Inimigos Íntimos

45 Virando o jogo


POV Miyako

O que tinha acabado de acontecer aqui? Uma pergunta que eu sabia muito bem a resposta e estava assustada demais com ela. Eu disse bem mais do que precisava ser dito, fui longe demais, uma parte de mim comemora por me sentir vingada, mas a outra está me matando, meu coração está doendo, não tenho como negar e parada em frente ao monitor, prestes a atravessar o portal para o mundo real, me sinto como se eu estivesse abandonando o navio e deixando tudo ser inundado, quando poderia fazer algo.

Estou sendo covarde, confesso, mas não sei o que fazer com essa informação. Kaiser me ama, como assim ele realmente me ama? Como assim estou me sentindo a vilã, quando tudo que eu disse é a mais pura verdade? Não? É como deve ser e de nenhuma outra maneira, ele precisa saber bem o meu ponto, o limite é esse, meu corpo sim, mas meu coração nunca.

O que seria de mim? Kaiser não sabe amar, seu amor é controlador, manipulador e altamente nocivo, é metanfetamina pura que me deixa alucinada enquanto destrói meu cérebro e acaba com a minha vida. Eu preciso separar bem as coisas, ter pena dele não quer dizer respondê-lo em sua loucura e de tantas coisas que ele me tomou, meu coração é a uma das poucas que me restaram e jamais darei isso a ele.

Decido enfim abrir o portal e ir para casa, mas algo atinge meu D-3 e o lança para longe. Assustada procuro de onde veio o ataque e me deparo com Wormmon que arremessou uma de suas teias e me olhava com seriedade.

— Você não pode ir para casa e deixar as coisas assim. — foi direto ao ponto.

— Mas seu mestre me ordenou que fizesse isso. — me defendi sem muita convicção.

— Você sabe que ele não está bem, eu sinto muito, mas estava no corredor e acabei vendo tudo o que se passou.

— Então por isso esse olhar acusador? — coloco as mãos nos quadris. — Porque eu não me surpreendo, ele pode ser cruel, mas não pode levar um choque de realidade?

— Não estou te acusando de nada, Miyako-san. Não é porque continuo ao lado de Ken mesmo com seus maus tratos que vou exigir que você faça o mesmo, até porque você não conhece o verdadeiro Ken.

— Novamente com essa história de que ele era um bom menino e do nada virou o Coração Gelado, o Anakin virando Darth Vader o Siegfried possuído pelo Soul… Isso não é possível.

— Sei que você não acredita nas próprias palavras, aquele dia na antiga sala de controle você viu o brilho púrpura. — ele me encara sério e não consigo negar, pois na verdade me lembro claramente.

— Wormmon chega dessa história. O que eu menos preciso neste momento é me iludir que Ken é uma pessoa boa que de alguma forma precisa de ajuda.

— Não é ilusão, você também sente, eu sei.

— Eu sinto? O que eu sinto Wormmon?

— O poder das trevas. Há muito mais trevas entorno do Ken-chan do que podemos imaginar.

— O poder das trevas? O Digivice Negro?

— Vai além disso, Miyako-san. O frio, aquele frio que você sentia antigamente lembra? — me espanto com sua fala, como ele poderia saber que eu sentia frio na presença de Kaiser. — Não diga que não é verdade, posso ver pela sua expressão. Não pode deixá-lo sozinho, você tem sido minha única esperança desde que chegou aqui.

— Cheguei aqui e coisas horríveis aconteceram comigo e com as pessoas que eu amo.

— Só coisas horríveis aconteceram? — perguntou sagaz e eu travei sem saber o que responder.

O pior de tudo foi constatar que não, que eu me diverti algumas vezes, ri, passei bons momentos ao lado do meu inimigo negligenciando o fato das coisas horríveis que ele me fez e fez aos meus amigos.

Caminhei até a cadeira de Kaiser e me sentei na mesma, desanimado sobre mim mesma.

— E o que eu devo fazer? Uma sessão de descarrego? Encher a base de velas, incensos e chamar um exorcista?

— Até no sarcasmo vocês é igual.

— Me desculpe. O gambá é um animal que quando se sente ameaçado aciona uma glândula de odor insuportável que afasta os predadores, eu aciono o sarcasmo, é minha defesa involuntária. — dou um meio riso desanimado.

— Está se sentindo ameaçada agora? Não estou te jogando para o Skullgreymon, estou só pedindo que volte lá e corrija o que fez antes que ele saia daquele quarto e se tranque no laboratório para terminar o projeto Chimeramon.

Arregalo os olhos ao me lembrar daquela besta enorme e horrenda

— Eu vi um protótipo e foi bem assustador. — confesso sentindo meu corpo todo se arrepiar.

— A verdade é que você não tem consciência nenhuma do quanto distrai a cabeça do Ken-chan, essa disputa que ele criou em sua mente para ter sua atenção contra seus amigos, tem tomado todo seu tempo, mas se ele estiver zangado com você, vai se focar naquele projeto e todos estaremos em apuros.

— OK, Wormmon, é um belo argumento, mas eu não posso simplesmente voltar lá depois de tudo o que acabei de dizer a ele, eu nem quero fazer isso. — não vou negar eu estava envergonhada, não queria mesmo ter que encará-lo,fora o medo, eu conheço bem Kaiser, se eu chegar lá e ele estiver em meio a uma crise causada por mim, ele pode até me matar.

— Você está com medo do que mesmo, dele ou de si mesma?

— Não entendi.

— Entendeu sim.

— A verdade é que foi muito bem feito. Ken deve aprender a arcar com as consequências de seus erros, ele fez o que fez e agora quer que…

— Que você o ame?

Fico chocada quando ele completa minha frase.

— Isso não vai acontecer nem quando Numemons tomarem banho. Se ele está sofrendo, ótimo, esta colhendo o que plantou.

— Não se pode vencer o poder das trevas com maldade.

— Espera? Eu estou sendo má?

— Não, você está sendo covarde. Quer se proteger de se envolver ainda mais e por isso está negando ajuda a quem precisa e pior… Vai sair daqui e ir para sua casa sabendo que Chimeramon pode ser terminado e por sua culpa.

— Espera, o Ken é um lunático que quer destruir o mundo com uma chimera e eu sou a culpada? Tem tanta devoção a ele assim?

— Não vou voltar ao ponto de ele não estar em seu estado normal e você ser a única pessoa capaz de mudar isso. Se o Ken-chan é um lunático e você tem poder para detê-lo, mas prefere dar as costas, a culpa não é sua que é a ‘racional” da situação? Se proteger seus sentimentos e saborear uma vingança for mais importante então eu me enganei com você, deve mesmo pegar se D-3 e ir para o conforto da sua casa, enquanto o mundo desaba. Sobre minha devoção ao Ken-chan… Se eu não estivesse aqui aguentando firme, certamente as coisas já teriam piorado.

Dito isso ele saiu caminhando calmamente, suas patas pequenas fazendo ruídos no piso. Eu sei que ele tem razão, devo voltar lá, impedir o pior e tentar entender o que é esse poder das trevas e porque com o Ken.

— Wormmon… — sussurrei e ele parou prontamente. — Eu vou voltar lá, mas estou com medo. E se ele realmente não quiser me ver nesse momento.

— Ele gosta de você, essa é sua vantagem em campo, então jogue com as cartas certas. Eu te acompanho pelos corredores.

— Não seria melhor olhar nas câmeras de corredores se ele foi para o laboratório? — Eu já estava preocupado sobre a concretização do projeto bizarro.

— Verdade… — concorda Wormmon e comecei a digitar e abri contato com Monitamon para que ele me desse acesso às câmeras.

Nada, ele não estava em lugar nenhum, então supomos que ainda estava no quarto, poderia ser um bom sinal, melhor que ter ido para o tal laboratório. Recolhi meu D-3 do chão e deixei sobre a mesa de controles, seguindo com Wormmon pelos corredores, a cada passo sentia o ambiente mais gelado e quando paramos de frente com a porta eu estava trêmula, confesso que sentia muito medo, não sabia como ele estava, como seria recebida, ainda mais desobedecendo suas ordens, mas Wormmon tinha razão, o fato dele gostar de mim deveria ser tido como vantagem.

Com um aceno de cabeça agradeci ao pequeno esverdeado e toquei a maçaneta, meu coração batia tão forte que parecia que explodiria a caixa torácica. giro o objeto abrindo a porta e o gelo que sai do ambiente me dá a impressão de ter aberto um refrigerador . Fecho os olhos e peço forças a Kami, respirei fundo e entrei fechando-a em seguida.

O local estava completamente escuro, não era possível enxergar nada, tateei a parede a procura do interruptor o encontrando e acendendo a luz, mas a mesma estava estranha, fraca e com oscilações parecendo cena de filmes de terror sobrenatural.

Lá estava Ken, ajoelhado no chão, olhando fixamente para baixo, o rosto pálido e os olhos arregalados embaçados tão enevoados que não era possível ver as íris, os lábios sem cor, seu corpo estava trêmulo, as mãos caídas nas laterais do corpo, era como se sua alma estivesse sendo sugada por um buraco negro que só ele conseguia ver, mas o frio eu também sentia.

— Ken? — chamei baixo, mas ele pareceu não me ouvir e continuou como estava. — Ken? — repeti o chamado duas, três vezes mais, no entanto era como se ele não me ouvisse.

E a iluminação foi ficando cada vez mais fraca, agora eu conseguia ver a aura púrpura começando a emanar sobre sua cabeça, como naquele dia na sala de controles. Um medo insustentável dominou todo meu corpo, era como se eu estivesse diante dos meus maiores pesadelos e agora que estava parada, petrificada era eu… Fazia tanto frio, uma angústia crescia dentro de mim, como se algo quisesse me convencer de que a minha existência era um erro.

Eu não saberia mais dizer se aquilo era realidade ou fruto do meu medo, mas as luzes agora estavam prestes a se apagarem, o local estava gelado, uma névoa púrpura saia do chão e empestava o local.Milhares de pensamentos negativos começaram a invadir minha mente, como eu era inútil, como aquilo era minha culpa, como era ridículo que eu tenha vindo salvar o Ken e agora não tinha quem me salvasse.

O lustre piscou pela última vez e se apagou, eu não conseguia respirar, estava a poucos passos do Ken, mas sentia como se uma energia forte, maligna estivesse se apertando em torno do meu pescoço e aos poucos sugando minha vida, não respirava mais.

— Ken...— eu era uma piada mesmo. Minhas pálpebras se fecharam e meu corpo desabou para o vazio e durante a minha queda eu ouvi o bater de um coração e me lembrei do momento exato em que vi Hawkmon pela primeira vez, a sensação quente e acolhedora da nossa conexão, o símbolo que tinha desenhado naquele Digimental, eu senti aquela força, aquele mesmo poder e me lembrei.— Eu não sou inútil, não sou uma piada, sou a escolhida herdeira do amor e isso não me assusta, não tem poder sobre mim.

Quando eu disse essas palavras foi como se eu pudesse ouvir a voz do meu parceiro Digimon me incentivando “É isso aí menina” e nesse momento abri meus olhos e sob meus pés estava o mesmo símbolo que vi no Digimental de Hawkmon. Olha agora eu vou girar e evoluir! Ri com minha piada interna, eu não posso evoluir, mas tenho um brasão que me dá forças como dou forças a ele, que não me deixou a mercê desse tal poder da trevas.

Corri para fora do símbolo que ainda brilhava e me abaixei sacudindo Ken pelos ombros.

— Seja lá o que isso for, seja forte. Seja forte! — o abracei forte .— Volta, seja forte, não se deixe enganar, não se deixe levar.

— Miyako, a água é tão gelada, eu sinto tanto frio.— murmurou em um fio de voz, seu corpo parecia uma pedra de gelo.

— Eu sei, eu sei, vai ficar tudo bem. — apertei mais o abraço e senti uma energia quente nos envolvendo, olhei para trás e aquele símbolo que vi antes não estava mais lá., mas o ambiente estava aquecido e as luzes tremulavam e acenderam vivazes.— Vamos sair desse chão frio.

O ajudei a se levantar e puxei o edredom desfazendo a arrumação da cama abrindo espaço para que ele se deitasse e assim ele o fez. Eu estava totalmente perplexa com o que tinha acabado de acontecer, mas não sentia mais frio ou medo, a sensação era de ter acabado de vencer uma batalha. Observei Ken se encolhendo embaixo das cobertas murmurando palavras desconexas sobre mar, negro, frio, escuridão, era nítido que ainda não estava em seu estado normal.

— Shh! Vai ficar tudo bem, calma...— afago seus cabelos índigos, passo a mão pelo seu rosto pálido.

Ligo o abajur e me levanto para desligar a luz vinda do lustre, mas ele segura meu pulso.

— Não vá embora, você está tão quente.— sua voz foi tão baixa, suave, quase infantil e me cortou o coração lembrar das palavras que eu lhe disse antes.

— Eu não vou. Só vou desligar a luz.

Ele me soltou e assentiu, segui até o interruptor e desliguei a luz, voltei e me deitei ao seu lado e sem me pedir permissão ele se aconchegou em mim repousando a cabeça contra os meus seios e um misto de sentimentos me assolou, sentia-me culpada pelo que eu disse, sentia-me tola por sofrer com a culpa sendo ele a pessoa que era, mas quando me dei conta, meus dedos já corriam pelas madeixas escuras afagando-as.

— Você é tão quente. — ele murmurou com a voz afetada, antes de cair em uma crise de choro e pronto o meu mundo simplesmente veio a baixo.

Kami, tudo estava errado, tudo sempre é errado quando estamos juntos e nada faz o mínimo sentido. Como eu pude de repente me sentir o pior dos monstros? Novamente eu petrifiquei, o todo poderoso Digimon Kaiser se desmanchando em lágrimas nos meus braços por algo que eu disse? Era bizarro demais para ser verdade, mas era real e eu não sabia como lidar com aquilo e de forma alguma poderia retirar o que eu tinha dito e nem queria.

A única coisa que pude fazer foi acariciar seus cabelos e deixar que chorasse até adormecer, torturada, dividida entre uma compaixão que ele não merece, e uma realização profana. A verdade é que na nossa história eu sempre sofro, seja quando fui humilhada e tive minha vida destruída, seja ao ter que suportar o peso de dar a ele o que é merecido. Se ele me ama eu vou usar isso a meu favor, mas não vou brincar de namorada apaixonada, me quer? Vai ser nos meus termos.

Quando vejo que ele já está adormecido é minha vez de derramar-me em lágrimas. Para seguir em frente com a decisão que tomei, terei que ser forte e não me deixar dobrar por esse rosto de anjo, devo proteger meu coração e deixá-lo fora de alcance, vou tomar o máximo do seu tempo e de sua atenção, farei com que se esqueça de continuar o projeto Chimeramon, no momento essa é a única maneira que eu tenho de ajudar meus amigos a vencê-lo.

É isso mesmo, me tem sentimentos, ótimo, então serei eu o seu calcanhar de Aquiles, grandes impérios caíram por causa de uma mulher e tenha certeza de que o seu será apenas mais um. Eu sou uma idiota por me sentir mal por isso, mas é o certo a se fazer e assim eu farei.

(...)

Mal dormi naquela noite, estava empolgada e arrasada ao mesmo tempo, festejava minha vantagem contra meu inimigo, mas me sentia péssima por planejar tirar proveito dos sentimentos de alguém, ainda mais depois de presenciar aquele episódio de fragilidade e mesmo sentir a forma desesperada como Ken dormiu agarrado em mim, como se temesse que eu o deixasse sozinho, mas eu tinha que ser mais forte do que isso.

Me levanto e faço minha higiene matinal, observo Ken que ainda dorme profundamente, acaricio seus cabelos e selo um beijo em sua fronte, ele abre os olhos minimamente, fechando em seguida incomodado com a claridade.

— Você vai ficar bem? — Pergunto antes de sair do quarto.

— E isso importa pra você? — resmunga com a voz rouca de sono.

— É óbvio que importa, por isso eu fiquei, mesmo você tendo me mandado para casa.

— Estava com medo do que eu poderia fazer depois de você ter confessado seu desprezo por mim. — auto afirmou virando para o lado contrário e me dando as costas.— Vá tranquila, não vou fazer nada. Nossa relação se resume a isso, não é? Você teme o que posso fazer.

— Ken, estou atrasada para ir ao colégio, não posso discutir com você agora. Quando eu voltar…

— Não se dê ao trabalho.— murmurou tristemente.

— O que você quer dizer? — girei nos calcanhares e caminhei de volta aproximando-me da cama.

— O que você entendeu. Estou te dando sua sonhada liberdade.

Congelei sem saber o que responder, não podia ser sério, mas não havia sarcasmos algum, nenhum resquício de deboche, pelo contrário, a mágoa em seu tom de voz era quase palpável, mas que raios ele queria de mim, afinal? Que eu lhe declarasse amor eterno depois de tudo.

— Você não está falando sério. Você…

— Entendi bem cada palavra que você me disse, na verdade eu não te culpo. — ele sentou-se a cama, dobrando as pernas e abraçando os joelhos, não havia fragmentos daquela personalidade refratária. — Seria hipocrisia dizer que me arrependo de ter feito tudo o que fiz, afinal se as coisas não tivessem sido assim eu não te conheceria tão bem quanto agora . — deu um sorriso cabisbaixo. — Não tenho a mínima intenção de me desculpar, como seria o esperado, mas quero te compensar dando a boa notícia de que você não terá mais que sacrificar-se vindo me ver.

— Você está terminando comigo? — eu estava tentando segurar as lágrimas o máximo possível, mas… Mas...

— Podemos considerar assim? Não quero mais ter que te obrigar a ficar na minha presença, deve estar com alguém que você respeita.

Não pensei duas vezes antes de andar até ele e lhe acertar um tapa com todas as minhas força, minha magoa, revolta e indignação.

— O que você pensa que eu sou para entrar na minha vida, me tirar tudo, debochar de mim, me mostrar o fundo do poço e depois me jogar para fora como se eu não fosse nada, como seu eu fosse o rascunho de um projeto que não deu certo?

— Mas não é o que você quer? — seu tom ainda era brando, enquanto segurava o local onde o tapa acertou.— Vou te dar a cura para seu parceiro e voltaremos ao que era antes.

— Você não sabe nada sobre o que eu quero. — gritei ofendida, mas sabia que ele tinha toda razão, era o que eu queria desde sempre, não agora. Se eu me afastasse agora não poderia mantê-lo longe do projeto Chimeramon.

Cai em desespero sem saber em que me agarrar, não podia acabar assim, eu não passei por tudo isso para sair assim sem fazer nenhuma diferença.

— Eu realmente não entendo, acho que estou tentando fazer da maneira certa agora e mesmo assim você se zanga. O que você quer afinal? — era como se outra pessoa estivesse falando comigo, calmamente, de forma meiga embora acabrunhada.

Ótimo agora a histérica era eu, não sabia o que e nem como responder a isso e me vi sem alternativas e bem… Não queria ter que agir exatamente como ele fazia comigo, mas não vi outra alternativa, então me inclinei sobre ele e o beijei… Foi um golpe baixo, mas eu já perdi tudo mesmo, pensar em honestidade agora não pode ajudar em nada.

Quando separamos o beijo ele me olhou confuso e perdido.

— Então você...— cobri seus lábios com o indicador antes que ele falasse demais.

— Quando eu voltar nós conversamos, ok? — Antes que ele me desse qualquer resposta eu reforcei roubando mais um beijo e em seguida me soltei saindo correndo pelos corredores em direção a sala de controles e dessa vez abri o portal e fui para casa.

Quando me materializei no meu quarto Poromon voou para os meus braços.

— Miyako-chan. Que bom que você chegou, eu senti que estava em apuros e precisou da minha ajuda.

— E você me ajudou… Então aquilo aconteceu mesmo? — o acaricio o abraçando forte. — Obrigada Poromon, mesmo longe você me salvou, obrigada!

— Miyako-chan, não consigo respirar. — ouço sua fala abafada contra meu peito e o solto, o pobrezinho voa meio zonzo.

— Bakemon. — olho para o escravo de Kaiser que está em minha forma sentado na minha cama. — Alguma novidade?

— Motomiya Daisuke, deixou essa carta pra você embaixo da porta do apartamento. — Me entregou a carta ainda selada. — Ninguém mais sabe.

— Obrigada, pode ir para o seu mundo agora.— Abro o portal e ele se despede e atravessa já em sua forma normal.

Suspirei cansada e me sentei na cama, olhei para o relógio constatando que ainda era bem cedo. Poromon pousou do meu lado e ficou sério.

— Precisamos ter uma conversa séria, mas você pode abrir a carta primeiro, sei que deve estar curiosa.

— Estou mesmo. Uma carta embaixo da porta, que provinciano. — deu uma risadinha. — Em compensação uma carta não pode ser hackeada, às vezes o Daisuke me surpreende, entretanto, vou deixar isso para mais tarde, agora eu quero conversar com você. — Coloco a carta sobre a mesa do computador e encaro os grandes olhos azuis do meu parceiro Digimon.

— O que foi aquela energia que sentimos? — Perguntou curioso.

— Vamos comer alguma coisa, vou me arrumar para o colégio e conversamos no parque, o que você acha? — ele assentiu sabendo que eu tinha motivos para não querer conversar ali devido as câmeras que Kaiser escondeu pelo local.

E assim foi, me arrumei e comemos algo na cozinha, era tão cedo que minha familia ainda dormia tranquilamente e quando sai de casa as ruas ainda estavam calmas. Tinha colocado a carta de Daisuke na mochila. Andei até o parque e Poromon saiu da mochila se aconchegando no meu colo.

— Bom… Vou te contar tudo desde o início...— Já era tempo de ter essa conversa com Poromon, tirando detalhes ‘constrangedores”.O que me surpreendeu em tudo foi a forma natural com que ele encarou cada palavra dita, como se eu estivesse revelando o óbvio. — E agora eu sei que Kaiser está realmente apaixonado por mim.

— Isso não é nenhuma novidade. — declara normalmente e faço uma expressão engraçada. Como assim ele já sabia?. — E quanto a você. O que sente em relação a ele?

— Como eu me sinto? Ele te prendeu, torturou, me destruiu e…

— Não foi isso que eu perguntei. Não é sobre o que ele fez, mas sobre como você se sente, agora no presente? — enfatizou a palavra presente.

— Sinto que tenho uma vantagem com o inimigo, que encontrei uma brecha em suas barreiras.

— É só isso que você sente? — pressionou-me com seriedade.

— Na verdade, mesmo com tudo que ele fez eu também sinto pena, é uma criatura confusa e afundada em solidão, em trevas e talvez eu possa ajudar, mas preciso saber sobre seu passado, Wormmon jura que antes ele era um garoto doce, além disso existe algo estranho, uma aura púrpura… Mas se eu pesquisar qualquer coisa a seu respeito ele vai saber.

— Deixa eu ver se entendi. Existe um mistério por trás da atitude insana de Kaiser? Como se alguma coisa ou alguém afetasse seu comportamento?

— Sim, eu demorei para acreditar, mas hoje ele era uma pessoa tão diferente, como Wormmon descreveu.

— E o que você pretende fazer com tudo isso?

— Poromon, eu quero ajudar meus amigos, então vou tomar o máximo de atenção que posso, agora que descobri sobre os sentimentos dele, vou tentar evitar que ele desenvolva o projeto Chimeramon, mas também vou investigar a fundo o que aconteceu que o fez mudar. Eu ainda não sei como.

— Você vai jogar com Kaiser? Sabe o risco que está correndo?

— E o que mais pode me acontecer?

Ele voou para um galho onde os raios de sol já alcançavam, não respondeu nada, mas deixou claro sua desaprovação. Sei que ele pensa que amor é coisa séria até vindo de um ser vil como Kaiser e que não devo brincar com isso, mas quero ignorar, não vou voltar atrás, esse amor será sua ruína, depois que ele perder o manto pode até ficar mais fácil de ajudá-lo.

— Suas idéias estão confusas e seu plano não faz sentido. — meu parceiro murmurou inconformado. — Vai se ferir se continuar neste caminho.

Ignoro sua opinião e tiro a carta de Daisuke da mochila, começando a ler e…. Meu Kami!