Innocence NejixTenten
13 A Verdade
Notas iniciais
— Fui chamado hoje cedo. Disseram que o esquadrão especial os encontrou – a figura de máscara, com uma expressão mais séria que a habitual, adentrou a sala de reuniões. – Acho que sabemos bem o que isso significa... – voltou-se para a Godaime impaciente.
— Não entendo como deixamos isso passar! – apoiava uma das mãos na cintura, franzindo o cenho pela imagem que via. – Qual a frequência atual dos ataques?
— Estes foram os últimos – confirmou Shizune, tão aflita quanto os demais presentes no aposento. – Totalizam dez, se somados aos três que encontramos na manhã do festival, há quatro meses.
Tsunade arrancou uma placa metálica de uma das luvas do primeiro morto no caminho. O cenário de sangue seco, como explosões em tintura pelas paredes, faria qualquer dos não muito fortes tremer. Almas angustiadas pelos companheiros perdidos.
— Era o esquadrão 8, da equipe de busca da área 7 – confirmou, evitando transparecer a melancolia.
— Mas essa não é a zona de treinamento do time do Gai? Ele teria percebido algo errado – pronunciara o timbre quase vazio de Kakashi.
— Precisamos trazer as equipes de volta, Tsunade-sama! Estamos com uma desvantagem grave e mal sabemos quem de fato é! – interviu a ninja novamente.
— Não vê que pode ser esse o ponto?! A distância que os separa daqui permite uma emboscada facilmente armada. Se eles caíssem, seria desvantagem do mesmo jeito!
— Não está pondo pouca fé em nossos alunos, está, Godaime-sama? – perguntou Kakashi num tom simultâneo de reprovação e respeito.
— Eu tinha fé nos ex-alunos que está vendo agora! – atirou-lhe palavras frias, piorando o humor e mudando de rota. – Não estavam treinando na área com frequência, isso explica por que nem o Gai nem seus alunos notaram a ausência deles.
— Mas o que havia para buscar na área 7? E mesmo que houvesse algo, os ninjas de menor nível não deveriam saber... – tentava compreender o raciocínio.
— Eu dou essa liberdade aos ninjas do time dez porque tanto o Hyuuga quanto a Tenten trabalham em conjunto com os esquadrões especiais, ainda que como reservas, mas trabalham. É justo e útil ter um apoio a mais nesses casos – jogou a peça prateada sobre as pútridas vestes da batalha, dando-lhes as costas.
— As equipes de busca não são mais tão pequenas quanto antigamente – interviu o jounin de cabelos espetados. – Havia ao menos quinze deles, faça as contas: três no festival Matsuri, sete deles aqui... Onde estão os outros cinco?
— Quer dizer que haviam sumido antes do festival?
— Exato. Parece que três deles encontraram a trilha que levava até a floresta. Após o atentado, enviamos uma pequena equipe para não chamar muita atenção e minimizar as perdas, mas...
— Aconteceu o mesmo – concluía Tsunade. – Íamos suspender a procura por um tempo, em busca de mais detalhes, porém o restante do grupo insistiu... – virou-se para encarar a cena uma última vez. – Este... É o fim dos que decidem lutar por alguma coisa. É um risco que apenas os muito fortes estão dispostos a correr.
Os trovões ecoaram como gritos do lado de fora da janela.
*~*~*~*
As nuvens escuras aproximaram-se com pressa do litoral. O tempo mudara bruscamente a partir do meio-dia e a água, antes presa à imensidão azul, agora se alastrava em grandes poças dentre os grãos coagulados de areia espessa.
— Se liga, que droga! – reclamava o loiro em frente ao grupo entediado.
— Parece que essa chuva não vai passar tão cedo... – analisou o céu rapidamente. – Vamos voltar, a Temari disse que estaria esperando.
— Por mim, deixaria esperar. Foi ela quem quis dar uma de dona de casa! – protestou sem paciência aquele que mal se pronunciara nas últimas horas.
— Calma aí, preguiçoso! – rebateu Ino, retirando a atenção que dava à tempestade. – Foi você quem a deixou trabalhando sozinha!
— Que complicado... – comentou após uma expiração pesada. – Eu alcanço vocês depois – disse ele, retirando-se da tenda onde estavam e entrando em contato direto com as gotas pulsantes.
— Wow! Já tá com medo da dama jogar seus peões contra você, Maru-chan? – zombou Kiba como de costume, sendo costumeiramente ignorado. Havia uma inquietude diferente dessa vez.
*~*~*~*
Os pingos que rasgavam a perfeita imagem torrencial não incomodavam a sobriedade de um momento de descanso. A amargura do líquido folhoso e radicular que passava pela sua boca traduzia coisas que sua língua era incapaz de proferir, ainda que, num íntimo mais que profundo, fossem o que violentamente sentia.
Ouvira o grupo que invadia seu silêncio entrar pela porta da frente. Não tardou até que a perturbação sonora atingisse o andar seguinte, sequenciada pelo grito de certa garota de orbes azuis que conhecia.
~*~
— MAS O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO AÍ EM CIMA?!! – berrou Ino ao ver a kunoichi sobre os móveis, com pincel e tinta em mãos.
— Inna? – pronunciou tortuosamente com o objeto cerdoso entre os dentes.
— Desça já daí! Já não basta o estado em que chegou e a...
— O que raios está acontecendo aqui?! – Kiba seguira os sons agudos pelo corredor. – Você está... Pintando o quarto da Kurenai-sensei?! – enfatizou, incrédulo.
— O que posso fazer? – continuou, após remover o utensílio da boca. – Não consigo ficar parada por muito tempo!
— Oras, chega! Desce daí e limpa essa bagunça que você fez aqui embaixo! Nem parece que é o piso dessa casa!! – Ino partia em sua direção, desviando de manchas e pequenos potes de tinta.
— Err... Tenten... Por que você não descansa um pouc...
— E EU ESTOU COM CARA DE QUEM ESTÁ CANSADA?!!! – expulsou Kiba com sua voz sublevada, fazendo-o recuar porta afora.
— Não tá mais aqui quem falou... – assinalou após suas vértebras serem tomadas por uma fobia ascendente. Ao trilhar o caminho oposto ao qual tinha vindo, encontrou-se frente a frente com Neji. De prontidão, o Inuzuka se pronunciou. – Sua amante está brincando de Tarzan com a escrivaninha – provocou, aos motejos.
— Ao menos ela não manda cartas de amor para outros sem que eu saiba – enregelou seu tom ao repelir o frívolo escárnio.
— Não pode estar falando sério... – agitou-se com a possibilidade da figura sempre decorosa ditar a verdade.
— Hum! Só estou jogando o seu jogo... – virou-se para mostrar-lhe um sorriso superior. – Vira-lata estúpido.
Kiba riu cinicamente.
— Então gosta mesmo dela? – divertia-se, tirando de centro os insultos, enquanto não tinha uma confissão.
Naquele momento, Naruto apareceu no corredor.
— Humm... – observou-os, sem demonstrar interesse. — Algum de vocês... Sabe onde a Hinata está? – questionou, desconhecendo o que o atingira depois.
Logo, seguido por Neji, retirou-se do local, levando consigo uma saliência arroxeada em seu maxilar.
*~*~*~*
Quase de imediato, posteriormente à chegada dos jovens à casa, o telefone chamou atenção de seus ouvintes. Sakura apressou-se em atender ao seu toque, simulando um vulto ao alcançar a sala. Escutava cada palavra atentamente à medida que os traços esperançosos pareciam sumir de seu rosto.
Um jovem verdejante a observava sem que percebesse, desconhecendo o tom de voz com o qual falava, pois este não entrava em sintonia com as abatidas expressões faciais. Apesar da contradição, jamais pensara ter ouvido timbre tão suave e dócil como aquele. Era a lamentação que sentia. Uma pontada de angústia ao saber que não havia chance de dirigir-lhe palavras de maneira tão singular.
*~*~*~*
O ruído de abertura da embalagem industrializada pouco incomodou a kunoichi que organizava pratos sobre a mesa. Era como Chouji andava pela casa procurando pelo colega de equipe que, horas depois do regresso dos demais, não dera notícia nem tampouco apareceu.
— O Shikamaru está por aqui? – indagou após engolir.
— Por acaso está vendo aquele idiota em algum lugar?! – foi rude ao ouvir o nome da criatura.
— Nossa! Também não precisava fal...
— Eu não sei... – arrependeu-se, abrandando o tom e respirando fundo. – Vamos nos reunir à noite, ele não deve demorar... – tentava ignorar a tormenta e a irritação do próprio rosto.
Tendo fim o que fazia, dirigiu-se à sala e apanhou um casaco, sendo seguida pelo membro da equipe 9.
— Não precisa sair para procurá-lo, talvez a Ino saiba de alguma coisa... – disse ao vê-la abrir a porta.
— Pergunte para ela, então – bloqueou a entrada com certa urgência, tomando o rumo da neblina que levava até o mar.
*~*~*~*
— Gostei do teto novo – comentou ao entrar no quarto, assustando a jovem na varanda. – Você desenha as nuvens de modo bastante realista, queria conhecer mais pessoas com senso tão natural...
— Kurenai-san... – sorriu ao ver quem era. – Desculpe-me por tê-lo feito sem permissão... Irrita-me ficar no mesmo lugar por muito tempo – seus olhos acompanharam seu andar antes de voltarem a apreciar a chuva, diante das grades baixas e envernizadas de preto, com algum traço de ferrugem, sentindo o piso de madeira lhe esfriar as pernas.
— Não há problema, os alunos do Asuma é que são um pouco exaltados – riu suavemente, juntando-se a moça de cabelos molhados e soltos, que resolvera falar após algum tempo.
— Eu... Sei que não tenho intimidade para perguntar, mas...
— Diga – encorajou, demonstrando interesse.
— Como vocês se conheceram? – corou timidamente.
— Ah, fala do Asuma? Bem, nos conhecemos quando crianças, quando começamos a estudar na Academia... – memorava velhos tempos com uma alegria certa.
— E... – envergonhava-se com a própria abordagem, não conseguindo fitar diretamente o rosto da jounin sentada na cadeira ao lado. – O que disse quando... – tornou-se incapaz de prosseguir. Era confuso para sua mente tirar de foco a imagem nítida, e paradoxalmente distorcida, dos problemas que se arrastavam ao redor do Hyuuga de vestes claras.
— Bom... No início éramos um tanto sutis quando a isso... – tentava esclarecer, percebendo aonde ela queria chegar. – Acho que não entendíamos direito o que um sentimento tão estranho significava.
— Isso não atrapalhou vocês? – conseguiu encara-la ao controlar o nervosismo, ainda que superficialmente.
— Nós sabíamos a diferença entre amizade e trabalho. Não afetou nossa vida profissional, mas admito que me via um pouco perdida de vez em vez... – riu-se, enrubescendo um pouco. – No entanto, não acho que deva se preocupar, afinal, distrações como essa não aconteceriam entre você o irmão da H... – interrompeu a frase ao perceber que quase falara demais. Começou a duvidar de suas últimas sílabas ao ver a expressão atravancada da garota.
— E... E-Então... O que fez depois? – sua voz reagia aos solavancos. O comportamento indeciso de seu rosto, quanto a ficar ou não mais rubro que uma rosa, finalmente se decidiu. Agora não tirava os olhos do chão. Esperava por uma resposta difícil de executar.
— Eu disse a verdade – fez soar naturalmente, breve, parecendo fácil ao ouvir.
A chuva intermitente parara por alguns minutos; gotas caíam em descompasso e escorriam pelas barras frias, criando pequenas poças na divisória entre estas e a superfície amadeirada. Discretos, os espaços entre as nuvens escuras denunciaram a chegada da noite.
*~*~*~*
— Boa noite – ecoou a voz mansa e educada pelo quarto dos fundos. – Essa casa tem mais cômodos do que o necessário. Demorou até que eu o encontrasse... – explanou sem obter respostas da figura sublime que se encontrava diante da janela de vidro, a qual ocupava toda a parede longitudinalmente. Sentou-se na cama, atrás dele.
— Perdoe-me, eu... Ando pensativo ultimamente – sua lucidez perdia-se na amplidão celeste, direcionando para esta a consciência que ainda tinha.
— Não precisa dizer para que eu perceba... – gracejou levemente.
— Sabe que aprendi a ser assim com você – sorriu desacreditado das próprias palavras, virando-se para aprofundar o contato visual. – Não sei mais o que fazer – deixou fluir o sussurro preso em seu peito, por trás dos braços cruzados e da expressão afável e dolorosa. Ambos refletiram.
— Já tentou dizer a verdade? – a brandura de sua pronúncia soava como a melhor sugestão; ainda que pensasse o contrário, ela o convenceria de qualquer forma. Fechara os olhos com força e sacudira a cabeça para baixo, acomodando-se ao lado dela. – Você compreende bem que o destino é uma questão de escolha – continuou sem perder a eloquência de espírito. – Ou sorte, se assim deseja chamar...
— Sorte... – riu sorrateiramente; sua voz denunciava cansaço. – Não faz sentido – afirmou, sério, quase examinando a expressão ao lado.
— Sorte para mim é a união de coragem e oportunidade. Seria um fracassado se acreditasse em destino como algo inevitável – observava o cenário visto por ele anteriormente.
— Eu sei... – suspirou. – Aquele idiota disse isso uma vez... – fê-la alegrar-se novamente.
— Bom, eu... Não posso prendê-lo aqui para sempre, então é melhor se decidir logo – foi breve em se levantar. – Todas as escolhas têm perdas, Neji-kun. E só pode vencer esses pesadelos se os conhecer antes, mas... Sei que vai conseguir! – inclinou-se suavemente para tocar-lhe o ombro, tendo seu pulso segurado com delicadeza antes que o contornasse e fosse embora.
— Obrigado... Hinata-sama – suas vistas e palavras se encontraram para dirigir-se a ela, que devolveu o cumprimento com a meiguice infantil de seu rosto e avançou para a porta, encostando-a com discrição.
*~*~*~*
— Poxa, não precisava ter batido com tanta força... Qual o problema em perguntar onde a prima dele está? Se liga, esse cara é mais estranho do que pensei! – resmungava sozinho, massageando o rosto enquanto ia para seus aposentos. Vizinho ao beliche, em uma mesa pequena e baixa, repousava um bilhete com uma caligrafia conhecida.
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