Inimigos Íntimos

44 Isso não é amor


Por favor, venha agora, eu acho que estou caindo

Estou me segurando em tudo que acho ser seguro

Parece que eu achei a estrada para lugar nenhum

E eu estou tentando escapar

Eu gritei quando ouvi o trovão

Mas o que me restou foi um último suspiro

E com ele, me deixe dizer

Me deixe dizer

Me segure agora

Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que

Talvez seis pés

Não sejam tão distantes assim



Tudo errado, completamente errado, mas Miyako não conseguia abrir mão daquilo, seria um momento único, ainda mais pelo fato de Kaiser ter tanto nojo das pessoas e se voluntariar para ir em um evento super popular com ela. Sem dúvidas aquilo era uma tática para seduzi-la e trazê-la para o lado negro da força, mas fazer isso com ingressos VIPs para SDCC depois de semanas horríveis as quais ela tem passado… Ah, sem dúvidas foi um golpe muito baixo, não havia possibilidades de recusa.

Quando deu por si, já estava agarrada ao pescoço dele, gritando toda sua euforia, a toalha que estava presa a seu corpo se soltou e deslizou para o chão, mas ela nem se importou, precisava pensar no cosplay que usaria assim de última hora, a sorte que no Japão não é difícil encontrar esse tipo de coisa.

A garota soltou-se do abraço e começou a dar voltas em circulos, conversava com Kaiser, por vezes consigo mesma, não sentia frio nem constrangimento, estava uma bola de euforia, caminhou até o criado mudo tomando o bracelete de Kaiser em mãos.

— O que vai fazer com isso? — Kaiser questionou arqueando as sobrancelhas. — Você não sabe como funciona.

— Claro que sei, não é a primeira vez que pego nessa coisa. — ela declarou naturalmente digitando o que lhe interessava e as sobrancelhas do gênio se arquearam.

— Desde quando sabe mexer nas minhas coisa? — Se aproximou conferindo que ela realmente sabia o que estava fazendo.

— Desde quando você dorme com o inimigo? — respondeu astuta e ambos sorriram.

— Touché! — o gênio murmurou derrotado, reforçando sua nota mental de nunca subestimar Inoue. — Não sei o que é mais peculiar, você mexendo no meu bracelete, ainda não ter tocado no desjejum, ou assim toda nua sem buscar meios para se cobrir o tempo todo.

— Oh? — ela parou de digitar olhando para o próprio corpo, mas a euforia ainda lhe dominava e portanto fora mais forte que algum constrangimento. Quanto ao desjejum, seu estômago roncou a obrigando a pegar a pequena tigela de frutas picadas com granola e mel, que estava sobre a bandeja. — Bem lembrado. — falou com a boca cheia.

— Não faça esse tipo de coisa. — repreendeu o senhor do submundo digital, virando o rosto com repulsa do ato da garota. — Sra Inoue não ficaria orgulhosa de sua educação.

A garota respondeu com uma careta desafiadora e em seguida deu um berro.

— AHHHH! Isso vai ser perfeito! Que tal Inuyasha e Kagome? — ela digita no bracelete e ambos aparecem com os trajes.

— Que mal gosto e… Eu tenho orelhas de cachorro? E olha sua saia, parece um cinto. Essas fantasias estão fora de questão.

— Que tal King e Diane? — ela novamente trocou as configurações. — Ou Meliodas e Elizabeth? — mudou novamente. — Essa cara feia quer dizer não.

— Não existe nada que preste?

— Tudo é perfeito, você que é chato. Que Tal Alucard? Shinji e Asuka? Flash e Nevasca? Michael Jackson e Britney Spears? Grease? Sasuke e Sakura? Sarah e Jareth? — a medida que ela ia falando as configurações iam mudando.

— Esse par... ao menos você está vestida, mas esse Jareth usa maquiagem e calça de couro coladinha…

— Te achei muito sexy. Além disso quando nos conhecemos você usava um macacão todo coladinho.

— E você usava calças de aviador, que eram horríveis.

— Que tal Princesa Kitana e Liu Ken? Olha tem “Ken” no nome.

— Você está praticamente nua.

— Penelope charmosa e Diki Vigarista? Nossa ficou a sua cara! — ela sentou na cama para rir da imagem que viu. — Em compensação eu fiquei um charme.

— Arg! Muda isso. Pare de brincar de me vestir e escolha de uma vez.

— Ok, sem besteiras agora vou escolher algo sério, você vai aprovar. — Ela se levantou se focando em escolher. — É uma pena eu queria ir de Penélope Charmosa. — Fez uma expressão como se tivesse encontrado a roupa perfeita. — BRILHANTE!

Em segundos as roupas mudaram e estavam vestidos de Kirito e Asuna. Kaiser finalmente olhou com uma expressão mais amena, analisou o que vestia, assim como as roupas de Inoue.

— Poderia ter escolhido esses trajes desde o começo, mas ficou se divertindo me vestindo como uma boneca?

— Então agora sabe como eu me sinto? Fora que eu te vi usando roupas que nunca vou esquecer, deveria ter fotografado. — cantarolou brincalhona enquanto rodeava o gênio, observando o quanto o traje de Kirito lhe caiu bem.— E o que vamos fazer? Pelo que eu saiba você ainda não inventou uma forma de materializar os trajes daqui para o mundo real.

— De fato não, mas vou colocar essa ideia em pauta.Contudo, eu sabia que você não recusaria esse convite, então tenho dois Bakemons em uma famosa loja de cosplays, eles têm as nossas medidas, embora os rostos sejam diferentes. É só mandar uma mensagem dizendo quais peças devem trazer.

—Uau! Pensou em tudo mesmo.— Miyako afastou-se sentando sobre a cama e continuando a comer sua tigela de frutas. — Sabe o interessante?

Era cômico a forma como Kaiser se admirava com as roupas de Kirito, ele tinha aprecisado, isso era impagável, algo que Miyako sentiu muita vontade de poder compartilhar com uma amiga e rir com ela, se isso não fosse segredo, se eles não fossem O Cão e a Raposa.

— Que essa roupa me deixou mais atraente que o normal? — o rapaz perguntou a fim de zombar da escolhida, que apenas fez uma careta de desaprovação.

— Como você é convencido! — mostrou a língua.— O interessante é que neste anime os personagens jogam um jogo de realidade virtual, mas seus corpos ficam em coma no mundo real e apenas suas mentes vão para o mundo virtual e se morrerem por lá, morrem de verdade.

— Isso é muita coincidência. Já imaginou que talvez o anime tenha feito por um digiescolhido?

— Creio que não, se fosse ele colocaria alguma referência mínima aos Digimons.

— E se for um Digiescolhido que não gostou de ser escolhido, que julgou interessante a idéia de um Mundo Digital, mas sem as criaturas daqui. Você sabe que existem outros? Sabe que nem todos estão a fim de defender os interesses dos Digimons?

— É uma teoria interessante.— Ela o puxa para que se sente ao seu lado.

— O que você está fazendo? Precisamos nos apressar.

— Estou alimentando você. Não te vi tocar no alimento ainda. — Sorridente ela puxa a bandeija para perto. — Vamos lá, abre o bocão.

— Você é muito chata!

— Se não comer eu não vou.— fez birra como uma criança mimada.

— Affs! Me dê isso, posso me alimentar sozinho.

— Não tem vergonha de dormir comigo, mas tem vergonha de ser alimentado? Depois me repreende e diz que eu fico constrangida sem motivos.

Kaiser revirou os olhos e ergueu as mãos em sinal de rendição, o que fez com que uma Miyako satisfeita corresse para seu colo para colocar alimentos em sua boca, como se o mesmo fosse uma criança incapaz de se alimentar sozinho. Era tão óbvio para ele o quanto ela se divertia ao submetê-lo a tal constrangimento.

Então eles, de fato, tinham um relacionamento a mais que sexo, ele enxergava amplamente e talvez por isso não lhe cortava a asas deixando com que ela agisse como se estivesse no controle, permitindo que a inimiga se divertisse em colocá-lo em situações embaraçosas, parecia uma maneira de baixar ainda mais as barreiras existentes entre eles.

Era assim na mente de Kaiser, tudo que acontecia fazia parte de um plano maior, o fim justificaria os meios e ele estaria vitorioso era somente o que importava. Para Miyako era uma diversão vulgar e proibida, mesmo sem estar ligado a fator sexual no momento, não era nada etico se divertir alimentando seu inimigo como as garotas de filmes e doramas fazem com seus namorados, mas ela se permitiu.

(...)

As mãos estavam enlaçadas a tanto tempo que já se encontravam suadas, mas se soltassem certamente o casal se perderia na multidão. Ela estava a vontade, já tinha visto e ouvido muito do que sempre sonhara, estado em presenças ilustres, ainda bem que seu inglês era bom, pois os ingressos Vips lhe permitiu dialogar minimamente com seus ídolos e entender suas palestras.

Vez ou outra eles eram obrigados a parar e serem fotografados, Ken não sabia o que fazer e Miyako se divertia mais com a cara rabugenta que ele fazia. Ela estava empolgada, explicava sobre tudo, lançamentos de action figures, trailers de filmes que estrearão no próximo ano, muitos atores, coisas das quais o garoto não tinha o mínimo interesse.

A verdade é que poucas horas se passaram e ele já queria poder ter seu chicote em mãos, ou talvez comandar uma manada de Tyranomons para pisotear toda aquela aglomeração de malucos. Na cabeça do gênio era absurdo que adultos estavam ali vibrando com coisas tão supérfluas que não lhes acrescentavam em nada, mas Inoue estava feliz, já tinha conversado com atores de alguns filmes que ela amava, com escritores de quadrinhos entre outros e Ken só não estava com cara de tédio porque tinham algumas cenas hilárias que lhe chamava atenção e só reforçava seu desprezo em relação às pessoas.

Miyako parecia estar no paraíso, queria falar com todos ao mesmo tempo, ver tudo o que tinha, que era impossível devido a tantas atividades. Ela andava rápido e passava com facilidade por entre as pessoas, vezes esbarrando em algumas, puxando Ken, que era espremido entre brutamontes suados usando roupas de guerreiros medievais.

A praça de alimentação tinha uma fila quilométrica para fazer o pedido e Ken suspirou lamentosamente, se arrependendo mil vezes, cosplay de Kirito até era aceitavel, mas estava quente demais e como o local estava lotado o arcondicionado não fazia nenhuma diferença, ele começava a pensar como conseguiria comer com cheiro de suor e perfumes de tantas pessoas se misturando, aquilo era um pesadelo.

— Podemos ir embora agora? — perguntou ao ouvido da garota, mas o som estava muito alto e as pessoas falando todas ao mesmo tempo.

— Não consigo te ouvir.— ela gritou de volta para ele.

— VAMOS EMBORA! — Ken gritou próximo ao ouvido de Inoue, enquanto limpava o suor do próprio rosto.

— Ah, não, ainda quero tirar foto com aquela armadura do Optimus Prime em tamanho real, entrar na réplica da casa dos hobbits, na recriação da sala de comandos da USS Enterprise, quero segurar o escudo do Capitão America que foi usado no primeiro filme, quero tirar fotos com os garotos de Stranger Things, até o elenco de Dark está aqui… Ai meu Kami!

— Miyako, minha cabeça está latejando, meus pés estão doendo e essa roupa está muito quente e eu vou apelar se for encoxado por mais um grandalhão e esse deveria ser um evento das filas. Tem filas gigantescas para tudo, fila pra comprar comida, pra tirar foto, pra entrar em lojas, pra sair, pra ir ao banheiro. — choramingou quase desmaiando, mas sem ter lugar algum para se escorar. — Como você pode gostar de algo assim.

— Wont! Ele está cansado, que gracinha! É só mais um pouco, por favor! — Miyako fez um tom infantil e Ken apenas revirou os olhos, ele falava sério, estava a beira de um desmaio.

Como ele previa não foi só mais um pouco, a impressão era de estar pagando todos os seus pecados naquele dia e ela? Estava feliz e saltitante, parecia não sentir calor algum, as pessoas falando ao mesmo tempo e o som alto nada a incomodava, estava nas nuvens saltando de um lugar a outro tirando suas fotos.

Inoue bem sabia que para alguém recluso como Ken, aquela experiência estava sendo traumática, não que ela estivesse sendo vingativa, mas de fato sua empolgação era enorme e a fez negligenciar o incômodo de seu acompanhante. Quase no final do evento ambos estavam assistindo um show de algumas bandas responsáveis pelas trilhas sonoras dos filmes e séries do momentos e mais uma vez ela pulava, gritava e cantava junto, já havia arrancado e perdido parte de seu cosplay, mas não estava nem preocupada. O pobre acompanhante estava em meio a multidão, tentando não ser separado da garota, levando pisões nos pés e cotoveladas e o pior de tudo era o fato dele realmente ter ficado muito atraente vestido de Kirito, o que ocasionou em varias encoxadas e até garotos afeminados que aproveitaram para dar beliscões em seu traseiro, nessa hora ele desejou fazer uma digi-evolução para Skullgreymon.

(...)

Finalmente estavam de volta a base, em péssimo estado, ainda bem que tinha um Bakemon do lado de fora do evento, os aguardando para mandá-los de volta para a base sem transtornos. A primeira coisa que Kaiser fez ao chegar em sua base foi se livrar das roupas e cair em um banho, Miyako fez o mesmo, ambos estavam suados com cheiros de ships, frituras, suor e perfumes de desconhecidos.

Após um longo banho quente, que pareceu ter lavado até a alma, ambos se jogaram ainda de roupão, sobre a cama.

— Minha cabeça dói, meu corpo dói, meus pés doem... Estou traumatizado. Eu fecho os olhos e ainda me lembro dos momentos de tortura. — dramatizou o garoto.

— Não exagera, não pode ter sido tão ruim assim?

— No show, passaram a mão na minha bunda. — ele choramingou de maneira engraçada e ela o olhou espantada. — Um cara alto e barbudo, cheio de tatuagens, com uma camiseta de Batman, chegou no meu ouvido e pediu meu e-mail.

— Você está brincando? Como eu não vi isso?

— Ah, boa pergunta? Porque você estava pulando, gritando e cantando, pensei que fosse tirar a blusa e rodar o sutiã. — debochou mas com tom de mágoa.

— Que exagero! Ownt, quase deixei meu namorado ser violado por um grandão, sou uma péssima pessoa.

— Então evoluímos ao nível namorados? — ele se virou para encará-la.

Mas Inoue não respondeu, estava cansada, talvez os lanches que comeram no evento lhe tivessem feito um pouco mal e sobre o que ela disse… Bem, eles eram namorados no mundo real, não? Falsos namorado na verdade, mas… Não que ela quis dizer que agora sejam namorados de verdade….

Ela se levantou sem dar nenhuma explicação e pegou seus óculos sobre o criado mudo, pegou o celular com fotos e vídeos e se dirigiu para a porta.

— Hey, Inoue, onde você vai?

— Eu quero ficar sozinha.

— O que? Porque?

Miyako parou por alguns segundos e olhou, não para ele, mas para seu próprio reflexo no espelho e um choque de realidade a abateu. Namorados? Não era isso, inimigos é o que eles são desde o início, ela era a marionete dele, mas …

E por alguns segundos ela se perdeu nas lembranças de como anda o relacionamento entre eles, a dor foi maior quando se deu conta de que Kaiser fez com ela como fez com boa parte do Mundo Digital, ele chegou e tomou quase que a força, aquele dia foi importante, mas era um sonho que ela tinha incomum com outra pessoa e ao se lembrar de Koushiro e os planos que tinham, juntar dinheiro, viajar para Califórnia, tudo direitinho sem portal.

As lágrimas escorreram pelo seu rosto enquanto ela passava as fotos e constata que tudo estava errado. Como ela pode se divertir tanto e nem lembrar de seu ex, seu amigo, pois eles prometeram que aconteça o que acontecesse continuariam amigos, mas ela não lembrou do ruivo um minuto sequer. Sentia-se corrompida, comprada, era como se Kaiser realmente tivesse conseguido colocar um Anel Negro nela, que pessoa estava se tornando?

Cada foto que passava lhe partia mais o coração e não somente isso, mas a dor de ter jogado algo que construiu durante cinco anos, fora para se render a alguém tão vil, tão baixo que a manipula o tempo todo.

— Hey, porque você está chorando? — Ken se aproximou de forma cuidadosa, mas não obteve respostas apenas os soluços de um choro que só aumentava. — Deixa isso aqui. — Tentou pegar o celular das mãos dela, visto que aquele era o motivo aparente do choro.

— Tira a mão! — Ela vociferou enfurecida e lhe deu um tapa na mão. — Não mexa nas minhas coisas. — E aquela cena pareceu dolorosamente familiar, o deixando quase sem resposta ou atitude.

— Eu, só ia…

— Tomar de mim e guardar para fingirmos que nada aconteceu? Como você roubou o dia de hoje de mim e do Koushiro-kun. — cuspiu sem filtrar.

— O que? — ele recebeu como uma flechada “o dia que ele roubou deles”

— Meu antigo celular, você quebrou ele na parede. Tomou ele de mim, viu as fotos que eu tinha com Koushiro-kun e destruiu. Você é bom em tomar o que é dos outros. Olha o que fez comigo! Está feliz agora? Eu não sou nada, não tenho nada e sou corruptível por uma droga de um evento.Como se sente roubando a vida de outra pessoa? Esse futuro não era pra ter sido concretizado com você.

— Miyako, eu sei que…

— Não sabe nada, Ken. Você não sabe nada sobre como o mundo gira, sobre como os seus pais se sentem, Wormmon, sobre como eu me sinto. Você tem chances de se abrir comigo e ser verdadeiro e limpo, mas decide me manipular, me comprar e comemorar sua vitória interna com o que tirou de outra pessoa. — ele tentou argumentar ainda tonto. — Não! Não venha me dizer que eu não sou seu troféu no fim das contas, que cada vez que me tem não se vangloria internamente perantes meus amigos e principalmente Koushiro-kun, esperando o momento em que o fará pessoalmente? Você está de parabéns porque me confunde, me seduz e eu não resisto a você na maioria das vezes e acabo fazendo tudo o que você quer. Você pode ir a frente do espelho e ensaiar seu discurso de tripudia para o dia da sua suposta vitória, mas tem uma coisa que você não pode, nunca vai poder… ter o meu amor.

— Mas você…

— Te amo? Não. — ela ri com escárnio. — Nosso caso de luxúria passa bem longe do meu coração. O que os seus gráficos, códigos e tabelas não podem te ensinar é que amor é bem diferente de desejo sexual, atração carnal. Amor é algo que inclui afeto e principalmente respeito e eu não tenho um acréscimo de respeito por você.

— Mas por Izumi você tem...— houve uma pausa pesarosa.— respeito?

— E porque não teria? Na nossa história a suja fui eu, e você… você me quis pelo simples fato do meu coração ser de outra pessoa, aquilo foi inaceitável pra você a ponto de redirecionar seu foco e pessoas que querem o que é dos outros não são dignas de amor, são desprezíveis!

A sinceridade e a inconveniência andam sempre lado a lado e o ponto negativo de uma pessoa que tem natureza sincera demais, é que ela muitas vezes cai no campo da inconveniência, nem tudo que é verídico é para ser jogado de qualquer maneira sobre a mesa, muitas guerras estouraram por isso e Inoue se deu conta da pólvora que acabara de acender, o que poderia lhe custar a vida de Hawkmon

Aturdida com as palavras que foram vomitadas em um momento de ira que se devia muito mais por suas fraquezas do que pelas atitudes daquele que ela já reconhecia como mentalmente instável, ela sentiu como se o clima do local tivesse esfriado, costumava sentir isso antigamente na presença do garoto, mas calculava ser algo emocional ligado ao medo que tinha dele.

— Eu sinto muito. — A violacea cobriu os lábios como se fosse possível recuperar as palavras perdidas.

Ele merecia não? Olhe para tudo que ele fez? Para todos que ele destruiu? Porque ela se sentia como se fosse a vilã por ter dito tudo aquilo? Porque tanta vontade de voltar atrás e não ter dito? Não era só por Hawkmon, definitivamente. Talvez sua consciência estivesse pesada por ter se sentido tão bem ao lado dele, por querer com toda sua alma que ele fosse normal e que fossem mesmo um casal, por ter se divertido intensamente e sentir-se suja e traidora em relação a Izumi.

Estava decepcionada consigo mesma e desabafou até coisas que realmente não sentia, mesmo que devesse sentir. Agora esperava uma reação do garoto, trêmula e receosa de ter acabado com a vida de seu parceiro, talvez até a sua, mas ele mal se moveu, os olhos estavam fixos no chão, como se pudesse ver algo alí.

— É tão frio...— Ele murmurou oscilante, as palavras e o momento ecoavam em sua mente e as comparações foram inevitáveis, aquela cena já tinha acontecido semelhante em sua infância, as palavras e até o tabefe que levara em sua mão foi parecido, vindo de uma pessoa que ele queria esquecer, seu irmão Osamu.

“— O que pensa que está fazendo? — Osamu questiona seco ao pegar Ken abrindo sua gaveta.

— Isso… Eu...— Ele não tem como explicar e recebe um tabefe em sua mão.

— Nunca mais mexa nas minhas coisas. — Ordenou com rispidez o mais velho dos irmãos Ichijouji.

— Sinto muito.

— Hunf! Mexer em gavetas dos outros sem permissão, típico de pessoas desprezíveis!”

O desprezível ficou a ecoar na mente de Ken com as vozes de Osamu e de Miyako, era como se as lâminas do passado e presente o perfurasse mutuamente.

As palavras de Miyako sobre RESPEITO, sobre o que tinha com Koushiro, o que Hawkmon disse quando estavam na primeira base

“ Antes eu tinha ódio de você por pensar que estava se aproveitando da Miyako-chan, mas agora eu tenho PENA. Essa que está aí não é minha parceira e quando ela voltar ao normal vai te ODIAR em dobro e NUNCA VAI FICAR AO SEU LADO.”

“ O que os seus gráficos, códigos e tabelas não podem te ensinar é que amor é bem diferente de desejo sexual, atração carnal. Amor é algo que inclui afeto e principalmente respeito e eu não tenho um acréscimo de respeito por você.

Eu não tenho um acréscimo de RESPEITO por você…

Você nunca vai ter o meu amor… Nunca vai ter o meu amor… Nunca… Desprezível… “

Ken se afundava em uma escuridão gélida, sentia-se caindo no vazio. Estaria sempre sozinho, suas tentativas sempre seriam falhas? Era como se mais uma vez o mundo lhe virasse as costas e as novas feridas se abriram sobre as já existente mal cicatrizadas. Ele quase não podia sentir que Miyako estivesse alí consigo, não iria quebrar nada e nem gritar, não pensava em explodir Hawkmon ou em quaisquer tipos de tortura… Era como se pudesse ouvir um riso tenebroso de contentamento com sua desgraça, como se um Mar Negro começasse a emergir do chão .

Inoue estava petrificada esperando alguma atitude, não entendeu o que ele quis dizer com “está frio” mas era assustador que realmente estava ficando cada vez mais frio o local e ela se encontrava assustada, Kaiser quebrando tudo era assustador, mas previsível, mas naquele estado ela não sabia processar.

— Ken, o que? Eu não entendi.— Aquilo poderia ser traduzido como “me perdoe por favor eu estava zangada mais comigo mesma do que com você, vamos esquecer tudo?” mas o orgulho da herdeira do brasão do Amor, era tão grande quanto seu atrevimento.

— Vá para casa. — a ordem saiu morta em um tom fúnebre que a cortou assim que ouviu.

Pronto, era isso, ela tinha estragado tudo, poderia ter feito diferente mas conseguiu ser pior que ele, sentiu vontade de ficar e implorar, mas novamente seu ego falava mais alto, mais até que a vida de seu parceiro, talvez seu orgulho fosse um inimigo mais intimo e perigoso do que o próprio Kaiser.

E mesmo dando as costas e saindo por aquela porta, começando a caminhar pelos corredores escuros, uma confusão imensa começava a crescer dentro de si. Ela o tinha magoado? O inabalável Digimon Kaiser, tinha mesmo ficado magoado? Ela sabia que em partes era mesmo como ele, pois seu orgulho brindava aquele momento, aquele lado vingativo que jurou jamais perder uma oportunidade, estava soltando fogos de artifício dançando com a cabeça dele em uma bandeja de prata em memória a tudo de horrível que ele fez.

Oh sim, Inoue Miyako não é a protagonista honra e luz de coração inteiramente nobre, ela é humana demais, real demais para isso, ela deseja, sente luxúria, erra,é orgulhosa, odeia, tem sede de vingança e sente, sim, um delete ao ferir quem já a feriu. Quem em seu lugar seria mais nobre?

Em partes ela queria voltar, por Hawkmon, por Kaiser, por si mesma. O que estava fazendo indo embora e o deixando daquela forma? Nunca o vira assim antes, as palavras cruéis que ela disse realmente o afetou, e em seu âmago algo gritava para que voltasse e talvez… Só talvez ela devesse ficar. Aquele misto de sentir-se vingada, compadecida e culpada a estava enlouquecendo.

Ele a amava, ficou nítido que sim, mas ela não. Como poderia? O que faria com essa descoberta? Ele a amava, mas não sabia nem se amar, nem amar sua família. O que fazer com o amor de uma pessoa tão insana?

— Não Miyako, vá para casa. — disse para si mesma ao erguer o dispositivo digital em direção a tela do computador após digitar as coordenadas. — Vá para casa… Para casa…

Estou olhando para baixo agora que tudo acabou

Refletindo sobre todos os meus erros

Eu pensei que havia encontrado a estrada para algum lugar

Algum lugar na Sua graça

Eu clamei aos céus "me salve"

Mas o que me restou foi um último suspiro

E com ele, me deixe dizer

Me deixe dizer

Me segure agora

Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que

Talvez seis pés

Não sejam tão distantes assim

Me segure agora

Eu estou a seis passos do precipício e eu estou achando que

Talvez seis pés

Não sejam tão distantes assim.

Estou tão distante

Olhos tristes me seguem

Mas eu ainda acredito que tenha restado algo para mim

Então, por favor, venha ficar comigo

Porque eu ainda acredito que tenha restado algo para mim e para você

Para mim e para você

Para mim e para você