Inimigos Íntimos
47 Amarga Liberdade
POV Miyako
Depois de tudo que aconteceu entre Ken e eu, tudo o que li na carta de Daisuke, meu dia se resumiu a falta de produtividade completa, não rendi nada em sala de aula, minha cabeça estava longe.
As horas se passaram lentamente e ao término delas não fomos para a casa da Mimi-chan para irmos ao Mundo Digital, sendo assim me dirigi diretamente para o meu apartamento, segui sozinha pois Takeru-kun seguiu para o clube de literatura e Iori-kun tinha aulas de Kendo.
Cheguei ansiosa, já tinha roído todas as minhas unhas durante as aulas, só conseguia pensar em que tipo de conversa deveria ter com Ken, depois de ter dito o que eu disse. Fiz um lanche para mim e para Poromon que já estava choramingando de fome.
Poromon não estava de acordo com meus planos de distrair Ken, me valendo dos sentimentos dele, eu sei que parece mesmo horrível, mas tudo que ele fez comigo também não foi monstruoso?
Cuidado para não se ferir? O que um Digimon poderia entender dessas coisas, não é? Amizades, fidelidade, fraternidade, são fatos que esses seres compreendem, mas jogos de sedução é algo complexo demais para processarem.
Deixei umas séries e desenhos programados no tablet e o comando de voz ligado para que Poromon pudesse mexer e ter com o que se distrair até Bakemon assumir o meu lugar, mandei a mensagem para Ken pedindo as coordenadas, mas ele respondeu apenas mandando os dados.
Confesso que fiquei muito preocupada, durante todo o dia. Sei que quando está chateado com alguma coisa ele tem hábitos horríveis, como tomar remédios para dormir, que ele furtou de sua mãe, ficar o dia inteiro sem comer e fora a mania de sair quebrando tudo e se machucar.
Com esses pensamentos, digitei as coordenadas e abri o portal, me transportando para o Mundo Digital. Assim que me vi na sala de controles o observei sentado em sua cadeira, não sei definir o que senti neste momento.
Havia um constrangimento devido ao que foi dito, mas uma preocupação pairava no ar. Por alguns segundos fiquei tentando decifrá-lo, mas ele estava inexpressivo.
— Ken...— eu não sabia ao certo como cadenciar as palavras — Você está bem? Se alimentou corretamente.— era o que eu queria saber, mas havia mais a ser dito, no entanto eu não conseguia destravar.
— Por favor, pare com isso. Não tem que fazer isso.— ordenou austero.
— Fazer o que? — me senti perdida e com medo do que viria a seguir.
— Fingir que se preocupa comigo. — bradou friamente, seus olhar estava protegido pelos óculos, mas pude sentir sua melancolia, o que fez meu peito se apertar.
— Por Kami-sama, Ken, eu me preocupo com você, lembra-se de quem te levou ao dentista? Quem cuidou das suas mãos, e ontem... — Realmente é verdade, mesmo com a mágoa que sinto devido a tudo o que ele me fez, eu me preocupo demais.
— Para, eu não quero ouvir isso, nada disso. Você quem disse que sou desprezível, não sou digno dos seus sentimentos. Porque cair em contradição? O que foi dito, está dito.— objetou incisivamente, derramando toda a angústia que minhas palavras causaram a ele.
— Eu… Aquilo. — fiz uma pausa mordendo o lábio inferior, nunca pensei que um dia chegaria a cogitar pedir desculpas ao meu algoz, não fazia sentido algum, racionalmente, mas era o que o meu coração mandava fazer.— Eu não deveria ter dito.
— CALADA! — Esbravejou exaltado me assustando, fazendo com que eu recuasse alguns passos, instintivamente, pensei que fosse cair para trás, mas ele se levantou ligeiramente e agarrou meu pulso com a destra, enquanto me envolvia com o braço oposto, em um abraço forte, desesperado, sufocante.— Cala boca! Não fala nada. — Sussurrou contra o meu pescoço, apertando-me ainda mais e inalando o cheiro dos meus cabelos, me deixando arrepiada.
O que estava acontecendo aqui? Meu coração acelerou mais ainda quando senti o calor de suas lágrimas molhando a curvatura do meu pescoço. Ah Ken, não faça isso, não chora assim que eu… eu… Senti quando ele alcançou a minha mão e me entregou algo… Não pode ser o que eu estou pensando?
— O que? — Gaguejei incrédula, emocionada, sem reação.— O que é isso?
— Estou te dando sua liberdade, essa é a cura para Hawkmon.— murmurou com a voz rouca, afetada pelas lágrimas e eu que já estava segurando o choro, desabei de vez.
— Meu Kami! — era isso mesmo, meu Digimon estaria curado, eu enfim estou livre e… Eu não sabia como me sentir, estava feliz por Hawkmon, obviamente, mas aquilo parecia uma...
— Não existe nada mais que te prende a mim. Antes que você volte por aquele monitor, eu só quero te olhar um pouco...— desfaz o nosso abraço e segura meu rosto entre as mãos. As lentes dos meus óculos já estão embaçadas pelas lágrimas. — Só quero alguns minutos para imaginar que tudo poderia ter sido diferente e que você pudesse ter gostado mesmo de mim e aceitado ficar do meu lado,— aperta-me em seus braços uma vez mais, tão fortemente. Me perco em seu cheiro, suas palavras me destroem aos poucos, me sinto quebrando em milhares de partículas.— Só mais um pouco de companhia, é o que eu te peço. Só quero delongar a dor de me sentir sozinho novamente. Então só me abraça, não diz nada. Não quero sua compaixão, sei que não sou nada pra você, só me dê um momento a mais para guardar.
O que é isso? Meu Kami! Eu não mereço passar por isso, fico completamente desarmada, porque apesar de tudo eu sou uma boba e tenho um coração romântico e fiquei hipnotizada sem saber como receber aquilo tudo. Ele me libertou mesmo, não foram somente palavras.
Eu precisava responder alguma coisa, mas as palavras não saiam. Aquele abraço foi tão… Tão intenso… Não sei exatamente por quanto tempo ficamos abraçados, perdi completamente a noção do tempo e só conseguia chorar e corresponder a abraço, então o senti me soltando lentamente e eu não queria ser libertada, um exaspero começou a me assolar.
Não posso compreender, não queria que ele me soltasse daquele abraços, tinha um pressentimento ruim e não estava errada, pois assim que me vi livre de seus braços, vi que ele estava com a canhota estendida em direção ao monitor, segurando seu D-3 e com a destra ele me empurrou em direção ao portal. Não tive tempo para responder, protestar ou sequer dizer adeus, quando me dei conta já estava no meu quarto e aquilo tinha sido uma despedida, uma injusta despedida em que eu não pude falar, mas o que eu falaria?
Fiquei congelada olhando para a tela do meu computador, trêmula e chocada, alheia aos chamados preocupados de Poromon.
— Não… Não… Não pode terminar assim. — murmurei mais para mim mesma e tentei voltar, desbloquear as coordenadas, mas o código de acesso foi negado.— Droga, droga! — irritada bati no teclado algumas vezes.
— Miyako-chan, o que aconteceu? — ouço a interrogação de Poromon, mas não consigo responder.
Eu não pude dizer nada, nada, não pude fazer nada! Ken seu idiota controlador. Como continuo meus planos agora? Como continuo vivendo… Meu Kami, o que estou pensando?
— KIYAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! — Grito o mais alto que consigo extravasando toda minha ira, minha angústia. Não acredito que acabou assim, que é só isso e agora tudo volta a ser como antes, não aceito isso, não me conformo, mas estou impotente e foi assim do começo ao fim, fui usada, acuada, enganada, manipulada, confundida e agora descartada e jogada de volta. Como posso seguir adiante, não faz sentido, não consigo.
— NÃO É JUSTO! NÃO É JUSTO! NÃO É JUSTO! — Me joguei no chão esperneando como uma criança birrenta.— IDIOTA, IDIOTA IDIOTAAAAAAAAAAAAAAAA….
Ainda bem que não tinha ninguém em casa para ver minha crise, porque eu não me controlei em nada e Poromon estava preocupado, sem entender o que realmente tinha se passado. Quando minha crise de inconformidade passou, eu estava jogada no tapete e me enrolei em posição fetal, chorando todas as minhas lamentações.
(...)
Horas depois, eu já não tinha mais lágrimas para chorar, estava imóvel fitando o teto, minha mãe bateu na porta me chamando para o jantar, mas eu respondi que estava sem fome.
— Mas está tudo bem? — ela insistiu, deve ter notado algo na minha voz.
— Sim mãe, só estou sem fome.— eu não poderia dizer o que estava sentindo, pois nem eu mesma sabia.
Quando eu já estava bem para conversar, sentei-me na cama e Poromon pousou ao meu lado.
— O que Kaiser fez a você?
— Ele deu a sua cura e me libertou, disse que não preciso mais ter que vê-lo, nada mais nos prende.
— E isso não é formidável?
— Eu acho que sim. Não quero te ver com um explosivo no corpo.
— Eu também não aprecio em nada ter um dispositivo explosivo no meu corpo… mas se isso se resolveu porque essa crise toda?
— Porque Ken colocou um ponto final em tudo, disse o que queria e me mandou de volta sem me dar chances de...— paro sem saber como continuar a frase.
— Chances de que? Você iria protestar quanto a estarmos livres?
— Não é isso. É que assim meus planos de impedir a criação de Chimeramon foram por água abaixo.— murmurei a resposta, não quis olhar para ele, mas senti seu olhar de julgamento sobre mim.
— É sério? Não me parece que tenha sido apenas por isso. Quero dizer, tudo bem você ficar chateada por seus planos terem sido frustrados, mas não vai precisar mais ter contato algum com Kaiser, isso era para ser bom, não para te dar crises de choro a ponto de você chegar aqui e ficar no estado em que ficou.
— Poromon, por favor.
— Vai sentir falta dele, Miyako-chan? Não está enfurecida por não poder levar o plano em frente, está sem chão por causa da despedida. A verdade é que você se apegou a ele tanto quanto ele se apegou a você.
Parei sem ter como responder, não queria aceitar essa afirmação e isso massacrava o pouco de orgulho que me restava. Me apegar a ele, como eu pude? Como poderia ser isso, como em síndrome de Estocolmo em que a vítima se apega ao seu algoz, então é uma doença, certo?
É muita informação para minha mente processar, estou cansada e preciso dormir, meus olhos estão ardendo, mas não sem antes aplicar a cura em Poromon.
Balanço a cabeça tentando tirar os pensamentos da minha cabeça e alcanço o estojo o abrindo e retirando a seringa. O incrível é que mesmo sabendo como Kaiser pode ser cruel eu não estou com medo de ser um veneno, na verdade tenho a certeza de que essa cura é real.
Pego Poromon em meu colo e aplico a seringa em seu corpinho, olhando o conteúdo verde sendo injetado aos poucos, ele não demonstra sentir tanta dor, mas ao término do processo começa a bocejar.
Guardo o objeto no estojo novamente, acaricio meu Digimon, o colocando dentro de seu cesto. Graças a Kami, agora ele está livre, não tenho mais que me preocupar com isso, mas… Meu peito está apertado, dolorido com uma sensação horrível de perda.
Espero todos adormecerem e saio para tomar um banho, me lavo e fico por um bom tempo sentindo a agua cair sobre o meu corpo, entre tantos pensamentos me lembro sobre a conversa que eu tive com Daisuke e os outros na sala de informática.
Na carta que recebi de Daisuke havia instruções para que nos encontraremos no intervalo, no laboratório de informática, eu já não tinha mais as chaves, mas não foi problema conseguir e assim o fiz.
Flashback
O sinal que marcava início do intervalo soou e com certeza fui uma das primeiras a sair da sala. Cheguei frente ao laboratório de informática, o abri e entrei olhando cada canto daquele lugar e relembrando as muitas tardes de pesquisa que passei ao lado de Koushiro-kun e Poromon, assim como os animados encontros com os digiescolhidos para irmos para o Mundo Digital.
Suspirei com todas as lembranças que me invadiram, sentando-me em uma das cadeiras e colocando meu obento sobre a mesa, não tardou para que os outros chegassem e se acomodassem.
Daisuke foi o último a chegar e abriu a janela, logo nossos parceiros saltaram do arbusto para dentro da sala, eu não tinha conhecimento de que estivessem lá fora. Hikari-chan despejou um saco de doces sobre a mesa e eles atacaram esfomeados.
— Pessoal...— Daisuke chamou atenção. — Magricela. — Se voltou para mim e franzi o cenho. — Chamei vocês aqui porque tenho uma proposta a fazer. — todos olhamos de forma interrogativa. — Creio que esse lugar já não seja seguro, então já que a Sra Takaishi sabe sobre a existência dos Digimons, eu gostaria de propor que nos reuniremos na casa do Takeru para irmos ao Mundo Digital.
— Você quer dizer, sem o conhecimento dos veteranos? — Iori-chan verbalizou os pensamentos de todos.
— Eles podem ter conhecimento, não precisamos fazer segredo, mas as estratégias de batalhas serão nossas. — o líder respondeu prontamente.
— Não que eu me incomode de você não ter sido consultado sobre isso...— Takeru-kun se pronuncia, zombeteiro.
— Eu sabia que você não se importaria. — respondeu imediatamente Daisuke.
— É que eu não estou entendendo o que você está tentando fazer aqui.— objetou o loiro confuso.
— Estou cortando o cordão umbilical, eu acho. Recebi esses goggles por algum motivo, então estou exercendo meu papel e vou ser sincero, pouco me importa se o Takeru namora milhares, se Hikari-chan ficar com garotas, se Iori namora uma transsexual ou se Miyako dorme com o nosso inimigo. A vida pessoal ou sexual de vocês não me interessa e não quero deixar que isso nos afaste. Temos uma missão juntos e devemos nos entender.
Diante das palavras diretas de Daisuke todos ficamos ruborizados. Meu Kami! Eles sabem? Como não saberiam depois de como tratei o Koushiro-kun naquela festa.
— Eu quero que resolvamos nossas diferenças aqui, agora. Não sei se vocês sabem, mas meu pai anos atrás já teve problemas com álcool, passamos por terapia familiar e hoje as coisas estão melhores. Nosso estado emocional atrapalha muito como agimos em campo então eu vou começar a desabafar e vamos seguir em sentido horário, certo?
— Está sugerindo um exercício em grupo, como uma terapia? — Hikari-chan pergunta incrédula, não só ela, mas todos estamos chocados com a postura de Daisuke.
— Sim, vocês estão de acordo? — questiona como se fosse a coisa mais natural do mundo.
E todos assentimos, meio receosos.
— Hikari-chan, fui injusto com você, na sociedade onde vivemos você tinha todos os motivos para não revelar como realmente se sentia. fui egoísta ao pensar apenas em como me senti ao saber que gastei sonhos e esperanças com você. Deixei que o fato de eu ser visto como tarado local e ter sido expulso do time se somasse a desilusão, e joguei tudo em você. Me perdoa.
— Eu peço perdão por ter deixado você imaginando que tinha chances comigo, mas te asseguro que se te fiz sofrer a vida me deu sofrimento em dobro.— Hikari-chan declarou com sinceridade e o líder sorriu em resposta. — Tenho vivido assombrada pelo que fiz a professora, porque ao contrario do que todos pensam, eu quem fui a casa dela por varias vezes, criei situações e tomei conhecimento da pessoa que ela é, seus sonhos, suas perdas e em um momento de angustia em que ela perdeu al unica pessoa que lhe restava, eu… Bem, eu estava lá pra ela e na minha cabeça estava fazendo um bem, mas foi algo que destruiu a vida dela. Agora vejo as pessoas lidando com ela como se ela fosse um monstro. Não tenho como explicar para o resto do mundo, mas ao menos para vocês eu quero deixar claro. Não fui enganada, nem seduzida, eu sei de mim, não sou maior de idade, mas sou responsável pelas minhas ações e tenho sofrido o peso delas. — Seu desabafo foi tão profundo que doeu em mim. — Sobre Takeru-kun, bem eu não entendo como se sente, nunca pensei sobre um relacionamento com mais de uma pessoa, mas que envolva sentimentos, mas eu respeito. — Se referiu ao loiro que era o próximo do círculo.
— Eu não me senti enganado nenhuma daquelas garotas, sei que é convencional ser obrigado a amar uma única pessoa, mas eu as amo e sinto falta delas, não falo só fisicamente, mas cada uma tem algo especial que me faz feliz e sinto muito ser visto como um enganador. Eu sei que vocês têm mães, irmãs, amigas e não gostariam de vê-las passando por isso e confesso que nem eu mesmo me perdoo, as vezes, mas fico felizes por vocês ainda me respeitarem depois de tudo. — Explicou-se o loiro. — Iori-kun… Eu não sei o que dizer sobre o que aconteceu com a garota que você gosta, até porque não sei o que faria se eu estivesse no seu lugar.— Takaishi passa a vez para o mais novo.
— Eu fui um idiota, Hitomi era minha amiga, parceira de treino, quase algo a mais, mas quando tudo aquilo estourou eu não fiz nada, a deixei sozinha, sendo julgada, atacada. Senti como se ela tivesse me enganado, mas entendo que não, pois eramos apenas amigos ainda e aquilo era muito íntimo. Eu sabia que muitos tinham conhecimento da nossa proximidade e fiquei com medo, com vergonha, pensei em nome e honra e não fiz nada por ela… Estou feliz em poder desabafar com vocês sobre como me sinto um verme.— Desabafou justificando-se e olhou para mim que era a próxima da roda. — Miyako-san, talvez nossos questionamentos venham a te colocar em algum tipo de risco, então, se esse for o caso, por favor não se sinta obrigada a esclarecer nada. — foi cuidadoso com as palavras, como era de se esperar.
Baixei a cabeça sem muito o que dizer.
— Pelo que me parece, de boa parte vocês já sabem. — esclareci o que Daisuke tinha dito no começo. — Não é mais segredo pra ninguém a identidade de Kaiser, então vocês entendem agora porque eu agi de maneira tão cruel com Koushiro-kun e com todos vocês. Em posse de Hawkmon, Ken passou a me tratar como sua escrava com a ameaça de matá-lo. — Todos arregalaram os olhos, já imaginavam algo assim, mas ouvir minha confirmação foi mais chocante. — Embora Poromon estará de volta comigo, Iori-kun está correto, ainda existe algo que me prende a Kaiser, mas que não me impede de lutar de verdade. Nós fizemos um acordo.
— Um acordo? — todos perguntaram em uníssono.
— Sim, um acordo que me permite voltar e lutar com vocês, dar o meu melhor. Se vencermos, o que ele julga que não vai acontecer, Kaiser vai me libertar de vez, não posso dizer como.— eu me referia a tirar o dispositivo explosivo que Kaiser implantou em Hawkmon.
— Mas se perder? — Hikari-chan se acerca de mim, preocupada.
— Se perdermos ele manda vocês de volta sem os Digimons e fecha o portal, contudo…
— Contudo? — Novamente eles perguntam ao mesmo tempo.
— Eu terei que ficar com ele no Mundo Digital.
— O QUE? ISSO É LOUCURA! — Daisuke se exalta e Takeru-kun coloca a mão em seu ombro em um pedido mudo de calma.
— Então Koushiro-san tinha razão. O resgate de Poromon foi um plano de Kaiser. — pondera Iori-kun.
— Sim, e por mais que ele negue, já sabia que Koushiro-kun ficaria desconfiado e isso ia gerar uma divisão no grupo. Como tem sido, vocês estão mais focados em me vigiar do que cumprir a missão. — desabafei por fim, já que esse é o objetivo.— Portanto eu ter voltado para a equipe, ao invés de ser um apoio, tem sido um motivo de atraso e discórdia nos deixando mais longe da vitória e Kaiser mais perto de seu triunfo.
— Falo em nome de todos aqui, que não fomos de acordo com essa idéia e por isso fiz essa reunião. — enfatiza Daisuke. — Sei que parece errado fazer uma reunião secreta fora da reunião secreta, mas o grupo que vai para o campo de batalha e faz acontecer, somos nós e se estivermos sem união não vamos sair do lugar. Vou conversar com Taichi-san, agradeço muito a ajuda, mas vamos fazer do nosso jeito.
— Eu estou de acordo. — apoia Hikari-chan. — Não precisa nos dizer o que Kaiser tem em mãos para te chantagear agora, de qualquer forma vamos dar o nosso melhor para vencer, salvar o Mundo Digital e te libertar de uma vez por todas.
E todos concordaram, os Digimons terminavam de comer seus doces e nós notamos que tínhamos pouco tempo para comer nosso almoço. Não sei como os veteranos reagiriam a decisão do nosso grupo, mas Daisuke tinha razão, já era hora de cortar o cordão umbilical e fazer nossa parte.
Flashback fim
E agora estou livre, completamente livre, meu Poromon está curado, mas eu estou despedaçada, quebrada, desamparada, como meu parceiro mesmo disse, estou sem chão.
Foi quase um ano ao lado de Kaiser dia após dia vivendo uma intensidade e insanidade maior que a outra e agora estou livre e não sei como lidar com isso.
(...)
Os dias foram se passando lentos, cinzentos e arrastados, o lado bom foi que depois que desabafamos uns com os outros aquele dia no laboratório de informática, a situação melhorou enquanto amigos e guerreiros.
Creio que no começo os veteranos tenham se magoado um pouco com a atitude de Daisuke e do grupo, mas quando viram os resultados acabaram concordando, mesmo que silenciosamente.
Creio que com o tempo vamos nos reaproximar e todos conversaremos e nos entenderemos, o tempo é o melhor remédio para cicatrizar feridas e abrandar os corações.
Nossas conquistas através do Mundo Digital vem aumentando consideravelmente, Kaiser agora tem Espirais Negras, mas estamos conseguindo bater de frente com seus escravos.
E por falar nele… Nada mais, nenhuma noticia, nenhuma mensagem, nem sinal de fumaça. Olho meu celular a todo momento, meu e-mail e D-Terminal na esperança de que ele me mande uma mensagem, um “oi”, ao menos um sinal de vida, mas nada.
Três semana se passaram e não estabelecemos nenhum contato. Me segurei ao maximo para não dar o primeiro passo, mas não consegui, antes do fim da primeira semana eu mandei uma mensagem, depois outra, outra e outra, mas nunca recebi nenhuma resposta. Se bem conheço ele está trabalhando duro naquele monstro composto e nem deve estar dormindo ou se alimentando.
Se eu sinto falta dele? Meu Kami! Como eu sinto, não queria admitir, mas chega a doer. Sinto seu cheiro no meio do dia sem motivo algum, ouço sua voz e o vejo onde não está, as vezes em meio a multidão atravessando um cruzamento.
Já perdi as contas de quantos dias eu chorei, quantas noites eu perdi lembrando e relembrando momentos, beijos, carícias, mas ainda sim não admito que seja amor, na certa Síndrome de Estocolmo, falta física.
Muitas vezes esperei Poromon adormecer para chorar, depois de verificar meus e-mails pela milésima vez. Aquele insensível, idiota. Como pode me tratar assim? Dizia ter tanta loucura por mim e agora me exclui de sua vida, assim, para sempre.
Ele nunca respondeu as mensagens, nunca mais entrou em contato e eu sinto… Sinto a falta dele.
POV Narrador
Era uma bela manhã de sábado, quente e abafada, Takenouchi Sora, estava em seu treino de tênis, no momento se encontrava no intervalo e refletia sobre sua vida quando ouviu seu dispositivo digital apitando com um pedido de socorro de Piyomon.
A princípio tentou contato com Yagami Hikari, mas a castanha precisava arejar as ideias e devido a isso tinha saido para passear com sua parceira, em um local calmo e bonito de onde podiam ver a cidade toda.
Sem sucesso a ruiva tentou contatar Takaishi Takeru, mas este estava dormindo com seu parceiro Digimon, Patamon e enquanto o loiro sonhava com garotas, o pequeno hamster alado sonhava com comida.
O próximo da lista foi Motomiya Daisuke, mas o líder no momento estava tendo uma importante discussão com seu parceiro sobre como Veemon gastava sua mesada em comida, mas o pequeno azulado acabou vendo o S.O.S no D-terminal do parceiro.
Hida Iori estava fazendo sua lição de casa, quando também recebeu o e-mail. Upamon vestia parte do equipamento de treino de kendo do parceiro e brincava com uma espada.
Ao receber a mensagem, o mais jovem correu para chamar Takaishi, mas depois de minutos batendo a campainha do apartamento acabou desistindo e indo buscar Inoue, mas a garota não estava em seu apartamento, mas sim ajudando a carregar algumas mercadorias recem chegadas na loja.
Ao correr para abordar a amiga, ambos acabaram colidindo.
— Oh desgraça dos infernos. Porque não olha por onde anda? — a violacea bradou irritada, quase batendo no amigo.
— Calma Miyako-san, recebi um S.O.S da Takenouchi-sam.
— Da Sora-san? — espantou-se a garota.
— Sim, mas teremos que ir a escola, pois Takeru-kun não está em casa.
— Ainda bem que a chave da sala de informática ainda está comigo. Vou só levar essas caixas para o depósito.
E assim Miyako terminou suas obrigações, pegou seu parceiro e seguiu com o jovem Hida em direção a escola.
Quando chegaram ao local, encontraram-se com Daisuke Veemon e Sora, já a espera.
— Onde estão Takeru e Hikari? — Questionou o lider.
— Não vieram conosco. — Hida respondeu.
— Talvez não leram a mensagem.— Miyako supos.
Como os amigos não apareceram eles decidiram abrir o portal, seguindo para as coordenadas de onde veio o pedido de socorro. Miyako apontou seu dispositivo para a tela e falou sua frase de efeito.
— Digiportal abra! Digiescolhidos ai vamos nós!
Em segundos os jovens já se encontravam em um local pavoroso em meio a uma terrível tempestade de areia. Quando a tempestade se acalmou, as tosses cessaram, e terminaram de limpar corpos, cabelos e remover areia dos olhos, constataram estar em uma cidade fantasma.
— Parece uma cidade do Velho Oeste. — Observou o mais novo do grupo.
— É uma cidade fantasma! — Veemon apontou e as garotas gritaram se abraçando, se recompondo em seguida.
— Não vejo sinal de Torre Negra. — Daisuke observa.
— Olha, alí estou ouvindo música! — Armadimon aponta para um bar típico de velho oeste, com uma porta vai e vem verde, a se balançar sozinha e uma música de piano.
Os jovens seguiram para o local, que estava vazio, mesas redondas rústicas de madeira, ventilador de teto a girar e um piano a tocar sozinho.
— Não tem ninguém aqui. — Miyako admirou-se um tanto amedrontada pelo ar fantasmagórico do local. — Não gosto disso.
— Eu te protejo, Miyako-chan. — assegurou Hawkmon arrancando risos por sua forma de falar.
— Preciso encontrar a Piyomon...— murmurou Sora preocupada.
— Bem vindos a cidade do Velho Oeste do Mundo Digital! — de repente um Digimon surge detrás do balcão de madeira. — Eu sou o xerife dessa cidade, me chamem de Starmon!
Starmon
É um guerreiro espacial equipado com um traje de armadura em forma de estrela e luvas e botas marcadas com estrelas. Seu silenciador amarelo rasgado indica a experiência de combate de Starmon. Os olhos no centro de seu corpo estão queimando com espírito de luta, e são capazes de transmitir sua vontade ao oponente, mesmo sem dizer uma palavra. Além disso, também é possível para ele hipnotizar o oponente como uma maneira avançada de usar seus poderes.
Nível Seijukuki
Tipo: Mutante
Atributo: Dados
O auto intitulado xerife, se mostrou um bom anfitrião e ofereceu canecas de leite gelado para os escolhidos, que estavam com as gargantas secas em meio a todo aquele calor e clima seco.
— O senhor por acaso conhece a Piyomon? — Takenouchi perguntou preocupada com sua parceira.
— Hm! Piyomon… Na verdade eu conheço sim, eu também estou procurando por ela. — o Digimon estalou os dedos e um painel se abriu revelando vários cartazes com a foto de Piyomon como procurada.
— Meu Kami-sama! Piyomon é procurada, mas o que ela fez? — a ruiva se espantou, assim como os amigos.
— Na verdade ela só estava fugindo do ataque do Digimon Kaiser e eu quero encontrá-la para protegê-la. — revelou o Digimon estrela.
— Que susto, pensei que ela pudesse estar com um Anel Negro! — declarou a primeira herdeira do brasão do amor, com alivio em sua voz.
— Credo amiga, vira essa boca pra lá. — Miyako arrepiou-se so de pensar.
— Anel Negro! — o anfitrião espantou-se começando uma crise de tosses.
— Você está bem? — perguntaram todos.
E o xerife tirou seu chapéu, se recuperando da tosse e assim expondo o Anel Negro que tinha em sua cabeça.
— UM ANEL NEGRO! — Admiraram-se todos.
— Eu sabia que ele não era confiável. — Veemon se manifestou.
— Não foi isso que você disse ante!. — o líder repreendeu o parceiro.
— Todos aqueles que se apresentam como heróis da justiça, são suspeitos. — Armadimon pontuou.
— É muito tarde para dizer isso. — Hida contrapõe irritado.
— Me sinto estranho. — Hawkmon titubiou.
— É isso mesmo, esse é um Anel Negro. Vocês deveriam saber que não se deve aceitar nada de estranhos. Estou a serviço de Digimon Kaiser-sama e tenho ordens para acabar com vocês.
O primeiro pensamento dos jovens foi de correr, mas suas consciências foram sumindo e seus corpos quedaram inertes sobre o solo.
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