Inn
1 Cody Dalle x Issac Vince.
Notas iniciais
Sou Cody e acabei de me mudar de cidade, estou morando numa pensão, irei conhecê-la logo depois das aulas. Como sempre, assim que passei dos portões da faculdade, todos aqueles olhos curiosos me fitaram. Deve ser pelo meu modo de vestir, é que as crianças de hoje não se vestem assim.
Passei por um pequeno pátio onde uma fonte jorrava água e os passarinhos se refrescavam com cuidado para não serem vítimas de alunos infantis. O sol indicava a primavera juntamente as folhas das árvores que balançavam com a brisa.
Segui meu mapa até o segundo andar do prédio alto e extenso, sala seis. Um senhor careca e já meio velho, como todos esses professores, me viu na porta e estranhou minha presença, logo veio me receber, veio dar as boas vindas como todos eles fazem em todos os lugares por onde passei.
– Olá, o que deseja? – ele disse ríspido.
– Entrar. Aqui é minha sala.
– Está procurando algum parente?
– Não, sou Cody Dalle. O aluno transferido. – ele parou para me olhar um instante assim como todos na sala.
– Me avisaram que você era jovem, mas não imaginei que tivesse... quinze anos?!
– E quatro meses.
– Claro. Bem-vindo. – ele disse sem vontade finalmente me deixando passar.
Sentei em uma das cadeiras das pontas, coisa que eu aprendi com o tempo. Se eu sentar no meio ou na frente, todos ficam implicando comigo e fica impossível estudar, aqui eu tenho o controle da situação.
– Você é o garoto transferido?! – um rapaz magrelo chegou junto a outro alto e com o rosto cansado. Falava engraçado.
– Sim.
– Nos disseram que receberíamos um gênio, não um...
– Pirralho?!
– É, e ainda mais um pirralho...
– Atrevido?!
– Quer parar com isso.
– É sempre a mesma coisa, parece que pessoas como você se multiplicaram e estão em cada sala que eu entro.
– Você é bem petulante.
– Agora se sentem. Vou começar minha aula e vocês quietos. – o professor falou, eles saíram de cenho franzido e o educador começou sua aula. Eu só me defendo antes que eles me ataquem.
Só aceitei ser transferido para cá porque é a melhor faculdade do país, e eles estão desenvolvendo um grupo de pesquisa interessante aqui. Sim, eu sou um garoto de quinze anos cursando o quarto semestre de física. Nunca me encaixei nas minhas turmas e sempre sofri com meus colegas estúpidos, mas é algo com o que aprendi a conviver.
– Cody Dalle. – o professor chamou meu nome, depois de uma meia hora de aula. – Venha responder essa questão no quadro.
E é sempre assim. Eles duvidam de mim. Peguei o livro das mãos dele e analisei o problema.
– Mas é um cálculo de uma lousa inteira.
– Então é melhor começar logo.
Eu comecei a responder. Eu tinha um pouco de dificuldade de alcançar o topo da lousa, mas com um pouquinho de esforço eu consegui e depois de cinco minutos inteiros eu finalizei a questão. Alguns dos meus colegas me olhavam invejosos e outros impressionados. O professor conferiu meus cálculos e disse.
– Está errada.
– Não está.
– O livro diz...
– O livro está errado. – o professor conferiu cautelosamente o quadro e observou o livro novamente.
– Tem razão. – ele disse incomodado. – Quando resolvi essa questão não atentei para esse dado. Muito bem Sr. Dalle, pode sentar-se. — voltei e peguei minhas coisas para sair da sala. – Minha aula não acabou, garotinho. Sente-se.
– O senhor não tem nada a me ensinar. Com licença. – os olhos daquele homem me pareceram duas bolas raivosas ao me ouvir disser isso.
Mas eu tinha que explicar porque estava saindo, só me expliquei, e era melhor sair para estudar algo lá fora do que faltar-lhe com o respeito e estudar outra coisa no meio da aula dele. Ele deve ter entendido, embora me parecesse mais raivoso do que compreensivo.
Lá fora estava calmo, sentei em uma calçada alta que, devido as minhas pernas curtas, não me permitia alcançar o chão. Todos os alunos ainda estavam em aula e já fazia um pouco mais de três horas que não comia. Peguei meu sanduiche de atum, sentei-me em um dos bancos e abri meu livro que ganhei do meu antigo professor. Foi o único que, na minha opinião, realmente queria me ajudar, não tinha inveja, eu nunca percebo essas coisas nas pessoas inveja, interesse, sarcasmo, interesse, embora sempre me alertem. Não tardou para os outros alunos serem liberados.
E aí eu achei o segundo problema que eu enfrento em todos os lugares que eu vou.
Mesmo com todo aquele barulho de conversas paralelas eu consegui ouvir três tipos de risadas que eu já estou acostumado. Ergui a cabeça diretamente para elas.
Três rapazes estavam de baixo de uma árvore me encarando com aquele sorriso maligno. Não pensei duas vezes, peguei minhas coisas e comecei a andar. Um deles, que estava sentado no chão, começou a levantar e eles começaram a me seguir.
Ótimo, é recorde, esses me acharam no primeiro dia?!
Eu tentava driblar a multidão que insistia em me bloquear, enquanto ela se abria para eles passarem. Injusto, injusto.
Um deles se pôs a minha frente quando cheguei ao pátio da fonte. Ele era grande e careca e mantinha um sorriso esquisito no rosto, tinha o dente quebrado e olhos castanhos.
– Calma aí, criança. – ele me disse e eu virei-me tentando voltar por onde vim. Mas só encontrei um loiro oxigenado com dois piercings na sobrancelha e milhões de brincos em uma das orelhas, era menor que o careca, mas ainda assim era forte, tinha uma sobrancelha arqueada com cara de mafioso.
– Soubemos que é um novo estudante daqui. – o loiro disse sorrindo sádico. As noticias aqui correm rápido. O careca se pôs a minha frente também.
– Tem certas regras que moleques como você devem seguir. – o outro rapaz falou. Esse tinha os olhos negros como ônix e cabelo da mesma cor, era como o loiro, sem amor ao próprio corpo, tinha pelo menos mil brincos nas orelhas e eu pude ver tatuagens nos pulsos. Sempre fui contra. Eu não gosto de dor. Dava para ver que eles faziam algum esporte, porque eram todos muito fortes. Só espero que não quebrem meus óculos, daquela vez foi horrível, fiquei sem enxergar direito por uma semana e além disso...
– Acho que ele é mudo. – o careca disse sem deixar de me encarar.
– Não, ele fala, e parece que tem uma língua bem grande. Não fala? – o loiro disse se aproximando de mim, eu recuava instintivamente.
– Só quando vale a pena. – respondi, mas era assim mesmo, eu só me pronunciava quando tinha algo útil a dizer. Mas ele só me olhou com mais raiva.
– Está dizendo que não somos dignos de suas palavras?
– Não, eu disse que...
– É um daqueles gênios de merda que se acham superiores a tudo e todos. – o moreno disse me olhando nos olhos. Não é bem assim, por que todo mundo diz isso?
– Eu só...
– Tem dinheiro? – o careca perguntou já olhando a minha bolsa. Derrubou tudo no chão. Ainda bem que mandei meu dinheiro para a pensão junto com as minhas coisas.
– Não, só tenho livros e um resto de sanduiche de atum. – eles ficaram em silêncio.
– É bom começar a trazer nosso dinheiro, rapazinho. – o careca continuou e pareceu que ele perdeu todo o interesse em mim.
– Não vou pagar vocês. – respondi, não tinha mais ninguém aqui, quando nos viram chegar, todos fugiram.
– O que? – o moreno disse calmo, eu o encarei, ele parecia descrente.
– Não vou pagar nada a vocês. Se querem dinheiro arrumem um emprego. – é o mais lógico, como se eu fosse dar meu dinheiro para eles, não sei por que eles insistem em pedir meu dinheiro. Eu mesmo vou arranjar um de meio período, não quero que minha mãe pague mais minhas contas, ela já se preocupa de mais com...
– Você tem uma língua bem grande. – o loiro sussurrou, todos eles me olhavam como se não tivessem entendido nada do que eu falava. E ele começou a vir mais e mais perto. – Mas não se preocupe, você aprende o seu lugar. – ele me empurrou com tudo para trás.
Senti meu corpo cair e cair até ser molhado por inteiro na fonte. Estava suja, tinha lodo, escorreguei umas duas vezes para poder sentar direito. Tratei de achar meus óculos flutuando bem perto de mim e depois vi os caras revirando minha bolsa.
– É, não tem dinheiro mesmo. – o careca disse sem me olhar. Tive dificuldade de sair, eu escorregava frequentemente no lodo e era observado com atenção pelo moreno, acho que ele esperava que eu caísse de uma vez e batesse a cabeça.
Saí encharcado, minhas roupas absorveram metade da água da fonte, e comecei a juntar minhas coisas, pelo menos os livros estavam bem. Livros são caros.
– Só não saia chorando. – o loiro disse chutando mais uma vez minha bolsa um pouco para longe.
– Não vou. – falei de novo tentando organizar minhas coisas. Como eu disse, já estou acostumado, sabe, lei dos mais fortes. Sobrevivência. Darwin.
– Você é muito chato.
– Igualmente. – senti meu suéter ser puxado e seu punho se fechar no tecido. Ele me olhava em fúria.
– Você só pode estar me testando, baixinho. – ele começou a me erguer do chão. Não é muito difícil, eu sei. – Não tem muita noção do perigo.
– Já me disseram isso.
– Von, não espanque o menino logo no primeiro dia. – o moreno falou pegando a minha bolsa.
– Agora vai ter pena deles, Zack? – esse loiro não perde o contato visual comigo nem um instante.
– Estou dizendo para coloca-lo no chão.
– Está contra mim?
– O que está acontecendo aqui? – escutei uma outra voz vir do prédio principal.
– Merda. – o loiro disse me soltando.
– Avisei, otário. – o tal Zack falou vitorioso.
– Vocês de novo. – era um rapaz da idade desses caras, tinha o cabelo loiro e escorrido, usava óculos e tinha um ar intelectual. Me observou dos pés a cabeça. – Quem fez isso com você?! – eu apontei para o loiro e pude ver o moreno deixar um riso sair. — Von, vá para a sala do coordenador agora.
– O que?
– Agora, ou vou dá-lo a suspensão eu mesmo. Ficaria muito feliz de não vê-lo por pelo menos um mês.
– Digo o mesmo.
– Garanto que seu treinador não. – eu vi os olhos do tal Von ferverem e ele começar a andar devagar. – E vocês? – disse se dirigindo aos outros dois.
– Já estávamos de saída. – o careca disse despreocupado.
Eu fiquei olhando minha mochila nas mãos do moreno e ele estendeu-a para mim, fiquei pensando se era um truque. Eu fui pegar devagar e, assim que eu encostei nela, ele a jogo na fonte onde eu havia caído.
Droga, meus livros.
– Issac Vince! – o outro rapaz de óculos o repreendeu.
– Ele que deixou cair. – o moreno disse inocente.
– Que infantil. Vá para a sala do diretor também.
– Não.
Comecei a entrar na fonte de novo para pegar as minhas coisas, por que não limpam a fonte?!
– Vai me desobedecer?
– Você me deve uma, Collin. Esqueceu? – Collin ficou em silêncio um tempo.
– Nesse caso, eu não posso melhorar a sua barra...
– Então aprenda a se defender sozinho em vez de fugir como um covarde e implorar por ajuda... aquilo foi patético.
– Deem logo o fora daqui. – eles começaram a andar, mas antes o moreno sussurrou um “até amanhã para mim.”
Achei que era seguro sair da fonte agora.
– Desculpe não fazer nada com esse delinquente. – o rapaz loiro disse com uma expressão arrependida.
– Não se preocupe. Você fez mais do que os outros. – antigamente TODOS os valentões que implicavam comigo ficavam impunes.
– Qual seu nome?
– Cody Dalle.
– Sou Collin Have. Está esperando algum parente?
– Não, eu curso física aqui. Sou transferido.
– Ah! Estou no quinto semestre. Sou uma espécie de monitor.
– Entendo.
– Acho que deveria ir para casa por hoje.
– Ainda tenho aula.
– Não se preocupe, providencio tudo para você amanhã. As anotações...
Eu concordei e decidi ir para casa. Minha nova casa na verdade, acabei de me mudar para essa pensão. Tentei pegar três taxis, mas nenhum parou, apenas um hippie, ele me deu carona.
Agora estou parado de frente a uma grande casa de estilo antigo, tem um jardim na frente e fica numa rua sem saída, mas bem localizada na cidade e a área me parece bem urbanizada. Tem umas crianças andando de bicicleta sem perigo de serem assaltadas, parece uma vizinhança pacata. Mas vou ter que ir de metrô para a faculdade.
Estamos no fim da primavera, as flores já estão menos coloridas para esperar o verão. Depois de dar um giro de 360º eu voltei a olhar a casa com uma simples placa na frente “Pensão.” É aqui que vou morar por pelo menos cinco anos, até terminar a faculdade. Bom, acho melhor entrar.
Entrei devagar, o cheiro de uma comida deliciosa invadiu meu nariz fazendo meu estômago reclamar de fome. Entrei devagar e fechei a porta. Era uma sala relativamente grande. A minha frente tinha uma escada que deve levar aos quartos, aqui a direita tem uns sofás sobre o piso de madeira e a esquerda é de onde vem esse maravilhoso cheiro.
– Acho que alguém chegou. – ouvi uma voz dizer e um rapaz passou pela porta do lado esquerdo junto com o cheiro de comida. Preciso comer. – Oi, o que deseja, querido? – ele me disse, me encarando com os olhos verdes vivos.
– Hm... sou Cody Dalle. – o rapaz me olhou dos pés a cabeça e sua expressão ficou confusa.
– Andrei, não disse que o garoto novo era um universitário?
– Disse. – um homem ruivo de seus trinta e poucos anos pareceu na porta com um avental e um daqueles chapéus de chefe de cozinha, deve ser ele o autor desse cheiro. – Oh, meu deus, você está todo molhado. – ele se aproximou rápido de mim. — Qual seu nome garoto.
– Cody Dalle.
– Me disseram que você era um universitário. – o ruivo disse se aproximando com o moreno de olhos verdes que chegara primeiro.
– E sou. – eles se olharam desconfiando da minha história. Sempre é assim.
– Quantos anos tem, meu bem? – o moreno perguntou sorrindo sincero.
– Quinze. – o dono dos olhos verdes pareceu surpreso e o ruivo foi olhar algo, acho que o registro.
– É isso mesmo. – o ruivo, Andrei eu acho, me sorriu e veio na minha direção de novo após guardar os papéis. – Você é bem jovem para a faculdade, não? Vamos tire essas roupas, você vai ficar doente. Suas coisas já chegaram.
– Tá bem. – eu disse retirando minha musa encharcada e fazendo meu corpo tremer. O moreno me estendeu uma toalha. Preciso tomar algum remédio para evitar complicações, asma.
Subi para trocar de roupa. Vi pela primeira vez meu quarto. Era um quarto pequeno normal, com uma escrivaninha uma cama e um banheiro pequeno. Depois de me vestir, desci, pois Andrei mandou que eu fosse até a cozinha comer alguma coisa.
– Fala sério. – um rapaz de cabelos negros estava sentado com os pés sobre o acento da cadeira e sorria junto com os olhos acinzentados para o moreno com quem eu falara mais cedo. Ele era bonito, me lembrava... um gato.
Ninguém notou que eu cheguei. Tinha outro homem com cabelos escuros e meio grandes sentado num canto isolado. Esse garoto de olhos cinza estava de frente ao Leo e o Andrei fazia a comida que cheirava muito bem em uma parte recuada da cozinha.
– Pessoal. – o cozinheiro disse. – Esse é Cody Dalle. Vai morar com a gente agora. – o moreninho me olhou ainda com um meio sorriso.
– Bem vindo, Cody, sou Alex... sério que você faz faculdade? Eu tenho dezessete e ainda estou no colégio. – e mais uma vez eu percebia como eu não era desenvolvido para minha idade, eu daria pelo menos uns vinte naquele rapaz.
– Seja bem vindo, aqui agora é sua casa então sinta-se a vontade. – o homem moreno de seus trinta e poucos anos me falou sem deixar de dar atenção ao jornal que lia em seu lugar isolado, disse sério, mas amigavelmente a mim, logo voltando ao jornal e a caneca ao seu lado.
– Esse aí é o Edgar, dono desse lugar. Venha sente-se a mesa. – Andrei me disse trazendo uns pratos.
– Deixe disso Andrei, você toma conta desse lugar, então ele é seu. – Edgar respondeu ao jornal.
Eu sentei-me a mesa sobre o olhar muito estranho do Leo, o rapaz de olhos verdes e cabelo chocolate que me recebeu, e o total desinteresse do Alex.
– Então, Cody, você veio morar sozinho aqui com quinze anos? – Alex falou pegando mais dois sanduíches.
– Sim. – me servi também.
– Não se sente sozinho? Longe dos pais e tal.
– Moro sozinho desde os treze. – mordi meu sanduiche, era muito bom. Muito muito bom, o que tinha de errado com meu sanduíche de atum?! Mas eu consegui reparar que o ruivo me olhou desacreditado e os outros também, até o Edgar.
– Você não tem mais família? – Andrei me perguntou desligando o fogão e vindo sentar-se a mesa.
– Tenho.
– E onde eles estão?
– Em casa eu acho. Mas eu não os vejo muito, desde os oito. Fiquei em colégios internos. – eu quero mais um sanduiche. É bom. E vou levar um para mais tarde.
– Deve sentir falta dela.
– Não. – as pessoas falam como se fosse grande coisa, eu realmente não entendo porque.
– Pode ser sincero com a gente. – podia ser minha impressão, mas esse Andrei parecia com pena de mim, porem vai mais além disso, ele me passa um sentimento estranho.
– É, Andrei é nosso conselheiro. – Leo disse sorrindo ao ruivo, mas o outro não tirava os olhos preocupados de mim.
– Mas é verdade. – realmente era, eles são só meus conhecidos. Mas eu gosto quando minha mãe me liga. E quero que ela se orgulhe de mim.
O Edgar se aproximou da mesa também e se pôs atrás do Andrei.
– Quem paga suas contas? – Alex perguntou pegando outro sanduiche.
– Com certeza não é como a pessoa que paga as suas. – Leo comentou. — Cuidado, rapazinho. Seu admirador pode te deixar. – Leo falou com um sorriso malicioso vendo o moreno atacar o sanduíche. – Não vai te querer gordo. – o Alex apenas sorriu superior.
– Ele é louco por mim. – o moreno respondeu devorando o sanduíche.
– Quem paga? – Andrei perguntou a mim novamente.
– Minha mãe, mas eu pretendo encontrar um trabalho de meio período e esse ano eu começo um grupo de pesquisa e vou receber por isso. Então ela não vai mais precisar ter despesa comigo. – não acho certo ela pagar pelos meus gastos.
– Hum. – vi que Andrei olhou preocupado para Edgar que me observava também. Por que todo mundo acha isso horrível. Não faz sentido para mim.
– Ahh, meu bem. Eu trabalho em uma pequena livraria. – Leo começou a me dizer. – Mas estou pensando em sair e ir trabalhar no refeitório da faculdade. Posso te recomendar a livraria, o trabalho é bem simples e é só meio expediente, mas eles não podem pagar muito.
– Eu aceito. – respondi normalmente, deve ser bom trabalhar em um local repleto de livros.
– Não acho bom ele ir para aqueles lados da cidade. – Edgar falou. – Você tudo bem Leo, já é adulto, mas uma criança...
– Edgar, querido, está na cara que o menino é mais maduro que eu. – Leo respondeu e depois olhou para mim. – É que é em um bairro não muito confiável. Mas o dono do local é um doce, quando não está de mau humor, e o filho dele... a gente consegue aguentar.
– Achei que fizesse faculdade. – comentei.
– Ah, longa história. Eu não pude continuar a faculdade quando tive a chance, cursava literatura, mas não estava conseguindo me manter, então tive que largar. Meus pais não podem me bancar e eu tenho que ajuda-los. Então tive que largar. Depois eu trabalhei como zelador, faxineiro, balconista, segurança, confeiteiro, eletricista, encanador, cozinheiro...
– Pintor. – Alex ajudou.
– Pintor, carregador de instrumentos para bandas, garoto do café, recepcionista...
– Nossa. – eu disse.
Ouvi um celular tocar na mesa.
– Comecei a consertar celulares também...
Era o do Alex ele atendeu com um sorriso imenso.
– Oi... Estou indo. – foi o que ele disse e começou a levantar, mas pegou outro sanduíche.
– Aonde vai? – Edgar perguntou meio irritado.
– Vou sair. – e deu uma piscadinha para o homem mais velho. Depois pôs a mão no meu ombro. – Te entendo, cara. Também nunca mais vi meus pais desde os cinco anos, meus avós eram meus pais. E nem por isso sou um desregrado depressivo. Vou indooo!!! T-c-h-a-u. – ele disse diretamente a Leo que só sorriu.
– Isso ainda vai dar confusão, Andrei. – Edgar disse furioso. – A gente tem que parar esse menino.
– Não é um menino, Edgar. Alex tem dezessete anos, já é um rapaz. Sabe se cuidar.
– Sabe se cuidar, sabe se cuidar... o cara tem trinta anos, Andrei!
– Alex está namorando um homem um pouco mais velho que ele. – Leo me explicou.
– Ah. – um homem? Tudo bem.
– Acalme-se – Andrei disse acariciando o braço do outro.
– Devia falar com ele. Ele não me escuta. – Edgar disse indo até a geladeira.
Escutamos passos na escada também. E outro garoto loiro seguiu direto para a porta. Sem passar por essa sala-cozinha.
– Eros! – Andrei falou um pouco exaltado na minha opinião. Uns segundos de silêncio se passaram até o garoto aparece na porta. Eu não sei bem por que, mas não consegui tirar os olhos ele, era um loiro de incríveis olhos de um verde azulado, era meio sério e parecia com raiva.
– O que é? – ele disse com uma voz aveludada.
– Esse é Cody. Ele é novo. – continuei olhando pra o rapaz que agora me encarava. Eu sou pequeno, com os cabelos pretos e bagunçados, eu tento pentear, meus olhos são de um castanho comum e meus óculos são comuns. Eu sou comum, mas pessoas assim como ele, me chamam muito a atenção.
– Estão aceitando crianças agora? – ele parecia ter mais de vinte.
– Na verdade, rei da arrogância, ele já é universitário. – Leo comentou com uma voz menos amigável.
– Hum. Um daqueles gênios que se acham melhores que os outros?
– Não. E mesmo que fosse, tenho certeza que seria mais educado que você.
Loiro virou para sair, mas foi impedido por Andrei.
– Pelo menos coma algo antes de ir.
– Quando eu quiser comer eu como. Não preciso de uma mãe aqui. – ele disse e eu jurei que o Edgar ia voar nele.
O garoto só saiu pela porta sem dizer mais nada.
– Esse moleque não vai mudar nunca? – Edgar disse vendo o rosto de Andrei se entristecer um pouco.
– Andrei, não sei por que ainda tenta. Ele é um estúpido arrogante e um vad... nada. – Leo sussurrou a ultima parte baixo e me sorriu.
– É, mas eu realmente queria ajuda-lo de alguma forma. Enfim, mais sanduiches, Cody? – Andrei já disse sorrindo. Eu peguei mais um.
– Ele não é a coisa mais linda que vocês já viram? – Leo disse deitando na mesa sorrindo abobado e me olhando da mesa.
Eu acho que vou gostar de morar aqui. Parecem pessoas bem legais, a maioria delas.
Quando terminei de comer subi para descansar, amanhã tenho aula. Descobri que temos cinco pessoas morando aqui, tirando os donos e me incluindo. Falta uma ainda. Resolvi perguntar quem era depois.
No caminho do meu quarto passei por uma porta e escutei algo como alguém reclamando de um vídeo game.
Só consigo pensar em como vou me livrar daqueles delinquentes amanhã. E agora são três!
“Ele realmente parecia não ter a mínima noção de perigo... vai sofrer muito se continuar assim. Fora que ele me lembrou um leãozinho com aquele cabelo bagunçado. Mas era arrogante como todos esses gênios são. Vamos ver até que ponto ele aguenta.”
Isaac V.
Notas finais
mas é apenas o começo.
Kissu! :*
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