Inn
6 Zack x Alex
Zack POV -
O ventilador de teto fazia menos barulho do que o velho relógio de pendulo da parede, pertenceu a minha avó, talvez algum dia valha um bom dinheiro. Hoje é uma terça feira. Terça feira no maldito centro da cidade, abandonado, poucas pessoas passavam por aqui nas terças, o melhor dia é no sábado.
O silêncio estava me incomodando. Eu passei as ultimas duas horas olhando para o moleque CDF da faculdade que limpava cada livro meticulosamente, calmo, sem dar um pio, usando a escada, ele é muito baixinho para a idade dele, não é não?! O cérebro deve torrar toda a comida que ele come.
Resolvi puxar conversa com meu novo funcionário, se eu pretendo dar uma volta por aí no meu turno tenho que trata-lo bem... aqui pelo menos, na faculdade já é outra coisa.
- Então. – ele quase cai da escadinha com livro e tudo. – Por que veio trabalhar aqui?!
- Preciso de uma renda.
- E por que aqui?! – por que onde eu estou?!
- Porque é de meio período. – passou para outro livro.
- Sempre morou aqui?!
- Não.
- Mudou-se recentemente?
- Foi.
- Por que?
- Porque a melhor universidade do país me aceitou e tem um grupo de pesquisa do qual quero muito participar.
- Hum, sobre o que?!
- Robótica. – que tédio infernal, pelo amor de deus alguém entre por essa porta! E que não seja meu pai.
- Ei, ei, ei... ta parando de trabalhar por que?! – ele me olhou retirando uma barra de cereal do bolso sentando na escadinha e abrindo o livro que antes limpava.
- Preciso comer de três em três horas, tenho hipoglicemia. – e ainda é um CDF doente! Ele começou a comer aquela barrinha e a ler o livro, estava bem concentrado naquilo.
Ele é estranho sabe, sei que também não tenho um dos visuais mais confiáveis do mundo não, mas ele... tem um cabelo preto meio armado que lembra um pouco um leãozinho, é diferente, usa uns óculos que destacam os olhos castanhos normais, é magro, baixo, parece que vai desmaiar a qualquer momento. Mas ele não me parece feliz, nem triste, nem raivoso... nada, é muito difícil saber o que se passa ali. E eu estou tentando ser simpático. Pelo menos é obediente, já deixei a loja com ele um dia inteiro enquanto saí com o pessoal, e todos os dias tem o horário do meu cochilo. E desde que o vi chegar aqui que ele não sorriu nenhuma vez.
Também, devo ser a última pessoa no mundo para quem ele ofereceria um sorriso.
- Ei, naquele dia que a gente te prendeu no armário. – ele nem sequer me olhou. – Como saiu?!
- Um rapaz que mora comigo que ajudou.
- O diretor nos chamou porque você tinha passado mal. – ele mordeu a barrinha de cereal.
- Eu precisava comer.
- Hum, mas não foi nada sério.
- Não.
- Ah. – é só frescura então.
- Mas já entrei em coma uma vez. – não é frescura. E como ele fala assim desse jeito, normal?!
Finalmente o sininho da porta da frente tocou e eu olhei diretamente para a porta.
- Boa tar... ah, são só vocês. – eu disse voltando ao meu eu de sempre, eu tenho que ser simpático com os clientes, mas é um saco. Eram só os caras.
- E aí, Zack... ora ora ora, o que temos aqui. – Von falou quando viu Cody sentado no banco terminando sua comida. Von é meio esquentado, pavio curto, mas é muito medroso, cede rápido à pressões, tem um visual meio punk, com cabelo descolorido, gosta de atormentar a vida de gente que nem o Cody. – Se não é o gêniosinho da faculdade. – ele foi se aproximando do pequeno e Cody meio que me olhou rápido.
- Ei, Von. – eu disse e ele me olhou prontamente. – Na loja não, sabe da política do velho.
- Arrasto ele para fora.
- Não. Aguente até amanhã de manhã.
- Tudo bem. – disse sorrindo amarelo e olhando o garoto de novo. – Amanhã a gente se vê, certo?! – Cody apenas o encarava, como sempre, sem demostrar medo, isso às vezes é ruim, ele vai se meter em muita confusão. Mas eu percebi que pelo menos o corpo dele reagia, ficava tenso e entrava em modo de defesa. Isso é bom, pelo menos.
- Viemos te dar uma péssima notícia cara. – J.J., J.J. é um careca gigante com um coração enorme, adora dinheiro, tem que sustentar três irmãs menores. Não gosta de implicar com gente como Cody, mas se isso significar dinheiro ele topa. J.J. me falou com uma expressão muito preocupada.
- Ah, é. – Von completou coçando a cabeça. – Mas primeiro, foi ao treino hoje?!
- Sim. Quase perdi minha língua. – eu e os caras fazemos judô. Isso é o que nos mantém naquela universidade mesmo depois de tudo, trazemos medalhas para eles, e eu sou o campeão com seis medalhas de ouro. Me desculpem, sou excelente no que faço. Eu tinha que aprender a brigar, preciso disso onde moro. Meu treinador é um carrasco, mas minhas vitórias são graças a ele. Mesmo ele sendo um sacana filho da mãe.
- Bom... vai participar do próximo torneio?!
- Sou o titular.
- Hum. – eu sei que Von tem um pouco de inveja de mim, mas ele tem que me derrotar primeiro se quiser passar na minha frente.
- O problema, Zack. – J.J. recomeçou. – Eles saíram da cadeia. – sabe aquele silencio mórbido, foi o que se formou.
- Já? – eu perguntei de volta.
- Já.
- Não vou poder pagá-los como antes.
- Acho que são eles quem vão dizer, amigo.
- Tira do salário do pivete. – Von falou, não tirou os olhos do Cody desde que chegou, mas ele vai ter que se aguentar, nada de implicar com os funcionários.
- Já recebe uma miséria, Von. – o informei. – Mas se for necessário, pode ter certeza que do meu não vai sair.
- Eles já passaram na rua paralela a essa, aqui é a próxima. – J.J. disse de novo. – Mandei até minhas irmãzinhas saírem da rua.
- Não é bom.
- Pois é. Não os vi, mas parece que têm um membro novo. Um cara bem pior...
- Justo agora. A loja não dá muito lucro.
- Só avisei para que o choque de vê-los não veja muito grande.
Não adiantou, os vi lá do outro lado da rua, os quarto. Esses quatro são uma gangue que dominava essa região a algum tempo, o líder deles é um pouco mais velho que eu e os outros dois são praticamente da minha idade. Eram seis, agora são quatro, o que é muito melhor, mas não são menos ameaçadores que antes. Eles trabalham para alguém mais poderoso, com quem ninguém deve mexer.
- Cody. – eu chamei o menino que já começara a limpar outro livro.
- Hum?!
- Vá contar o estoque.
- Contei ontem, tem quinhentos e...
- De novo.
- Mas não chegou nada novo e...
- Estou mandando, moleque, vai agora. – ele revirou os olhos e foi para um quartinho lá de trás. – Só saia daí quando eu chamar.
- Parece castigo.
- Tanto faz o que parece!
- Calma, Zack. – J.J. disse e o grupinho já estava na porta minha loja.O sininho tocou e aqueles quatro entraram com os sorrisos superiores. Pensar que eu já andei com esse cara uma época, mas quando começou a ficar esquisito eu pulei fora.
- Oi, Zack. Lembra da gente?! – ele é ruivo, tem uma tatuagem de um dragão negro nas costas, tem algumas cicatrizes no rosto, dobrou de tamanho na prisão.
- Lembro de você, Domy. – falei não muito simpático, mas nada ameaçador. Ele olhou para os dois caras a minha volta.
- Empregados?
- Amigos.
- Hum. Não preciso dizer o que vim fazer aqui, certo?!
- Não temos mais tanto lucro, Domy.
- É, eu enfrentei a mesma conversinha nas outras lojas. – ele olhou ao redor. – Não tinha um funcionário?!
- Se demitiu. O salário é uma droga.
- Hum. – sabe, uma coisa que veio junto com eles me assustou.
Eram Domy, e os gêmeos que sempre andavam com ele, não sei seus nomes, chamo de Grandão e Grandinho, são coisas que parecem armários, e agora estavam maiores depois da prisão, eles não falam muito, dizem que arrancaram suas línguas. Mentira.
Mas não foi isso que me chamou atenção. O quarto cara era novo, não me parecia ser são. Ele ficou olhando o local como se nunca tivesse visto algo parecido, além de parecer meio animalesco, mas era magrela, cheio de cicatrizes. Não usava blusa. Não era normal.
- Vou direto ao assunto. Queremos 200 todo mês.
- É quase metade do lucro.
- Mas você vai pagar. Antes você nos dava 500.
- Não vou.
- Pense, Zack, é para a sua segurança e do seu papai. E dessa loja falida. – ele tinha uma voz mansa, não precisava gritar muito, era aceitar ou aceitar. O cara esquisito começou a olhar os livros, cheirá-los e jogá-los no chão. — Hum?! – Domy olhou para trás e observou a cena, apenas deixou um risinho sair. – Esse é um amigo que fizemos na prisão, o apelidamos carinhosamente de Dogg. Ele não fala muito, já sofreu muita tortura então o juízo não é muito bom. Mas é muito bom de briga... mata como ninguém, Zack. – o cara começou a circular pela loja olhando tudo. Eu fiquei meio preocupado. — Não se preocupe, ele está sob controle. Obedece como um animal... Voltando ao assunto do dinheiro.
Esse Dogg começou a ir em direção ao estoque.
- Zack?! – J.J. me chamou a atenção e Domy já me olhava sem o sorriso.
- Estou tentando conversar com você. – o líder disse de novo. – Duzentos, começando hoje, meu chefe vai ficar muito satisfeito.
Eu ouvi a porta do estoque ser aberta. Esperei que algo acontecesse, mas não, aquela coisa esquisita, voltou normalmente, para onde estávamos.
- Duzentos.
- Finalmente entendeu. – peguei o dinheiro e entreguei a ele. Ele contou. – E mais uma coisa. Quer se juntar a nós?!
- Não.
- É uma ótima oportunidade de ganhar um dinheirinho a mais...
- Não.
- Pense bem, Zack, essa loja falida...
- Deem o fora da minha loja, já paguei.
Acho que Domy não gostou muito do que ouviu, mas apenas guardou o dinheiro e foi embora. Seguido daquela coisa estranha.
- Esse Dogg é estranho. – Von deduziu isso sozinho, muito bem!
E Cody?! Fui até o estoque e o local estava vazio. Escuro e cheio de poeira.
- Cody?! – perguntei ao escuro e ouvi alguém espirar umas cinco vezes. Só me falta ser asmático e alérgico! Que droga! – Já pode sair.
Ele saiu de baixo de umas caixas, meio sujo. Me olhou com um pouco de medo e confuso.
- O que era aquilo?! – me perguntou.
- Uma pessoa que passou por muita coisa.
- Era assustador.
- Era. Anda. – pus ele para fora, é arriscado ele ficar doente, e não pode me deixar com todo o serviço sozinho. Não vou fazer faxina.
- O rato de biblioteca sabe se esconder. – Von falou quando eu e Cody aparecemos.
- Sei, como acha que consegui sobreviver a gente que nem vocês esse tempo todo. – ele respondeu com a maior calma do mundo. Não fala muito não, mas quando é para arranjar problema, tem uma língua gigante.- Você é um pivete muito atrevido.
- Amanhã vocês se acertam, Von. Meu velho não vai gostar nada dessa volta deles. – comentei empurrando o menino pro serviço.
- E quem vai, Zack? – J.J. começou. – As brigas vão voltar para o bairro.
- É.
- Viemos só avisá-lo, meio em cima da hora, mas melhor que nada.
- Valeu.
Eles se despediram e o tédio voltou de novo, talvez com menos intensidade, agora tenho essa preocupação. Esse problema precisa de reflexão.
- Cody. – disse a ele.
- Sim.
- Vou tirar um cochilo, cuide da loja. – ele só concordou com a cabeça. – Não se preocupe, eles não voltam em um mês. – concordou de novo. – E depois limpe o balcão, está meio empoeirado.
- Ta.
Ah, é para isso que serve um funcionário obediente! Léo não fazia nem metade das coisas que eu pedia. Faz poucos dias que Cody chegou aqui, mas ele já sabe que esse horário é o horário da minha soneca.
- Se precisar de mim a casa é aqui em cima. Mas não me incomode, certo?! Não vai gostar de me acordar.
- Tá. Ah!
- O que?!
- São 597 livros no estoque.
Não sei se ele entendeu que eu não o mandei para lá exatamente por isso.
- Tanto faz.
Alex POV –
Estavam apenas o reitor, Abel e seu pai e eu. O pai do Abel é um homem de negócios, dono de uma das maiores empresas da cidade, havia chegado atrasado com toda pompa de gente rica que se acha ao máximo.
Mas valeu a pena ver a decepção dele quando percebeu que não estava atrasado o suficiente, meu responsável está, nesse exato momento, quarenta e cinco minutos atrasado, o pai do Abel estava a mil, já me mandara ligar para Luther umas quinze vezes, mas recusei porque só vou perder tempo.
Luther vai aparecer se quiser e quando quiser.
Era perceptível a preocupação do reitor, não sei quantas vezes olhei aquele relógio, só queria que eles terminassem logo com isso para eu poder ir embora.
Para minha surpresa a porta abriu e Luther entrou no recinto recebendo todas as reclamações possíveis e imagináveis do pai do Abel. Sentou ao meu lado sério e com um pouco de tédio.
- Como vai senhor Ray?! – o reitor disse com um sorriso amarelo.
- Ocupado. – Luther falou em um tom baixo e arrancando um sorrisinho do empresário presente.
- Ocupado?! Você?! E eu?! Acha que tenho tempo para vir resolver os problemas que esse menino apronta?! Vamos logo com isso.
- Alex não brigou sozinho. – ele comentou com aquela voz de tédio e observando meu lábio cortado.
- Bom... é... aparentemente, os dois tem tido diversas desavenças recentemente. – enquanto o reitor falava Luther olhava o curativo feito no nariz do rapaz ao lado dele.
- Você quebrou o nariz dele?! – me perguntou como se o reitor não estivesse nem ali. Provavelmente me parabenizaria e diria "faria o mesmo."
- Não, só sangrou e ficou inchado. – respondi normalmente.
- Quero saber qual é o problema! – o reitor disse nos interrompendo.
- Pergunte para ele. – eu disse a apontei para o garoto chorão do lado do Luther. – Eu só me defendi.
- Reitor, não tenho a noite toda para ficar conversando sobre um caso que já está resolvido. – o pai do Abel disse olhando o celular, seu filho estava mais preocupado em manter o curativo no lugar.
- Ah... sim. Então senhor Ray, Alex vem causando muitos problemas e, bem, já recebeu várias advertências... talvez tenhamos que expulsa-lo. – não gostava daqui mesmo.
- ‘Talvez’ não. Ele será expulso. – o homem disse com autoridade.
- Não entendi. – Luther disse se ajeitando na cadeira e fazendo o reitor recuar, das vezes que Luther precisou vir aqui, e das vezes que compareceu, vale ressaltar, ele quase fez o nosso diretor chorar.
- É... porque Alex... aqui está a prova, ele quase quebrou o nariz do menino.
- Porque ele vem me enchendo desde que entrei aqui! Ele e os amigos dele, falam de mim, dos meus pais e o senhor é muito bunda mole para fazer alguma coisa. – o que?! Eu o chamei de ‘senhor’ já é muito respeito.
- Qual o seu problema com o Alex?! – o reitor disse todo derretido ao garoto riquinho.
- É aquele garoto de quem falei, pai. – Abel falou com aquela voz anasalada. O homem me encarou com aquele sorrisinho superior e me olhou de cima a baixo.
- Ah, o prostituto. – como é?!
Juro que nunca vi Luther levantar tão rápido e fechar seu punho na blusa do homem assustado como ele fez agora.
- Repita. – ele disse bem sério ao pai do Abel, Abel ficou apenas petrificado.
- Meu filho contou que você achou esse menino na rua e que você o banca em troca de certos favores... É verdade? Que tipo de escola é essa que aceita esse tipo de gente?!
- Seu filho anda muito interessado na nossa vida... não está muito interessado rapaz?!
Abel levantou todo estabanado.
- O que está insinuando?! – o pai perguntou indignado. – Que meu filho é da laia de vocês?!
- Você quem está dizendo.
- SENHORES! Senhores, vamos acalmar os ânimos, tudo bem?! – o reitor disse tentando se meter entre os dois. – Não aconteceu nada... vamos resolver isso como pessoas civilizadas.
- Não sei se você está surdo, mas ele faltou com o respeito em relação ao Alex, reitor. – Luther comentou e o homem ficou sem saber o que fazer.
- Muito bem. – o reitor estava todo estabanado, coitado. – Não vou expulsar ninguém, mas vou promover alguns encontros entre os dois para que comecem a se entender. Sempre sobre o olhar atento de alguém para ajuda-los nesse assunto. Agora, senhores responsáveis, por favor, comportem-se.
- Luther. – eu continuei desejando que ele parasse com aquilo, já estava bom. E aquele homem não é do tipo que suja suas mãos, suja de outros, e nem deixa nada barato. Ele o soltou meio vacilante.
- Essa escola está mesmo caindo no meu conceito. Vamos, Abel. – o homem disse, recompondo a pompa e saindo da sala acompanhado do filho, que ainda se acostumava aos curativos.
- Abel. — Luther falou ao garoto que o encarou meio vacilante. — Não aguento mais ouvir seu nome da boca do Alex. Próxima vez, quem quebra seu nariz sou eu. — o pai dele não ouviu, já estava lá fora, Abel apenas o ignorou e saiu da sala. — Não é você que fica sendo amolado depois. — eu não amolo ninguém! Só conto o que acontece comigo, e eu achava que ele nem escutava!
- Quero conversar com do senhor. – o reitor disse puxando uns formulários. – Aqui está o recibo do pagamento do colégio. Mas não está no seu nome, acho que esqueceu de assinar ou algo do tipo. – Luther recebeu o formulário e analisou as parcelas, mas o que deixou transparecer foi uma certa dúvida. – Está tudo pago, vou mandar imprimir o recibo em seu nome.
- Claro. – Luther respondeu olhando os outros recibos e devolvendo a pasta. – Só mais uma coisa. – o diretor nos olhou bem satisfeito após encarar os números da prancheta. – Que essa seja a ultima vez que Alex aparece machucado em casa por incompetência sua. Não quero saber se o filhinho de papai ali foi o responsável ou não. Entendeu?!
- Senhor, entenda minha situação, ele é um homem poderoso, nunca iria espulsar o garoto Alex... — claro que não, Luther paga uma fortuna aqui.
- Se o que aconteceu se repetir... você vai conhecer gente com muito poder e lhe garanto que não é do tipo desse cara que você considera poderoso.
- Sim, senhor. – acho que esse reitor nunca desejou tanto que esse ano acabasse.
Saímos e Luther ia mais a frente no corredor. Ele parecia bem aborrecido agora. Eu fico feliz quando ele me defende assim, sinto que ele se importa comigo, mesmo ainda desconfiando de mim! Ele acha que eu vou cabular o colégio?! Eu assumi um compromisso e eu cumpro meus compromissos.
- Não precisava ter pago logo o colégio até o fim do ano, Luther. Eu ia terminar os estudos, que coisa! Eu disse que ia estudar, não desisto no meio do caminho... – ele parou bruscamente no meio do corredor e me encarou com um sorriso misturando o aborrecimento e sua personalidade sarcástica.
- Esse é o problema. Eu não paguei. – ele virou-se e recomeçou a andar. – Não fui eu.
- Como assim?!
- Não fui eu quem pagou o seu colégio.
- Quem foi?!
- Esperava que você me dissesse.
- O que está insinuando?!
- Nada, só quero que me diga quem foi.
- Eu não sei!
- Não tem outra pessoa que por acaso pague as coisas para você?!
- Luther. – ele virou para mim e eu dei um belo soco no rosto dele. Me olhou indignado.
- O que há de errado com você?!
- Não sou um puto, Luther, ao contrário do que vocês pensam.
Ah, me poupe! Nunca pedi para ele pagar nada para mim, ele que começou com essa história, no início só aceitei porque era uma forma de ficar perto dele. Era uma desculpa para vê-lo. Comecei a seguir o caminho à frente dele, ele começou a me seguir logo em seguida. Em silêncio. Não deu mais um pio.
Chegamos ao portão do colégio ele foi para um lado e eu para o outro.
- Alex, eu te levo. – ele disse todo relutante.
- Não, valeu.
- Deixa de bobagem. Anda.
- Não vou. Segundo reto nessa rua tem a gente que você procura, é só dar cem pratas.
- Não quis dizer isso. – ele suspirou algumas vezes e tentou se acalmar, ele perde o controle meio rápido. Lá vem meu ônibus.
- Se não foi você quem pagou, eu não sei quem foi. Pode ser um engano. – eu comecei a subir no meu Mercedes com motorista, ainda bem que não estava lotado.
Mas ele me tirou à força do coletivo e colocou dentro do carro, acho que para o motorista isso era normal, porque o condutor nem ligou, e não importava o quanto eu protestasse ou me estrebuchasse.
Ele não pode, simplesmente, pedir desculpas?! Eu não dei um pio e muito menos ele.
Sabe, no dia que eu conheci o Luther, nunca senti algo tão forte por alguém, acho que é por isso que eu persisto com ele até hoje. Eu tive uns avós que cuidaram de mim, até meus catorze anos, depois eles decidiram viver a vida e me deixaram na pensão, mandavam dinheiro para mim, Andrei me ajudava a controlar as despesas, mas esse dinheiro parou de chegar depois de um tempo.
Eu tinha um grupo meio barra pesada e eu me sentia um pouco só, à noite a gente saía para pichar os muros, mas quando a polícia aparecia era cada um por si. Foi numa dessas que eu conheci o Luther.
Eram umas duas da manhã, estávamos próximos ao centro pichando um muro novíssimo.
Eu estava sozinho, em uma parte completamente limpa. Eu simplesmente risquei algo bem abstrato e fiquei observando de dentro do meu casaco que eu sempre usava para dificultar o reconhecimento.
De repente alguém roubou o meu spray e ficou ao meu lado, ele era alto e ficou observando o que eu tinha riscado. Fiquei sem saber se fugia ou se ficava ali.
- Quer comer alguma coisa?! – Luther me perguntou depois desse tempo de silêncio dentro do carro, mas eu me recusei a responde-lo.
Eu lembro que eu fiquei feito bobo olhando o Luther naquela época. Ele era perfeito. Percebi que ele estava um pouco bêbado, mas hoje eu sei que mesmo bêbado ele tem consciência da maioria das coisas que faz. Ele me disse:
- Se vai sujar o muro dos outros, faça pelo menos algo bonito. – e começou a puxar um desenho da pintura abstrata que eu tinha feito. Ele passou uns quinze minutos naquilo, mas o resultado foi magnífico, era uma obra de arte naquele muro.
- É bonito. – foi a única coisa que eu consegui balbuciar.
Depois os caras começaram a gritar, avisando da polícia. Eu e ele corremos pelos labirintos de prédios antigos do centro da cidade, me perguntava como ele, vestido todo de Armani, ainda não tinha sido assaltado por aqui, conseguimos despistar dois policiais.
Terminamos rindo um da cara do outro. Ele tocou meu rosto em meio à um beco apertado e me encarou nos olhos, lembro que eu fiquei petrificado. Depois ele falou alguma coisa, bem baixo, mas eu daria tudo para escutar o que ele havia dito naquele dia, e lá foi nosso primeiro beijo. E depois disso, foi minha primeira noite com alguém, ele me levou para a casa dele.
No outro dia foi hilário, ele achava que eu era de maior e eu conhecei um outro Luther muito mais imaturo, muito mais difícil, com um gênio complicado.
- Quase dezessete?! Como assim?! – ele me perguntou com sintomas de ressaca.
- É... e você?!
- Tenho 28... achei que você tivesse uns vinte. Que inferno.
- Tudo bem. Devo ter essa mentalidade mesmo. – na época, eu já tinha que me virar sozinho mesmo.
Ele me expulsou depois disso, voltei algumas vezes e ele não queria me ver, me ignorava. Aí comecei a frequentar os lugares que ele ia e o fiz me notar de novo, exatamente no dia do meu aniversário.
Descobri que ele nunca repetia uma noitada, mas comigo ele repetiu. Descobri que ele não deixava nenhum dos casos dele se meter em as vida, eu faço isso e ele reclama pouco.
Mesmo que eu ainda não consiga tê-lo só para mim, acho que um dia vou conseguir. Chegamos à frente da pensão e eu me preparei para sair.
- Desculpe, Alex.
E Luther nunca, nunca pede desculpas a ninguém.
-Que não se repita. – mas ele pede para mim. Claro que ele fica todo irritado feito menino mimado. – Estou com fome agora.
- Retirei meu convite. – cheio de birra. – Saia logo para que eu possa ir embora.
- Tudo bem. – eu lhe dei um beijo na bochecha. Mas ele capturou minha boca, com muita sede, sede essa que me deixou sem ar, meio ofegante. Até alguém bater nada delicado no vidro do carro.
Era Edgar, com o olhar assassino que sempre lançava à Luther, o qual sempre fazia questão de provoca-lo.
- Boa noite, senhor. – Edgar não lhe respondeu.
- Vai entrar, Alex? – ele me perguntou ignorando totalmente o homem ao meu lado.
- Vamos jantar, Edgar. – vamos?! – A propósito. Está pagando o colégio do Alex?! – Edgar fez uma cara de quem não entendera a pergunta. – É, sabia que não, não sei como mantém essa pensão.
- Escute aqui, seu pedófilo petulante... – Luther subiu o vidro do carro.
- Você quer ir jantar?! – me perguntou ignorando Edgar que gritava lá fora.
- Pizza.
- Certo. — mas ele fez uma cara feia depois. — Mas vamos ter que comer em casa, lembrei que deixei Max me esperando lá. – ele finalmente olhou para Edgar bufando lá fora. Não faz um pouco mais de uma hora que ele saiu de casa?! Pobre Max. – Não se preocupe, ele vem dormir em casa.
Se um dia eu conseguir dormir lá, será esse dia, eu tenho certeza, que ele vai ter finalmente se rendido a mim. Mas, eu tenho dúvidas se ter um compromisso comigo será melhor do que a vida cheia de liberdades que ele leva.
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