Inimigos Íntimos
51 Contatos
POV Miyako
A semana de testes se iniciou; os alunos da minha escola estavam em polvoroso, preocupados com suas notas, mas eu… eu estava distraída, preocupada com outra coisa, outra pessoa na verdade.
Estava feliz por voltar a ter contato com o inimigo, travando um conflito interno contra várias de mim mesma que pareciam ter um debate dentro de minha mente. Algumas partes alegavam que ela só estava feliz porque agora poderia seguir em frente com o plano de distraí-lo, outras insistiam que ele me faz uma falta porque, no fundo, lhe tenho mesmo um imenso carinho e preocupação.
Enfim, seja como for o melhor mesmo era cuidar dele nesse momento de fraqueza; se por um lado eu poderia estar o fortalecendo para que crie logo sua besta e nos derrote, por outro, jamais poderia deixá-lo morrendo sem ajuda alguma, mesmo que muitas vezes o maldito tenha feito por merecer, meu coração não permitiria.
Sendo assim, cuidei dele a semana toda praticamente. Sem Digitamamon, precisava de alguém para cozinhar e como passo maior parte do dia no colégio, deixei almoço pronto congelado, cujo o único trabalho que Gotsumon teria seria aquecer e colocar no prato.
As noites eu passei ao seu lado; estudava até certa hora e adormecia. Nessa semana, devido aos testes, não fomos em missão para libertar territórios. Sexta feira, após as aulas, fui para a depilação com Momoe; ela insistiu em conversar sobre o desaparecimento do meu “namorado”, mais uma vez reforçando que se eu soubesse de alguma coisa era pra procurar a polícia que era importante. Pois é, imagina a minha cara?
Essas são as situações que Ichijouji Ken me obriga a passar! Em casa sou a coitada que está passando por crise devido ao desaparecimento do namorado. Na escola é a mesma coisa, exceto algumas meninas que me chamam de fria por continuar frequentando as aulas; nem preciso lembrar que Hino está entre essas, atualmente ela parou de me atormentar, pois sabe que se fizer isso vai ter problemas com o restante dos alunos…
Não parando por aí, repórteres ainda tentam falar comigo, pessoas tiram fotos minhas sem permissão para postarem em redes sociais e bem… Sei que a polícia me vigia; especificamente, sei que o Sr.Ichijouji está de olho nas minhas atividades, ele parece sentir que sei muito mais do que estou revelando.
Além disso, meus amigos me veem como uma vítima de Kaiser, a molestada, abusada, não sei bem como definir, mas vejo a compaixão nos olhos deles, os que não enxergam assim, veem como uma coitada que foi seduzida.
O que eu penso de tudo isso? Não tenho mais dúvidas de que ele goste de mim, é verdade, odeio ser vista como a vítima, a coitada, posso já ter sido, mas isso mudou e estou em contato com ele por opção e não persuasão. Porém… Como explicar tal coisa?
Como encaro os meus amigos de frente e digo minha posição nessa história, se nem sei bem como nomear isso. Se não sou a boba apaixonada pelo vilão e não sou a vítima, como vou me descrever? Como a estrategista que quer usar do amor dele para atrasá-lo em campo? Sinto que não estou preparada para isso.
Durante toda semana tive que ouvir Poromon perguntando se Ichijouji já estava bem, se tinha se recuperado, quanto tempo demoraria para se recuperar. Me olhando daquela forma, não me julgando, mas querendo que eu admita algo que eu nem sei se existe.
Desde quinta feira, estava me sentindo estressada; essa confusão foi tão grande que me esqueci do meu período menstrual e mesmo com as dores de cabeça, inchaço e dores musculares, só me dei conta no sábado de manhã quando meu fluxo desceu.
Então sábado decidi tirar o fim de semana só pra mim, ficar de pijama o dia todo da cama pro sofá do sofá pra cama; Ken já estava melhor e bem podia se virar sozinho, além de que nós já brigamos por qualquer motivo e quando estou assim sei que fico insuportável, portanto procuro ficar quieta no meu canto.
Entretanto, deveria ser umas dezenove horas quando ele me enviou uma mensagem:
“O que houve com você, sei que ontem foi para depilação, mas hoje você não vem? Porque?
Digimon Kaiser”
Li e suspirei profundamente, não queria ter que contar, mas se eu não dissesse a verdade ele ia fazer o maior drama, então fui bem sincera, mesmo constrangida.
“Você não vai me querer por perto esse final de semana! Estou naquele período do mês, acredite quando digo que sou péssima companhia é melhor me deixar sozinha com minhas músicas, filmes e chocolates.
Inoue Miyako”
Depois disso esperei que ele respondesse um “Ok”, mas não foi bem assim.
“Pode vir mesmo estressada, cuido de você como fez comigo.
Digimon Kaiser”
Pensei por alguns momentos; na real, é bem desconfortável ficar dessa forma fora de casa, mas também queria saber o que ele quer dizer com “cuidar de mim”. A semana foi tão cansativa, eu estava tão destruída e na verdade… Eu queria mesmo ir ficar com ele.
“Certo, responsabilidade sua. Sabe que o plano manter distância, continua em vigor, não é?
Inoue Miyako”
Esperei pela resposta enquanto arrumava minha mochila, colocando tudo o que precisaria, inclusive medicamentos que costumo tomar nesse período para cólicas e dores de cabeça. Gente, o que eu tinha na cabeça? Estava mesmo indo passar o fim de semana com ele, simples assim, como quem vai pra casa do namorado?
“Não vou tocar em você. Tem minha palavra.
Digimon Kaiser.”
Sorri largamente terminando de fechar o zíper da mochila e colocando-a nas costas; andei até o computador, sob o olhar de Poromon que significava uma coisa parecida com “ahan, sei” e ‘conta essa história direito”, mas preferi ignorar e enviei a resposta pedindo para Kaiser enviar coordenadas.
— Então...— começou Poromon em um cantarolar sugestivo. — O que vossa alteza, tem dessa vez? — era nítido o tom de, ciúmes?
— Ele está bem, na verdade eu que estou precisando relaxar, sei lá. — respondi a esmo, sem pensar muito.
— E agora seu pior inimigo sabe como te relaxar?
— Não. — me virei ofendida, mas vi que não tinha respostas, talvez porque ele tenha razão. — Ah, Poromon! Talvez seja melhor mantê-lo ocupado comigo. Eu já te expliquei isso.
— Ah, sim, estou ligado, Miyako-chan, estou ligado…
Ignorei suas ironias e me levantei o apertando em um abraço e abrindo o portal, antes que eu entrasse, Bakemon saiu, já assumindo a minha forma.
— Senhorita. — fez um cumprimento.
— Bakemon, se forem assistir filmes, não escolha os de terror, se não Poromon fica tendo pesadelos depois, a semana toda.— adverti e Poromon grunhiu angustiado e Bakemon respondeu com um aceno de cabeça.— Comportem-se.— alertei e atravessei o portal ouvindo a voz de Pormon.
— Você também, comporte-se. — É sério que ele me disse mesmo isso? Quase voltei lá e lhe dei uns cascudos.
Quando me dei conta, já estava na sala de controles de Kaiser e ele estava sentado em sua cadeira, com o habitual sobretudo, óculos e penteado de “imperador”, completamente diferente de como o encontrei semana passada. Pode parecer loucura, mas acho que prefiro assim, ao menos ele está fisicamente bem.
— Você veio! — sorriu sem mostrar os dentes.
— É, eu vim sim.— respondi com um sorriso involuntário queimando a linha divisória entre meus lábios. — Não mudou minhas roupas. — comentei ao notar que ainda usava meu pijama: uma calça flanela branca com patinhas de urso e uma blusa vinho com um urso ilustrado na frente.
— Faz tempo que não faço isso, percebeu só agora? — se balançou suavemente na cadeira, de um lado a outro.
— É que esse pijama é meio constrangedor. — apontei para o mesmo.
— É o que te deixa confortável? Então não tem que se sentir constrangida.— concluiu e, o que foi isso, uma tentativa de ser gentil?
— Então, isso é ensaio para um elogio? — pentelhei e me aproximei, notei sua pressa em desligar o monitor em que estava mexendo. — Não precisa agir como se eu fosse uma espiã. Estou aqui por insistência sua e não para roubar seus planos malignos.
— Hey, calma.— se levanta me puxando para me abraçar, pegando minha mochila. — Não são planos malignos, é algo que você vai gostar. Vou te mostrar quando estiver pronto. Pode guardar as garras.
Algo que eu vou gostar? Não está pronto ainda, por isso não posso ver. Bom, isso faz sentido, tanto que me sinto envergonhada por ter dado um chilique assim do nada.
— Eu disse que elas estão afiadas. Era melhor ter me deixado ficar em casa.— defendi-me sem ter me desculpar.
— Vou te provar que isso não é verdade. — seus dedos deslizaram pelos meus cabelos e sua boca se aproxima da minha. Damos um sorriso sincronizado quando ele levanta os seus óculos os removendo.
Nossos lábios se selaram enfim, eu sinto como se fizesse séculos que não o beijava e foi tão maravilhoso, reconfortante, cicatrizando as dores daquelas semanas em que passei sem notícia alguma, pensando que nunca mais sentiria esses beijos.
Intensificamos aquele ato cheio de saudades, só parando quando resmunguei ao ser apertada um pouco forte demais em seus braços,. Nessa fase meus seios ficam meio sensíveis.
— O que foi? — questionou preocupado, afrouxando o abraço.
— É que eles ficam doloridos nessa fase. — olhei para meus seios e ele sorriu os tocando levemente por cima da blusa.
— Ficam maiores...— admirou-se.
— É, eu fico gorda também.— faço um bico. — e pode tirar a mão. Quem foi que disse que não ia me tocar?
— Não resisti, isso é fabuloso!
— Quer dizer que você preferia que eles fossem grandes? — cruzo os braços irritada, ofendida.
— Não ponha palavras na minha boca.— me beijou novamente, dessa vez sem me apertar. — Gosto deles do tamanho normal, o que estou julgando interessante é o fato deles ficarem maiores nesse período.
— Mas você já viu isso antes, passamos tanto tempo juntos. — realmente se for levar em consideração os trinta dias dos quais pouco me recordo, que foram decorrentes e toda nossa convivência até agora.
— Não é como se antes eu pudesse chegar e te tocar como agora. — explica com um sorriso de canto.
— Faz sentido, mas deixando meu peitos de fora do assunto, o que vamos fazer de interessante? — questionei, ele respondeu com um riso nasal.
Kaiser apenas me conduziu pelos corredores afora; pensei que íamos para o quarto, mas fomos para a cozinha; sobre a bancada estava uma bandeja cheia de cupcakes coloridos e tortinhas de morango e chocolate, fora isso um cheiro de pipoca se misturava com o aroma dos doces e sem perceber eu inalei fundo levantando os ombros e suspirando.
— Hmmm! Alguém me belisca porque estou sonhando! — deixei escapar, até fechando os olhos na segunda inalada.
— Aí está, sua viciada. Eu sabia que ia gostar. — ele sorriu me puxando para uma cadeira na qual eu, prontamente, me sentei.
— Você fez tudo isso? — perguntei alcançando um cupcake com cobertura lilás.
— Eu até faria. Depois que te conheci melhor, até aprendi algumas habilidades culinárias, imagine...— riu de si mesmo. — Entretanto esses confeitos eu mandei que Bakemon comprasse em uma confeitaria, tenho pra mim que ele comeu a metade pelo caminho, mas achei melhor não me estressar.— rimos juntos enquanto ele se sentava ao meu lado e tirava suas luvas e uma garrafa de álcool do bolso desinfetando as mãos e pegando um cupcake.
— Você é muito exagerado, se estava de luvas não precisa desinfetar.
— Talvez não, mas quando se vive no mundo real em constante assédio com as pessoas querendo te tocar o tempo todo, você adquiri alguns cacoetes.
— Alguns, o que? — reviro os olhos sem entender a palavra.
— Vícios comportamentais, manias, hábitos.
— Entendi...— cantarolei pensativa, imaginando como Ken é completamente cheio de manias, extremamente organizado, mesmo quando vai fazer coisas simples como cozinhar ele tem um método de organização exagerada.
É engraçado como sempre odiei pessoas como ele, perfeccionistas, que tem necessidade de ser e parecer perfeitos para os outros, persistente, detalhado e organizado, tentando esconder suas imperfeições ou projetando em si mesmo a perfeição.
Perfeccionistas têm para si mesmo padrões muito altos, não param de pensar em erros cometidos, são competitivos ao extremo e não podem fazer nada pior que os outros, exigem a perfeição nas outras pessoas, não perguntam se podem achar as respostas por si, não pedem ajuda mesmo que falhe várias vezes não aceitam outros métodos que não sejam os seus.
Eu sempre pensei que pessoas assim deveriam passar longe de mim e agora estou aqui comendo doces com um, mas em uma coisa eu tinha razão, esse comportamento de fato, pertence a pessoas mentalmente afetadas e ainda que lindo… nunca posso me esquecer de que Kaiser é louco, maníaco obsessivo.
Droga! Ele é muito lindo! É tão fofo comendo, tenho vontade de mordê-lo... Sorrio com meus pensamentos e pela minha falha em conseguir odiá-lo, mesmo ele sendo tudo o que eu sempre detestei, e ele me olha com uma sobrancelha arqueada e expressão confusa. Não resisto a passar o dedo no chantily da torta e sujar a ponta de seu nariz.
— Hey? — Ken alcança um guardanapo limpando o nariz com cara de nojo. — Porque você fez isso? — choraminga em tom quase infantil.
— Pra ver você ficar com essa cara furiosa. — dou uma sonora gargalhada e escuto o risinho abafado de Wormmon que está em algum lugar por aqui.
— Isso não tem graça nenhuma, eu… — o interrompo, puxando-o para um beijo com gostinho de doces e acho que ele se esqueceu de alguma ameaça sinistra que pretendia me fazer.— Você é uma criança. — me repreendeu, em um sussurro meio constrangido, quando separamos o beijo.
— Uma criança boba, traquina, que gosta de aprontar com os amigos e deixá-los constrangidos; uma escandalosa, indiscreta, atrapalhada, desastrada, irritada que estoura por qualquer coisa. E você é um perfeccionista louco, maníaco, compulsivo, obsessivo, narcisista com mania de grandeza e que quer dominar o mundo… Meu Kami! O que temos incomum? — sorrio sentindo minhas bochechas arderem como o que eu disse.— O que estamos fazendo assim?
— Eu não sei...— ele movimenta a cabeça em negação e sela nossos lábios em um beijo casto, mas caloroso. — Eu realmente, sinceramente não sei responder isso.— distribui beijos pelo meu rosto, boca, queixo. — Eu não sou louco.
— Sério mesmo que de tudo que eu disse o que mais te incomodou foi o “louco”?
Ele começou a rir e isso é tão estranho! Não deveria ser, mas é. Sei que já rimos juntos antes, poucas vezes, mas rimos. Entretanto creio que foi a primeira vez que vi Kaiser ter uma crise de risos, não aquelas gargalhadas malignas de vilões neuróticos, não que ele não seja. Ah, vocês entenderam.
Ficamos abraçados na cozinha, rindo feito dois idiotas, até que a graça acabasse e ficarmos em silêncio um esperando o outro dizer algo. Aquele abraço tolo estava tão quente, tão acolhedor, eu não entendia porque minhas bochechas formigavam tanto e aquela sensação emocionante preenchia meu peito; as batidas do meu coração não estavam aceleradas mais pesadas e retumbantes como se pudesse ser ouvidas por toda a base.
— Quer ver um filme? — essa pergunta vinda dele é tão bizarra.
— Não posso imaginar o que alguém como você assistiria.
— Alguém como eu? — separou o abraço franzindo o cenho. — Isso soou muito pejorativo, mas vou relevar devido a sua situação.
— Obrigada, majestade, mas ainda estou curiosa.
Ele pigarreou e riu pelo nariz.
— Na verdade eu peguei esse na sua lista de filmes que desejava assistir, li a premissa e julguei bem interessante. — fez uma expressão engraçada.
— É uma honra que, ao ser hackeada, um ser de intelecto superior como o seu, encontrou algo que se possa aproveitar do meu humilde gosto. — não resisto a pentelhar, enquanto ele liga o comunicador e ordena que Gotsumon arrume a bagunça.
— Seu gosto não é tão questionável, afinal. — aponta para si mesmo com uma mão e a outra ajeita os cabelos de forma convencida.
— Idiota! Idiota! Idiota! — bato em seu peito repetidamente, mas ele permanece imóvel com um largo sorriso convencido estampado no rosto.— Convencido. — termina com ele segurando meus pulsos e me empurrando contra a parede, me beijando possessivamente.
(...)
Cama quente e aconchegante, pipoca recém saída do forno, perfumando o ambiente. Eu já estava confortavelmente esperando Ken terminar de se organizar, pasma com tudo isso. Até outrora estávamos em guerra, agora vamos assistir filme juntos em uma noite de sábado, como um casal normal.
Talvez não fosse bom ficar pensando tanto sobre isso e sei lá, deixar acontecer… já fizemos bem mais que isso, porque ficar me impressionando com uma noite vendo filmes e comendo pipoca?
As luzes se apagam e ele se senta ao meu lado e apoia as costas nas almofadas, já estava sem seus trajes habituais; agora vestia um pijama quente, azul marinho, os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo e a franja bem penteada para as laterais, ineditamente expondo sua fronte.
— Wow! Que transformação. — pentelho.
— Cala boca, foca no filme.— me dá uma leve cotovelada.
Não havia TV ou monitor, óbvio que ele iria reproduzir tudo em holograma, de altíssima qualidade por sinal, mas o que me chocou foi a escolha do filme “O Leitor” título em inglês“The Reader” adaptado de um livro alemão “Der Vorleser”.
“Michael Berg, um rapaz de 15 anos, inicia um relacionamento com Hanna Schmitz, uma mulher de 36 anos. Nos seus encontros secretos, em casa dela, eles criam um ritual no qual Michael lê para Hanna e depois fazem amor. De repente Hanna desaparece da vida de Michael. Anos mais tarde ele está a estudar Direito e, ao assistir um julgamento, encontra Hanna envolvida num processo de acusação a ex-guardas dos campos de concentração nazista as surpresas começam ai…”
Eu já tinha lido o livro e o filme estava na minha lista, apesar de já ter sido lançado a algum tempo eu estava com medo de assistir e ficar decepcionada afinal,o livro tem três arcos complexos e intrigantes, imaginei que um filme só não fosse capaz de abordar tudo isso, mas...
Eu chorei litros, a atuação foi magnífica, a fotografia, tudo foi magnífico e eu, já estava sensível, me derramei em lágrimas, aconchegada ao peito de Ken enquanto ele acariciava meus cabelos.
— Porque os amores mais lindos são os impossiveis? — questiono revoltada.
— Não ficou bem nítido se ela realmente o amou. — protestou ligando as luzes.
— Óbvio que amou! Tanto que entendeu os danos que causou na vida dele, mesmo depois de tantos anos, casando, tendo filhos… Ele fez tanto por ela e… Ah, foi tão lindo e triste.
— Ambos tiveram boa parcela de culpa na parte triste. — concluiu sabiamente.
— Ambos eram orgulhosos, de certa forma.— mesmo que nada tenha a ver com a nossa história, de repente comecei a ver tanta semelhança, mas me colocando como o Michael e Kaiser com a Hanna.
— Será que teremos um final assim? — ele verbaliza meus pensamentos. — Triste? Separados porque temos metas e ideias diferentes?
— É possível. Se os resultados forem favoráveis aos seus planos esse mundo será fechado para sempre e nunca mais nos veremos.
— A não ser que você mude de idéia e fique comigo. Podemos ter nosso final feliz.
— Você é mesmo persistente.— enxugo os olhos e fungo, mas as lágrimas insistem em voltar e dessa vez não tenho certeza se era culpa do filme. — Isso é impossível! Então se você tem tanta certeza que vai mesmo nos vencer, aconselho que aproveite bem o tempo que lhe resta ao meu lado. — proponho e não lhe dou tempo para resposta, me viro e o beijo, sendo prontamente correspondida.
Ficamos trocando aqueles beijos com gostinho de pipoca, como se o que dissemos não tivesse sido tão impactante. A verdade era que eu estava meio impactada pelo filme, não queria chegar a velhice casada, com filhos, netos e ainda lembrando dele todos os dias, como um projeto não finalizado, como uma grande perda.
Nem me dei conta de que estava chorando tanto em meio aos beijos e carícias.
— Você vai sentir minha falta? — perguntou com os lábios rente aos meus.
— Porque você não pode ser uma pessoa normal? — choraminguei. — Eu não teria que sentir sua falta.
— O que seria de mim? Você quer que eu volte para aquele mundo medíocre, pra brincar de ídolo e bom filho? Isso eu não posso fazer. Não há nada pra mim naquele lugar. Em compensação eu te ofereço tanto se ficar ao meu lado.
— E eu não posso ficar aqui e brincar de imperatriz com você. Reprogramar um mundo que já tem seu curso próprio, controlar e escravizar vidas, esquecer de todas as pessoas que me amam e se preocupam comigo, que me deram de tudo para me fazer quem eu sou hoje.
— Então creio que estamos fadados a isso, a platonicidade, a chegarmos a velhice nos perguntando como teria sido se tivéssemos feito uma escolha diferente. Portanto, nesse momento, as únicas armas que tenho para impedir isso, é persistir. — ele deu um meio sorriso amargo.
— Não posso… — eu também rio das nossas loucuras, um riso melancólico.
— Eu entendo, respeito, mas não vou desistir. — limpou minhas lágrimas e me beijou novamente. — Posso te fazer mudar de idéia, ao menos vou tentar até o último momento. — beijou-me novamente, sem tempo para resposta.
Porque me sinto tão triste e arrasada com a possibilidade de sua vitória? Eu acho que… Que na verdade eu… eu não quero ficar sem vê-lo, não quero um final platônico! É bonito em filmes, em livros, mas não quero amargar uma perda até o fim da minha vida.
Rompi a sessão de beijos e carícias pra tomar meu remedio, usar o banheiro. Não tenho um fluxo muito intenso, mas por precaução uso um absorvente interno e um externo com abas e gel, desses inibidores de odor; melhor coisa já inventada! Além disso, mesmo usando calça de flanela grossa, uso um short colado por baixo. Nunca sujei minha cama, mas a possibilidade de sujar a dele me deixa quase maluca e paranoica de preocupação. A vergonha seria épica! Aproveito para escovar os dentes.
Quando volto ao quarto ele quem entra no banheiro e aproveito para pegar a mochila; retiro meu celular e coloco uma playlist suave, creio que não está nos nossos planos dormir por agora.
Me aconchego embaixo do edredom e ele volta e faz o mesmo me aninhando em seu peito, acariciando meus cabelos. Ficamos em silêncio; fecho os olhos aproveitando seu calor e seus carinhos. É um momento que não precisa de palavras, talvez porque saibamos que se começarmos a conversar sempre voltaremos ao mesmo ponto e isso não queremos.
Sei que demoramos naquele ritual de carícias mudas, não sei dizer quando adormeci. Senti-me tão confortável, aquecida, que em algum momento me foquei mais em sua respiração e nas batidas de seu coração, do que na música que era reproduzida. A verdade era que eu não queria dormir, pois dormir me pareceu uma perda do pouco tempo que temos juntos, não me sinto confiante que posso fazê-lo voltar atrás em suas decisões.
(...)
Abri lentamente os olhos, o cheiro de chocolate e canela estava no ar; espreguicei-me me alongando abrangentemente ouvindo o estalar dos meus ossos. Como eu amo essa cama, tão confortável, grande, quente e aconchegante, macia e com o perfume dele! Mas o que eu estou pensando? Não é para pensar esse tipo de coisa, eu acho; não sei de mais nada… Lembro minha situação e salto da cama pegando minha necessaire e indo para o banheiro, quase o atropelando no meio do caminho.
— Bom dia pra você também, Miyako. — se afasta com a bandeja em mãos, evitando um acidente.
— Bom dia, Ken! — respondo já com a porta do banheiro fechada, verifico se está tudo em ordem. A roupa não manchou e para minha sorte está tudo em ordem.
Ligo o chuveiro tomando um banho bem quentinho; mesmo que o pijama não sujou eu troco por outro, tão quente quanto o anterior. Eu sei que no Mundo Digital, não existem mudanças climáticas, e sim quatro regiões que as representam, mas depois que Kaiser começou a instalar essas Torres Negras, o clima aqui está bem desregulado. De qualquer forma isso não é assunto para um fim de semana romântico.
Fim de semana romântico? Meu Kami, olha o que estou pensando! Termino o banho rindo de mim mesma e de como sou uma boba; me visto e faço a higiene matinal, enrolo uma toalha nos cabelos e quando saio ele está a minha espera.
Tomamos o desjejum juntos e passamos praticamente o resto do dia vendo filme e curtindo uma preguiça de Domingo naquela cama deliciosa. Eu até recebi massagem nos pés, nas costas, aproveitando bastante, já que não é todos os dias que, o todo soberbo senhor do submundo Digital, te faz massagens relaxantes.
O que eu posso dizer? Foi um ótimo final de semana, me relaxou bastante e eu não queria que tivesse terminado, mas acabou e a realidade me chamou, como sempre; e na Segunda-feira de manhã a vida escolar se iniciava novamente.
(...)
Durante o intervalo não encontramos Takeru-kun e Hikari-chá. Se fosse em outra época eu faria piadas sobre os dois sumindo juntos, pra irritar o Daisuke, mas agora isso nem faz sentido, então só nos restou a preocupação, quando eles não apareceram no final da aula. Iríamos pra casa do Takeru-kun e de lá para o Mundo Digital.
Ficamos sem ter como ir para o Mundo Digital e preocupados com nossos amigos; decidimos ir a casa do Iori-kun, não poderíamos ir ao Mundo Digital, mas ao menos tentariamos localizar os dois desaparecidos, mas para nossa surpresa eles não estavam no Mundo Digital.
— Eles não sumiriam assim do nada, certo? — Iori-kun pondera coçando o queixo.
— Ainda mais que ficamos uma semana sem agir e temos urgência em voltar para o Mundo Digital. — completa Daisuke deitando-se na cama do mais novo.
— O que me intriga é o D-3 não emitir nenhuma localização. — começo tentando estender a rede e não tendo resposta. — É como se eles tivessem deixado de existir. — deito a cabeça na mesa, desistindo da procura, meus olhos ardem.
— Miyako-chan, estou com fome. — Poromon choraminga e todas as barrigas roncam ao mesmo tempo.
— Vou trazer um lanche para nós. — Iori-kun se levanta e os Digimons começam a saltitar felizes.
Antes que ele saia pela porta a campainha toca, nos olhamos com o mesmo pensamento e enquanto ele corre para atender, eu volto a olhar o monitor e “bingo”; eram eles, Takeru-kun e Hikari-chan com os parceiros
Depois de alguns minutos ambos entram no quarto e suas expressões não são lá das melhores. Daisuke se levanta e eu também me dirijo para perto deles, os Digimons se acercam dos amigos.
— Sumiram o dia inteiro e chegam com essas caras, o que houve? — Daisuke é o primeiro a perguntar.
— Desde cedo na aula eu senti que a Hikari-chan não estava muito bem… —Takeru-kun inicia a explicação.
— Sim, aquela hora que você a levou pra enfermaria? — questiona nosso líder, como se tivesse se lembrado naquele momento.
— Exatamente. Foi estranho, mas Hikari-chan começou a desaparecer no meio da classe.— conclui o loiro.
— Como é? — Todos perguntamos em uníssono.
— Takeru-kun, estou com muita fome. — Patamon reclamou se jogando no chão dramaticamente.
— Nós também...— Nossos parceiros se manifestaram em conjunto.
— Vou trazer o lanche, mas por favor me esperem, quero saber o que aconteceu. — avisa Iori-kun indo rumo a cozinha.
— Precisa de ajuda? — me ofereço ao notar que somos muitos, contando os Digimons, lanches e sucos ocuparão duas bandejas e duas pessoas fazem em menos tempo.
— Por favor. — ele faz um gesto para que eu o siga.
Quando passo por Hikari-chan, ela está pálida e os olhos embaçado que me lembram os de Kaiser. Meu corpo se arrepia e ela segura a minha blusa próximo a barra, me fazendo parar.
— Quando sairmos daqui, será que eu posso dormir na sua casa hoje? — ela sussurrou tão baixo que quase não consegui ouvir bem.
Meu maxilar caiu. Como assim a Hikari-chan me pediu para dormir na minha casa? Somos colegas, é verdade que mesmo sendo parceiras de batalha não somos melhores amigas. Sempre existiu um abismo entre Takeru-kun, Hikari-chan e o resto de nós da segunda geração de escolhidos.
Eu não estou falando de rivalidade, entretanto quando foram mandados ao Mundo Digital, eles viram coisas, viveram situações as quais, diferente de nós, não tiveram opção de recusar. Eu sei algumas coisas que foram contadas por Koushiro-kun, tipo uma garotinha de oito anos ver os Numemons se sacrificando tentando deter Mugendramon, ou Takeru-kun que viu Patamon morrer pelas mãos de Devimon.
Então, essas e muitas outras coisas eles nunca nos contaram, por ter sido traumatizante eu sei, mas isso cria uma distância entre nós e em algumas discussões já até ocorreu deles nos dizendo que não sabemos nada sobre o Mundo Digital. Bom, não sabemos tanto quanto eles, mas fomos escolhidos também, não é?
Voltando ao impacto daquela pergunta, o que levaria Hikari-chan me pedir algo assim?
— Tudo bem, pode sim. — respondi meio constrangida depois de ficar tempos perdida em divagações.
Sai com Iori-kun e não demoramos a voltar com o lanche. Takeru-kun nos contou sobre como viu Hikari-chan desaparecendo na rua, em sua frente e como ele conseguiu encontrá-la. A descrição do local foi mínima, creio que ele estava preservando a castanha de lembranças detalhadas da experiência bizarra.
Os garotos se perderam teorizando sobre o ocorrido, em outra circunstância eu seria a primeira a estar levantando mil e umas possibilidades, mas vi que Yagami estava muito desconfortável, mal tocara em seu lanche.
— Bom, o que importa é que estão todos bem. — tentei pôr fim ao assunto, sabendo que não era bem assim, se isso acontecesse novamente precisamos de um meio para chegar a esse lugar. — Hikari-chan, acho que você deve estar querendo tomar um banho e descansar, vamos?
Ela estava distraída, com o copo de suco pela metade em sua mão, Tailmon também parecia preocupada. Ela só anuiu com a cabeça e colocou o objeto na bandeja, pegando a parceira nos braços.
— Então, até amanhã pessoal! — puxo Hikari-chan comigo e Poromon voa para dentro da minha mochila.
— Até amanhã. — respondem em uníssono e Iori-kun nos acompanha até a porta, Sr Hida nos convida para jantar, mas recusamos educadamente.
(...)
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