Inn
5 Téo Moroy x Seth Golden
O fim das aulas chegou e aqui vou eu na minha rotina. Vejo todos indo embora com seus grupinhos e amigos, eu não tenho facilidade de fazer amigos, o único que eu tinha viajou para um intercambio de três anos.
E essa não é a escola mais sociável do mundo. É cheio de grupinhos fofoqueiros e bobos. Eu realmente sou invisível aqui. Tem uma parte boa e uma parte ruim... eu não gosto de chamar muita atenção, então isso é bom, mas por outro lado, com o tempo, você começa a se sentir um pouco só.
Por isso não ando sem o meu videogame portátil!Não tenho irmãos mais velhos nem mais novos, só tenho um primo que é como um irmão mais velho para mim.... quer dizer, não é não, ele é a pessoa de quem eu gosto. Ele é atencioso e gentil comigo e sempre está pronto para me ajudar, foi ele quem me incentivou a sair de casa ano passado. Estava muito ruim para mim naquela época. Ele me dá carona de ida e de volta, a universidade na qual ele estuda é aqui perto.
Bom, desci as escadas e segui meu caminho até o portão. As pessoas esbarram em mim... não é possível que não me vejam aqui do lado!
- E PAREM DE ME ENXER A PACIÊNCIA! – Alex? Eu meio que dei a volta no prédio, ninguém mais me acompanhou. Eles estavam na lateral do prédio escolar, o Alex e mais três caras, tinha um grupinho de estudantes assistindo a cena também.
A boca do Alex sangrava, a roupa estava toda suja e amarrotada e ele, aparentemente, tinha acertado o nariz de um garoto soluçando no chão. Os outros dois partiram para cima dele e os desocupados ao redor estimulavam a briga cada vez mais. Devo me meter?! Comecei a furar a pequena multidão.
- Que reunião é essa aqui?! – um dos fiscais do colégio apareceu bem descontente com a situação. Observou bem a cena e o garoto no chão começou a reclamar, apontar, chorar e acusar o Alex de alguma coisa, estava com uma voz anasalada e abafada. – Vão para casa. – ele disse para a multidão que começou a se dispersar, eu fiquei até o final. – E os quatro... vão para a sala do diretor, vou ligar para os responsáveis de vocês. – ele disse diretamente a Alex que fez uma cara horrível.
Começaram a caminhar e Alex finalmente me viu, sorriu um pouco e colocou a mão suja na minha farda.
- Avisa para o Andrei que eu vou demorar para voltar hoje... provavelmente, e que ele não precisa se preocupar.
- O que houve ai?!
- Só uns idiotas que não sabem com quem se metem. – ele disse todo convencido. – Bem, vou indo. Ainda tenho que me preparar psicologicamente... – e começou a sair balbuciando alguma coisa.- Mas... tá. – ele já tinha ido.
O sol já tinha ido embora, só aquela mancha vermelha continuava no céu. Eu fui esperar meu primo na frente do colégio. Alex sempre foi assim, meio elétrico, não leva desaforo para casa, ele resolve mesmo nem que seja na surra. Acho que fala com todo mundo desse colégio, tem um namorado e não se importa que saibam, parece que nem ele nem o namorado se importam. Está sempre sorrindo e parece que nada baixa aquela autoestima.
Deve ser legal ser ele.
Logo o carro importado negro parou na frente do colégio e eu entrei rapidinho tentando não chamar muita atenção. Ace estava lendo alguma coisa com uma expressão de preocupação, mas quando eu entrei aquele sorriso que eu adoro se desenhou em seu rosto, não é nada de muito especial é só um meio sorriso, mas eu me sinto especial, não é do Ace sorrir muito para as pessoas.
- Boa tarde, Téo. – ele disse me dando atenção.
- Boa tarde, parece cansado.
- Um pouco, e como foi seu dia.
- Ah, muito divertido... amanhã teremos a visita de ex-alunos, sabe, todo ano eles fazem para provar como o colégio é bom etc, etc...
- Hum. E já decidiu a faculdade?!
- Não...
- Música?!
- Não comece você também, Ace! – eu meio que fui grosso, mas ele pareceu não se importar, mas eu me importo, é a ultima pessoa do mundo que eu quero machucar. – Desculpe...
- Não, tudo bem, é só que sua mãe não para de me ligar perguntando sobre você...
- Diga que estou bem.
- Quando vai voltar para casa, Téo?!
- Não sei... mas, você também concordou que eu saísse de lá!
- Eu sei, eu sei, mas era para você descansar um pouco a mente... faz um ano?! E até hoje você não me convenceu que aquela pensão está a sua altura.
- É um ótimo lugar, e todos são boas pessoas.
- É o que você sempre me diz.
- É o que você sempre pergunta. – ele riu um pouco e eu senti sua mão na minha cabeça, deslizou um pouco para perto da minha bochecha como de costume.
- Apoio o que você decidir.
- Uhum... – eu ficava nervoso, meu rosto já corava e esquentava.
- E o que mais?
- Alex se meteu em uma briga.
- Quem é Alex?!
- Aquele garoto que damos carona de vez em quando.
- Hum... – por algum motivo, Ace não gostava muito de Alex. – Cuidado com essas amizades.
- Ele é uma boa pessoa. – observei que uma blusa suja estava em cima do banco ao meu lado, acho que ele percebeu que eu a olhava.
- Sujou de vinho. – ahhh, é daí que vem esse cheiro de vinho.
- Parece que você tomou um banho de vinho.
- Acho que essa foi a intenção dele.
- Hum?!
- Nada e chegamos.
Estávamos a alguns metros da pensão. Desci do carro e me despedi, era só até o dia seguinte. Eram as melhores partes do dia, quando eu ia e voltava do colégio. Também não falo muito com as pessoas da pensão. Ainda não conversei com o novato que chegou, parece ser tão calado como eu, mas ao contrario de mim, é um gênio.
Subi em direção aos quartos, o meu ficava ao lado do de Eros, sempre que eu passo por aqui a porta dele está meio aberta e já tive a sorte de vê-lo se trocar... não sou pervertido! É só que estava ali, para todo mundo ver. Mas Eros está muito além das minhas expectativas e eu amo meu primo.
Meu quarto é simples, extremamente bagunçado, as únicas coisas organizadas são graças as mãos do Andrei. Eu gosto de videogames, de quadrinhos... meu quarto é lotado dessas coisas, pôsteres. Eu realmente gosto desse lugar, é do tamanho certo, nem grande, nem pequeno.
Mas as vezes eu queria que as coisas mudassem um pouco. É meio chato toda vida que olho no espelho eu tenho vontade de mudar, parece que cansei de ter sempre esse rosto, de usar sempre as mesmas roupas. Queria saber se eu ia gostar de mudar, se me faria bem. Mas eu não sei po ronde começar, nem tenho a quem pedir essa ajuda, não sou próximo de ninguém. Só do Ace. E ele seria umas das pessoas que eu gostaria de impressionar quando mudar. Mas acho que vou ter que esperar.
No dia seguinte, era o tal encontro dos alunos veteranos bem sucedidos do colégio, ou vocês acham que os fracassados foram convidados?! Era no salão principal, é imenso e bem decorado, inspirado nos palácios, mas sem muita pompa. Enfim, era aquele bando de pessoas extremamente bem sucedidas, alguns com empresas que já geravam uma boa renda, vinham para ajudar os alunos a escolherem seus futuros.
Várias pessoas famosas.
Mas o senhor tocando piano, me chamava mais atenção, só a mim porque todo o resto estava mais interessado em outras coisas espalhadas pelo salão. Eu tomava um pouco de refrigerante e decidi conversar com o pianista.
- Também estudou aqui? – perguntei a ele, depois de estar parado perto dele uns dez minutos, não sou muito bom em iniciar diálogos. Timidez.
- Hum... ah, não, filho, se eu tivesse o dinheiro que vocês empregam aqui... – ele disse de um jeito meio sonhador. – Mas eu sou um pianista bem sucedido.
- Uhum.
Ouvi alguém gritar com muita raiva de dentro de uma das salas que tinham acesso a esse salão. Eu sou meio curioso e alguém podia estar precisando de ajuda, então fui até lá. Um rapaz de longos cabelos loiros, olhos amendoados, vestido totalmente com marcas famosas de um jeito bem despojado, com alguns piercings e uma cara estressada, estava gritando com o celular. Tenho certeza que já o vi em algum lugar.
- Inferno... inferno, malditos celulares!!! – ele virou-se e me viu. – Você! – ele disse apontando para mim. – Sabe como faço essa merda funcionar?! – disse me entregando o celular e se eu quisesse que segurasse porque por muito pouco não ia ao chão.
- Qual o problema?
- Ele não quer fazer a principal coisa que era para ele fazer. Me contatar com o meu agente. Mas e você quiser que ele entre na internet, filme, bata foto ou faça café, é só apertar o botão. Só quero a droga de uma ligação! – ele meio que chutou a cadeira.
- Pronto. – eu disse a ele antes que ele quebrasse todo o lugar.
- Alô?! Max, não foi minha culpa, foi a droga do celular que você me arranjou... ainda estou aqui. Mas... eu... e... não... – eu comecei a sair de fininho, mas ele com apenas um gesto fez com que eu parasse ali onde estava. Ele deve estar acostumado a dar ordens. – Só quinze minutos. – e desligou o celular. Coçou a cabeça e me olhou. – Como se chama?
- Téo Moroy. – não gostava muito do jeito dele, me parecia meio “diva”.
- Então, Moron...
- Moroy.- Isso. Como posso retribuir o favor?!
- Você fica me devendo.
- Que tal uma foto.
- Por que eu ia querer uma foto sua? – ele me encarou em silencio por um tempo e abriu os braços referindo-se a sua própria pessoa.
- Não sabe quem eu sou?
- Deveria? – ai meu deus, ele deve ser um desses multimilionários como meu tio. Acabei de desgraçar o nome da escola.
- Acho que sim. – ele disse massageando as têmporas e realmente em um tom de pouca importância. Ele veio até mim e parou na porta. Respirou fundo e me olhou de novo. – Então, Moron...
- Moroy!
- Tem muitas garotas aí?! – disse pontando para o salão com o polegar.
- Agora que você falou, hoje tem mais do que o normal.
- Ótimo. – ele disse fazendo uma cara horrível. – Bom, vou indo, estou te devendo. – me disse sorrindo bem menos diva que antes, até charmoso.
- Tudo bem.
- Pode abrir a porta para mim?
- Você tem duas mãos, faça você mesmo.
- Você é bem difícil. – respirou fundo de novo. E começou a empurrar a porta.
- Quem é você de qualquer forma?
- Já vai descobrir. – me sorriu de novo e piscou o olho para mim atravessando finalmente a porta.
Tudo ficou em silencio um tempo. As pessoas olharam aquela figura meio punk Calvin Klein, o tipo que a minha mãe abomina.
- É... é... – uma menina disse.
- E aí?! – essa foi a frase genial do rapaz.
O que se sucederam foram gritos e investidas em cima do rapaz loiro, tanto das moças como dos rapazes. Vários papéis eram colocados na cara dele e ele parecia dar autógrafos. Ele é uma celebridade ou algo assim?! Eu sabia que já o tinha visto em algum lugar!
- Senhores aqui presentes. – depois de uns dez minutos, a celebridade conseguiu subir ao palco sem muitos danos e o reitor subiu todo pomposo para anunciá-lo. – Este ao meu lado é Seth Golden! O nosso rapaz realmente de ouro! – eu vi o sorriso sem graça no rosto do rapaz pela piadinha do reitor e pelos tapinhas fortes em suas costas. Continuo sem saber quem é esse cara. – Ele vai nos contar sua trajetória desde que saiu do nosso colégio.
Vários gritos encheram o salão e algumas garotas até ensaiaram um desmaio. Está sendo bem mais divertido do que ficar em casa.- Então. Nunca fui bom aluno. – começou bem. – Mas talvez porque isso tudo, que interessa a vocês, empresários e futuros empresários, não me interessasse, as matérias não me interessavam. Eu não queria ser empresário. Na verdade não esperava muito de mim, eu era e sou muito desleixado. Mas encontrei algo que gosto de fazer, várias coisas na verdade. Hoje sou o modelo mais caro do país. Mas foi tudo meio inconsciente...
- E é o 1º lugar dos dez famosos mais quentes da revista Joven Teen! – uma das garotas gritou lá perto do palco.
- Graças a garotas como você! – ele disse piscando para ela. – Então, ah, sim, como o colégio me ajudou... bom, descobri que não queria seguir nenhuma das profissões as quais queriam me guiar aqui. Alias, achava que você me odiava, reitor. – ele disse arrancando uns risinhos. – Acho que é isso.
As garotas gritaram de novo e ele começou a descer do palco. Eu estava do lado oposto ao dele, bem próximo a porta de saída do salão, quando um homem moreno, de terno, meio sem fôlego entrou correndo.
- Cheguei atrasado?! Ele já falou?! – me perguntou já que eu era a única pessoa ali perto dele.
- Já. – parecia que ele ia chorar depois que eu disse isso.
- Foi muito ruim?!
- Acho que o reitor vai pensar duas vezes antes de chama-lo novamente. – o homem bateu na própria cabeça.
- Eu sabia que ia acontecer. O que vai ser quando crescer?! – ano que vem, você quer dizer, já vou pra universidade.
- Não sei.
- Não seja agente. Não vale a pena, você vai morrer cedo por causa dos seus nervos. – ele disse no início a mim depois saiu falando indo em direção ao reitor. – Um maldito pintor que não obedece os prazos, um maldito adolescente sem noção que é o modelo número um... me tragam algo pior! – deve ser o agente dele.
- Ei. – uma menina me deu um papelzinho enrolado e ficou me encarando. Eu ainda estava admirado com aquela colmeia de gente em cima dele. Coitado, não deve estar conseguindo respirar, e cego, com tanto flash.
Ele é bem popular, parece saber lidar com as pessoas... ele poderia me ajudar. Eu acho que ele poderia me ajudar a mudar já que me deve uma!
“ Me ajuda a sair daqui. S.”
Era o que tinha escrito no papel. Como eu vou ajudar esse cara a sair daqui?! Peguei uma vela vermelha que tinha por ali e risquei com a parafina o papel.
“Corra e me siga.”
Entreguei a menina. Eu fiquei na porta esperando por ele. O pagamento da garota parecia ser um beijo na bochecha. Ele me encarou e eu contei até três nos dedos para que ele visse. No três ele saiu correndo na minha direção.
Eu fui à frente, uns três metros a frente. Corremos pelos corredores com aquelas sirenes de gritos atrás de nós, agora eu estava com medo, o que fariam aquelas meninas comigo quando soubessem que eu ajudei o amor da vida delas a sumir!
Entramos na porta do armário de mesa e banho do colégio tinha um espacinho, nos sentamos lá no chão e aquela multidão passou por nós.
- Obrigado. – ele disse ofegante igual a mim.
- Por nada. – ele admirou o local a sua volta e depois me olhou.
- Onde estamos?
- Diria que em um armário.
- Um bem apertado.
- Não é um quarto é um armário. Não precisa ser espaçoso.
- Então, você me trouxe para esse lugar escuro e apertado só para me ajudar ou tem segundas intenções?! – me lançou aquele olhar galanteador.
- Na verdade. – eu comecei e o sorrisinho dele aumentou. – Quero cobrar o favor que me deve.
- E como seria?
- Quero que me ajude a mudar.
- Hum?!
- Não tenho muitos amigos, as pessoas não sabem que eu existo, eu quero mudar isso.
- Hum... tem alguém em especial que você quer que te note? – como ele sabe?!
- Tem... como você...
- Porque se você não muda por você mesmo, você muda por alguém, e você não me parece tão infeliz consigo mesmo. – mas eu estou!
- Vai me ajudar?
- Bom...
- Você esta me devendo duas!
- Mas com isso quito minha dívida.
- Feito. – apertamos as mãos e ele voltou a encostar-se na parede.
- Então, essa pessoa é um garoto ou uma garota.
- Isso importa?!
- Não, sou curioso na verdade.
A gente ficou conversando até o agente dele aparecer, não era muito difícil conversar com ele porque ele sabia que assuntos puxar e como tornar o papo promissor.
Nunca vi alguém levar uma bronca tão grande quando o agente dele nos encontrou. Parece que o reitor mostrou toda a sua insatisfação para o responsável pelo modelo. A gente se despediu e ele me pediu que eu fosse no fim de seu desfile, que seria à noite, até o seu camarim, para que pudéssemos começar. Eu só concordei.
- Ah! – ele disse andando de costas. – Vamos fazer um pequeno exercício, ok?!
- Uhum.
- Hoje, quando voltar para casa, você vai fazer algo que nunca fez antes. Entendeu?!
- Vou tentar.
- Não, você vai fazer.
- Vou fazer.
- Isso. – ele disse sorrindo sincero enquanto seu agente praticamente o chutava para fora.
O que eu poderia fazer?!
Voltei com Ace, como sempre, mas ele estava ocupado com coisas da empresa, então eu resolvi tentar por o que o Seth disse em prática.
Vou conversar com o motorista. Mas o vidro que dá a parte da frente do carro esta fechado. Então eu simplesmente olhei pela janela, era algo que eu não fazia, já que eu aproveitava cada minuto que tinha com Ace.
Ah, bem, Seth estava em praticamente em todos os lugares para onde eu olhava. Em um outdoor, em cartazes nos muros e até em um prédio!
- Tá brincando... – eu disse baixo, como nunca vi isso?! Credo, como sou antisocial! Onde eu estava todo esse tempo.
- O que? – Ace me perguntou sem tirar os olhos de seu tablet.
- Nada. – me perguntei se eu ia conseguir me aproximar dele hoje a noite. Onde os seguranças dele estavam hoje de manhã?!
De repente eu passei o resto do dia nervoso, ele realmente era alguém importante e eu não sabia, acho que fui até meio petulante.
Quando chegou o horário combinado pensei em desistir, aquilo era loucura, mas ali estava o espelho de frente para mim. E essa era minha chance. Saí silenciosamente, não que importasse, ninguém nota muito a minha presença, mas quando a gente faz algo suspeito, geralmente algo dá errado.
- Boa noite.
- AH! – tomei um susto, aquela criança gênio que mora aqui agora estava do outro lado da porta assim que abri. – B-boa noite. – ele entrou, batia acima do meu ombro, não é tão baixinho como aparenta. – Não conte a ninguém que saí.
- Ok. – ele disse deixando a bolsa cair e eu finalmente saí.
Ah, bem. Quando cheguei do outro lado da cidade, praticamente, estava acontecendo um evento de moda que me parecia bem importante, várias limusines faziam filas na frente do prédio e eu me perguntava se deveria ter me arrumado melhor, era um dos lugares mais caros da cidade, mas eu nem lembrei disso quando saí.
Fui pelos fundos como ele me recomendou e encontrei um armário imóvel, quase da largura da porta.
- Oi... – eu disse a ele. Por que os óculos escuros à noite, não dificulta ver?!
-...
- Vim falar com Seth.
-...
- Sou amigo dele.
-...
- Posso entrar?!
-...
- Escuta tá frio aqui e...
- Fora.
- Tá. – eu dei uns dois passos para trás e me encostei no muro. Esperei um pouco e voltei a falar. – Ele me convidou. Pode perguntar a ele? – nenhuma resposta. – Mas que droga, moço! Ele me deve!
- Ah, você é o garoto. Achei que fosse mais... – ele me olhou com um desdém visível. – Enfim. Entre. – disse abrindo a porta.
Assim que entrei eu vi um corredor com vários modelos, pessoal da staff, fantasias, convidados e essas coisas, mas tudo meio num clima de boate, tocava um Techno e rolavam umas bebidas e luzes. E drogas. O que eu estou fazendo aqui, quando me virei para voltar o segurança fechara a porta. Se eu parar para pensar... sou um burro inconsequente.
Me virei para encarar o corredor, com a minha sorte, ninguém me notaria, não é um bom dia para isso falhar.
Vi um casal no canto da parede. Eles estão... minha nossa. Quando eu virei, vi escrito numa porta “S. Golden.” Por favor que seja aqui. Eu entrei, lá estava tão tranquilo, tão silencioso, tão organizado, tão iluminado.
- Seth? – eu perguntei ao nada.
- O que é?! – aquela voz grossa veio de uma portinha a minha esquerda.
Ele apareceu só de cueca e com uma toalha sobre os ombros, foi meio que instintivo eu coloquei uma de minhas mãos sobre os olhos.
- Isso são modos de tratar um convidado?!
- O que está fazendo?!
- O que? – vi seus pés se aproximarem de mim. Ele tirou a minha mão do rosto, aqueles olhos castanhos me fitaram intensamente, acho que fiquei meio sem jeito. – Desculpe, eu não sabia que estava se vestindo.
- Hum... não me importo. – ele disse dando a volta e me olhando confuso. – Não gostou do que viu?!
- Não... digo, sim... eu quero dizer... ai nossa. – na verdade ele era muito bonito sim, como um modelo deve ser, bem trabalhado e tudo mais, muito muito chamativo, ele tinha aprendido aquele truque de enfeitiçar as pessoas com o charme, tenho certeza.
- Você é bem articulado... não está acostumado a ver homens seminus?!
- NÃO!
- Não se olha no espelho?!
- É diferente.
- É a mesma coisa. – ele disse voltando à porta de onde tinha saído.
- Está tudo bem?
- Por que?
- Parece chateado.
- Não é nada importante. Senta por aí que eu já vou.
Eu sentei em um sofá cama bem confortável e fiquei esperando, tinha um espelho gigante a minha frente, eu pude olhar para mim sabe e eu não vejo nada de especial, nada. As vezes eu acho que sou um desperdício de matéria.
Ele saiu do banheiro, descobri ser um banheiro, só de cueca de novo!
- O que você tem contra roupas?!
- Isso é uma roupa! – ele disse apontando para a cueca. – Não posso ficar a vontade nem no meu camarim?!
- Podemos começar com isso? Devíamos por um nome legal. – eu disse enquanto ele foi se encostar numa penteadeira logo a minha frente.
- Em que?!
- Tipo Operação Novo Téo! – ele me olhou como se eu fosse estranho, e negou com a cabeça.
- Vamos com Operação Melhorar o Moron.
- Moroy! É Teo Moroy!
- “Moron” é mais a sua cara.
- Não é.
- Bom, vamos começar. – ele disse vindo na minha direção e apoiando-se na cabeceira do sofá atrás de mim, seu rosto estava bem próximo ao meu.
- O que está fazendo?!
- Começando... – ele me empurrou no sofá e se pôs em cima de mim, o que?!
- O que... – ele começou a subir a minha blusa preta e a tocar minha cintura.
- Não tem muita cintura.
- Saia de cima!
- Vamos lá... não seja tímido. – ele disse e segurou meu pulso, fez com que sentisse seu abdômen durinho e descesse até o volume de sua cueca. Eu acho que virei um pimentão nessa hora. – Você quer mudar, certo?! Já percebi que é bem tímido, não me olha nos olhos. – eu juntei toda a minha força e o empurrei, não demorei muito para me por de pé, mesmo estando meio estabanado.
- Quero mudar... mas não estou pronto pra isso. Eu não quero... esse tipo de coisa. Isso não vai dar certo. – eu sabia que não tinha como uma história dessas dar certo. Um modelo famoso me ajudando a mudar. Isso é ridículo. E eu nem o conheço! Me dirigi à porta e cheguei a abri-la.
Mas ele a fechou e me puxou de volta.
- Tudo bem, não vou fazer nada, estava só te testando. – ele disse indo beber água e me colocando para sentar no sofá de novo.
- Me testando... ME TESTANDO?! Você quase me estuprou!
- Que exagero. Deixa de ser menininha. É só testando, muita gente se aproxima para se aproveitar de mim. – eu percebi que ele falou meio amargo. — Mas parece que você quer mesmo minha ajuda. Consegui deduzir algumas coisas dessa sua reação. Você gosta de um cara.
- É...
- É totalmente indefeso.
- ... é.
- Faça que nem as moças da próxima vez. Sabe onde dói, certo?! Bata lá.
- Sei... – eu e ele fizemos uma cara de dor.
- É virgem.
- Eu não... é... – não ia adiantar mentir mesmo.
- Já pelo menos beijou antes?! – eu preferi não responder. – Hum, vou treinar uma criança. Mas você já tem uns dezessete.
- Já.
- Mas não é tão feio.
- Obrigado... não tão feio?!
- Bom, vamos ver. Que blusa é essa?!
- É o meu super herói favorito.
- Vamos mudar o seu visual um pouco, ok?!
- Mas eu gosto dessas blusas.
- Certo. Parece um saco em você. Não gosta de comer?! – ele veio até mim de novo e mexeu no meu cabelo. – Você tem um rosto bonito, uma pele ressecada e um corte de cabelo horroroso.
- Algo de positivo?!
- A cor do seu cabelo... é um castanho natural muito bonito.
- Legal.
- Agora tente olhar para mim. – eu não gosto de olhar para ele em especial, sei lá ele olha para a gente intensamente, invasivamente.
A porta abriu em um estrondo e dois caras meio bêbados ou alegres, não sei, entraram no quarto. Um era bem alto e magro com uma regata branca e calças frouxas, usava um óculos meia lua e um cabelo negro castanho e estiloso. Estava todo sujo de marcas de batom e o que parecia pó e maquiagem. O outro era uma mistura de arco-íris e glíter, algo bem alegre meio loiro com umas mexas no cabelo, parecia que tinha chorado muito.
- Iaiiii, Seth?! – o moreno disse se aproximando de nós e apoiando o corpo inteiro no do loiro a minha frente. Depois cochichou mais baixo. – Não fale nada sobre maquiagem nem nada do tipo, tive um pequeno acidente no estúdio dele.
- Olá. – o outro loirinho disse se aproximando de nós. – Quem é o rapazinho?! – eu devo ter uma cara de criança, porque eles não parecem tão mais velhos que eu.
- Esse é Moron... – Seth começou. – Téo...
- Téo Moroy. Muito prazer. – eu disse e ele continuou me olhando sorrindo.
- Atrapalhamos alguma coisa?! – ele continuava me olhando, tem algo no meu rosto?!
- Não... – Seth respondeu. – Luke e Joh. – Seth me apresentou, o moreno era o primeiro e o loiro o segundo.
- Esse é diferente dos que você costuma trazer. – Luke me olhou bem desinteressado.
- Ele quer passar por uma transformação. – Seth disse sorrindo ao tal Joh. Que sorriu, deu três pulinhos e veio sentar-se ao meu lado.
- Transformação?! Ah, eu e Luke podemos ajuda-lo.
- Eu não. – Luke tirou o corpo fora.
- Eu e Seth vamos ajuda-lo. – o loirinho me disse como se fosse o acontecimento do ano. – Eu sou maquiador... ou pelo menos era até alguém fazer o que não devia na minha sala e acabar com todos os meus objetos de trabalho. – encheu de novo os olhos de lágrimas. – Eu te odeio Luke! Amanhã tenho que trabalhar! Onde vou encontrar um conjunto daqueles até amanhã?! – ele começou a gritar e a chorar.
- Que escândalo no meu camarim. – Seth disse indo novamente ao banheiro.
- Mas, eu disse que vou resolver, não disse, vamos lá Joh, quando eu o decepcionei?! – o outro rapaz veio até nós no sofá e o abraçou afagou a cabeça do rapaz aflito e eles realmente pareciam um casal.
- Na verdade... hoje! Quantas vezes eu disse para não entrar na minha sala!
- Vou resolver. Vou resolver, ok?!
- Vocês são namorados?! – eu perguntei inconsciente, é que eles ficavam bem juntos e sei lá, dava para ver aquela química.
Um silêncio mórbido entre eles se formou.
- Na verdade, vou resolver isso agora. Com um telefonema. – o moreno falou e saiu do quarto. Simples assim.
- Não, não somos. – o tal Joh me respondeu. – Ele não é gay. – eu senti um tom meio amargo nisso. – Mas então, por que quer mudar?!
- Quero ver se as coisas melhoram na minha vida.
- Ele está apaixonado. – Seth apareceu de novo, mas dessa vez vestido. Até que enfim.
- Hummm. – o Joh disse com todo aquele tom que deixa qualquer um constrangido. – Quando começamos?
- Amanhã.
- Amanhã?! – eu perguntei olhando o loiro que sentava agora do meu outro lado do sofá e colocava o braço no encosto atrás de mim.
- Ah, um corte de cabelo descente. – Joh comentou já meio sonhando acordado.
- Não quero nada muito punk como ele. – eu apontei para Seth com o polegar enquanto tentava fazer o maquiador voltar para a realidade.
- É esse cabelo punk que atrai as garotas. – Seth me respondeu num tom magoado.
- Não quero atrair garotas.
- Bom argumento.
- Então, nos vemos amanhã na Boulevard. – Joh falou e levantou-se me dando um beijo na bochecha, as coisas estão indo muito rápido. Mas eu gostei dele, parece ser uma pessoa gentil.
- Fechado. – Seth disse e o loirinho foi se despedir dele. Com um beijo rápido na boca. Deve ser algo comum entre eles.
Ficamos só Seth e eu no quarto.
- Bom, já posso ir?!
- Pode. Mas não vou deixar você ir sozinho a essa hora para o outro lado da cidade. Vou te pagar um táxi.
- Não precisa.
- Não é nada, você é meu convidado. E outra coisa, Moron... – desisto. – Não fale sobre Joh e Luke juntos, certo?
- Por que?
- Luke não sabe ligar com essas coisas e acaba machucando o Joh.
- Como assim?
- Só não fale sobre isso quando os dois estiverem juntos.
- Tá.
- E outra coisa. Eu não vou mudar quem você é, já disse. Vou tentar melhorá-lo. Se a gente extrapolar nos pare.
- Uhum.
- Bom, até amanhã. E peça para Steve lhe pedir o táxi, é o segurança lá de fora.
- Uhum. Tchau.
- Nem um beijinho de despedida?! – o olhei rapidamente, visivelmente brincava comigo, com aquele sorrisinho sarcástico.
- Não.
- Por que?!
- Porque eu acho que beijar não devia ser algo tão banalizado. Você pode achar ridículo, mas eu...
- Não, não acho ridículo. – mas dessa vez falou sério. Eu só concordei e saí.
Me despedi do segurança e segui pelo mesmo caminho que vim, estava escuro, deserto.
- Ei. – aquela voz grossa e autoritária do tal Steve fez com que eu parasse imediatamente.
- S-sim?!
- O chefe mandou você esperar o táxi.
Eu fiquei encostado no muro do beco de frente para o segurança de pé e com seus óculos escuros. Parecia que não tinha se movido nem um centímetro a noite toda.
- Quer chiclete?! – perguntei a ele que como sempre me ignorou. Ou melhor, assim pensei, mas depois de um tempo ele me estendeu a mão e aceitou um chiclete.
O que me preocupa é, se eu não gostar de mudar, vou conseguir voltar a ser o que era?! Mas eu só vou saber se tentar. E se eu mudar, Ace vai notar?!
“Eu não sei o que dá nessas crianças de hoje. Eu só espero que ele esteja querendo mudar pelo motivo certo. Eu sou realmente uma boa pessoa, não sou não?! Max, meu agente, disse que eu deveria faze runs trabalhos voluntários e tudo mais. Acho que isso conta. Mas eu tenho a impressão que vai ser difícil. Não queria nem me olhar nos olhos, eu não sei nem que cor eles tem.”Seth Golden
Notas finais
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