Inner Beauty 2
65 Especial Michael I - Tio Devan e Eu
Notas iniciais
Especial Michael I
Tio Devan e Eu
E então finalmente sexta estava chegando.
Não tenho nada contra a escola, ao contrário, eu às vezes gosto bastante das terças e quartas, mas essa era a ultima sexta do mês e apesar de não significar muita coisa para as pessoas que não moram na minha casa, para mim tinha enorme importância.
Isso por que o sábado e domingo são da minha mãe, e isso queria dizer que eu ganharia dez dólares para ser mimado na casa dos meus avós enquanto ela se diverte com meu pai... Uma espécie de compensação por eu não poder fazer parte ou na verdade ser um pedido escondido de ‘não nos interrompa’, como se na minha idade eu fosse gostar de ver os dois dizendo coisas melosas um pro outro enquanto como aquela comida estranha de restaurante chique.
Do sofá da sala eu podia ver minha mãe trazendo mais um agrado, um pedaço de lasanha enorme junto a um litro de refrigerante recém-aberto da cozinha com um sorriso enorme. Diferente das mães normais a minha mãe, Eloise, não está muito preocupada com minha saúde e próximo ao dia dela, ela fazia de tudo só pra garantir que não vou resolver ligar onde estão por qualquer razão que seja, meu trato com ela era esse, embora meu trato com o papai seja outro.
—Vídeo game e comida gordurosa, eu sou ou não a melhor mãe do mundo?—Sorri acenando que sim.
—Falta pouco, mais um sorvete e estamos quites!—Fez careta pra mim.
—Sorvete Michael? Aumentou o preço por quê?—Sorri largo.
—Ora minha senhora, ser bom filho dá trabalho! Acha o que? Que é só chegar lá e ser mimado? Não, não! Exige fingir que eu tenho educação em casa, guardar os palavrões na caixinha, me manter limpo mesmo quando a diversão diga o contrário, ficar longe de encrenca... É desgastante mãe, preciso estar bem satisfeito pra fazer isso!—Colocou a comida na mesinha do centro da sala cruzando os braços e me fitando seca.
—Me dê dois motivos para não te dar uns tapas agora?—Sorri me encolhendo no sofá.
—Violência contra menor e abuso de poder... Dá cadeia senhora Taylor!—Arregalou os olhos ficando boquiaberta.
—Onde aprendeu isso moleque?—Mexi os ombros.
—Eu leio as cartilhas do reformatório do papai, você não?—A mamãe gargalhou alto se jogando no sofá ao meu lado me dando um abraço apertado até demais.—Mãe, ta me sufocando!—Foi pior ter pedido arrego, agora ela me babava todo de beijo.—Eca! Para com isso mãe!—Limpei o rosto quando deu espaço, não por que eu pedi e sim por causa da porta.
Bom, se você for conviver com a minha mãe precisa saber uma coisa sobre ela. Algo de extrema importância.
Minha mãe Eloise é simplesmente MALUCA pelo meu pai!
E eu não estou falando de uma maluca de brincadeira, acho que ela ter me empurrado com força no sofá e corrido desesperadamente até a porta pulando em cima dele ignorando eu estar ali podia se dar uma noção do que eu estava falando.
—Hey! Cuidado!—Resmunguei virando o rosto... Adultos se beijando.... Argh.
—Você podia deixar isso para depois que eu tomasse ban...—Ouvi ele murmurar andando até mim.—...Humm isso é cheiro de lasanha?
—Sim, é o cheiro da MINHA lasanha!
—Pois então traga SUA lasanha para a mesa, vamos jantar todo mundo na cozinha, por que sofá não é lugar pra comer! Anda!—Brigou e diferente da mamãe geralmente com ele não tinha conversa. Meu pai não batia, mas na minha opinião os métodos dele costumam ser mais dolorosos do que se tivesse mesmo levado uma surra como geralmente minha mãe faz.
Uma vez quebrei a janela do vizinho e ele me obrigou a fazer serviços para o durante uma semana. Uma semana passeando com o cachorro idiota dele, cortando grama e limpando a garagem. Por isso geralmente eu prefiro não me encrenca com ele.
—Que tipo de mãe não defende seu filho?—Cochichei pra mamãe que riu.
—Que tipo de filho chantageia o jantar romântico da mãe? E brigar com ele na véspera da ultima sexta? Nem em sonho, se vira tampinha!—Revidou ela subindo as escadas.—Dillan me espera eu vou tomar banho com você!
Então ta, o que dizer sobre meu pai... Bom, todo mundo diz que eu sou a copia escrita dele. Embora eu não vejo muita semelhança, ele é tão sério... Às vezes tenho até a impressão de que ele não se importa muito comigo, afinal ele age tão diferente da minha mãe.
—Para onde eu vou essa sexta?—Perguntei comendo a lasanha. Se eu fosse pra casa do vovô Ed isso queria dizer agitação, eu não preciso levar vídeo game pra lá. Se eu fosse pra casa do vovô Adrian então a historia era outra, muita comida e vídeo game.
—Então... Sobre isso, hoje eu me encontrei com seu tio.—Essa não.—E ele me fez ver...
—Não vai deixar o Michael com o Devan!—Interrompeu meu pai.
—Eloise, por favor, ele me prometeu que vai agir nos conformes!—Felizmente ela intercedeu por mim. Como é bom ter uma mãe advogada.
—Não! O Devan é um irresponsável, ele não dá conta de cuidar do Michael, talvez o Michael consiga cuidar dele, mas não o reverso!—Meu pai cerrou os olhos negando.
—É só uma noite, ele adora o Michael e acha que estamos afastando ele dele!—Levantei a mão.—Mi...
—Nem morto pai! O tio Devan acha que eu tenho dois anos e me obriga a assistir my little poney sempre que vem aqui em casa! Isso sem contar que ele fica contando um monte de mentiras sobre ter salvado a vida da minha mãe e a sua um monte de vezes, até de um jacaré numa floresta fechada, mas não consegue abrir uma latinha de sardinha!—Ele gargalhou.
—Ohh Michael, isso é por que ele quer ser o ‘tio legal’, ele quer que você o veja como um... Herói! Vai seja bonzinho e diga que vai se comportar quando ele vier!—Me virei pra minha mãe com cara de desgosto, com o tio Devan nem pensar!
—Mãe! Diz pra ele que eu vou pra casa do vovô!—Antes dela dizer o chato do meu pai já tomou a frente.
—Eu já prometi e vou cumprir, você vai passar um tempo com ele, considere isso uma punição pelas notas baixas do semestre passado!—Me levantei zangado.
—Isso é injusto! Primeiro, as promessas são suas cumpra elas você! E Eu faço trabalhos aqui em casa, meu próprio café, arrumo minha cama e recebo só dez dólares por semana, e ainda sou punido? Isso é exploração infantil!—Minha mãe deu uma risada abafada.
—Exploração infantil? Onde é que ouviu isso?
—Ele lê suas cartilhas e eu já fui acusada de violência contra menor e abuso de poder!—Assim que mamãe disse isso ele caiu na gargalhada como se o assunto que estávamos tendo não fosse sério. Ficar com o tio Devan? Assistir mais uma infernal maratona de My little poney? Não! Tudo menos isso.
—E com essa é Bullying!—Falei os fazendo rirem mais ainda.—Não vou ficar com o tio Devan! Por favor, pai! Ele é muito chato!
—Dillan não tortura meu baixinho, só por que você sofreu na mão do seu irmão não significa que o Michael deve sofrer também.—Ele negou me fitando sério.
—Vai ser só dessa vez filho, o seu tio te adora! Para ele é o fim não poder tomar conta do único sobrinho pelo menos uma vez na vida!—Apertei os olhos encarando ele. Suspirou.—Ta legal garoto, te dou vinte dólares pra se comportar e não fazer ele de idiota!—Humm... Agora sim estávamos tendo uma conversa descente.
—Vinte cinco e até finjo que acredito nas lorotas dele!—Sorriu de lado junto comigo concordando.
—Feito!—Apertamos as mãos um do outro como verdadeiros homens fazendo negócios. Voltei meu olhar pra mamãe, 25 do papai, mas o preço dela seria BEM mais alto.
Não estou sendo cruel com o tio Devan, não chego a dizer que não gosto dele, eu só não gosto de ficar perto dele. Ele é mentiroso, exagerado, preguiçoso, chorão, burro e o pior de tudo, acredita que não enxergo isso. É esquisito até dizer que ele é irmão do meu pai.
Se o meu trabalho era maior, o lucro também deveria ser.
—Lembre-se que sou sua mãe e você deve ser bonzinho comigo por obrigação, afinal eu te pari!—Sentei na cama suspirando querendo muito rir.
—Tio Devan mãe?! Você e o papai endoidaram? Ele mal consegue acender o fogo do fogão! Eu estou em duvida em quem vai cuidar de quem nessa historia!—Ela riu.
—Se você não soubesse se cuidar eu jamais deixaria você com ele, mas vai, diz logo quanto eu preciso para você manter o idiota do seu tio longe do telefone sempre que uma barata entrar dentro de casa?—Eu dei uma risada pensando.
—50!—Por que ela ficou espantada?
—50?! Está doido? Quer esfaquear sua mãe? Costumava me cobrar 15 por noite!
—É o tio Devan! Eu vou ser a babá e ainda fingir que não sou! Além do mais...—Me fiz de desentendido.—...Se papai descobrir alguém aqui vai se encrencar...—Mamãe nunca ficava zangada com as minhas chantagens, na verdade sempre gargalhava e vinha correndo me torturar com cócegas ou beijos molhados na bochecha.
—Feito, mas se o seu tio ligar por qualquer razão que seja você perde TUDO, okay!?—Era um desafio? A encarei concordando.
—Ele não vai ligar, eu resolvo tudo sozinho!—Eu não tenho mais cinco anos pra ficar dependente dos adultos, sei muito bem como funciona as coisas, então o dinheiro já é meu.
Tio Devan era modelo ou pelo menos acreditava que era. Eu nunca vi ele em uma revista, porém as pessoas costumavam dizer que ele era bonito, mas não sei o que isso tem haver com beleza. Meu pai sempre diz que ele virou modelo por falta de função, ele é tão inútil que a única coisa que restou fazer foi posar para uma foto.
—Surpresa!!!—Gritou meu tio assim que abri a porta, surpresa nada, eu levei foi um susto com o grito.—Aha! Aposto como não sabia que hoje quem iria cuidar de você era eu!—Eu ia responder quando jogou um urso de pelúcia na minha cara....ARGH, eu odeio ursos de pelúcia, por que ele sempre me trás um quando vem aqui?—Um presentinho pra você, gostou?—Sorri forçado.
—UAU, valeu, eu sempre quis um pato de pelúcia!—Não saiu muito convincente, mas ele acreditou, ta valendo!
—Inútil! Então quer dizer que hoje o Michael é que vai ser sua babá!—Mamãe desceu as escadas toda arrumada, nem parecia a mesma mulher que estava procurando briga com a vizinha por que ela chamou meu pai pra correr com ela de madrugada.
—HAHA muito engraçado! Você não cresce é?!—Mamãe ficou atrás de mim me abraçando.
—Se alguma coisa acontecer com meu menininho, eu mato você!—disse num sorriso tão largo que quase não pareceu uma ameaça.
—Deixe disso Eloise, Devan sabe muito bem que se ele não fizer as coisas direito vai se entender comigo ao modo antigo.—Meu pai desceu agora também arrumado. Modo antigo?
—Como assim?—Perguntei e papai riu de lado.
—Seu tio me entendeu. E você trate de se comportar! Qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo conhece os números! Não mostre sangue pro seu tio, não deixe ele chegar perto do fogão e muito menos do meu carro, tem sanduiche no micro-ondas caso vocês sintam fome ou podem pedir uma pizza, eu entreguei o dinheiro pro seu tio.... Érrr o que mais....—Meu tio avançou pra frente.
—Dillan! Eu sou um adulto agora, sabia?!—Meu pai nem deu moral.
—Oh sim, lembrei! Não importa o quanto ele diga que consegue fazer uma coisa, não deixe ele fazer! Ele não dá conta!—Franzi o cenho.
—Como assim? Fazer que tipo de coisa?—Ele mexeu os ombros.
—Qualquer coisa que envolva raciocino, força, rapidez ou....
—DILLAN!—Meu tio gritou.
—Eu sou um adulto agora, consigo muito bem cuidar do meu sobrinho e você vai ver só, o Michael vai ter a melhor noite da vida dele, tudo com segurança!—Meu pai apenas riu se aproximando de mim.
—Não acredite em nada que ele disser...—Sussurrou no meu ouvido e concordei rindo.—...Muito bem! Vamos Eloise?—Mamãe contente fez que sim.—Juízo Devan, vai passar de ‘tio legal’ a ‘tio hospitalizado’ se não olhar ele direito! Voltamos pela manhã.—Eu ri, mamãe lambuzou minha bochecha de batom saindo logo em seguida.
É isso. Que comece a tortura. Fui para o sofá me sentando com ele vindo atrás de mim sorrindo de orelha a orelha.
—Então... Hoje é a noite dos homens!—Girei os olhos, lembre-se Michael, vai ganhar 75 pratas depois de hoje.
—Parece que sim. O que vamos fazer?—Pro meu azar ele tinha planos, tirou da mochila que tinha nas costas um monte de DVD.
—Cinderela, A bela adormecida, Pinóquio, Branca de neve...—Não! Isso já é demais! Respirei fundo olhando pra ele.
—Tio!—Ele parou de falar me olhando.—Não é a noite dos homens?!—Fez que sim animado.—E por que vamos ver filmes de meninas?
—Não são filmes de meninas...—Como ele podia dizer isso?
—Claro que é, a principal é uma mulher, fala de baboseiras como amor e a maioria tem beijos no final, isso pra mim é filme de mulher! Sem contar que não tem luta, nem sangue nem nada, vamos assistir uma coisa mais empolgante!—Isso deixou ele um pouco mais sem graça, mas não ia gastar uma hora da minha vida assistindo DE NOVO cinderela.—Por que não assistimos a um proibido?—Me fitou espantado.
—Não! O Dillan me mataria se colocasse pornô pra você!—Hun?!
—Pornô? O que é isso?—Ele fez cara de paisagem me ignorando.—Tio, eu estava me referindo a um filme de terror, tipo exorcista! Papai não deixa eu assistir porque diz que eu ficaria com medo, mas como é você que manda hoje, talvez podíamos abri uma exceção!
—Ahhh!! Terror?! Bom, acho que terror não tem problema, mas será que podíamos pegar um com final feliz?—Ohh céus.
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Tenho uma palavra para esse filme “Aterrorizante” ou simplesmente “Muito legal”. Foi o primeiro filme que me fez realmente sentir um frio percorrer minha espinha e diferente do meu tio que estava chorando abraçado ao travesseiro escondendo o rosto sempre que dava, eu estava animado. Tinha sangue, demônios, flashs assustadores, era o tipo de filme que eu compraria o DVD ao invés de pedir pro tio Stuart baixar pirata.
—UAU!! Olha aquilo tio!—A garota possuída tinha decido as escadas de um jeito muito medonho. SHOW!
—Painossoqueestaisnoscéussantificadosejavossonome....—Ouvi ele murmurar sem entender o que dizia.
—Deixa de ser medroso tio, olha que....—Pisquei algumas vezes. Que luz era aquela vindo do quintal? Dei um tapa no tio Devan.—Tio... Olha! Tio é sério!—Cochichei agora sim ficando com medo. Mas estava com tanto medo do filme que se recusou a me ouvir. Será que estão invadindo?
Eu não desliguei a televisão por que poderia dar muito na cara se fossem bandidos, então deixei do jeito que tava e corri pra parede onde meu pai tinha pendurado um taco de baseball. Peguei uma cadeira com cuidado e coloquei de frente a porta olhando no vidrinho que tinha nela, o mesmo em que tinha visto a luz.
E não eram fantasmas, alias aquelas pessoas ali estavam muito bem vivas, três homens grandes um com uma lanterna na mão acenando para o outro fazer silêncio e os outros dois com armas... AHH Meu DEUS! Armas?! Tipo, de verdade??
Vamos pensar um pouco, se eles entraram pelo quintal, então tinham pulado o muro, quem pula o muro dos outros não pode ser boa gente e armados então, nem se fala. E o que um garoto de sete anos com um taco na mão junto a um tio covarde que tem medo de filmes poderia fazer?
CORRER!
Eu tinha que ligar pra mamãe ou pro papai, mas aí demoraria e não adiantaria, sem contar que vou perder meu dinheiro! Não! Eu vou me virar sozinho! Eu consigo! É só tirar o tio Devan daqui.
—Tio!—Dei uma tacada de leve na cabeça dele fazendo logo sinal de silêncio e apontei pra porta.—Vamo bora daqui!!!—Alertei sussurrando, mas estava em cima da hora demais, nós dois vimos a porta tentar ser aberta. Só tínhamos uma saída, pela garagem, ele vai ter que pegar o carro do papai. Se fossemos pela da frente corria o risco de sermos pegos.
Não tinha outro jeito, meu pai disse que não era para deixa-lo pegar o carro, mas correr com a lesma do meu tio era pedir pros ladrões nos alcançarem. E por mais que a situação fosse tensa o bobão ainda fez que não.
—O Dillan vai me matar!—Fiz sinal de silêncio para ele apontando para o carro. Ouvimos o barulho da porta de dentro de casa ser aberta e só então ele entrou de uma vez. Pressionei o botão de abrir o portão acenando pro meu tio pisar fundo.—Michael, tenho uma coisa pra confessar...— O portão fez um barulho ao abrir e com certeza os ladrões devem ter percebido que estávamos na garagem.—....Eu não sei dirigir!—OMG!
—Por favor, diz que isso é mentira....—Negou e alguém tentava arrombar a porta que dava para a garagens. Que ladrões burros o portão estava aberto era só sair pela janela.—Rápido tio, faz pelo menos o que dá conta!—Ele se apavorou.
—Eu quero o Dillan...—Que merda, essa fala era pra ser minha em um pavor futuro. Espera... Meu pai! Eu já vi ele dirigindo quando me leva pra escola... Mexi na chave ligando o carro subi a macha até o ponto onde meu pai colocava e acenei pro tio.
—Pisa no acelerador Tio!—O estrondo da porta sendo quebrada deu um susto na gente, o palhaço do meu tio mau se movia então noção tinha jeito. Eu teria que fazer isso como no GTA.
Pisei em cima do pé do Devan fazendo o carro ir pra frente de uma vez batendo no que tinha a começar pelo jardim do senhor Johnson e o chafariz feioso dele.
—Vira vira vira!!!—Gritei pro tio que finalmente despertou colocando as mãos no volante, os homens que tinham invadido a casa estavam logo atrás da gente. Mexi a macha do carro onde tinha um R rezando para isso significar Ré.
Por sorte eu não estava tão por fora assim, quase atropelamos um dos bandido, e virando no rumo certo da rua voltei a macha pra onde estava e pisei fundo no pé do tio. Aquilo era muito desconfortável, eu com uma perna no banco passageiro e a outra esticada quase me rasgando ao meio forçando o acelerador por cima do pé do tio.
Depois de umas dez esquinas seguindo reto eu cansei.
—Continua pressionando....— Voltei pro bando sentindo uma dor na perna, mas apesar de eu ser o mais novo ali dentro não era eu que estava chorando.—Relaxa tio, foi só um susto, os bandidos ficaram pra trás.—Falei e ele chorou mais ainda.
—O Dillan vai me matar!!!!!—Berrou desesperado, espera.... Ele estava preocupado com o que meu pai ia fazer com ele?—No carro dele sem saber dirigir, com o filho dele, depois de abandonar a casa dele cheia de ladrões, ohhh senhor tenha pena de mim...—Eu quis rir, mas deixa quieto.
—Calma calma, vamos pensar por dois segundos na melhor saída para ninguém se ferrar nessa historia....
—Liga pro seu pai agora! Essa é a saída! Ele vai resolver tudo em um piscar de olhos!
—NÃO!!!—Gritei na hora. Eu já sei o que fazer, não vou perder meu dinheiro assim tão fácil.
—Por que não?—Me olhou espantado e o tio é tão burro que soltou a direção e o pé do acelerador. Paramos no meio da rua num lugar que bem que poderia ser mais iluminado.
—Tio pensa comigo, é muito simples, ligamos pra policia dizemos o que aconteceu, eles resolvem o problema e pronto. Mas se ligar pro papai ele vai te dar as mesmas instruções e mais uma vez você vai passar pelo papel de inútil! Se tomar a iniciativa isso vai amenizar a punição que ele com certeza vai te dar...—Ele ficou pensativo, ufa....tapeei ele, piscou algumas vezes me fitando.
—Por que a gente faz loucuras pela família não é?! Passa por cima das regras!—Concordei mesmo não entendo onde ele queria chegar com isso.
—É...Bem por aí. Então?!
—Vamos ligar pra policia, Michael! Qual é o numero da policia mesmo?—Fechei a cara no mesmo tempo.
—190....—Murmurei o vendo pegar o celular e logo fazer uma expressão desesperada.
—Isso....Érrr.... Eu não tenho créditos, será que....—Girei os olhos.
—É de graça! Nunca passou trote na policia?—Arregalou os olhos negando.
—Não! Está louco, o Dillan daria uma surra em mim!—Meu pai?
—O papai batia em você?—Pigarreou sorrindo sem graça colocando o telefone no ouvido.
—Oi! Com quem eu falo? Ah sim, aqui é o Devan! Sim, eu quero fazer uma denuncia! Esperar? Claro que posso!—Disse tranquilamente... Isso não pode estar acontecendo.
—Tio!!—Dei um tapa nele pegando o telefone.—Não podemos esperar coisa nenhuma! Escuta, minha casa foi invadida por ladrões ELES VÃO ROUBAR MEU VIDEO GAME!! Manda a policia para lá agora!—Falei apavorado, seis meses limpando o jardim para ganhar e agora me roubam? Não!
—Quem está falando? Escuta garoto se isso for um...
—Moça eu não estou brincando, olha meu tio está aqui de prova para se responsabilizar por mim!—A parte engraçada é que o tio Devan pareceu bem aliviado por eu ter tomado o celular da mão dele.
—Certo, onde vocês estão? Vamos manda a viatura mais próxima.—Falou a dona do outro lado.
—A gente fugiu de casa, estamos em um carro na...—Olhei na plaquinha ao longe quando através do retrovisor eu vi aquele carro se aproximando... Eram eles... —Tio dirigi....
—O que?
—AGORA!!!! —Gritei com ele que girou a chave desesperado sem saber o que fazer depois que o carro foi ligado. Mexi na macha e acenei para ele pisar fundo.
Okay, okay, okay! Esqueça o dinheiro, as coisas estão ficando mais difíceis do que eu imaginava!!!
—Moça eles estão atrás da gente de novo!! O que a gente faz??!?!?—Gritei desesperado no telefone.... Ta bom, talvez eu estivesse mais do que desesperado já que meu tio peitou em latas de lixo e tinha uma péssima direção enquanto o carro nos seguia. Um cisco para piorar começou a cair nos meus olhos.
—Certo, tenha calma...
—Calma?! Você me ouviu!? Tem bandidos com armas nos seguindo!
—Garoto calma, me dê as informações que tem! Qual o carro que vocês estão?
—É um Mustang do ano passado preto! O carro que está seguindo a gente é um... —Olhei bem no carro atrás.....
BANG BANG BANG
—OMG, OMG, OMG!!— Meu tio soltou um berro de estourar os ouvidos enquanto o carro girava sem controle, pois os pneus tinham sido baleados..... SIM ELES ATIRARAM NO CARRO DO PAPAI! Para piorar eu bati minha cabeça no porta luvas... Devia ter colocado o cinto.—Moça socorro!!! Estamos perto do Mcdonald do bairro Sherman Oaks...
—EU QUERO O DILLAN!!! —Meu tio gritou quando o carro finalmente parou e os caras vinham no nosso rumo. Eu não sou muito de rezar, porém eu rezei. Respirei fundo, não vou chorar, sou quase um homem feito.
Com as armas apontadas para nós três homens somente acenaram para sairmos do carro, e enquanto eu me segurava para não chorar meu tio não fazia cerimonia e chorava como uma garotinha. Não acredito que meu pai me deixou com esse molenga!
—Acho que encontramos o garoto... —Falou um deles ao telefone olhando para os lados analisando se não tinha ninguém. Eu pensei numa maluquice que vi nos filmes... Quem sabe?!
—Por favor, não machuquem meu pai!—Pisei no pé do tio Devan assim que ele ia me retrucar, se era um sequestro, não dava para sequestrar o filho de pé rapado como meu tio, correto?
—Pai?—Murmurou outro bandido. —Não era o filho do baixinho que nós procurávamos?—Eu não acredito que vai dar certo. Mirei meu tio querendo muito sorrir, ainda que fiquei confuso, por que eles me querem? Meu pai nem é rico. Para completar a ideia abracei o tio Devan fingindo chorar, ou que seja usando meu choro guardado.
—Papai não quero ficar longe de você!—Eu nunca diria uma coisa dessas pro meu pai de verdade, porém eles nós olharam espantados. YES!!
—Qual é o seu nome?—Apontou a arma pro meu tio que soluçou choroso.
—Devan, desculpa, mas eu não tenho dinheiro, não levem meu filho! Por favor!—Isso tio Devan, sirva para alguma coisa.
—Essa não...Pegamos o garoto errado!—Murmurou o que estava no telefone.—O que fazemos? Deixamos ele ir?—Ahh está dando certo!—Ele disse que se chama Devan. —Que suspense maldito. —Certo, certo, entendi! Vamos te esperar.—Dessa vez desligou o telefone olhando pra gente. —O moleque vaza! O chorão vem com a gente!—Assim que ele disse isso meu tio desabou no choro.
—Ohh graças a Deus! Vai ficar tudo bem!—Disse meu tio ficando de frente pra mim, eu até estranhei. —Liga pro seu pai e ele vai resolver tudo! —Eu não sei se ele fez isso de proposito ou por pura burrice mesmo, dizer para ligar pro meu pai em alto tom fazendo os bandidos mudarem de ideia. Valeu tio Devan.—Oh droga... —Resmungou assim que percebeu a besteira que tinha dado.
—Idiota... —Retruquei e os infelizes até riram da gente.
No entanto o inacreditável aconteceu, algo que me deu medo e alegria ou não sei descrever, eu continuava encrencado do mesmo jeito. A policia apareceu.
De um jeito pouco comum, uma única policial deu um tiro na perna de um dos bandidos que ficou gemendo no chão, nocauteou o outro numa velocidade surpreendente e por fim apontou a arma na cabeça do chefão... Parecia que eu tinha acabo de presenciar um filme do Jackie-chan. SHOWWWW!!!
—Você tem o direito de ficar calado, caso decida falar, tudo o que disser poderá ser usado contra você no tribunal, se você não tem dinheiro para um advogado o estado lhe fornecerá um defensor público!—Disse ela bem séria. Devia ter o tamanho do meu tio, mas a coragem e a força ia muito além da dele. —Vocês dois estão bem?
—Sim...
—Não!—Meu tio me interrompeu. —O Dillan vai me matar! —Ele não para de dizer isso. Ela ignorou, mas pareceu irritada.
—Fiquem tranquilos, uma viatura de apoio logo chegará e todos iram para delegacia!—O cara com a perna baleada gritava e dor, ele ia pegando a arma no chão quando ela deu um chute nele algemando o da sua frente.
Eu estava sorrindo muito largo. Se ela fosse asiática diria que era irmã do Jackie-chan ou do Bruce Lee, talvez até do Jet Li.
—Sou Michael Taylor Cooper!—Ergui minha mão animado, meus amigos não vão acreditar se eu contar.
—Sou a oficial Emma Di Fiori, foi você que ligou para a policia? —Não liguei, mas falei, isso conta?
—Foi meu tio, estávamos em casa quando eles invadiram, não é tio?—Tio Devan estava chorando desesperado andando em volta do carro batido do papai, é acho que tem razão de ter medo.—Enfim, fugimos com medo, mas não sei por que eles nos seguiram, pensávamos que só iriam roubar a casa. —Ela franziu o cenho juntando os homens.
—Cadê seus pais Michael? —Engoli seco, meus 75 contos ainda estão valendo. Mas tem tiro no meio, melhor contar.
—Ultima sexta do mês, é o dia que os dois saem para jantar. —Sei lá por que ela se surpreendeu.
—Senhor Cooper!—Gritou meu tio. —Já lhe disse tenha calma, tudo será resolvido! Deveria estar ao lado do seu sobrinho, o pobre garoto deve estar em choque! —Eu?! Mirei ele e acho que a situação está inversa.
—Oh não, eu estou bem, obrigado. —Revidei e ela sorriu de lado.
—Eu lamento, é que nada disso era para acontecer e.... —Voltou a chorar. Argh.
—Ele é sempre assim? —Confirmei.
—Sim, melodramático e inútil. —Dessa forma foi até ele acho que para consola-lo. Grande engano, ela lascou o tapa na cara dele fazendo careta.
—RECOMPONHA-SE HOMEM!!! —Gritou ela pegando meu tio pela gola. —Não tem vergonha de estar chorando na frente do seu sobrinho?!?! VIRE HOMEM E ENGULA O CHORO! —A cara de espanto choroso do meu tio foi impagável, segurei o riso, não quero levar um tapa também.
—Aííí....—Dessa vez me olhou todo medroso correndo pra cima de mim e ficando atrás de mim. —Sua grossa!! É a pior policial que já vi! —Uia! Que corajoso, apesar de me usar como escudo.
—Venha cá e lhe mostro quem é a grossa! —Acenou ameaçando dando um passo para frente.
—Deixa só meu irmão chegar e você vai ver só uma coisa! —Que vergonha, para piorar ele me abraçava com força.
—Tá chega!! Você está sufocando tio... —Me soltou. —Já que falou no meu pai, está na hora de ligar pra ele e encararmos as consequências!—Eu soltei um riso quando ele tremeu.... Sabe que... Até que.... Até que...Até que ele não é tão mal. É engraçado ficar perto dele.
Ligou a cobrar pro meu pai, obvio, enquanto a oficial Jackie-chan ficou de cara feia para ele e falando no radio sobre ter pegado os bandidos e informar estava tudo bem até então. Ficamos virados de frente pro carro do papai... Que tragédia, como é que vamos contar isso pra ele? Ele adorava aquele carro, provavelmente gosta mais dele do que de mim... Eu não quero nem pensar na bronca.
—Toma... —Entregou na minha mão e eu neguei.
—Nem morto, fala com ele você! —Devolvi.
—Você é o filho! —O encarei perplexo.
—E você é o adulto responsável por mim! Anda tio! —Tornou a negar me entregando. Eu tenho que fazer tudo aqui? —Oi pai. —Falei engolindo seco.
—Duas horas e meia, estou surpreso... —A voz grossa dele mesmo que em tom brincalhão me deu medo. — ...Diga, qual a encrenca que seu tio arrumou? —Tossi fingido.
—O senhor está sentado? —Já deu para perceber que ficou tenso, mirei o tio que respirava fundo nervoso.
—Michael... O que vocês dois aprontaram? —Agora a voz dele soou mais como uma acusação.
—Érrr... Primeiro lugar....Não foi culpa minha e nem do tio Devan! —Acenei pro tio se tranquilizar, mas a voz do papai já me cortou do outro lado.
—Diz logo o que aconteceu!
Quando eu pensei em dizer o celular foi tirado por mim, ia brigar com o tio Devan quando tanto eu quanto ele vimos um homem alto apontar uma arma pra cabeça dele com o celular na mão. Só agora percebemos que alguém tampava a boca da oficial Jackie-chan que estava imobilizada....Tadinha.
—Não repreenda o garoto Dillan! Ele é apenas uma vitima das péssimas escolhas da minha Lisin. —Eu confesso que tremi de medo, na verdade acho que nunca fiquei com tanto medo em minha vida, tanto que quis chorar. Aquele homem não era bom, só jeito como falava já confirmava isso. Tio Devan me puxou com força pros braços dele me abraçando com força. —Ahh reconheceu minha voz “o coisa”? Pois saiba que estou aqui com seu urubuzinho e seu irmão inútil, se não quer que um dos dois leve um tiro nesse exato momento, passe o telefone para a Lisin! —Lisin era minha mãe? Ele acenou para os homens que vieram com ele nos levar dali enquanto falava já não sei mais o que no telefone.
Eu, tio Devan e a Policial fomos jogados em uma van que só Deus sabe para onde estava indo. Mas não era pra casa, isso eu já sabia.
—Tio eu to com medo... —Eu estava tremendo, querendo gritar como ele fez antes, se ao menos meu pai estivesse aqui.
—O Dillan vai resolver, agora ele sabe então vai dar um jeito, você vai ver. —Depois de me dizer isso me abraçando se virou para a outra refém, mesmo de cara feia para ela.—Você está bem? Tem um corte feio na sua testa. —Ela soltou um urro de desagrado, dando um tapa na mão dele com força.
—Tira a mão de mim bonequinha, eu não preciso de ajuda. —Que moça orgulhosa, o corte estava mais feio o que o galo na minha cabeça e sangrava. Ainda sim ele ficou puxando a própria blusa e só depois de um tempo saquei o que queria.
—Posso? —Disse e ele fez que sim. Rasguei a blusa do jeito que ele queria e ele levou até o machucado dela.
—Não é um bom momento para bancar a durona. Até o Dillan chegar você é a pessoa mais indicada para nos manter vivos.—VIVOS? Arregalei os olhos quando ela deu um tapa nele.
—Ficou louco?! Dizer uma coisa dessas na frente de uma criança? —Nós vamos morrer?
—Eu quero meu pai.... —Choraminguei enquanto aquele imbecil sorria sem graça.—Por que ele está levando a gente? Papai nem tem tanto dinheiro assim, minha mesada é uma mixaria! —Tio Devan ficou sério.
—Acho que não tem a ver com dinheiro... —Sem concluir se calou e ficamos os três grudados um nos outros. Estranho como momentos assim unem as pessoas, em outra situação jamais ficaria abraçado com o tio.
Que coisa mais doida. Como é que de repente do nada tudo deu errado? Mas eu tenho que confessar que mesmo com medo meu tio até me impressionou, achei que ele ia se borrar todo quando o carro começou a andar. Eu mesmo estava com muito medo.
Quando o carro parou eu engoli seco ainda grudado no braço do meu tio e ele no meio tremendo. Os bandidos fizeram uma coisa que sinceramente me deixou mais apavorado ainda, pegaram a policial Jackie-chan e jogaram ela para fora da Van com violência... Papai sempre diz que homem nunca deve bater em mulher, mas pelo visto aqueles caras não conheciam essa regra básica. Tio Devan espantosamente correu até ela, pensei que ele não fosse muito com a cara dela.
—Pelo amor de Deus! Não precisam fazer is.... —POW! Levou uma porrada no meio da cara que o fez cair no chão.
—Tio Devan!!! —Corri até meu pobre parente caído ao chão e até sangue estava saindo da boca dele.
Eu sei que foi burrice da minha parte, porém meus nervos falaram mais alto... Dei um chute na canela do imbecil que bateu no molenga do meu tio e assim que levantou a mão contra mim eu já dei um dos golpes que meu avô me ensinou. Numa luta injusta, se usa golpes injustos. Acertei bem no meio das pernas dele de uma vez e com toda força que tinha. Quando outro veio pra cima de mim a policial deu uma cabeçada no cara fazendo ele cair, apertei o punho e dei um soco na cara dele.... O que não sei se doeu mais em mim ou nele.... Que cara dura!
Não demorou muito para uma arma ser apontada contra mim e contra a moça.
—CHEGA! — Gritou o moço que tinha ficado com o celular do tio. Ele era alto de cabelos escuros e olhos caros, tinha tatuagens no braço e usava alargador. Se aproximou de mim com um sorriso típico de vilão de desenho animado.—Estão apanhando de garoto de 6 anos? O que não me surpreende, sendo cria daquela coisa só podia gerar outro monstrinho... —Monstrinho!? Que mal educado! E eu tenho SETE ANOS. Antes de se aproximar de mim deu um chute tão forte na policial que eu não segurei o choro mais.—Levem eles para dentro do galpão.
Isso está completamente fora do meu campo de ação. Eu comecei a ver que sou uma mosquinha perto desses caras e estavam prontos para me amassar assim que eu desse outro passo em falso.
Mas afinal de contas o que esse cara quer? Ficamos um tempão em um canto sentado, meu tio estava no meio enquanto eu e a policial estávamos colados a ele. Ele tentava achar um jeito de amenizar a dor do chute e limpar os machucados dela, porém eu estava mais atento a aquele homem estranho que ficava me encarando sem parar como um leão fica de olho na presa.
—Tio quem é ele? —Ele se virou pra mim engolindo seco.
—Acho que é o ex da sua mãe... — Ex?
—Ex? Ex o que? —Perguntei cochichando.
—Ex-namorado, mas fica tranquilo, seu pai vai dar um jeito! —O mirei sem acreditar. Primeiro por que eu nunca soube que minha mãe tinha namorado outra pessoa além do papai, segundo por que ele dava tanto crédito pro meu pai?
—Como pode ter tanta certeza que meu pai vai resolver? É capaz dele dar graças a Deus por que esse cara me sequestrou. —Papai nunca nem fez esforço pra ficar perto de mim, por que se daria ao trabalho de vir resgatar, aposto que se fizesse algo seria pela minha mão e não por mim.
—O que? Da onde você tirou isso? —Cochichou em um tom reprovador.
—Ele não gosta de mim tio, só você e minha mãe não vê isso! —Nisso ele negou tocando o galo na minha testa.
—Acho que o machucado afetou sua cabeça.... —Dei um tapa na mão dele.
—Eu to bem... —Bufei ainda nervoso por estar sendo encarado.
—Michael o Dillan te adora, para você ter uma ideia eu tive que implorar pra ele deixar eu tomar conta de você, é pelo amor que ele tem por você que eu sei que ele vai resolver tudo! —Que melação, abaixei o rosto. Só eu sei como meu pai é.
—E eu estou contando com isso. —Só agora percebi que o homem ao longe já estava perto e ouvindo o que o tio tinha dito. —Você é a cara do seu pai, devia pedir uma indenização por isso!--Riu sozinho, não entendi a piada. —Levanta. —Ordenou, olhei pro meu tio e levantei. — Olhe só para você monstrinho.... Não tem um único traço da Eloise. —Apertou meu rosto como minhas tias fazem.
—Se é que eu posso perguntar, mas da onde você conhece minha mãe? —Perguntei criando coragem e ele me olhou surpreso.
—Seu papai não te contou? Eu sou o grande amor da sua mãe, era para você ser belo como eu se aquele porco espinho idiota não tivesse trapaceado. —Belo? A quanto tempo esse cara não se olha no espelho?
—Trapaceado? —Não devia ter dito isso, ele rangeu os dentes nervoso.
—É! Trapaceado! Ele me jogou na cadeia injustamente! Desolada sua mãe não teve opção se não casar com aquele lixo humano! —HUN!?
—Não foi bem assim não... —Meu tio ia dizendo.
—CALA BOCA! —Abaixou a cabeça e ele se virou pra mim. —Seu pai roubou tudo de bom que eu tinha na vida... —Segurou meu rosto com força de novo. —E eu vou fazer o mesmo.— Que historia sem pé nem cabeça. Ele fala como se meu pai fosse mau. —Você é idêntico a ele quando tinha sua idade, até no olharzinho de prepotente.... —Soltou meu rosto. Quantas vezes ele vai repeti que sou parecido com meu pai? Eu nem sei o que é prepotente...
—DAVID! —Gritou meu tio do nada. —Oh minha nossa, é o David! —Han!? O homem ficou um pouco perplexo.
—Você me reconheceu só agora? —Meu tio voltou a se sentar abaixando a cabeça. —Veja Michael! Se a sua mãe pelo menos tivesse escolhido seu tio você não seria tão feio quanto seu pai! —AH! Que afronta! Meu pai não é feio!
—Em compensação seria burro, alias do que adiantou sua ‘beleza’ se minha mãe trocou você pelo meu pai, hein!? —Ele se virou zangado pra mim.
—Ele me roubou ela...
—Roubou nada, a minha mãe é louca por ele, tanto que me pagou 50 pratas só para não perturbar o romance deles! Encaremos a realidade... Ela te chutou pra ficar com meu pai! —Tecnicamente falando....Acho que eu fui chutado... E doeu MUITOOOO!!
Como se não bastasse ele continuou me socando e me chutando....E eu já estava chorando e muito e OMG EU ESTOU SANRANDO!!! DANE-SE!! EU QUERO A MINHA MÃE!
Quando finalmente deixei de ser o saco de bancadas e abri os olhos doloridos molhados de lágrimas por causa do murro que levei na cara fiquei assustado e... Sei lá.... Impressionado...Triste... Sem palavras... Mesmo sendo medroso, covarde, burro e um completo inútil.. Meu tio se colocou na minha frente e agora estava apanhando no meu lugar. Acho que ele tentou revidar, mas era muito fraco.
—Ohh que bonitinho, o titio defendendo o SOBRINHO! —Quando disse ‘sobrinho’ tornou a chutar ele. To nem ai se doeu ou estava machucado, parti pra cima dele e levei outro chute indo parar no outro canto. Até que ela veio, a policial Jackie-chan, foi defender meu tio, porém antes de chegar perto do David, levou um tiro... Eu só ouvi o berro dela depois do enorme BANG que soou. —Olha só que bagunça que vocês me arrumaram, hein!? Nem parece que vai haver uma negociação importante aqui! E você pare de chorar! —Gritou comigo e eu tive que engolir o choro.
—David, é a mãe do garoto no telefone! —Disse um dos homens dele.
Meu tio tirou coragem e força não sei da onde para arrastar a Jackie-chan de novo pro canto e tirou a blusa afim de estancar o sangue.... Pelo que parecia tinham acertado bem no ombro dela e saia muito, tipo MUITO sangue.
—Você-você sabe o que está fazendo? —Perguntei com a voz tremula e chorando muito, tanto que vergonhosamente meu nariz estava intupido.... Eu quero meu pai...
—Quando meu irmão foi pra faculdade e eu voltei a apanhar dos valentões achei que seria uma boa ideia fazer um curso de primeiro socorros, pro caso de eu me machucar feio. —Disse tão sério que nem parecia o tio Devan que eu conhecia e olha que ele estava machucado. — Você não pode ficar aqui oficial, o Dillan tem que chegar logo...—De novo ele com essa historia do meu pai.
—Eu estou bem... —Murmurou a marrenta da policial.
—Bem mau, isso sim, me perdoe a palavra, mas essa atitude não atrairia nenhum homem. —A policial riu amarga.
—E você lá é homem pra vir me dizer isso? —Gemeu de dor, até eu ri, apesar de não ser um bom momento pra isso.
—Que ótimo, sequestrado junto com a policial mais mal educada da cidade! —Continuou pressionando, depois dando uma olhada no machucado.
—E a mais competente e você o que é? —Tenho pra mim que meu tio ficou ouvindo as ofensas dela numa boa para manter ela acordada, ou foi impressão minha e estou vendo filmes demais.
—Você é igualzinho seu pai... —Girei os olhos limpando as lágrimas já impaciente.
—Quantas vezes eu vou ter que ouvir isso hoje?! —Perguntei pro tio. —Todo mundo me diz isso!
—Não, não to falando da aparência. Você é protetor, inteligente, e habilidoso igualzinho a ele e devo completar que louco e impulsivo como sua mãe! —Me deu um cutucão nos machucados me fazendo rir. —É sério, eu vivo me gabando com meus amigos de ter um sobrinho como você... “O Michael? Ele anda de skate, bicicleta, patins, patinete e mini-buggy sozinho e só tem sete anos”! —Sorri sem graça, por que ele estava falando aquelas coisas?
—Tio nos não vamos morrer, não precisa fazer esse drama todo. —Brinquei e ele voltou o olhar pra policial.
—É eu sei, mas o Dillan nunca mais vai deixar eu ficar perto de você de novo, ele disse isso... “ Se alguma coisa acontecer com Michael, você vai parar no hospital e pode esquecer que tem um sobrinho por que nunca mais vai chegar perto dele”. —Imitou a voz grossa do meu pai e caramba ele disse isso?
—Ele disse isso?
—Disse... —Agora ele parecia sério olhando para a policial. —Emma... Ele vai matar o David depois que ver o Michael, eu conheço meu irmão, ele tem um temperamento bem explosivo quando o assunto é família. —O que? Meu pai não chegaria a tanto. Mas ela pareceu dar importância ao que ele dizia.
—Não acho tio, nem sabemos se ele vai vir...
—Ahh ele vai Michael e quando chegar seria bom fechar os olhos e tapar os ouvidos. —Ainda achava que era exagero, talvez mamãe surtasse de vez em quando, mas papai?
Quando eu ouvia ele falar assim do papai parecia até outra pessoa, será mesmo que meu pai seria capaz disso?
Não passou muito tempo até ouvirmos um barulho de carro vir da entrada, deu a leve impressão de ser mais do que um por causa das freadas bruscas e eu sei bem o que os olhos brilhantes do meu tio pensou, provavelmente o mesmo que os meus... Ele chegou.
Engoli seco com medo, mais com medo que antes, pois o criminoso não parecia ir com a cara do meu pai já a muito tempo.
—Eles chegaram... —Murmurou um deles pro manda-chuva.
—Fiquem ali e atentos, o tampinha costuma ser muito esperto. —Revidou batendo na propria roupa como se fosse encontrar alguém importantes.
E meu pai finalmente entrou, com a mesma roupa de festa que tinha saído, mas a expressão dele estava péssima, pior do que aquela quando joguei bola dentro de casa e quebrei um dos troféus dele. Mas no impulso sem pensar me levantei de uma vez com cara molhada de choro e sangue dos tabefes que levei... Era minha mãe! Minha mãe veio!
—Michael! —Gritou ela e eu corri pra me aproximar, porém um muro de pessoa entrou na minha frente.
—Calma Lisin, você terá seu monstrinho se chegarmos a um acordo! —Ele apertou meu braço me puxando até frente ao meu pai, que estava em um péssimo humor e me fitou com tanta raiva que achei que fosse me castigar ali mesmo. Só depois eu vi que a raiva dele não era de mim. —Ahh isso...-Apertou um dos machucados no meu rosto.-...O que posso dizer? Tal pai tal filho.-O que ele quis dizer com isso? De novo a historia de eu parecer com ele?
—Você bateu no meu menininho?! Você ficou louco de vez David!??! —Brigou minha mãe quase avançando nele se não tivesse uma arma apontada pra mim. —Ele só tem sete anos sabia?!
—Eloise. —Falou meu pai uma única vez, com voz rouca e grossa é muito raro alguém não obedecer ele.-Vou te dar uma chance David, atira em mim agora. —O QUE?!
—DILLAN! —Questionou minha mãe. Meu pai ficou doido? Como assim 'atira em mim'.
—Isso é um dos seus joguinhos? —Perguntou o outro.
—Não, em menos de dez minutos esse lugar vai estar cercado de policiais, eu diria cinco policiais para cada um de vocês, todos vocês vão ser presos e nenhum dos seus capangas vai atirar no Michael pra correr o risco de pegar pena de morte. Também não irão atirar na gente por que aposto que nesse exato momento estão cogitando fugir antes da policia chegar e claro, como você não tem onde cair morto e está pouco ligando para conseguir a fidelidade deles sei muito bem que nenhum deles está disposto levar um tiro por você, nem pela mixaria que você ofereceu. —Fiquei boquiaberto. Eu não entendi muita coisa, mas de um certo ponto ele tinha razão, os demais ficaram morrendo de medo andando de um lado pro outro.
— A policia???! David, você nos garantiu que não ia ter policia envolvida, que seria jogo rápido! Eu não vou voltar pra cadeia! —Vociferou e de repente toda liderança dele foi por água abaixo. Uns já estavam indo embora.
—Esperem! Onde pensam que vão! Ele está blefando seus idiotas...
OMG! Eu estava tão atento vendo todo mundo indo embora que tanto eu quanto o criminoso de meia tigela se quer vimos meu pai avançar com tudo pra cima dele. Logo de cara tirou a arma da mão dele que foi pra perto do tio Devan e em seguida, começou a verdadeira pancadaria. Tipo bem pior que as lutas que vejo na televisão, eu podia até ouvir os ossos do punho do meu pai chocando com força contra o rosto, barriga, todo canto.
Eu nunca vi ele tão zangado em toda minha vida.
—BATEU EM UMA CRIANÇA!?!?!? VOCÊ BATEU NO MEU FILHO??? —Gritava ele cheio de raiva sem deixar de bater. Mamãe correu até mim e me abraçou nervosa, mas eu não conseguia tirar o olho da briga.
—Dillan chega!!! Você vai matar ele!!! —Berrou meu tio apavorado correndo até ele.
—NÃO SE METE DEVAN! OLHA O QUE ELE FEZ COM O MICHAEL!! —Berrou de volta.
—Eu sei mano!! Foi horrível!!! Mas pensa nas consequências! Quer mesmo que o Michael presencie isso? Quer mesmo que seu filho vá uma vez por semana te visitar na cadeia? —Isso fez meu pai parar.
—Eu não me importo de assistir, pode continuar... —Murmurei o que fez minha mãe me apertar.
—Nem eu, continue querido! —Meu tio Devan ficou na frente.
—Não incentiva Eloise! A intenção do David Dillan era destruir sua família... Se você fizer isso então ele vai conseguir. —Olha só tio Devan conseguiu convencer meu pai. —Agora o mais importante, precisamos de uma ambulância!
—Pro David? Que exagero! —Disse minha mãe, porém eu já sabia que não se tratava dele.
—Não mamãe....-Apontei pra policial Jackie-chan que já estava bem pálida. —..Pra ela.
Tudo foi muito rápido a seguir, policiais, ambulância, o tio Devan chorando feito mulherzinha de novo contando pro meu pai, minha mãe que não me soltava mais e não parava de me beijar chorosa e por fim a parentada da minha mãe tudo no hospital, não por mim e sim por meu avô que desmaiou quando soube que o David tinha me sequestrado.
Quando finalmente mamãe resolveu me soltar eu andei pelo hospital, que noite mais complicada. Eu estava machucado, porém estranhamente sem sono. Mas parte mais complexa da noite e surpreendente foi meu tio, caramba ele me defendeu, mesmo sendo o cara mais covarde do mundo ele me defendeu e em algum ponto até tentou dominar a situação.
Eu andei por ali na intenção de encontra-lo, pelo menos agradecer, só que quem eu achei no caminho sentado no banco com as mãos enfaixadas foi meu pai. Mais cedo ou mais tarde eu tinha que encará-lo mesmo.
—Foi mal pelo carro pai... —Murmurei e ele levantou a cabeça dando um sorriso torto.
—Foi péssimo, mas não tão péssimo quanto você não ter me ligado assim que eles invadiram. —Revidou.
—Eu sei, eu sei, eu sei, mas pai eu achei que eram só ladrões, pensei que...
—Só ladrões? Michael ainda que fossem, era perigoso! E para piorar você fez tudo que eu disse para não fazer, não me ligou, enganou seu tio, fez seu tio dirigir um carro sem nem ter habilitação pra isso e só Deus sabe como não tiveram um acidente mais grave... Tem alguma ideia do que fez sua mãe e eu passar? —Quando ele disse isso eu abaixei a cabeça.
—Eu já aprendi minha lição, não está vendo? —Apontei para os machucados no meu rosto e ele sorriu de lado.
—Se tivesse me ligado isso não teria acontecido. —Concordei.
—É, tio Devan deixou isso bem claro durante TODA a noite! —Agora ele sorriu mais largo. —É estranho, mas se pensarmos bem pai, nas mentiras do tio Devan ele sonha ser como você.
—Está dizendo isso pra eu não repreender ele, não é? —Mexi os ombros, de certa forma era isso sim.
—Papai, por mais inútil que ele seja...
—Sim, eu sei Michael. —Disse antes que eu completasse. Acenou para levantar e o seguir até uma sala onde o tio estava junto a policial Jackie-chan.
Fiquei pasmo, felizmente ela estava bem, mas não pareciam trocar xingamentos como antes, tio Devan segurava sua mão sorrindo aliviado com os olhos vermelhos. Chorão. Sorri de lado mirando o papai.
—Ela não dura dois dias ao lado dele... —Sussurrou uma voz feminina, mamãe se aproximava da gente. —Estava te procurando pestinha.
—Sei não Eloise, ela me parece durona, quem sabe? —Quem sabe o que?
—Não entendi?
—Ohhh Dillan, por favor... Ela salvou o nosso filho, o mínimo que podemos ter é consideração por ela e não desejar que se envolva com o inútil do seu irmão. Já pensou? A pobre além de tomar conta dos bandidos, tem que cuidar de um bebezão ao voltar cansada para cara. Não! Eu gosto dela. —Meu pai riu.
—Vamos pra casa. —Bagunçou meu cabelo e segurou levemente no braço da minha mãe. —Devan! Vamos?! —Meu tio levantou o rosto espantado vindo até a gente.
—Ah Dillan! Meu irmão... —Tossiu fingido enquanto andava no nosso ritmo para fora do hospital e me fitava cheio de medo. —... Que bom que tudo terminou bem, não é? —Mirei o tio negando, péssimas palavras.
—Bem? —Meu pai parou no meio do caminho o encarando indignado. —Meu carro virou sucata, sequestraram meu filho, alguém levou um tiro na frente dele, fora que simplesmente espancaram ele e você acha que tudo terminou bem? —Eu percebi que mamãe quis rir do desespero na cara do meu tio.
—Não! Eu quis dizer que tudo... Você sabe, ninguém... —Neguei com a cabeça, pobre tio. —...Tudo bem! Eu sei que mais cedo ou mais tarde você vai punir e eu não me importo, mas... Não vai cumprir aquela parte sobre eu não poder mais ficar com ele não é? —Eu sorri apertando minha mãe.
—Eu adoraria ficar com o tio Devan no mês que vem! Tirando o tiro e risco de morte, foi demais! —Meu pai me fitou zangado, mas o rosto do tio pareceu se iluminar.
—Ahh sim, deixem que eu tome conta dele o mês que vem! —Meu pai e minha mãe se entreolharam incrédulo.
—NÃO! —Disseram ao mesmo tempo.
—Você nunca mais vai tomar conta do Michael! —Tio Devan fez menção de chorar novamente.
—Por que não?! Não foi minha culpa o que aconteceu e...
—Você deixou uma criança de sete anos te manipular e Eloise tem razão, você mal tem responsabilidade para cuidar de si mesmo! Não vai mais tomar conta do Michael! —Meu tio começou a chorar e confesso que também fiquei triste.
—Então nunca mais vou poder ver o Michael?! —Perguntou choroso e meu pai olhou pra minha mãe.
—Eu não disse isso. Você pode ficar com ele sempre que quiser, contanto que tenha um adulto inteligente supervisionando vocês! —Eu ri e mamãe também. —Ahh e antes que eu me esqueça... — Olhou pro meu pai todo feliz quando levou o maior soco no estomago que o fez gemer e cair no chão.... UIII... —...Sua punição. Eu disse que se não tomasse conta dele direito íamos resolver ao modo antigo.
Pobre tio Devan.
E aquela modesta noite louca resultou em dias cheios de pessoas indo e vindo de casa, o final de semana tão esperado por mim e mamãe acabou se tornando um caos onde nem eu nem ela tínhamos o que queríamos. Quando os nervos dos familiares se acalmaram, finalmente tivemos um pouco de paz, todos os dias eles vindo ver se eu estava bem e como meus pais estavam eram meio cansativo. Os adultos se preocupam demais.
—Eu devia ganhar uma compensação. —Mamãe esfregava meu cabelo com força com a toalha secando ele.
—Compensação de que Michael? —Engoli seco. Eu não ganhei nenhum dinheiro com aquela bagunça, e isso me corroía, pois tive o triplo do trabalho com as demais noites.
—Ora, de tentativa! Segurei o Tio Devan até o limite! Dez pratas me fariam feliz! —Ela gargalhou me forçando a olhá-la.
—Merece uns tapas isso sim, quer dizer que não me ligou por causa do dinheiro? —Por que ela estava brava?
—Não é todo dia que ganho 50 pratas pelo silêncio. —Cerrou os olhos sorrindo.
—Esses 50 pratas quase custou sua vida, e o que eu faria sem meu baixinho? —Sorri de lado.
—Você tem o papai, que também é baixinho. —Sorriu largo negando.
—Não, vocês são donos de terrenos diferentes no meu peito, não dá pra substituir nenhum nem outro. —Sorri.
—De certa forma, nada paga ter visto meu pai daquele jeito, por que eu nunca soube que ele era bom de briga? —Mamãe me ajudou a vestir o pijama.
—Para não te influenciar, eu acho, embora seja inútil já que seu avô já fez isso, meu faixa roxa! —Lambuzou minha bochecha com um beijo.
—Eu nunca o vi daquele jeito, nem sabia que gostava tanto assim de mim. —Mamãe ralhou.
—Oh nem brinque com isso, também nunca tinha visto ele daquele jeito, é capaz dele amar você mil vezes mais do que eu. —Sorriu de lado penteando meu cabelo com os dedos. —Embora demonstre muito mal, não acha?
—MUITO mal. —Concordei e ela me olhou.
—Mas sabe que amamos você acima de tudo, não é? —Eu ia responder quando ouvimos a porta ser aberta.
—CHEGUEI! —E o amor da minha mãe me empurrou me jogando pra longe enquanto corria desesperada atrás do meu pai.
Uma mãe doida, um tio inútil e um pai durão, minha família não era lá um comercial de clube aquático, mas acho que não teria a menor graça se não fosse assim.
###BÔNUS###
Devan
Ahhh nem acredito que já não tenho pesadelos com o filme do exorcista, pensei que ficaria mais traumatizado com o sequestro, mas aqueles monstros tomaram de vez minha cabeça. Respirei fundo, tudo deu certo e agora eu só precisava ocupar minha mente.
—Cabeça de vento! —Mais uma vez ela me deu um peteleco enquanto eu tentava ajudar com a comida. Emma é tão, tão, tão difícil de lidar.
—Gostaria que não fosse tão rude, em breve meu sobrinho vai chegar e seria péssimo se ele visse você me tratar assim! —Ela soltou um riso zombador.
—Seu sobrinho é esperto suficiente pra já sacar que você é um mané! —Por que eu ainda insisto em vir tentar ajuda-la, está certo que tentou salvar minha vida, porém isso tem sido uma tortura.
—Você é tão grossa! Não me admira que seus parentes não venham visita-la. —Resmunguei e ela fechou a cara, embora tenha ficado mais contente de ter fechado a boca. —Alias, me espanta que só seus amigos da policia venha vê-la, não tem irmãos?—Ela engoliu seco.
—Eu sou órfã seu imbecil, do orfanato fui pra um colégio militar e sim, essa é a única vida que conheço, antes que seus miolos moles se questionem sobre como fui criada. Satisfeito? —Fiquei confuso.
—Órfão? Quer dizer que não tem pais? —Ela me voltou um olhar seco. —Então, como tem sobrenome? —Girou os olhos e depois de um tempo começou a rir.
—Ahh por que eu aturo você? —Eu olhei em volta e depois a ela.
—Me desculpe senhorita, mas... Está vendo outra pessoa disposta a lhe fazer companhia? Eu acho que não então...
—Tá, tá, tá! Como você é sentimental! Vou sair daqui dois dias e não terá preocupações em me fazer companhia, okay senhor Devan?! —Suspirei, como era difícil agradar ela.
—Ainda não, quando sair meu pai gostaria de lhe prestar homenagem dando um jantar em família com a sua presença. —Ela pareceu recuar sem jeito.
—Besteira, não preciso disso. —Concordei.
—Eu sei, mas nós queremos, e não me olhe desse jeito, já está decido! Passe na minha casa no sábado para me pegar. —Arregalou os olhos.
—‘Eu’ passar na sua casa? —Fiz que sim.
—Sim. Eu não sei dirigir e você não sabe onde é o restaurante. —sorriu largo.
—Você é muito folgado.
—As dezenove em ponto. —Engoliu seco com um sorriso que de certa forma me agradou.
—Folgadíssimo. —Riu sozinha.
—Chegamos!! —Gritou meu sobrinho... Me levantei no mesmo instante.
—Michael não grita no hospital. —Repreendeu meu irmão.—Como está Emma? —Ela riu me olhando.
—Se refere ao tiro ou o estado de ter ficado com seu irmão a manhã inteira? —A mirei com raiva, mas meu irmão e o Michael caíram na risada.
—Muito engraçado, quem dera usasse esse humor para comer. —Ela fez careta. —Contei a ela do jantar Dillan.
—Oh perfeito, vou te buscar as dezenove, tudo bem? —O que? Não!
—Não! Ela vai vir de carro e me buscar e vamos pro restaurante do papai! —Ele negou.
—Devan não viaja. Ela nossa convidada, não pode passar na sua casa e te buscar!
—E como eu vou pro jantar? —Michael sentou em cima da cama rindo.
—Se quiser te empresto minha bicicleta. —Meu irmão e Emma ficaram rindo.
—Eu não sei andar de bicicleta. —Resmunguei.
—Patins?
—Não.
—Skate?
—Eu vou de a pé, já que ninguém se importa comigo mesmo. —E isso fez eles rirem mais ainda. Bufei nervoso.
—Tudo bem Dillan, eu não me importo, eu pego o Devan e vou pro restaurante com ele.—Ahh meu coração chega pulsou. A mirei com tremenda felicidade.
—Emma não aconselho isso, meu irmão tem a péssima mania de depender dos outros e se começar a fazer favores pra ele não vai largar do seu pé tão cedo.
—Vai ver a ideia é essa pai, alguém egoísta como o tio batendo ponto de companhia para ela e ela se quer mandando ele ir embora por mais chato que seja...? Sei não, isto está me cheirando a parente nova! —Que absurdo!!!
—Michael! —Briguei com ele.
—Argh, eu não sei por que os adultos fingem tanto. —Meu irmão só ria e... Emma parecia desconsertada.
—Você é um pestinha... —Murmurei e ele se voltou pra mim.
—Mamãe mandou um recado pra você... —Se aproximou do meu ouvido. —...Ela disse “não é qualquer uma que te atura mesmo baleada, cai matando ou vai morrer solteiro”.— Eloise!! Meu rosto começou a queimar, como ela podia pensar aquilo, eu só tinha vindo porque.... Por que... Por que era o certo!
—Sua mãe é doida. —Ele sorriu.
—Ela previu isso e mandou dizer que você é um inútil! —E Dillan nem pra repreender esse menino.
—Vamos Michael, temos ainda que passar no seu avô. —Meu pequeno sobrinho concordou, me deu um abraço e vou pra perto do meu irmão.
—Bom, vamos deixar os pombinhos sozinhos né?! —Aí que vergonha!!
—Michael! —Ele gargalhou e saiu correndo.
Depois do longo silêncio incomodo que ficou no quarto com a voz do meu sobrinho dizendo aquelas barbaridades eu busquei assuntos pra discutir.
—Então.... As dezenove em ponto, okay? —Disse e um tanto sem graça concordou.
—As dezenove. —Engoli seco.
—Você quer ajuda quando tiver alta..? Sabe... Pra, ir pra casa... —Ela riu me olhando.
—Me ajudar? Você mais atrapalha do que ajud...
—Você quer ou não? —Perguntei sério e vi que ela engoliu seco.
—Quero. —Murmurou baixinho e eu sorri de lado.
Isso era um bom sinal, isso era um ótimo sinal.
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