expressão séria, Ikki atravessou o pátio do castelo, agora envolto pela névoa da aurora, sentindo uma estranha inquietação e analisando os prós e os contras do retardamento de seu plano inicial.
Na companhia de Milo e Kamus, vistoriou as novas armas, pequenas e muito leves que Mu havia forjado para que pudessem levar através do túnel descoberto.
De vez em quando, Ikki olhava para Kagaho que ajudava uma senhora robusta e alegre a descarregar a água dos baldes e pensava no que Afrodite e Mu haviam dito. Tinha que vigiá-lo, mas não podia dispor de um homem somente para isso e, muito menos mantê-lo por perto e deixá-lo ter acesso ao seu plano. Enquanto pensava numa saída, viu Aiolia reunir-se com seus homens e lançar-lhe um discreto cumprimento.
Retribuiu a saudação e então ocorreu-lhe uma ideia. Se Aiolia tomasse o menino como escudeiro, ele ficaria encarregado de uma porção de obrigações e não poderia causar tanto transtorno, mesmo que fosse uma... criatura mágica.
Pensou em sugerir ao orgulhoso comandante que o fizesse, porém devido a antipatia que sentiam um pelo outro, temeu que ele recusasse. Talvez se Afrodite insinuasse... Não, a postura orgulhosa do belo cavaleiro poderia se chocar com a altivez do outro. Sobrara Milo, Máscara da Morte, Aldebaran e... Mu.
– Mu, venha até aqui. – pediu Ikki.
– Sim, milorde.
– Quero que me faça um favor, vá até lorde Aiolia e peça-lhe que tome Kagaho por escudeiro.
Mu estreitou os olhos. Será que aquela era a oportunidade que tanto havia pedido para poder aproximar-se de Aiolia e, enfim, cumprir o seu destino? Teria o dedo de Afrodite neste pedido de seu comandante ou seria, apenas a sincronicidade da Natureza colocando-o frente ao homem que deveria proteger?
– Mu! Escutou o que eu falei?
– Sim, milorde! – respondeu o jovem desfazendo-se de seus devaneios.
– Para que não soe estranho, invente uma desculpa, ofereça-lhe, um presente que pode ser um daqueles belos punhais que forja e não deixe que ele saiba que foi ideia minha. Aquele homem gosta de ser o centro das atenções, portanto pense em algo e faça-o ficar de olho no garoto. – disse Ikki.
– Acha apropriado plantar o ovo da serpente em outro meio, milorde?- indagou Mu.
– Será por pouco tempo e, além disso, admito que lorde Aiolia é um homem forte. O menino ou o changeling não deve ter sido infiltrado somente para causar desordem e sim para colher informações sobre a nossa organização. Será providencial deixá-lo pensar que não há unidade entre nós...
Está bem, milorde. – falou Mu e foi a primeira vez que Ikki o viu abrir um largo sorriso.
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Um criado gritou, depois se pôr a falar em gaélico com uma urgência e velocidade que Ikki custou a entender. Já passava das dez horas da manhã e ele estranhara Shaka não ter decido para o desjejum, então foi à cozinha, local onde todas as informações do dia eram passadas e comentadas.
Antes de começar a perguntar, Ikki prestou atenção nas palavras do homem que gesticulava, enquando duas criadas levavam a mão à boca e se olhavam como se algo terrível tivesse acontecido. Sentindo que havia algo de errado, Ikki se aproximou.
- Mas o que foi homem? O que aconteceu? – exclamou Ikki.
- N-Nada, senhor. Nada aconteceu. – disse ele mostrando-se arrependido por ter elevado a voz.
- Então por que tanto escândalo? – rebateu Ikki.
Uma das criadas aproximou-se do homem calvo e com rugas ao redor dos olhos, cochichou algo em seu ouvido e depois afastou-se, tornando a olhar para Ikki.
- M-Minha esposa acha que eu devo desobedecer a ordem deixada pelo meu senhor. Aqui diz que eu só deveria entregar isso para o senhor à noite, mas ela insiste para que o deixe ler agora – queixou-se o homem guardando um a folha para si e estendendo um pergaminho para Ikki.
Mesmo estranhando que um criado soubesse ler, Ikki ignorou o fato estendendo a mão e pegando o pergaminho que lhe era estendido. Quando abriu, deteve-se, piscando repetidas vezes, para ler o texto curto e escrito com uma caligrafia impecável:
“ Ikki,
Você trouxe alegria e calor ao meu mundo. Seu caráter, sua sabedoria e sua honradez me impressionaram e fizeram acreditar ser possível existir o amor verdadeiro. Foi este sentimento forte que resgatou-me da escuridão da culpa e das más escolhas.
Fazer amor com você foi um momento único em minha vida. Este amor pleno, que somente você teve acesso, permitiu que eu me entregasse de corpo, coração e alma. Posso dizer sem pudores que sou seu, por toda a eternidade e, se mais vidas se somarem a essa, espero reencontrá-lo e amá-lo com todas as minhas forças.
Por favor, cuide de si mesmo e daqueles que estão sob os meus cuidados. Não se culpe, nem culpe ninguém pela escolha que fiz. Comigo tudo começou e é comigo que tudo irá terminar. Não permitirei que Saga atinja àqueles que amo com sua loucura e sordidez.
Shaka.”
Com o coração aos pulos, Ikki apertou o pergaminho e correu desabalado para o local onde seus homens haviam se reunido. Quando abriu a porta num rompante, sir Milo foi o primeiro a notar-lhe a palidez no rosto. Entretanto, foi com firmeza na voz que Ikki falou:
– Aconteceu um imprevisto! Milo, Afrodite e Máscara da Morte peguem suas armas, sigam para o ponto de encontro agora. Se eu falhar no que tenho que fazer, preciso que executem a infiltração na fortaleza dos gêmeos e acabem com eles. Aldebaran, veja se o Mu já falou com lorde Aiolia e traga-o aqui. Rápido!
Conhecendo seu comandante e vendo a urgência estampada nos olhos azuis, ninguém, questinou a ordem antes de executá-la. Entretando, como era de praxe, Milo quebrou a regra querendo saber o porquê da mudança:
– O que aconteceu, milorde?
– Shaka foi ao encontro de Saga e eu preciso alcançá-lo antes que cometa essa loucura. – respondeu Ikki e seu olhar mostrava o que sua voz escondia: desespero.
Houve um momento de pesado silêncio e todos ficaram parados. Antes que Aldebaran fosse ao encontro de Mu, este surgiu na porta no exato instante em que Ikki revelava o motivo de suas ordens expressas. Imediatamente ele olhou na direção de Afrodite que revirou os olhos, compreendendo a intenção silenciosa do outro.
– Milorde, se lorde Shaka saiu logo após termos nos recolhido, creio que podemos atrasá-lo um pouco, até a sua chegada. – disse Mu com a mesma voz forte e serena de quando terminava de forjar uma espada.
– Como? – perguntou Ikki.
– Milorde, apesar do respeito que lhe devo como, tenho que lembrá-lo de deixar as perguntas para outra oportunidade, isto é, se deseja ter sucesso em alcançar lorde Shaka. – falou Afrodite.
Ikki não questionou, correu para os estábulos, onde já havia um cavalo encilhado, à sua espera. Era muito estranho para ele, um homem que tinha sido forjado pelo sofrimento, pelas batalhas e agora pelo amor que sentia por Shaka, ter que acreditar em algo além do alcance de seus olhos e de sua espada.
Entretanto, se os seus homens eram diferentes ou acreditavam em magia, isso já não importava. Seu principal objetivo era salvar o homem que amava, nem que para isso, precisasse acreditar em fadas.
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Shaka já havia cavalgado boa parte da madrugada, da manhã e da tarde e o sol alto cobrava o seu tributo. Precisava descansar, mas não podia. Tinha que alcançar a fortaleza de Saga, antes que Ikki resolvesse resgatá-lo.
Pegou um odre com água, bebeu alguns goles e seguiu em frente, ignorando as dores do corpo de tanto tempo sobre o animal. No entanto, enquanto atravessava o prado verdejante, Psique se assustou com algo e relinchou.
Shaka não viu nada, porém um segundo mais tarde, ouviu o assovio do vento, o rugido do mar e... cavalos! Barulho de cascos, embora abafados pela grama, pareciam bem próximos e pelo visto, vinham do norte, exatamente da direção para onde ele estava indo.
Ele afundou os calcanhares nos flancos da égua; com sua vantagem talvez pudesse se esconder antes de ser visto. O som da perseguição encheu seus ouvidos de um jeito que o desorientou.
Psique, contaminada pela tensão de Shaka disparou pelo caminho rochoso. O chão desenrolava-se sob seus cascos e Shaka sentia o vento no rosto, tentando acalmar o animal e, ao mesmo tempo achar um local onde pudesse se esconder.
Quando um grito soou às suas costas, Shaka olhou para trás e viu um garanhão negro se aproximando. Não precisou ver para saber quem era. Com o coração acelerado ele soube que, quem vinha ao seu encalço. Era Ikki.
Como ele conseguiu me alcançar? É impossível! Pensou Shaka sentindo um emaranhado de sensações, todas duelando em seu interior.
Ele tentou frear Psique, mas a égua estava descontrolada, mudara de direção e agora seguia veloz para as colinas. Ela saltou uma sebe e em seguida outra, até chegar ao solo íngreme que a fez cansar-se e diminuir o ritmo.
Shaka mal reassumiu o controle sobre a égua quando o garanhão negro parou ao seu lado. O sol refletia no pelo do animal e nos cabelos desalinhados e, também, negros de Ikki.
– Ikki... Por que você...veio? – disse Shaka.
Ikki ignorou suas palavras. Seu olhar refletia alívio e, ao mesmo tempo raiva. Deixou que sua respiração acalmasse para então descer do cavalo e segurar Shaka, baixando-o brutalmente até o chão.
– O que você pensa estar fazendo? Como ousa me perguntar porque estou aqui? Você deseja tanto assim morrer? Pois faça isso, novamente, e eu mesmo me encarrego de matá-lo! Está entendendo? – gritou Ikki com o suor escorrendo pelo rosto. A expressão transtornada de quem quase perdera a razão de sua vida.
Sentindo toda a ira de Ikki, Shaka não respondeu. Virou-se para Psique, mas antes que tornasse a montar, Ikki agarrou seu braço com força.
– Vamos voltar agora para a Fortaleza e você vai cavalgar comigo. Se fizer um único movimento suspeito, irei arrastá-lo pelos cabelos. – ameaçou Ikki.
Shaka fixou os olhos nos dele. O cansaço estava estampado nas belas feições, mas além dele algo mais insinuou-se no azul profundo do olhar firme de ambos. Por um longo e tenso momento, nenhum dos dois se moveu até Shaka inspirar fundo e dizer:
– Não possui autoridade sobre mim, milorde! Desde que pedi sua ajuda, deixei claro o que faria e nem você, nem ninguém vai me impedir de fazê-lo!
– Se está tão seguro assim do seu sacrifício, porque saiu na calada da noite? Não precisa se cansar achando uma resposta, porque eu mesmo respondo. Saiu escondido porque está optando pela saída mais covarde! Porque não suporta a culpa e acha que executando um ato suicida tudo será resolvido. Bem mostra que é ingênuo e não conhece a vida real! Ceder àqueles loucos depravados não vai arrefecer a cobiça e a maldade que os move. Você só lhes dará o poder de ir muito além!
As palavras duras de Ikki ferveram dentro de Shaka e ele lançou-lhe um olhar longo e inescrutável, antes de dar as costas sem dizer uma palavra. Aquela postura plácida e inatingível irritou ainda mais o leonino e Ikki agarrou-o novamente, pelo braço, obrigando-o a encará-lo.
– Olhe bem nos meus olhos, milorde! Que fique registrado, que não vou deixá-lo fazer a loucura que teima em colocar em prática. Para o inferno a sua autoridade, sua autosuficiência e sua vontade! Vai me obedecer nem que eu tenha que prendê-lo em sua própria fortaleza! Fui, suficientemente, claro?!
Estreitando os olhos em desprezo ao autoritarismo de Ikki, Shaka levantou o queixo.
– Você não ousaria! — falou Shaka no mesmo tom de ameaça. – Vou odiá-lo se o fizer! – emendou , em seguida, tirando o bracelete do pulso e lançando-o ao chão.
– Então já pode começar a me odiar, a partir de agora! – disse Ikki, olhando para o bracelete que fora jogado fora.
Arrependido, Shaka sufocou a vontade de voltar atrás e pegar o bracelete, quando viu que Ikki não fizera um único movimento para recuperá-lo. Montou na égua e permaneceu mudo.
Juntos, eles cavalgaram sem trocar nenhuma palavra, em direção à Fortaleza. O ritmo imposto por Ikki aumentava o cansaço e as dores que Shaka sentia no corpo, porém nenhum dos dois parecia disposto a dar o braço a torcer e a jornada continuou ininterrupta até ambos vislumbrarem as torres da Fortaleza.
Já era noite quando atravessaram a ponte levadiça e os soldados permitiram, aliviados a entrada dos dois, na Fortaleza.
Ao ver Kamus e Milo vindo em sua direção, Ikki deixou-os se aproximarem e então ordenou:
– Sir Kamus, acompanhe lorde Shaka até seus aposentos. A partir de hoje, ele fará suas refeições e tudo mais no quarto. E quero a porta trancada! E Milo, peça a Aldebaran que faça a guarda. Lorde Shaka está oficialmente confinado até segunda ordem!
Por instantes tensos e surpreendentes, Kamus e Milo se olharam e depois voltaram a encarar Ikki que permanecia numa postura rígida ao lado de Shaka que também estava imóvel.
– Isto é uma ordem, sir Kamus. Milo, o que ainda faz aqui? Chame Aldebaran. Espere, esqueça o Aldebaran, tenho que escolher alguém mais duro e que não se comova facilmente! Deixa que depois eu decido isso! Reuna os homens no salão. — gritou Ikki sentindo um latejar nas têmporas e um ressecamento na boca.
Milo olhou para Shaka percebendo sua palidez e exaustão. Depois tornou a encarar Ikki e sondar-lhe a mente. Viu a dor do amigo mascarada pela atitude autoritária e compreendeu que era melhor não confrontá-lo, pelo menos naquele momento.
– Já estou indo, milorde. – respondeu Milo, olhando de canto para Kamus.
– Sir Kamus, vejo que aguarda explicações. Eu as darei mais tarde, agora peço que deixe lorde Shaka seguro e longe de encrencas. Estou cansado, irritado e ainda preciso acertar alguns detalhes. – falou Ikki num tom que deixava explícito não haver espaço, nem possibilidade de contestação.
Kamus admirava Ikki, porém aquela postura autoritária, em relação ao homem que tinha como um irmão, o incomodava. Olhou para Shaka, esperando que ele dissesse algo, porém a única coisa que ele fez foi dar um passo à frente indicando sua disposição em acompanhá-lo.
– Precisa de um banho e um bom prato de sopa. Venha comigo. – disse Kamus e, pela primeira vez, colocou seu braço sobre os ombros de Shaka da mesma forma calorosa que Milo fizera com ele.
Shaka evitou olhar para Ikki, porém quando olhou havia uma tristeza sombria e pungente se interpondo entre os dois. Sem dizer nada, Ikki tomou a direção contrária e caminhou em direção das ameias onde os guardas vigiavam a Fortaleza.
– Tranquem o portão e não deixem ninguém sair ou entrar na Fortaleza. Ninguém! Vocês me entenderam?
Ao ver que os guardas assentiam, obedientes, Ikki caminhou até o salão.
Aiolia alcançou-o no momento em que ele chegou à porta. Segurou-o pelo braço e o fuzilou com os grandes olhos verdes.
– Ouvi que mandou prender Shaka. Como ousa outorgar-se esse poder? Eu exijo que retire essa ordem absurda! – disse o leonino com voz raivosa.
– A única exigência que lhe cabe, milorde, diz respeito aos seus homens. Agora faça o favor de soltar-me! – grunhiu Ikki puxando o braço da mão de Aiolia.
A tensão que existia entre os dois pareceu despertar como se um raio tivesse caído sobre os dois e os carregado de energia e animosidade.
Num piscar de olhos, os dois homens adentraram o salão a socos, caindo sobre uma das mesas imensas sobre a qual pratos, talheres e copos cheios de vinho e cerveja se espalharam.
Todos arfaram sobressaltados quando Ikki e Aiolia rolaram pela ponta da mesa até cair no chão, surpreendendo os soldados de ambos os lados.
Os criados se ergueram, deram um passo para frente e outro para trás. Os outros homens que se dividiam entre as mesas, simplesmente, recuaram e, em substituição do olhar atônito, surgiu um brilho emocionado que evoluiu para apostas em quem venceria a briga.
Kamus chegou no salão e franziu o cenho ao ver Ikki e Aiolia rolando no chão, aparentemente dispostos a acabar um com o outro. Viu Milo e os outros observando a cena sem interferir e foi até eles.
– Vamos, ajudem-me a acabar com essa briga absurda, antes que se machuquem seriamente. – disse Kamus olhando para Milo, Máscara da Morte, Afrodite e Aldebaran.
– Isso já vem de longa data. Vamos deixá-los descarregar de vez a raiva que sentem um pelo outro... – disse Milo, calmamente, enquanto se servia de um copo de vinho.
– Sir Milo! – repreendeu-o Kamus, um segundo antes de Aiolia socar o maxilar de Ikki, embora ele nem sequer tivesse se abalado.
Máscara da Morte fez um gesto de “deixa eles resolverem essa questão de uma vez”, enquanto sorvia um belo gole de vinho e piscava para Afrodite.
Afrodite bocejou e levantou-se, sendo seguido por Mu que também não desejava interferir nas questões pessoais de seu comandante e nem deixar transparecer que nutria certos sentimentos por Aiolia.
Aldebaran era o único a demonstrar nervosismo. Apesar da força e do porte avantajado, ele possuía uma alma pacífica e não gostava de se envolver em confusão. Cada vez que Ikki batia em Aiolia ele exultava e torcia para que seu comandante vencesse logo aquela briga. Porém, quando era Aiolia quem levava a vantagem, ele colocava a mão nos olhos e espiava por entre os dedos.
Alheios à torcida de seus comandados, Ikki e Aiolia continuavam a brigar como feras ensandecidas. Fênix contra Leão.
Em seguida, Ikki fez seu oponente voar sobre as costas, num movimento que lançou ambos sobre o porco assado. A gordura e o aroma da carne mesclou-se ao suor e ao sangue dos dois, para delírio dos espectadores.
– Lá se vai uma boa refeição... – disse Milo, sob o olhar de reprovação de Kamus.
Com raiva redobrada, Aiolia investiu contra Ikki, confiando demais em sua força e recebendo em troca, um soco no queixo. Aiolia cambaleou, mas não caiu. A força de suas pernas e a capacidade de assimilar golpes o mantinha em pé.
– É só isso que sabe fazer, Fênix?! Seu golpe é parecido com o ataque de uma mulherzinha! – resmungou Aiolia limpando a boca que sangrava e saltando como um felino em cima de Ikki.
Embora exausto, Ikki era mais leve e mais ágil. No último instante, desviou o corpo, escapando do impacto que certamente o levaria ao chão.
– E você, Leão...quer se atirar em meus braços como uma prostituta implorando atenção?! – revidou Ikki com um sorriso malévolo.
Aiolia respondeu com um formidável soco no estômago de Ikki, pegando-o de surpresa. Ikki esforçou-se para respirar. Quando se endireitou, desferiu um bofetão que acertou em cheio o nariz de Aiolia fazendo o sangue esguichar em sua camisa.
Os olhos de Aiolia faiscavam perigosamente, enquanto ele limpava o sangue com a manga da túnica.
– Vou te mostrar quem é a prostituta, maldito!
Contrariado, Kamus puxou Milo pelo braço, enquanto sinalizava com a cabeça para Shura, um dos homens de confiança de Aiolia. Seguiu com os dois para o centro do salão onde Ikki e Aiolia continuavam engalfinhados.
A essa altura, o jantar evoluíra para um campo de batalha, onde comida, talheres e copos iam sendo depositados ao chão cada vez que um dos corpos se chocava contra as mesas que, agora, funcionavam como barreiras para os lutadores enfurecidos.
Milo segurou Ikki, enquanto Shura segurava Aiolia. Ambos sangrando na boca e vociferando injúrias um para o outro, enquanto tentavam livrar-se da contenção de seus homens.
– Parem, os dois! – gritou Kamus, para surpresa de Milo e dos outros.
Nas mesas, os soldados começavam a discutir baixinho qual líder tinha levado vantagem e qual estava menos estropiado. Os criados correram a buscar vassouras e baldes e os que já haviam bebido além da conta, elevavam brindes aos dois lutadores.
Ikki e Aiolia já não precisavam mais ser contidos por seus subordinados. Num dado momento, mesmo sendo guerreiros formidáveis, o cansaço e o desgaste acabaram prevalecendo e a raiva arrefeceu.
Parados e um tanto curvados, eles respiravam, ruidosamente. A luta havia terminado num empate brutal, mas seus intensos olhares um para o outro continuavam desafiadores.
– Eu exijo que solte Shaka! – falou Aiolia asperamente, cuspindo saliva e sangue.
– Você não está em condições de exigir nada, leão! Minhas ordens continuam valendo até eu ter certeza que Shaka não fará nenhuma besteira! É para a proteção dele que faço isso. – respondeu Ikki também cuspindo, enquanto Milo lhe oferecia um copo de usquebaugh.
– Senhores, eu sugiro que sigam para seus respectivos alojamentos e deixem esta discussão para amanhã quando já tiverem esfriado os ânimos. – disse Kamus.
Aiolia sentou-se em um dos bancos e Shura, imitando Milo, serviu-lhe um copo de bebida. O leonino entornou tudo de uma só vez e olhou para Ikki, num desafio silencioso.
Uma hora depois, tanto Milo, quanto Shura arrastavam seus comandantes embriagados para o alojamento, enquanto Kamus olhava em volta e chamava os criados para limparem toda aquela bagunça...
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Ikki e Milo pararam à porta do alojamento depois de beberem a saúde de todos os conhecidos e desconhecidos daquelas terras.
Remexendo o seu maxilar, um tanto anestesiado pelo álcool, Ikki refletia que Aiolia tinha um murro respeitável, mas nem sonhava em verbalizar isso. Prá todos os efeitos, o leonino tinha o soco de uma donzela.
Ele tinha apanhado, mas também tinha batido e, se o deus dos combates estivesse a seu favor, amanhã Aiolia estaria com o nariz do tamanho de uma batata selvagem.
Só em pensar na cena, Ikki teve vontade de rir. Um único momento de humor naquele dia maldito onde quase perdera Shaka.
Olhou para Milo que sorria, enquanto o ajudava a tirar as botas. Agradeceu o apoio do amigo e deitou-se na esteira fechando os olhos. Sentiu o corpo esfriar, aos poucos, e os músculos reclamarem do esforço que fizera. A última imagem que irrompeu em sua mente foi do olhar triste de Shaka quando o mandara prender.
Abriu os olhos doloridos com um esforço hercúleo e foi também com muito esforço que conseguiu levantar-se. Cambaleou até a porta e abriu-a, chegando até o pátio vazio.
Olhou para o alto, onde sabia ser o quarto de Shaka. Levou a mão ao rosto inchado e recostou-se a uma parede, escorregando até sentar-se no chão frio. Ficou ali, até seus olhos se acostumarem à escuridão e ao fato que a atitude de mandar prender o homem que amava tinha sido a mais acertada, apesar de doer em seu coração.
Aos poucos, o efeito da bebida o fez adormecer ali mesmo, enquanto dois pequenos olhos vermelhos o observavam com redobrada atenção...
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