Inimigo Meu
2 Capítulo 2 - Como O Gelo Eterno
Notas iniciais
Entrou as pressas no elevador, apertando com insistência o botão do 34° andar do enorme e luxuoso prédio localizado na bela cidade de Kyoto. No entanto, nem toda a beleza do lugar era capaz de fazê-lo esquecer do motivo que o trazia ali. Seu coração batia tão disparado que parecia que a qualquer momento ele ia sair por sua boca. Que seu irmão não cometesse nenhuma besteira, que seu irmão não cometesse nenhuma besteira! Repetia inúmeras vezes em sua mente, desejando que as coisas não chegassem a esse ponto. Realmente era necessário ir até ali tirar satisfações? Afinal de contas, aquela mulher não merecia tanto, já que o traíra com seu maior rival... Mas sabia que o orgulho do irmão era grande o suficiente para tal atitude.
Suspirou fundo tentando manter a calma, não queria e nem devia tomar atitudes drásticas naquele momento. Achava toda aquela situação ridícula, indevida e era exatamente por isso que estava ali, em território inimigo para impedir que um desastre acontecesse. A seu ver, conversando era que se resolvia as coisas, sempre havia pensado dessa forma, ao contrario do irmão, que resolvia tudo na base do soco. Mas se tivesse que partir para a violência para protegê-lo, o faria, mesmo que na verdade não nutrisse tanta rivalidade assim por aquele homem...
Não entendia por que tanta raiva e ódio, só sabia que tudo isso provinha de anos... Séculos em que tanto sua família como a família do outro, se consideravam inimigos mortais. Como tudo isso acontecera? Ninguém sabia, mas a raiva estava ali presente, descendendo gerações.
A porta do elevador finalmente se abriu e apressadamente ele se dispôs a seguir para a sala da presidência, as mãos deslizando freneticamente pelos longos e cacheados cabelos loiros, mania que possuía sempre que estava nervoso. Avistou a porta ao fim do extenso corredor, totalmente vazio e se preparou para bater, mas se deteve. Pode escutar claramente a voz grossa e estridente do irmão juntamente com outra que ele julgou que só poderia ser dele...
– Eu vou acabar com a sua raça seu maldito! – Ikki gritou possesso, embora ainda estivesse do lado de fora, sabia que ele estava prestes a avançar sobre quem ameaçava.
– Pelo que? – o segundo retorquiu calmamente. – Por eu ter ficado com a vadia da sua namorada? Infelizmente eu não tenho culpa dela ser uma vagabunda que vai para a cama com o primeiro que...
Ele não terminou.
Não terminou por que o soco que levou na cara não o permitiu continuar a falar. Num acesso de preocupação esqueceu-se da educação e de tudo mais, o rapaz de logos cabelos loiros adentrou de uma só vez, abrindo bruscamente a porta da sala da presidência e se atirando na direção do irmão. Segurou-o fortemente, embora com dificuldades, tirando-o de cima do homem ao qual golpeara. Que vendo aquela brecha, aproveitou para socá-lo. E a briga tomaria rumos estridentes se ele não tomasse uma atitude drástica.
– Chega! – gritou se pondo entre ambos num rompante. Os longos cabelos totalmente desalinhados, a blusa social antes impecável, agora totalmente amarrotada. Encarou o irmão o repreendendo e em seguida direcionou o olhar para o real motivo de toda aquela situação. E o tempo simplesmente parou...
Ele tinha adoráveis e profundos olhos verdes, os verdes azulados mais belos que já tinha visto em toda a sua existência. Por todos os deuses! Que ser perfeito era aquele que estava a sua frente? Agora entendia o porquê da namorada de seu irmão ter o traído. Com toda aquela beleza, quem não se renderia em seus braços? A pele levemente pálida como alabastro constatava com aquele verde estranho de seu olhar ou seriam azuis? Os cabelos ruivos que lhe caiam pelas costas como cascatas, tão vermelhos... E embora fosse envolto de cores quentes, ele parecia tão frio... Como se fosse uma escultura de gelo eterno.
Não se lembrava que ele era tão belo...
Mas o que estava a dizer? Como estava sendo capaz de descrevê-lo dessa forma? Aquele mesmo homem, alem de ser o maior de seus rivais, traíra seu irmão de maneira vil, transando com sua namorada e não tinha o mínimo de vergonha de admitir que o fizera. Idiota, idiota, recomponha-se! Gritou em sua mente, tentando parar de encarar aquelas esmeraldas a sua frente que pareciam ter o poder de hipnotizá-lo. Mas isso parecia algo tão impossível...
– Como ousa entrar dessa forma em minha sala? – a voz grave e perfeita se fez presente de repente. Camus, era assim que se chamava e ali naquele local ele era supremo, o presidente de uma das construtoras mais aclamadas do pais. No entanto mesmo irritado com tal intervenção, não conseguia demonstrar tal ato. Sua voz saíra suave e até gentil demais para seus padrões.
A verdade era que não havia como ser grosseiro com aquela criatura tão bela que estava a sua frente. Os longos cabelos possuidores de um loiro dourado profundo estavam desgrenhados e mexas caiam por sua delicada e angelical face. Sim, ele se parecia com um anjo... A pele levemente bronzeada que lhe lembravam uma linda tarde de primavera, levemente corada nas maças do rosto e os olhos... Azuis. Tão azuis que reluziam mais que duas safiras. Ele era perfeito. Um sorriso malicioso brotou em seus lábios, até que aquele dia não estava saindo de todo ruim, porém rapidamente tratou de mudar seu semblante. Encarou novamente sério, a personificação da beleza que estava a sua frente e aguardou a resposta.
– Eu... Eu... – tentou formular uma reposta plausível, porém seu nervosismo o traiu e parecia que as palavras não queriam sair de sua boca. Respirou fundo e tentou mais uma vez. – Eu sinto muito. – conseguiu dizer por fim. – Sei que não deveria ter invadido sua sala dessa forma, mas tive que fazê-lo antes que você e o meu irmão se matassem. Realmente sinto muito...
– Não tem que se desculpar para esse maldito! – Ikki bradou já se preparando para ir novamente para cima do loiro, porém foi prontamente impedido pelo mais velho que o segurou forte pelo braço.
– Já chega com isso Ikki. – dessa vez fora ele que bradara. – Peço desculpas sim, por que agi de modo errado.
– Esta vendo Ikki Kazame, pelo menos o seu irmão tem educação. – limitou-se a alfinetá-lo enquanto arrumava a gravata e o paletó. – Vejo que ainda é o mesmo de antes não é Milo... Sempre certinho, sempre achando que as coisas podem ser diferentes.
Sim, eles já se conheciam antes. Verdade, fazia muito tempo que não o via pessoalmente, apenas pelas fotos de revistas e jornais nas quais o “aclamado escritor” saia. Fora isso, o vira pela ultima vez quando tinha quinze anos. Ainda se lembrava como se fosse ontem...
Naquela época ele não odiava tanto aquela família.
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O garoto corria desesperado por entre os corredores do colégio. Nunca teve medo daqueles idiotas que estavam atrás de si, na realidade os enfrentaria sem medo se pudesse. O problema era o que eles queriam destruir o seu maior tesouro e se parasse para brigar com toda a certeza ele sairia danificado. Sendo assim, sua melhor opção era correr. Virou um corredor se escondendo como podia atrás de uma mureta. Quando os viu passar direto, fez o caminho oposto, desesperado para chegar logo ao portão principal e se ver livre daquele lugar. Porém quando faltava menos de um metro para alcançar seu objetivo, eis que sua falta de sorte resolveu dar as caras, o fazendo esbarrar com tudo em alguém, levando-os consequentemente ao chão.
– Ai! Será que não é capaz de olhar para onde anda? – o garoto abaixo de si resmungou.
Milo estava pronto para dar-lhe uma resposta quando se deteve ao olha-lo melhor
Aquele era o ser mais belo que já tinha visto em toda a sua pouca existência. A pele de um pálido tão lindo e suave, os brilhantes e pequenos olhos verdes e o cabelo... Tão perfumado e de uma tonalidade avermelhada tão profunda. Como ele era belo... Não, a palavra que o definiria melhor seria, perfeito.
Porém o que o jovem não sabia era que ele não era o único a observar ali.
Camus, como era chamado, tinha se perdido completamente ou a palavra mais adequada seria “afogado” naquele mar azul e profundo que eram aqueles olhos. Pelos deuses, aquela criatura que estava em cima de si realmente existia? Afinal era tão perfeita e bela que poderia ser confundida com um anjo. Os longos cabelos cacheados projetados para a frente de seu rosto, mas pareciam fios de ouro reluzente, a pele possuía um bronzeado natural que o fazia ter vontade de toca-lo, sentir sua maciez...
Ergueu a mão para tocar-lhe o rosto belo e suave, quando vozes atrás de si quebraram o encanto do momento.
– Eu não disse Raito que esse garotinho era na verdade uma garotinha? – o garoto mais alto do grupo de quatro se manifestou as gargalhadas. – Homem que é homem, não fica pelos cantos escrevendo romances de contos de fadas.
– Olha pelo lado positivo Iruki, ele é bem safadinho pelo que estou vendo. – o garoto que se chamava Raito, respondeu ao comentário do amigo. Um sorriso malicioso brotava em seus lábios, enquanto os olhos negros fitavam a figura ainda jogada no chão. – Acho que podemos nos divertir muito com ele.
Milo que ainda se encontrava em cima de Camus, fechou os olhos com força para não chorar, não faria isso na frente daqueles idiotas, não faria isso na frente daquele ser belo abaixo de si. As mãos que até o momento estavam espalmadas sobre o peito do ruivo, foram de encontro o chão, apoiando-se para se levantar e ao mesmo tempo pegar o grosso livro de capa alaranjada, que só agora Camus percebia que ele levava.
– Por que vocês não me deixam em paz hein? – o loiro gritou fazendo força para controlar o choro, o que acabou resultando numa coloração rosada em suas bochechas.
– Olha só, a boneca sabe falar... – Iruki comentou novamente, levando seus parceiros de grupo a caírem no riso.
– Igualmente a você. – a voz fria e extremamente calculada do ruivo se fez presente no local, enquanto o mesmo se colocava de pé. – A boneca aí tem medo de apanhar?
Ditara sem o mínimo de alteração na voz, que saiu calma e tranquila. Mas na realidade, por dentro uma irritação enorme tomava conta de si. Não sabia por que, nem o motivo de se sentir daquela forma, no momento tudo o que tinha consciência era que se aquele idiota abrisse a boca para falar mais alguma ofensa aquele anjo, iria quebrar a cara dele.
– Huuh... – o garoto não se deixou intimidar. – A princesinha tem guarda-costas... Vem pra cima então ruivo esquentadinho, acha que pode comigo?
– Eu não acho. — um sorriso sinistro se moldou em seus lábios antes de sussurrar. – Eu tenho certeza.
E no instante seguinte tudo foi tão rápido que nem Milo viu como aconteceu. Viu quando Iruki veio para cima do ruivo, no entanto não vira como foi que o mesmo acabou com o pulso quebrado. Só percebeu quando o garoto encrenqueiro que tanto o provocava saiu em disparada, correndo pelos corredores em direção da enfermaria da escola, gritando de dor e sendo seguido por seus “colegas”.
Fitou o ruivo por um momento, o mesmo até então não havia se manifestado. Tão imponente, tão superior, algo como aquelas paredes de gelo eterno. Frias, enormes e impossíveis de derreter. Respirando fundo, resolveu agradecer logo pela ajuda e claro, pedir desculpas por tê-lo derrubado no chão.
– O-o-obrigado pela ajuda. – disse gaguejando. Mas que reação maluca era aquela que esse garoto estranho tanto lhe causava?- Me chamo Milo.
– Camus. — o ruivo apenas ditou enquanto o observava.
– É, des-desculpa também por... Por ter caído em cima de você. É que bem, eu estava...
– Fugindo daqueles idiotas. – respondeu pelo loiro, vendo o rosto do mesmo corar violentamente. – Eu entendo. Mas, deveria enfrenta-los.
– Eu sei. – Milo apenas ditou abaixando a cabeça, já estava realmente de saco cheio daqueles garotos, no entanto temia enfrenta-los por outro motivo, não por medo como o ruivo estava pensando. – Olha, eu até que os enfrento, não tenho medo deles não. O problema é que dessa vez eles queriam destruir o meu... – ia dizer diário, mas se deteve. Afinal de contas, o que o ruivo perfeito iria pensar de si? Agiria igualmente aos seus colegas de classe, diria que isso não era coisa de homem? Definitivamente não entendia o porquê de tanto preconceito, o que tinha de mais em escrever romances? Será que não poderiam respeitar a sua escolha? – Quer saber, deixa para lá.
Lançou um ultimo sorriso de agradecimento e de maneira quase suave, passou pelo ruivo seguindo em direção a saída da escola. Porém foi impedido por mãos frias que se pousaram em seu pulso.
– Não acho que escrever seja coisa de garota. – Camus ditou lançando-lhe pela primeira vez um sorriso. Não sarcástico e frio como antes, mas meigo, suave e até radiante. Aquele ser ficava ainda mais lindo quando sorria desse jeito. – Pelo contrario, é um dom que poucos possuem...
E novamente o tempo parou com um a encarar o outro, por minutos que mais pareciam se arrastar como horas. Verdes perdidos em azuis... Azuis perdidos em verdes. Camus queria poder dizer para aquele anjo que jamais vira criatura mais linda que ele. E Milo queria poder pedir para aquele ser perfeito e belo sorrir somente para si. No entanto, como antes, o encanto foi quebrado pela voz suave e ao mesmo tempo repreensiva de uma mulher de longas madeixas avermelhadas.
– Camus, o que faz aqui com esse garoto? – a mulher que não aparentava ter mais de quarenta anos de idade se aproximou, olhando de forma acusadora para o loiro de brilhantes olhos azuis.
E Milo não pode deixar de reparar o quanto ela era bela, tanto quanto o filho. Por que sim, para parecer tanto dessa forma só mesmo sendo mãe e filho. Era alta e esbelta, um corpo perfeito e tentador, pele pálida e olhos de um verde mais intenso ainda que os de Camus.
– Nos esbarramos sem querer mamãe. – ditou o ruivo de forma suave e controlada.
– Certo. Vamos então, o seu tio já está nos esperando lá fora. – a jovem senhora pareceu não acreditar muito naquela desculpa, no entanto, não ditou mais nada. Apenas segurou no pulso do filho o guiando em direção à saída do colégio, mas não sem antes dizer-lhe algo, que pensou que apenas ele ouviria. – Camus, quantas vezes já te pedi para se manter afastado dos Kazame?
– Mas mamãe eu não...
– Querido, você apesar de ser um Morrice, tem o sangue dos Nagumi pulsando nas veias. – a mulher de longos cabelos ruivos fechou os olhos suspirando pesadamente. – Prometa que não o verá mais.
– Eu prometo...
Milo ouvira absolutamente toda a sussurrada conversa entre mãe e filho. A vontade que tinha era de ir até eles e gritar que aquela maldita rivalidade de famílias era ridícula. Queria muito, queria mesmo poder ser amigo daquele ser tão belo e puro. Mas o que estava entre eles, infelizmente era muito maior que a vontade que tinha. Era um abismo enorme que jamais poderia atravessar.
Fechou os olhos, deixando uma lagrima solitária cair sem querer. Eles eram inimigos e nada mudaria essa afirmação...
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Milo sorriu ao se lembrar da primeira vez que encontrou aquele ser perfeito que estava a sua frente. Fazia tanto tempo, mas para ele parecia até que fora ontem. Mesmo que quisesse, jamais poderia esquecer aquele dia. Não só pelo fato de tê-lo conhecido, mas por que graças a ele foi que decidira se tornar escritor. Graças a ele tomara a coragem necessária para seguir seu próprio caminho, suas próprias escolhas.
– Você também não mudou nada Camus, a não ser que agora age como um cafajeste desgraçado. – não queria ter dito aquilo, tão pouco se intrometer em um assunto que definitivamente não era seu. Mas o que poderia fazer? Se estava decepcionado por saber que Camus pegara a namorada de seu irmão? Sim estava. Sentia-se idiota por isso, mas ainda tinha esperanças de que um dia as coisas pudessem ser diferentes entre eles, no entanto parecia que o ruivo ali com o tempo aprendera a honrar o dilema existente entre suas famílias. – Acho que poderia ter levado menos a serio o problema entre nossas famílias.
Camus que até então se encontrava perdido em seu passado, voltou à realidade com as palavras acusadoras do loiro. Um sorriso gélido brotara em seus lábios de forma sarcástica. Sim, agora era dessa forma que agia, fazendo todo o possível para atingir os Kazame. Queria destruí-los, vê-los na ruína e aquilo que fizera fora somente o começo. Tinha tantos planos em mente... Admitia que antes, assim como Milo achava toda essa rivalidade ridícula, mas as coisas mudaram, os acontecimentos recentes o fizeram aprender da pior forma possível que jamais pode se confiar em um Kazame. Eles mentem, fingem, enganam, matam. A prisão era simplesmente pouco para aquele maldito, queria ver tudo o que ele tinha ao seu redor ser destruído, as cinzas.
– Não há como levar menos a serio certos problemas, Milo. – ditou por fim, vendo os olhos do loiro o observarem com magoa.
– Engraçado, por um momento pensei que fosse diferente. – Milo argumentou, percebendo que Ikki agora o encarava desconfiado. – O garoto que me disse que eu tinha um dom...
– Não sou mais aquele garoto...
A verdade era que há muito, Camus não se via como o jovem de quinze anos daquele dia. Seus conceitos haviam mudado, ele odiava aquela família. Estava muito acima da simples rivalidade, era algo pessoal, seu sangue pedia por justiça e esse desejo só seria saciado se ela fosse feita por suas próprias mãos.
– Posso saber o que significa toda essa conversa entre vocês dois? – um Ikki já irritado voltou a falar com a voz alterada. Pelo que via, o seu irmão já conhecia aquele maldito de outras primaveras e definitivamente isso não o agradava nenhum pouco. Se Camus Morrice fizesse algo para machucar Milo, não seria só um soco que o moreno seria capaz de dar-lhe. Seria capaz de mata-lo.
– Nada que valha a pena irmão. – o loiro sibilou perdendo completamente todas as esperanças que matinha trancafiadas em sua mente. – Agora vamos embora daqui, de nada adiantara ficarmos discutindo. Esta mais do que na cara que essa é apenas a primeira batalha de uma longa guerra que estar por vir.
Milo finalizou segurando a mão de Ikki para puxa-lo em direção a saída, visto que o mesmo ainda hesitava em se retirar dali. Queria ter a honra de poder socar mais a cara do “presidente” da Nagumi´s, e por um breve momento até ponderou deixa-lo cumprir seu objetivo. Mais isso somente por um breve momento, por que definitivamente não iria dar o gostinho ao ruivo de denunciar seu irmão por agressão. Havia muitas outras formas do moreno se vingar e estava mais do que disposto a ensinar-lhe como.
Porém quando sua mão ia tocar a maçaneta da porta, Camus o deteve, pousando a mão fria em seu pulso, com fizera a exatamente onze anos atrás...
– Milo... Não se coloque em meu caminho, eu... Não gostaria de vê-lo machucado. – o homem ponderado e de negócios o fitou com intensos olhos verdes, que mais pareciam com os de um garoto de quinze anos de idade.
– Infelizmente Camus, mexeu com a minha família, consequentemente mexeu comigo também. – rebateu libertando-se daquele contato gelado que o fazia relembra de reações passadas. – Afinal, não é exatamente por isso que você esta fazendo essas coisas?
Perguntou o encarando profundamente, no entanto a resposta que esperava não veio. Milo queria que ele reconsiderasse toda essa “rivalidade familiar”, mas a verdade era que Camus já estava decidido e não voltaria atrás. O garoto que conhecera quando tinha quinze anos de idade já não existia mais e quem estava bem ali na sua frente, era um homem disposto a qualquer coisa por vingança. Sendo assim, não havia alternativa se não essa.
– Considerarei o seu silencio como um sim, Camus Morrice. – e sem dizer mais absolutamente mais nada, se retirou da sala, saindo do campo de visão do ruivo.
Camus suspirou pesadamente levando as mãos aos cabelos impecavelmente amarrados em um rabo de cavalo baixo, porem com alguns fios desalinhados devido a recente “quase briga”. Sabia que a partir daquele momento não haveria mais volta. Que a batalha entre famílias de sua geração havia começado e que definitivamente só havia espaço para um vencedor. Afinal, era dessa forma que enxergava as coisas. Mesmo que no fundo de seu coração algo o pedisse para parar antes que se arrependesse.
“– O-o-obrigado pela ajuda... Me chamo Milo”
Milo...
Não queria machuca-lo, mas isso estava muito alem de seu alcance. No final das contas o loiro estava certo, mexer com a sua família implicava em mexer com ele também. Em fazê-lo sofrer, em fazê-lo chorar, em destruí-lo por completo...
– Sinto muito Milo, mas não voltarei atrás em minha decisão. – ditou enquanto abria a porta de sua sala e saia.
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– Ande logo Shun, o seu irmão já deve estar nos esperando. – o moreno de longos cabelos negros como a noite, ditava apoiado na porta da sala de aula. A pele clara levemente bronzeada, constatava com os olhos talvez mais escuros ainda que seus cabelos. Sorria visivelmente achando graça de todo o desconcerto do jovem que tentava a qualquer custo carregar vários livros e ainda a sua mochila.
– Eu já estou indo Shiryu. – respondeu se aproximando do mesmo. Shun ao contrario do mais alto, possuía uma pele claríssima e aveludada. Os longos cabelos levemente cacheados eram castanhos, fazendo uma combinação perfeita com os brilhantes olhos verdes. – É difícil caminhar com tantas coisas assim. – concluiu sorrindo.
– Se tivesse pedido a minha ajuda desde o começo... – o moreno revidou pegando metade dos livros que estavam com o mais jovem.
– Você sabe perfeitamente bem que gosto de tentar fazer as coisas sozinho, não importando o grau de dificuldade.
– Sei. – Shiryu deu de ombros enquanto seguiam pelo enorme corredor rumo ao pátio da escola. – Mas deve fazer isso na frente de seu pai, não na do seu melhor amigo que apenas quer te ajudar.
– Tem razão. – Shun lançou-lhe um singelo sorriso de desculpas. – Da próxima vez pedirei com toda a certeza... A propósito, cadê a June? – perguntou virando-se para trás ao perceber que sua namorada não estava com o amigo.
Porém no exato momento, não vira que atrás de si vinha alguém. O que resultou em um belo esbarrão que levou ao chão não só os seus livros, mas os da pessoa também.
Levando em consideração sua natureza tímida, Shun simplesmente estancou. Abaixara a cabeça fitando os próprios pés, enquanto tentava murmurar algo parecido com um pedido de desculpas.
– Desculpe-me, não foi minha intenção, eu é que sou desastrado demais, não olho por onde ando... – disse de uma vez só, se abaixando rapidamente e pegando seus livros em uma velocidade digna até de medalha de ouro.
No entanto não percebia que o garoto a sua frente nem se escutando as suas desculpas estava. Ele se encontrava completamente perdido na sua beleza. Aquele era simplesmente o ser mais belo que já tivera o prazer de encontrar na vida. Rosto angelical e pálido, longos cabelos castanhos, olhos verdes hipnotizantes e uma boca tão rosada, que poderia ser comparada a maior das perdições.
– Ei, você se machucou? – Shiryu perguntou depois de perceber que o mais novo estava completamente embaraçado com a situação. Se aproximou do amigo segurando em seu ombro enquanto fitava a sua frente a pessoa em que ele esbarrara.
O rapaz apesar de ainda ser um estudante, tinha o atlético de um homem formado. Alto, forte e de madeixas loiras que lhe caiam até os ombros. A pele era clara, o que constatava com os olhos terrivelmente azuis e chamativos. Era por demasiado bonito, o que explicava o motivo de Shun estar daquele modo.
– Não, eu estou bem Shiryu. – o mais novo respondeu a pergunta do amigo. – E eu realmente sinto muito... – desculpou-se mais uma vez para quem esbarrara, logo em seguida virando-se de modo a ficar de frente com o moreno. – Agora é melhor irmos não é?
– Claro. – o moreno afirmou não podendo conter uma risada de deboche. Shun estava mesmo fugindo? Um dia toda essa sua timidez ainda o prejudicaria, disso tinha certeza. Fez um aceno para o loiro antes de se colocar ao lado do amigo e começar a caminhar em direção à saída da escola.
– Ei Hyoga, o que tá fazendo?
Uma voz grossa tirou finalmente o loiro de seu “encantamento”. Piscou algumas vezes até dar-se conta do que realmente estava acontecendo. Tinha esbarrado no ser mais lindo que já vira naquela escola e simplesmente não fora capaz de dizer-lhe absolutamente nada. Ficara parado que nem uma estatua a admirar sua beleza, que nem um retardado mental. Sendo capaz de ouvir suas desculpas, mas incapaz de poder falar ao menos um “não tem problema”.
Dera a maior mancada do mundo.
Respirou frustrado virando-se para trás para fitar quem o chamara. O garoto de cabelos curtos e rebeldes o encarava ainda aguardando uma resposta a sua pergunta.
– Nada Seiya e esse é justamente o problema... Eu não fiz nada. – concluiu se abaixando para recolher seus livros, percebendo que no meio deles havia um que não era seu. – Mas quem sabe eu tenho a chance de fazer da próxima vez. – um sorriso iluminado brotara em seus lábios, estranho se sentir eufórico com algo depois dos últimos acontecimentos de sua vida. Mas a verdade era que estava de certa forma feliz por cogitar aquele “novo encontro”.
– Mas que raios você está dizendo, loiro de farmácia? – o moreno perguntou novamente. Estava boiando em tudo que o amigo falava. Parecia até que estava lhe ditando em código. – Será que pode traduzir?
– Loira de farmácia é a sua mãe. – revidou a ofensa dando um tapa na cabeça do amigo. Definitivamente ele estava de saco cheio dessas brincadeirinhas. Era loiro natural, puxara a mãe russa, o que havia de mal nisso? – E se você estivesse comigo com deveria ser, entenderia sobre o que estou falando. Afinal de contas, onde estava?
Seiya ia revidar ao tapa, mas se deteve ao ouvir as ultimas palavras de Hyoga. Sim, deveria mesmo estar com o amigo há muito tempo atrás, só que resolvera fazer algo por deveras importante antes.
– Bem, eu estava resolvendo umas coisinhas sabe... – revelou lançando um sorrisinho sínico, como se na verdade fosse um anjinho em pessoa.
– Sei... Espero que não tenha se esquecido do ultimo aviso que o diretor te deu. – o loiro deu de ombros pegando o livro que não era seu e guardando-o na mochila. – Tá querendo ser expulso da escola por acaso?
– Claro que não! E não tem nada a ver com aprontar dessa vez. – o que era verdade. Os planos do moreno envolviam algo que estava dentro das normas do colégio, pelo menos dessa vez. Só não diria a Hyoga o que era agora, por que estava esperando uma confirmação primeiro. Então para disfarçar, encarou o que o loiro guardava na mochila... E epa! Esse livro não era seu. – A propósito, de quem é esse livro? Pelo que sei você não encapa os seus com essa cor rosa...
Claro, ele tinha que mudar de assunto propositalmente. Hyoga argumentou em seus pensamentos, enquanto lançava para o amigo um sorriso divertido.
– Da garota mais linda que eu já vi dessa escola. – respondeu lembrando-se da imagem daquele ser absolutamente perfeito. – Esbarramos sem querer, ela pegou os seus livros compressa e acabou esquecendo esse.
– Para a sua total sorte, não é loirinho? – Seiya contrapôs ás risadas. No entanto, mesmo que não demonstrasse, estava feliz pelo amigo. Havia um brilho diferente naqueles olhos azuis que há muito não via e era ótimo vê-lo novamente alegre.
– Quer saber, cala essa sua boca Seiya e vamos logo embora, antes que a tia Saeko pense que eu fui sequestrado... – disse por fim encerrando aquela conversa. Sabia perfeitamente aonde ela iria parar se fosse adiante
Estava se recuperando do passado e não queria tocar nele novamente. Só o que importava de agora em diante era o presente e nele havia lindos olhos verdes que o chamavam num convite mudo para a felicidade.
Notas finais
Comentários e elogios sempre são bem vindos e claro me incentivam...
Kissus...
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