Inocência Ultrajada

13 Capítulo 13 O DESPERTAR!


Notas iniciais
* Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay, É uma frase retirada da obra de Cervantes, D. Quixote de La Mancha. Mesmo sendo de uma época bem posterior, achei pertinente colocá-la, porque ela tornou-se uma expressão muito usada e muitos nem sabem a sua origem, porém ela reflete a dualidade do homem em qualquer época.
**O rosário ou terço que Shaka utilizou se chama Odyuzu e pode ser confeccionado com contas de ferro, bronze, pérola, jade, cristal ou de madeira (Mokuuushi) que segundo a tradição budista traz a paz e aumenta a virtude, infinitamente.

Agachado à frente de Ikki, Kagaho continuava a observá-lo com os olhos atentos, enquanto ele ressonava. Aos poucos, o nevoeiro noturno começou a baixar, envolvendo-os como se fossem mãos invisíveis.


– O que está fazendo aqui, garoto?


O changeling levou um susto tamanho que caiu sentado no chão. Olhou para cima vendo Milo com um archote na mão olhando-o com a mesma atenção que ele dispensava a Ikki.


– E-Eu? B-Bem, milorde eu encontrei sir Ikki sentado aqui fora e... fiquei curioso.


– Você nunca dorme? – perguntou Milo, passando a mão na cabeça de Kagaho como já o fizera.


Os olhos sagazes de Kagaho encontraram os de Milo que, à luz do fogo pareceu-lhe tão calorosos quanto os de uma divindade. O cavaleiro parecia não se importar que seus amigos não gostassem dele, nem que o achassem uma ameaça. Continuava a tratá-lo de forma amistosa, assim como Aiolia que o aceitara como escudeiro. Junto dos dois homens, ele começava a se sentir alguém. Alguém de verdade...


– Não tenho sono, milorde. – respondeu com a cabeça baixa.


– Já sei, acostumou-se ao leite antes de dormir. Vamos, depois de pôr sir Ikki na cama, vou com você até a cozinha. – disse Milo.


Kagaho sorriu, meio torto, e de repente sentiu uma urgência enorme de sair correndo. Milo era tão bom para ele e essa novidade mexia com algo dentro de si. Ele servia à Radamanthys e, instantes antes abrira sua mente para que ele usasse seus olhos para espionar a mente de Ikki.


Tinha consciência que era um changeling, uma aberração usada, desde os tempos imemoriais e sombrios, para trazer a infelicidade e discórdia. Então porque agora esse destino lhe parecia tão conflitante?

“Ou morro de medo ou aguento firme”. Disse para si mesmo, enquanto se controlava e continuava a caminhar ao lado de Milo.


Ikki abriu, lentamente, os olhos quando sentiu os braços de Milo em volta de seu corpo.


– Deixe-me... Milo! Preciso... ir!


– Precisa de sono, isso sim. Vamos direto para o alojamento! — disse Milo quase arrastando Ikki.


– Não... eu... preciso vê-lo. Preciso que ele...


– Se está se referindo à Shaka, creio que você é a última pessoa que ele quer ver a essa hora da noite, ainda mais nesse estado.


– Eu o prendi, Milo... Fui duro com ele. Foi preciso, não quero... perdê-lo!


– Amanhã, milorde. À luz do dia, sua mente estará mais clara... E a dele também. Agora vamos.


Trôpego, Ikki se deixou conduzir por Milo, enquanto Kagaho olhava os dois e pensava o quanto os humanos faziam coisas estranhas em nome de suas emoções.



000****000****000



Ao entrar no grande salão, Radamanthys teve certeza, que as pessoas ali reunidas, não estavam a sua espera. Os criados, temerosos e cansados, não o tinham visto passar. Sua capacidade de criar ilusões e penetrar onde desejava era uma das muitas habilidades que possuía.


Homens e mulheres amontoados, os corpos nus exalando um forte cheiro de suor, bebida e sexo. E tudo orquestrado pelos gêmeos terríveis como ficaram conhecidos, Saga e Kanon.


A mesma rotina de excessos e orgias... Céus, como eram previsíveis! Pensou o mago, enquanto abria caminho entre os corpos.


Uma jovem, visivelmente embriagada olhou-o e estendeu a mão. Os seios à mostra exibindo marcas de dentes, a pele arroxeada pelos artefatos eróticos usados para trazer dor e prazer... Ele olhou-a e gesticulou, fazendo-a desabar inconsciente.


A degradação humana era patética! Nada ali, a não ser a conversa que teria com os lordes era capaz de tomar-lhe o tempo e a atenção. Já fazia muito tempo que sucumbira aos anseios da carne. Seu desejo, agora, estava em patamares mais elevados...


Saga estava abraçado a Kanon e ambos dormiam sobre uma imensa pele de animal, exaustos pelos excessos da noite. Radamanthys observou-os por um longo tempo. O silêncio intenso só era quebrado, de vez em quando, por um suspiro ou ressonar. Os corpos vigorosos e perfeitos alheios a sua presença...


A delgada chama da vela, próxima aos dois, vacilou com o sopro de Radamanthys e pareceu acariciar os amantes, tirando-os do torpor em que se encontravam.


– Hummmmm... – gemeu Saga ao abrir os olhos e deparar-se com a figura imponente do mago.


Com um sobressalto, ele levantou-se encarando Radamanthys.


– Quem é você e o que faz aqui? Quem o deixou entrar? – perguntou Saga.


– Acalme-se, milorde... Sou aquele que o fará possuir tudo o que deseja e... muito mais. – respondeu Radamanthys e seu olhar estreitou-se, como se fosse um felino avaliando a presa.


Com o barulho e movimento, Kanon despertou sonolento, procurando um odre de vinho ou qualquer outra bebida. Achou um pé descalço de um corpo próximo e tão entregue ao torpor como ele estivera. Balbuciou algo ininteligível e desistiu de tatear, abrindo os olhos com dificuldade.


– Saga? Quem está aí? – perguntou ele bocejando e esfregando os olhos.


– Não sei, mas já vou descobrir. – respondeu Saga levantando-se e ficando no mesmo nível de Radamanthys.


Colocando uma túnica que ficara jogada por sobre a mesa, Saga cobriu o corpo. Depois, lavou o rosto numa bacia e tornou a olhar para Radamanthys.


Diferente do irmão que se e entregava aos excessos e à sordidez, sem medidas, Saga mantinha-se num limiar seguro para sentir prazer e dor e para apreciar cada jogo erótico que criava em sua arte e em sua mente...


– Como chegou aqui? – perguntou Saga com o semblante sério e olhando de canto para o punhal, cravejado de pedras preciosas, que repousava em cima da mesa.


– Não precisa temer-me, milorde. Meu nome é Radamanthys e sou um mago de alta linhagem. Hilda, minha aprendiz, sofreu um mal súbito e eu soube que ela estava prestando alguns serviços especiais de seu interesse...


– Hilda morreu? – perguntou Kanon ao ouvir a conversa.


– Digamos que ela... falhou e teve de pagar o preço.


– Como assim? O que está dizendo? – rosnou Kanon com o cenho franzido.


– Hilda se foi, mas não precisam se preocupar! A Fortaleza Virgo será vossa, assim como todos que nela habitam. Eu lhes trouxe algo, a chave que lhes abrirá as portas da Fortaleza! – disse Radamanthys depositando, em cima da mesa, um bracelete ornado com a figura de uma ave mitológica.


– Um bracelete? – indagou Saga.


– Não apenas um bracelete, milorde, mas uma peça que contém a substância daquele que precisa ser destruído. Assim, como parte da substância do amante dele... – respondeu Radamanthys com um brilho maldoso no olhar.


Horas antes, Radamanthys usara o poder de rastejar nas sombras para vasculhar as ações daqueles que tencionava prejudicar.


O primeiro tinha sido Shaka.


Adentrando os sonhos do jovem lorde ele plantara a semente do horror e do caos, matando o bom senso que lhe era peculiar e levando-o a agir de forma desesperada...


Infelizmente, duas forças contrárias haviam se interposto em sua ação invisível e silenciosa, ajudando o lorde moreno a chegar a tempo para impedi-lo e fazendo com que ele permanecesse fora de seu alcance.


Entretanto, Djinns, ao seu serviço, haviam presenciado a cena do encontro e lhe trazido aquele objeto providencial que fora descartado num momento de discórdia. Na hora certa e com o sortilégio da bruma dos mortos, Ikki de fênix cairia e levaria todos com ele...


Mais tarde, os olhos do changeling lhe permitiram penetrar na fortaleza e na mente de Ikki. O homem do clã da Fênix era forte e perigoso e seus sentimentos eram tão intensos que, mesmo inconsciente, sua mente não permitira uma invasão mais efetiva.


Diante de tal homem, o plano de incitar a divergência entre os habitantes da fortaleza tornou-se a opção mais, acertada. Povoar as mentes simples com o doce veneno da intriga e do medo, faria com que as lideranças, ali estabelecidas tivessem muito trabalho e desgaste...


Saga pegou o bracelete e analisou-o, demoradamente. Depois o entregou ao mago com uma expressão desconfiada.


– Está me dizendo que isso pertence à Shaka e lhe foi dado por seu amante, é isso? Então, como o conseguiu? – perguntou ele aproximando o rosto de Radamanthys.


– Lorde Shaka vinha encontrá-lo, mas seu amante o impediu... Injuriado por ter sido preterido, ele obrigou-o a voltar e arrancou-lhe o bracelete do pulso, jogando-o fora. Um dos meus servos encontrou esta peça e a trouxe a mim. Percebendo o sopro da substância nele,eu logo percebi que ela possuía uma importância especial. – respondeu o mago sem demonstrar nenhum temor.


– Shaka... Ele vinha me encontrar? – perguntou Saga com uma expressão de incredulidade. – Mesmo depois de tudo que aconteceu acha que ele me aceitaria, novamente?


– Sim, milorde... Eu penetro em seus sonhos e sei que ele arde de desejo por vós... Ele o quer, mas aquele homem possuiu seu corpo e agora o quer para si. Shaka é prisioneiro em sua própria Fortaleza... — falou Radamanthys com um tom rouco.


– E quem é este homem?


– Ele se chama Ikki. Ikki de Fênix.


– E no quê este bracelete pode nos ajudar? – perguntou Kanon.


– Magia, milorde... a substância da qual me refiro, é essência residual da pessoa que permanece em seus objetos pessoais. Ela nos ajuda a penetrar nas defesas e manejá-las ao nosso favor.


Com o coração aos saltos, Saga absorvia as mentiras que Radamanthys contava. Todas enaltecendo seu ego e o de Kanon. Aos poucos, os dois eram manipulados pelas palavras ardilosas para realizarem o que ele, Radamanthys desejava.


E o desejo do mago era apossar-se das duas fortalezas que fechariam o seu triângulo de poder. A primeira, ele já conquistara há algum tempo...


A Fortaleza Branca como era conhecida, foi o seu primeiro alvo e o de maior significado. Ali, tinha deixado sua semente e gerado um filho. Um filho que ele teria que atrair ou destruir...


Faltavam Virgo e Gemini, suntuosas propriedades que o fariam aproximar-se de nobres e reis, conquistando mais poder e colocando-o como aquele que impulsiona as cruciais mudanças da história.


Aqueles jovens egocêntricos eram as marionetes perfeitas. Eles matariam e usurpariam em nome da luxúria, da insanidade e do poder. Todo o trabalho braçal seria feito por eles e era delicioso perceber como era fácil convencê-los e enganá-los para realizar o que ele havia planejado muito tempo antes...


– Senhores, eu creio que é o momento apropriado para avançar, um pouco mais, nessa negociação. Tomei a liberdade de arrebanhar alguns homens dispostos a integrar sua fileira de soldados. São homens, totalmente, dispostos à qualquer ação que demonstre a força dos gêmeos terríveis!


– Está dizendo que não devemos esperar e sim que temos de atacá-los? – perguntou Kanon.


– Sim! Duas forças ocupam Virgo. Dois homens poderosos que não se suportam... Temo que acabem selando um acordo para proteger Virgo. Precisam atacá-los, antes que isso aconteça.


Saga sorriu de excitação sob o olhar perverso do mago. Ordenou a todos que se levantassem e saíssem. Depois mandou que os criados servissem o desjejum farto com pão, leite, manteiga e frutas.


Conversou, longamente com Radamanthys, sob o olhar vigilante de Kanon. Não agradou ao irmão, a expressão contente na face de Saga quando soube sobre Shaka. Odiava Shaka! Aquele homem era como um fantasma indesejável que permanecia assombrando-o, atraindo os desejos de Saga. Pensou Kanon apertando o cálice até os nós de seus dedos ficarem brancos.


Radamanthys percebia a diferença entre os irmãos e orquestrava cada um com imensa habilidade. Experiente, ele sabia como instigar, achar brechas e controlar os resultados. Sabia do ciúme de Kanon e da curiosidade de Saga. Dois pilares instáveis que ele derrubaria com extrema facilidade...


– Você está certo, mago! Para quê esperar mais? É hora de tomar o que me pertence... – disse Saga.


– O que nos pertence, não é irmão? – rebateu Kanon, aborrecido.


Saga sorriu, novamente e segurou o queixo de Kanon, obrigando-o a encará-lo.


– Não precisa ter ciúmes, meu irmão... Nós dois teremos muito prazer em Virgo. – disse ele beijando-o de leve nos lábios.


Kanon sorriu de volta, enchendo a taça com vinho e bebendo um longo gole. Porém, algo dentro de si gritava que, enquanto Shaka vivesse, ele não teria Saga, totalmente para si.


Horas mais tarde, no amplo pátio da fortaleza dos gêmeos, o mago negro fazia adentrar toda a espécie de homens, em sua maioria, assassinos que guerreavam apenas por interesse. Eram guerreiros de diversas nacionalidades, mas que tinham em comum a ilusão de riqueza, prometida pelo mago.


Um alto brado irrompeu da turba, quando Radamanthys elevou uma imensa taça negra, contendo um vinho de sabor licoroso, misturado com sangue e raízes de certas plantas colhidas do solo onde residiam os mortos. Sua voz potente e aliciante pontuou cada palavra de ordem, subjugando àqueles proscritos ao seu poder de persuasão.


Ao discurso, seguiu-se a comunhão do cálice e uma histeria belicosa apossou-se daqueles homens, transformando-os em instrumentos afiados de destruição. Para Radamanthys, os gritos e os olhares insanos só anteviam o gozo de um poder que ele nascera para possuir...



000****000****000



Os primeiros clarões da aurora irromperam no horizonte, trazendo a luz pálida para dentro dos aposentos de Shaka. Sentado em frente à lareira, ele não havia dormido, apesar do cansaço extremo. Emoções e pensamentos duelaram em sua mente e em seu coração durante toda a madrugada. Ele os acolheu, enquanto segurava o objeto que estava em suas mãos.


Levantou-se, dolorido, por permanecer toda a noite ajoelhado no chão frio e foi até à porta. Antes que verificasse se estava trancada, ela se abriu.


– Bom dia, milorde. – disse Kamus entrando junto com um criado.


– Bom dia, Kamus.


Shaka olhou-o e depois correu os olhos pela bandeja que continha uma terrina de mingau, pão recém-saído do forno e manteiga fresca.


Estava com olheiras profundas, mas incrivelmente sereno. Silencioso, foi até a bandeja e serviu-se de um pedaço de pão.


– Já fez o seu desjejum? – falou Shaka, depois de morder o pão.


– Ainda não, milorde. Vim até aqui antes para... conversarmos. – respondeu Kamus.


– Não vou ficar retido em meus aposentos. – falou Shaka com um tom de voz sereno.


– Sei que a situação é delicada. Sir Ikki desistiu de deixar um guarda e acabou tornando-me responsável pela sua segurança e é por isso que estou aqui. Apesar de não concordar com a atitude, compreendo que ele o fez como uma medida de proteção e... só por isso, não o questionei. Jurei a Dohko estar sempre ao seu lado, Shaka.


Shaka percebeu que Kamus estava desconfortável e tocou-o no ombro.


Apesar de estar abatido, havia uma luminosidade no olhar do senhor da fortaleza e Kamus notou que havia algo em nas mãos dele, uma espécie de rosário com contas de madeira polida e presas a um cordão.


– Eu não dormi esta noite. Não via saída para toda essa situação e fui tomado por uma tristeza e ódio intensos. Então, não sei por que, de repente, me lembrei disso. – falou Shaka mostrando o rosário para Kamus.


– Se não me engano, esse rosário foi da sua mãe. – disse Kamus estreitando os olhos e tocando na peça.


– Sim, foi dela. Um presente daquele viajante que acampou em nossas terras e disse ter visitado terras exóticas, onde havia deuses elefantes e muitos outros que oscilavam entre a cólera e a compaixão. Ela aceitou o presente por educação, mas por ser católica guardou-o num baú e nunca mais pôs as mãos nele. Ontem, quando eu me sentia perdido, a imagem dele veio a minha mente. Eu o tomei nas mãos e orei como nunca havia feito. Creio que foi a primeira vez que não fiquei, apenas, repetindo as palavras que aprendi ou pedindo algo para um deus específico. As palavras ressoaram dentro de mim como se fosse um poema de amor. Não esse amor que nos instiga, mas aquele maior que nos faz sentir parte deste mundo. Não sei explicar como, mas aos poucos, fui acometido por uma paz inexplicável... E depois, eu simplesmente, soube o que tinha de fazer. – disse Shaka.


– E o que pretende fazer?


– Vamos até o pátio e você saberá.


– Mas, logo, Ikki e Aiolia estarão no pátio, treinando seus soldados. – falou Kamus franzindo o cenho.


– Eu sei e é por isso mesmo que quero estar lá.



000****000****000



Ikki acordou com a cabeça pesada e o maxilar dolorido. Lavou-se com água gelada para poder abrir melhor os olhos inchados. Milo trouxe uma jarra com água fresca, roupas limpas e uma terrina com mingau.


Franzindo o nariz diante do líquido espesso, Ikki encontrou o olhar complacente de Milo.


– É melhor comer alguma coisa, mesmo que seu estômago não concorde...


Sem uma palavra, Ikki comeu três colheres de uma só vez, forçando-se a mantê-lo no estômago. No entanto, segundos depois teve que correr à janela para colocá-lo para fora.


Inferno! – rosnou ele com uma expressão de asco e um gosto amargo na boca.


Milo ofereceu-lhe um pano molhado e Ikki passou-o pelo rosto. Em seguida, Milo deu-lhe a tigela novamente. À contragosto, Ikki tomou o restante, sabendo que precisava de algo consistente para começar o dia.


– Se lhe serve de consolo, sei que lorde Aiolia também acordou um pouco indisposto... – disse Milo com um tom malicioso na voz.


Ikki revirou os olhos, a cabeça parecendo que ia estourar a cada movimento. Porém, ao ouvir Milo, conseguiu abrir um breve sorriso e, de repente, o dia lhe pareceu menos sombrio.


Nos seus aposentos, Aiolia acordou com a cabeça estourando de dor. A boca seca parecia estar grudada à língua e seu humor estava péssimo. Ao ver a bandeja com leite, manteiga e pão quente, torceu o nariz que latejou ao inspirar o aroma dos alimentos.


Tirou o pão da travessa de prata e olhou-se na superfície polida. Seu nariz estava inchado e parecia um pouco torto. Sentindo dor, tocou-o e constatou que parecia estar quebrado.


Inferno! – disse ele tentando livrar-se daquela sensação de secura na boca.


Chamou seu escudeiro que já aguardava do lado de fora da porta com roupas limpas.


– Traga-me água gelada. – falou com um tom nasal acentuado.


Kagaho saiu, imediatamente, dando de cara com Milo no pátio, próximo aos estábulos. O cavaleiro o cumprimentou e o garoto abriu um sorriso dizendo:


– Vou buscar água gelada da fonte. Lorde Aiolia não quer descer com o nariz parecendo um fruto maduro.


Milo riu e Kagaho seguiu para o seu destino. As pernas curtas correndo com desenvoltura, até virar-se, novamente, e acenar para o cavaleiro.


– Você parece gostar desse garoto. Não esqueça que ele é perigoso... – disse Afrodite se aproximando de Milo.


– Quem tem olhos especiais aqui são você e Mu. Os meus veem, apenas, um garoto pobre que já foi maltratado pela vida. – respondeu Milo sacudindo os ombros.


– Suas emoções são intensas, milorde... Confesso que mesmo obedecendo ao código, pensei que pelo menos você iria querer saber mais sobre nós. – falou Afrodite.


– Pelo que vejo você e Mu não querem falar sobre isso, e não sou eu quem vai ficar remexendo. * “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay…”, meu amigo e, para mim, basta saber que estão do nosso lado.


Afrodite sorriu. Seus companheiros eram mesmo homens honrados, pois seguiam o código que Ikki tinha exigido dos homens a seu serviço: combater com bravura, ser leal até a morte e jamais questionar um homem sobre seu passado. Por isso, mesmo que ele e Mu tivessem revelado parte de sua história, ajudando Ikki a encontrar Shaka, ninguém os tinha questionado.


– Bem, acho que vamos ter novidades... – falou Afrodite vendo Shaka surgir ao lado de Kamus.


Milo estancou ao ver os dois caminhando em sua direção. Os primeiros raios de sol pareciam dançar nos cabelos loiros de Shaka e nos ruivos de Kamus e a visão deles, juntos, emprestava uma beleza ímpar àquele momento.


O coração de Milo agitou-se, pois sabia que Ikki não gostaria de ter suas ordens desobedecidas. Mas, nem o medo de ver a cólera de seu comandante o impediu de apreciar a cena e de notar que os olhos de Kamus pareciam mais calorosos ao encará-lo.


– Sir Milo, sir Afrodite, bom dia. – falou Shaka, enquanto Kamus os cumprimentava com uma inclinação da cabeça.


– Bom dia. – ambos responderam, ao mesmo tempo.


Shaka acenou para alguns criados que pararam ao vê-lo livre e virou o rosto no exato momento em que, Ikki e Aiolia entravam no pátio. Ambos tinham acabado de se encarar quando a visão de Shaka chegou, ao mesmo tempo, no ângulo de visão dos dois.


Imediatamente, o olhar de Ikki endureceu e o de Aiolia brilhou. Os dois se encararam, novamente, e antes que travassem mais uma luta entre si, Shaka encaminhou-se, calmamente, na direção dos dois.


O modo como ele se deslocava e a forma com que olhava, deixou todos em suspenso. Shaka sempre fora altivo, mas agora, algo havia mudado de forma tão profunda que ele parecia irradiar um poder que antes, estava oculto.


Ikki inspirou, tentando livrar-se da tensão. Sua cabeça ainda doía e ele tentava esconder a inquietação que surgira como uma punhalada. Endireitou o corpo, preparado para se fazer obedecer e Aiolia estufou o peito, preparado para colocar-se à favor de Shaka.


Os homens, de ambos os comandantes também se posicionaram, preparados para o confronto. Porém, antes que qualquer um dos dois abrisse a boca para falar, Shaka adiantou-se:


– Senhores, vamos conversar.


Aiolia sorriu, nervoso e Ikki franziu o cenho. Tranquilo, Shaka se aproximou pousando as mãos, uma em cada ombro, dos dois homens à sua frente.


– Que não haja discórdia entre nós. Vocês dois são os melhores guerreiros e amigos com que um homem pode contar. Você, Aiolia, é valoroso e um amigo fiel. Você, Ikki, é corajoso e não teme fazer o que acha certo, mesmo que isso pareça um erro. Peço que me perdoem, pois até agora, agi de forma equivocada. Em meu orgulho, isolei a todos das minhas decisões e provoquei atitudes que me atingiram na mesma magnitude de minhas falhas. Entretanto, sou o senhor desta Fortaleza e não cederei minha autoridade a ninguém. Sir Ikki, agradeço a oportunidade que me deu de refletir e tomar a decisão mais acertada, porém não sou seu subordinado e não permanecerei sob confinamento em minha propriedade. A partir de agora, peço que unamos forças para combater a ação terrível destes homens.


Ikki permaneceu com os olhos fixos nos de Shaka. Os olhos do senhor da Fortaleza transpareciam uma mescla de brandura e autoridade. Ikki reconhecia a mudança, porque agora ela não vinha, apenas, da mente, mas do íntimo, do coração que enfim, percebia a força dentro de si.


Um silêncio tangível deixava a todos com a respiração em suspenso e os corpos tensos, enquanto Shaka sustentava o olhar faiscante de Ikki. Então, quando a inquietação chegou a um ponto insustentável, Ikki abriu um sorriso largo e colocou ambas as mãos nos ombros de Shaka.


– Finalmente! Seja bem-vindo, milorde. Esse é o homem que agora, eu tenho a honra de me unir e acabar de vez com esta ameaça. – disse Ikki e, sua voz tinha um tom de alívio e orgulho.


Shaka também sorriu e tocou o rosto de Ikki que exibia uma mancha arroxeada, próxima ao maxilar. O olhar, agora terno, se derramava entre os dois e, por um instante, Ikki teve vontade de ir além e beijar Shaka na frente de todos.


Aiolia, percebendo o clima entre os dois, pigarreou, trazendo-os para o momento presente.


Ikki olhou-o, os lábios curvando-se num sorriso lento, devolvendo o ar vitorioso com que ele o olhara quando tinham avistado Shaka.


– Paciência, milorde... Eu e lorde Shaka temos alguns pontos para discutir em... particular. – disse Ikki provocativo.


– Pois sugiro que usufrua do próprio conselho, milorde. Lorde Shaka parece ter mais a dizer para nós dois! – retrucou Aiolia.


– Aiolia tem razão. Preciso do apoio dos dois, então é melhor que deixem as diferenças e se concentrem no objetivo comum. Kamus me contou que andaram brigando.


Instintivamente, tanto Ikki quanto Aiolia levaram a mão até o local dos machucados, mas não disseram uma palavra sequer.


– Eu sinto tê-los levado ao confronto. – disse Shaka.


– Eu não. – falou Ikki sorrindo. – Eu não me divertia assim há muito tempo. – emendou olhando direto para o nariz de Aiolia.


– Pela primeira vez, Fênix, estamos de acordo. Gostei de ver a sua cara quando deixei essa marca aí! – falou Aiolia apontando para o ponto roxo na face de Ikki.


– Ah, é? Quem sabe então repetimos a dose e eu faço você rir... sem os dentes! – vociferou Ikki.


Novamente, Aiolia empertigou-se e Ikki também.


– Parem os dois! – Shaka repreendeu-os. – Temos mais que fazer do que brigarmos como moleques. Seremos companheiros de batalha e não podem agir como inimigos. Vamos, apertem as mãos.


Aiolia virou-se para Ikki, o olhar ainda carregado de animosidade e sendo correspondido. Ao cabo de intermináveis instantes, resolveram atender ao pedido de Shaka e apertaram as mãos. Cada um tentando apertar mais forte que o outro, até desfazerem o contato e dar-se conta que Shaka tinha razão: o inimigo a combater era outro.


– Não gosto de você, mas reconheço que é um homem de fibra. Lutaremos juntos pelo código do guerreiro. – falou Ikki.


– Que seja! Também o acho detestável, mas suas qualidades em combate são... dignas de apreço. — disse Aiolia.


– Bem, agora que estamos de comum acordo, vamos traçar uma estratégia em conjunto. Vamos nos reunir no grande salão, após a organização e treino dos seus homens. Meu pai possuía muitos mapas e também alguns segredos... – disse Shaka olhando na direção de Kamus. – Creio que já perdemos tempo demais.


Ikki e Aiolia assentiram com um movimento de cabeça e sem mais nenhuma troca de gentilezas foram reunir-se com seus homens.


Aiolia estava chegando ao outro lado do pátio, onde ficavam as cabanas de trabalho quando o som da forja chamou-lhe a atenção. Em uma das cabanas, estava Mu, trabalhando junto ao armadureiro e o construtor de arcos. Aiolia o viu e resolveu se aproximar.


– Não tive a oportunidade de agradecer como se deve, pelo presente que me ofereceu. – disse o leonino ao entrar.


– Não é preciso agradecer, milorde. Foi um presente em troca da gentileza em adotar o menino como seu escudeiro. – respondeu Mu.


– O garoto é muito bom. Agora lhe devo mais de um agradecimento... – falou Aiolia e sua voz soou sussurrante, fazendo Mu estremecer por dentro.


– Fico feliz, milorde. Mas, realmente, não precisa...


– Sim, eu preciso. – disse Aiolia tocando o ombro de Mu e se aproximando, ainda mais.


Perturbado com aquela proximidade, Mu olhou para os outros dois que trabalhavam ao seu lado. Imersos em sua atividade, eles não perceberam a tensão que crescia ali.


Respirando fundo, Mu deu-se conta que estava ofegante. A presença do homem que povoara seus sonhos, desde menino, o deixava nervoso e excitado. Apesar de todo o poder que tinha, Mu nunca tinha sido tocado por emoções tão poderosas quanto as que sentia em relação a Aiolia. Em matéria de sentimentos, ele era tão experiente quanto um bebê recém-nascido...


– Foi um prazer, milorde. – disse ele tentando manter a postura serena e atenta ao que estava fazendo.


Aiolia continuava a olhá-lo com insistência, seu corpo sendo acometido por ondas de desejo. Não sabia o porquê, mas aquele homem exercia, sobre ele, um fascínio imenso e incompreensível. Não conseguia deixar de olhá-lo e tinha uma vontade incontrolável de tocá-lo.


– Posso ver as suas mãos? – pediu Aiolia, de repente.


Mu parou o que estava fazendo e estendeu as mãos. Aiolia as pegou nas suas que eram bem maiores e calejadas. Devagar, ele acariciou a palma da mão de Mu com os polegares, constatando que eram macias.


"Macias demais para um forjador de espadas e punhais." Pensou ele enquanto continuava a exploração.


Mu fechou os olhos sem querer e usufruiu do toque quente. Os lábios se entreabriram num suspiro de prazer e Aiolia sentiu o sangue ferver. De imediato, olhou para os outros dois que trabalhavam e ordenou que o deixassem à sós com Mu.


Notas finais
OBRIGADA A TODOS PELO CARINHO, ATENÇÃO, MENSAGENS!!!
DESCULPAS PELO ATRASO EM OUTRAS ATUALIZAÇÕES, MAS SEGUINDO A FALA DA SION, ESTA FIC ESTÁ SE DESDOBRANDO COM MAIS FACILIDADE E TALVEZ ACABE ANTES DE FICS MAIS ANTIGAS. MAS, AS OUTRAS SERÃO ATUALIZADAS TAMBÉM, NÃO SE PREOCUPEM!
BJS!!!