Inimigos Íntimos

50 Filosofia Kaiseriana de vida


POV Kaiser

Acordei subitamente, sentindo minha boca seca e minha garganta arranhando, como não estou respirando bem pelo nariz isso resseca meus lábios os deixando levemente feridos, e me provoca uma grande sede.

Ligo o abajur e procuro pelo jarro de água, me servindo, sentindo alivio enquanto o liquido frio passa pela garganta. Lembro-me de Miyako e a procuro com o olhar, mas não a encontro e um desespero começa a me assolar. Teria sido um sonho?

Como se respondesse aos meus questionamentos a porta se abre revelando Inoue, trazendo uma bandeja. Ela apoia o objeto na curvatura de sua cintura e liga o interruptor acendendo a luz.

— Hm! Finalmente acordou. Como se sente? — a pergunta vem acompanhada de um sorriso luminescente, acolhedor, já é o suficiente para meu coração disparar desmedidamente.

— Fraco, dolorido… — encolho as pernas dando espaço para ela se sentar. — Quanto tempo eu dormi? — observo seus movimentos se passando como em câmera lenta. É tão maravilhoso que ela esteja mesmo de volta.

— Não mais que oito horas desde que nos falamos. Bem… Eu te acordei algumas vezes para te dar medicamentos, mas você parecia sonâmbulo.— informou sentando-se ao meu lado e colocando a bandeja na cama.

— Eu não me lembro.— expresso-me desarranjado.

— Imaginei. — colocou algumas mechas do meu cabelo para trás das minhas orelhas. — Eu ia mesmo te acordar para você comer algo.— seu toque desce para minhas bochechas por onde seus polegares traçam círculos imaginários, seus âmbares reluzem tão próximos, sua voz soa serena, seu contato é quente e suave.

O fato de ter padecido tanto em sua ausência, deixa a emoção de tê-la de volta proeminente em minhas em meu âmago, tanto não transbordar em lágrimas, como um miserável.

— A aparência é boa...— olho para bela tigela de curry, realmente parece apetitoso. — Pena que não consigo sentir o aroma.— me lamento amargurado por ser verdade, mas ela abre um sorriso divertido.

— Ow! Pobrezinho...— faz uma voz infantil. — Mas o gosto você pode sentir e, modéstia a parte, ficou muito gostoso, não é Wormmon? — inteira-se com a terceira presença que eu não havia percebido.

— É mesmo, Ken-chan. A comida feita pela Miyako-san é muito boa. — a resposta vem com disposição.

— WORMMON? Desde quando está aqui? — não escondo meu sobressalto. Não é bom para minha autoridade que meus escravos me vejam sendo tratado assim.

— Entrei junto com a Miyako-san. — a lagarta tem o desgarre de responder.

— Pois então desinfeta daqui! — ordeno virando o rosto para direção oposta a dele, sentindo minhas bochechas formigarem, minha imagem chafurdada na lama.

— Ken, ele só está preocupado com você. Devia ser mais carinhoso e agradecido, se não fosse por ele ter me trazido aqui nem sei o que seria de ti. — Miyako interveio a favor dele.

— Então ele te mandou as coordenadas?

— Sim.

— Bom trabalho. — é a única coisa que me limito a dizer e o vejo dilatar as pupilas brilhantes. — Agora vai procurar o que fazer.— gesticulo com uma das mãos, para que deixe o quarto.

— Sim, sim eu já estou indo! Estou tão feliz que você esteja bem. — bajula-me como de costume.

— Err “mimimi”. Vai rápido! — arremesso um travesseiro em sua direção, se deixar é capaz dele querer vir me lamber igual um animal de estimação. O travesseiro quase o acertou, mas ele sai correndo porta a fora

— Ah Ken! — Miyako ria feito uma hiena. — Você é mais que um velho de noventa anos. Agora come.— não pude conter um meio riso.

— Sabe que gripe não me impede de comer sozinho, não é? —

— Eu sei, mas se vou cuidar de você, que seja nos meus termos. — sorri provocativa. — Sei que você adora essa frase”abra a boca”

A verdade era que eu estava feliz demais por tê-la ali comigo para questionar suas loucuras e provocações. A verdade era que eu consegui sentir o gosto da comida, que estava muito boa, minha garganta ainda parecia estar muito inflamada, mas consegui me alimentar.

— Hm! Comeu muito bem.— Elogia como se eu fosse criança, reviro os olhos enquanto ela debocha da situação. — Agora tem que beber o suco. Fiz cheio de vitamina C, vai ajudar a combater a gripe.

Pego o copo de sua mão e ela continua falando tudo o que colocou no suco, mas até que estava saboroso.

— E você, já comeu ? — questiono.

— Ainda não, mas vou comer, porque minha barriga já está colando nas costas. — passa a mão em círculos sobre o ventre.

— Deveria ter se alimentado antes.— adverti.

— Primeiro os enfermos.— revidou audaz, traquina como sempre.

— Não tem graça. — me levanto para ir escovar os dentes e ainda me sinto muito fraco, entontecido, preciso me recompor e respirar fundo para não cair.

— Cuidado. — ela coloca a bandeja sobre a cama me amparando. — ficou muito tempo sem comer e deitado.— justifica compreensiva, cuidadosa com meu orgulho e eu sinto isso.

— Não precisa se preocupar, vá comer, eu posso andar.— afirmei um pouco zonzo.

— Certo. Vou na cozinha me servir e já volto. — anunciou recolhendo a bandeja e saindo.

Sinto uma sensação calorosa que sua presença traz, inundando todo o local como se tudo pertencesse a ela. Suspiro aliviado por não ter mais que suportar a dor de estar longe de Miyako.

Sigo para o banheiro e escovo os dentes, dou um alívio para minha bexiga e decido tomar um banho, creio que isso me fará sentir melhor.

(...)

Acabei voltando para a cama após sair do banho e adormeci novamente, sendo acordado mais tarde por Miyako que me deu o medicamento, depois disso não consegui dormir mais.

Ela estava ao meu lado, as costas aconchegadas em dois ou três travesseiros, livros sobre seu colo e um em suas mãos, o qual ela estudava atentamente a luz do abajur que ficava do seu lado da cama.

— Não vai dormir mais? — parou a leitura olhando para mim.

— Ainda me sinto cansado, mas não consigo dormir.

— Quer alguma coisa? O notebook para ver algum filme, ouvir música? Ah, esqueci com quem estou falando.

— Não quero nada, só ficar te olhando para mim está bom.

— Não vou conseguir me concentrar com você me encarando assim. — ela fechou os livros, os colocando sobre o criado mudo e pondo um dos travesseiros sobre o colo, dando leves tapas em forma de convite para que eu me deitasse. — Então vamos conversar um pouco, vem aqui.

Não pensei duas vezes, só quando estávamos na segunda base ela costumava me pedir isso, me questiono se mais memórias dessa época estão voltando, bem que eu gostaria que ela se lembrasse de tudo que vivemos naqueles trinta dias, mas isso poderia trazer de volta os traumas que a deixaram em pânico também, então prefiro que as coisas continuem como estão.

Me aconcheguei no conforto do seu colo, enquanto ela corria as mãos pelos meus cabelos, vez ou outra suas unhas atritam-se suavemente pelo couro cabeludo, causando uma carícia agradável e relaxante.

— Então… Onde você conseguiu todos esses remédios e como sabe quais devo usar? — sondei curioso.

— Ah? Sabia que essa pergunta seria feita. Então… Eu te levei ao médico. — revelou com toda naturalidade e eu me levantei na hora, olhando-a com incredulidade.

— Você só pode estar de brincadeira! — grande foi minha estupefação.

— Não, não… Quando cheguei aqui você estava ardendo em febre, te levei para um banho de água morna, fiz compressas, mas como você estava há tempos sem comer eu fiquei receosa de te dar um antitérmico. Não tive outra escolha, liguei para um clínico geral, amigo meu e marquei uma consulta urgente.— explicou-se frugalmente.

— Você não fez isso! — em minha mente era inconcebível.— mas como? E depois?

— Ah, eu fiz sim.— sorriu aureolando-se.— Bakemon foi até o consultório dele se passando por mim, levou meu notebook e quando chegou ao local, ele mandou coordenadas, eu abri o portal, te dei apoio e você estava delirando e tremendo, mas conseguia andar.

— Então o médico viu uma “Inoue” com um notebook e de dentro dele saiu outra Inoue comigo doente?

— Bingo! — estalou os dedos frente ao meu rosto.

— E o que ele disse? O que fez? Não gritou, nem desmaiou, não pensou que ficou maluco?

— Nop. Tem um detalhe, ele é, Kido Shin, irmão do Joe, portanto já tem conhecimento sobre o Mundo Digital e sobre os Digimons, até sobre você e toda essa coisa de Digimon Kaiser. — Esclareceu.

— Essa coisa de Digimon Kaiser? — balancei a cabeça negativamente. — Ele não quis chamar o irmão, seus amigos, ligar para os meus pais? — continuei a interpelar.

— No mesmo instante, mas eu não deixei. Primeiro pelo sigilo entre médico e paciente, depois ameacei usar o Bakemon para assombrar o local. — arqueou as sobrancelhas, divertida.

— Você não fez isso. — ri pelo nariz, desenhando a cena em minha mente. — Não entendo, você teve a chance de vencer, acabar com tudo. Eu estava debilitado no mundo real, era só chamar meus pais, pegar meu D-3.

— Confesso que fiquei muito tentada. — a troça era eminente em seu tom de voz.

— E porque não fez? — Inquiri prontamente.

— Porque Wormmon confiou em mim para te ajudar, eu não poderia fazer isso com ele, e…

— Se você fizesse isso seria igual a mim e não a heroína da trama, herdeira do brasão do Amor e blablabla… — pressupus continuando sua fala.

— Estou pouco me importando com essas besteiras, não estou aqui para engrandecer meu ego sendo heroína. Não fiz isso porque… Eu quero mesmo que você volte comigo para o mundo real, mas por vontade própria e não forçado.— essa declaração desarmou-se completamente.

Deito-me novamente em seu colo e ela volta a acariciar meus cabelos. Não respondo nada sobre o que ela disse, não posso voltar para aquele mundo, mas que ela me peça muito.

— Então o que aconteceu depois? — prossegui com o interrogatório.

— Depois? Ele te examinou, te aplicou soro na veia e fez outros procedimentos. O coitado ficou muito aborrecido de não poder ligar para os seus pais, mas entendeu o meu lado.— concluiu por fim.

— Ele passou todos esses remédios, como pagou por ele? Como pagou a consulta? — na verdade eu já sabia a resposta e me sentia desconfortável.

— Eu já mencionei uma vez que tenho dinheiro guardado da época que eu trabalhava na loja dos meus pais?

— Você não-

— Pois sim, mas não se preocupe, a consulta, Shin-kun, não me deixou pagar e os remédios não saíram tão caros, então pode ficar tranquilo.

— Vou te devolver tudo, é certo que sim. Uma coisa… Se os seus amigos ficarem sabendo do ocorrido, vão te odiar. Você teve uma grande chance.— apontei o óbvio.

— Se me odiarem por eu não ter me aproveitado de uma pessoa doente, não são dignos de serem meus amigos. — a frase soa como as de um dorama clichê.

— Ainda não posso acreditar nisso! — exclamo ainda incrédulo com tudo o que ela me contou.

— Pois acredite. Isso traz à tona um ponto muito importante, Ken. Ninguém é uma ilha. Você precisou de um médico, precisou de mim para chegar a ele e está precisando agora… — embora parecesse uma bronca, seu tom era calmo e as mãos continuavam a brincar pelos meus cabelos.— Se vencer essa guerra e fechar o portal para sempre, o que vai acontecer quando adoecer novamente? — astuta não perdeu a oportunidade de fazer tal apontamento.

— É um ponto a ser bem trabalhado — é a única coisa que posso dizer no momento e dói admitir que ela tem razão.

— Parece tolo, mas, uma gripe pode se tornar pneumonia, uma febre alta pode levar a convulsões. Quando cheguei aqui você estava embaixo de cobertores, vestindo um sobretudo grosso. Digimons não sabem lidar com doenças humanas.— insiste no mesmo ponto e eu lamento não ter como pular o assunto.

— O que muito me intriga, uma vez que todo tipo de doenças e formas de serem tratadas estão na rede, em banco de dados. O que eu quero dizer é que, esse mundo foi criado como um espelho do nosso, veja as frutas, a vegetação, a brisa, formações rochosas, as cidades e habitações…

— Não temos certeza disso, Ken. E se esse mundo veio antes?

— Isso não é possível, é digital? O ser humano teve conhecimento sobre tecnologia virtual não faz muito tempo.Pelas minhas pesquisas esse mundo é reflexo do nosso.

— Você mesmo disse uma vez que existem muitos portais que levam a outras dimensões, dentro do Mundo Digital.

— E existem, mas nas poucas dimensões que explorei não haviam humanos e sim seres que nem sei dizer se são Digimons, mas eu entendo o seu ponto, que a tecnologia desse lugar seja espelho de alguma civilização mais antiga do que a da nossa dimensão, o que nos leva ao ponto inicial da nossa discussão; até onde os monstros digitais tem conhecimento sobre a humanidade? Isso inclui nossas doenças, filosofia, religião, como nos reproduzimos…

— Isso me deixa com muita vontade pesquisar mais, entrar em uma investigação assídua.Sabe… O Poromon se alimenta, defeca e precisa de banho, uma vez já conversamos sobre religião e falamos sobre deuses, ele me contou que aqui no Mundo Digital existem deuses. Fora que ele adora saber sobre interação e socialização humana e é bem formador de opinião, as vezes até me afronta.

— Está dizendo que seu Digimon tem toda uma consciência religiosa e filosófica, além se seu corpo trabalhar como o de um anima. Desculpe ter que dizer isso, mas deu vontade abrir o corpo dele e estudar como trabalham os órgãos. — abro um sorriso maléfico.

— Sem chance! — me desfere um peteleco na testa. — Eu arranco o seu...— cubro sua boca.

— Eu queria saber se um Digimon morrer no mundo real se ele vira dados?

— Sim, ouvi relatos dos veteranos. Ah anos atrás quando eles lutaram contra inimigos que foram para o nosso mundo, quando esses eram derrotados se tornavam dados. O que eu queria saber, é; se morrermos no Mundo Digital, nos tornamos dados?

— Boa pergunta!Tem muitas coisas a serem descobertas, se você se preocupa tanto que eu fique aqui sozinho, então fique comigo, vamos descobrir tudo juntos? — não deixo passar a oportunidade.

— E a minha família? Minha vida, meus sonhos para o futuro? Você percebe quantos furos existem nos seus planos? — tentei argumentar, mas ela me impediu.— Não negue, você sabe que estou falando a verdade. Você diz que era para existir conhecimentos sobre medicina humana aqui devido aos dados jogados na rede, isso na teoria é verdade, mas na prática seus escravos estavam perdidos sem saber o que fazer com você. Porque eles não são dados programados, são seres vivos.

— Eu não sei… — certo, muitas coisas deveriam ser repensadas com mais cautela, mas não quis admitir.— Queria que pudéssemos ficar aqui, reprogramamos esse mundo ao nosso gosto. Existe um mar de possibilidades. Queria ser o suficiente pra te deixar feliz, fazer com que não sentisse falta de mais nada.

— Sabe o quanto é infantil dizer isso? — responde espontânea, mas sem ira.

— Chame do que quiser, egoísta, infantil, doentio, mas a realidade é assim que eu me sinto. Se eu fosse mais importante pra você, não sentiria falta deles.— confesso e a sinto se afetar.

— E seria uma ingrata que deixaria meus pais, meus irmãos e amigos preocupados.— sussurra ajeitando os óculos que escorregaram para a ponta do nariz.

— É assim que você me vê? Como o monstro que deixa os pais preocupados e perdidos.

— É como uma pessoa me disse uma vez… Se você não disser nada em sua defesa, minha mente fica livre para julgar. Não que seja o certo, mas é natural, seria hipocrisia se eu dissesse que não julgo. Então me deixa saber o seu lado.— ponto para ela.

Uma das muitas coisas que admiro em Miyako é essa capacidade de ter as respostas imediatas e incisivas.

— É uma longa história, exaustiva e normalmente me deixa muito mal. Não quero me sentir para baixo agora. Estou feliz que esteja aqui comigo, quero apreciar sua companhia, desfrutar dos seus cuidados. Outra hora. — confidencio sinceramente, com um leve acariciar sobre o dorso de sua mão.

— Eu preciso saber, Ken, porque essa fuga, essa necessidade de criar um mundo à sua maneira, mas eu te espero. Vou estar aqui quando quiser tirar isso do seu peito.— assegura com firmeza em sua fala e expressões faciais.

Gravo suas palavras, mas deixo o assunto findar, por hora não quero dores. Um silêncio confortável se inicia, quero permanecer em seu colo, mas me conscientizo de que estudar para o teste é importante para ela, então aproveitou suas carícias um pouco mais e volto para o meu travesseiro, virando-me para direção oposta. Não tenho sono, mas posso ficar quieto desfrutando de sua presença.

Como pode um momento tão simples, medíocre, ter um peso tão grande dentro de mim? Sua afabilidade e calidez entram pelos meus poros e me tocam de uma forma que não sei como definir ao mesmo tempo me faz repensar todos os meus projetos.

Se eu vencer essa guerra não posso obrigá-la a ficar aqui comigo, mas se eu não fechar os portais para sempre, tem chances de algum digiescolhido voltar para me afrontar, o que significa que eu mesmo estarei dando adeus a ela, adeus ao que temos.

Agora minhas escolhas irão definir todo meu futuro, o nosso futuro… Mas se eu não vencer esse combate, o que eu terei? Não posso voltar para aquele lugar, para aquelas pessoas, além de ter que suportá-las, teria que responder suas dúvidas e ser julgado e especulado de diversas maneiras.

Voltar para o mundo real ou dar adeus a Miyako novamente, será mesmo essas as minhas únicas opções? Nunca imaginei que um dia eu chegaria a cogitar a possibilidade de voltar para aquele mundo podre e suportar aquelas pessoas odiosas, mas também não sei se posso viver uma existência sem ela.

Me perdi em questionamentos sem chegar a resposta alguma e quando percebi Miyako já estava me chamando.

— Hora do remédio! — me entrega um copo com água e o comprimido. — Vou na cozinha buscar um lanche para nós.

Ela saiu me deixando ali imaginando o grau da minha dependência e não me refiro a esse dia, a estar doente, mas como preciso tê-la por perto, como sinto falta dela agindo como se fosse dona de tudo.

Fico sentado na cama observando a pilha de livros que ela estava estudando, sobre eles uma lupa para identificar palavras muito pequenas, um marcador de texto e um bloco de notas. Como já consigo respirar um pouco melhor, já sinto seu cheiro doce pelo local.

Não demora muito para que ela volte com a bandeja de lanche.

— Vegiemon trouxe umas ervas maravilhosa, eficazes para medicar e muito saborosas, o chá está uma delícia.— informa apoiando a bandeja na curvatura da cintura e acendendo a luz. — Sinceramente, existem tantas coisas avançadas nessa base, mas um comando de voz seria bom, não acha?

— Um comando de voz? — considerei a sugestão.

— É, um computador que faz tudo quando solicitado, sabe tipo a Gideon do DC Legend Of Tomorrow? — reviro os olhos sem saber do que ela está falando. — O Jarvis do Iron Man? — comprimo os lábios sem a mínima idéia do que ela está falando. — Aff, esquece as comparações, o que eu quero dizer é que, você poderia ter um computador com comando de voz, ajudaria em coisas simples como acender e apagar luzes, abrir conexão com qualquer um… Ah, esquece, vamos comer!

— Você e suas obras de ficção. — rio pelo nariz,mas fico pensando na possibilidade. Porque isso nunca me ocorreu? — Espera? Você disse que Vegiemon trouxe as ervas? — noto então o quão séria foi essa informação.

— Sim, foi o que eu disse.

— Miyako você fez um comandante de auto posto abandonar sua guarda nas regiões geladas para procurar ervas medicinais? Está me sabotando?

— Ah isso? Pois é...— ela coça a nuca dando um riso constrangido. — É que eu pedi os Monitamons para procurarem um dos seus escravos que você tipo planta para me ajudar com isso, ele foi o primeiro no banco de dados.— sorriu sapeca.

— Porque ele é forte e sabe recrutar soldados e não por ser curandeiro.— ralhei me sentindo subtraído.

— Não precisa fazer drama, ele já voltou para o seu posto. Bom, por pouco tempo, pois logo meus amigos e eu o libertaremos e aquel-

Ela se detém quando vê que estou olhando-a com os olhos semicerrados e cenho franzido.

— Err… Melhor tomarmos o chá, senão ele vai esfriar. — da uma risadinha sem graça, como uma criança depois de ser pega numa travessura.

Essa é a Miyako, como eu disse, ela age como se tudo fosse dela, chega e domina, faz com que meus escravos a obedeça sem questionar e pior, eles ainda gostam dela. Ela não sabe o quanto nasceu para ser rainha, mas não é este o seu desejo.

Aquele dia foi assim, entre crises de tosses, espirros, remédios de hora em hora, um assunto ou outro. Aquela gripe foi violenta, me derrubou fortemente, mas os cuidados que recebi foram compensadores.

Já tínhamos jantado e eu já estava de banho tomado e aconchegando debaixo do edredom, o efeito dos medicamentos me deixava com sono, mas queria esperar por ela.

Inoue saiu do banheiro, envolvida na toalha e com outra enrolada nos cabelos, andou pelo quarto procurando o secador e sentou-se no futon ligando o aparelho, retirando a peça e começando a secar e pentear os longos cabelos lilases, enquanto cantarolava.

Quando terminou de secar os cabelos, seguiu em direção a sua mochila e pegou alguns pertences, sentou-se novamente, cortou, limpou e lixou as unhas das mãos e dos pés, não as pintou, pois em nosso colégio não é permitido, passou apenas base e ficou esperando secar.

Fiquei observando seus movimentos, até quando limpou e organizou tudo, ainda envolta pela toalha, caminhou até a segunda gaveta e escolheu um pijama cor pêssego, com desenho de panda que eu bem conheço. Alcança seu hidratante corporal sobre a penteadeira e senta-se no futon novamente, livrando-se da toalha ficando apenas de calcinha, começando a espalhar o produto pela pele.

— Hmm! Isso é provocação. — não me contenho em pentelhar e ela olha de sobressalto, mas não tenta se cobrir.

— Pensei que já estivesse dormindo.

— Não, você é muito barulhenta, não consigo adormecer.— minha implicância é intencional.

— Imagine que isso sou eu tentando ser silenciosa. — responde continuando a passar o creme corporal, brincadeiras à parte isso realmente é uma provocação, mesmo natural.

— Vai demorar muito ainda?

— Já terminei. — avisa vestindo o pijama e apagando as luzes, desligo o abajur e ela se deita deixando a luminária que está no seu lado do criado mudo, em meia luz. — Pronto, agora podemos dormir.

Nos deitamos de lado na cama, ficando de frente um para o outro, mas mantendo certa distância, pois cada cinco minutos tenho uma maldita crise de tosses… Exagero, agora melhorei bastante, mas ainda sim.

— Até que enfim. — a importuno propositalmente.

— Rabugento. — retruca-me de imediato.

— Hiperativa. — continuo a inquieta-la, divertindo-me..

— Você está uma gracinha com esse nariz de palhaço. — zombeteira, mostra a língua.

— Nem está assim tão vermelho. — defendo-me, mas sei que está sim.

— Isso é injusto. — lamentou-se em tom infantil, fazendo bico.

— Ter que perder tanto tempo comigo?

— Não, seu chato! — deslizou o indicador desde a minha fronte até a ponta do nariz, me fazendo virar abruptamente o rosto, com a cócega que me causou. — Não poder te beijar. — apertou meu lábios com os dedos. — Estou com saudades da sua boca.

— Desculpe.Também queria te beijar, mas se você ficar gripada, vai ter problemas com seus testes durante a semana e vai ficar em casa, longe de mim. — enlaço nossas mãos e olho em seus olhos, é irônico estarmos assim na mesma cama, tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo.

— Eu sei, mas quando você melhorar eu vou te beijar tanto que vou sugar sua alma.— creio que essa declaração dela tenha sido a melhor frase que ouvi hoje.

— É uma ameaça ou uma promessa? — abro um sorriso sugestivo.

— Melhora logo e vem descobrir.— me parece que fui intimado.

Sorrimos juntos, trouxe sua mão aos meus lábios, beijando-lhe o dorso e ela repetiu o ato, brincamos acariciando nossas palmas e dedos uns com os outros e era possível sentir o poder da nossa química, a eletricidade que passava de um corpo para o outro… Como nós chegamos tão longe assim?

Tão irônico como sempre, estamos tão perto e tão longe ao mesmo tempo, não me refiro somente a esse momento, mas num todo… No geral, vai depender de muitas escolhas, passos calculados e ponderados para que talvez fiquemos juntos.

E como na noite anterior ela solta minha mão e vira-se em direção oposta, coloca seu óculos sobre o criado mudo e me olha, dessa vez não é preciso que ela me pessa, a abraço e ficamos “de conchinha”, mais uma vez posso adormecer sentindo seu calor, consciente de que cada escolha que eu fizer definirá o nosso destino juntos.