Infinito em Estilhaços
5 O tempo
Pensei que ao recuperar minha memória, eu poderia ajudar Bruce, desvendar o mistério que cerca seu desaparecimento, reencontrá-lo e me sentir completa de novo. Mas as coisas não saíram como eu gostaria que fossem. Bruce não apenas desapareceu, ele foi varrido do mapa, banido para algum lugar remoto que talvez nem fique na Terra, ele foi... arrancado de mim. E de Alex. E da vida que estávamos prestes a construir juntos em nossa casa. Bruce foi banido por um artefato misterioso que se perdeu no meio do oceano Pacífico, depois da sequência de explosões naquela maldita base da HYDRA.
Nem mesmo Tony, com toda a tecnologia de que dispõe, conseguiu rastrear aquela abominável rocha negra que me separou do Hulk até agora. Ele vem tentando desde que eu o procurei e joguei em cima dele todo o pesadelo que eu e Bruce vivemos naquele lugar, desde que compartilhei cada detalhe, desde que revelei a verdadeira identidade de Kurt Lockwood — Philip Sterns, na verdade —, do envolvimento dele e da mãe, Nadia, no plano de vingança contra Bruce.
A única coisa que não contei a Tony foi como me curei da amnésia do dia para a noite. Compartilhar isso me obrigaria a admitir que estive com Wanda Maximoff e, desde os eventos envolvendo o Tratado de Sokovia e a Guerra Civil entre os Vingadores, ela virou uma espécie de fugitiva. A relação de Tony com o time do Capitão América ficou estremecida também e eu não podia arriscar que Wanda ou Pietro fossem prejudicados por minha causa. Por isso, eu menti. Falei para Tony que me lembrei de tudo de repente.
Se bem que há certa verdade nisso. Foi mesmo de repente que o choque me atingiu em cheio. Num instante, Bruce Banner era um completo estranho para mim. No outro, com as lembranças surgindo num ritmo frenético e muito vívido, ele voltou a ser o homem da minha vida. Meu grande amor. O Vingador que me salvou de tantas maneiras e que... eu perdi do dia para a noite. Num instante, eu não fazia ideia do que tinha acontecido antes de Tony me resgatar. No outro, foi como reviver todo o sofrimento e sentir de novo a tensão em cada nervo. O trauma se alastrou com força total em cada recôndito da minha mente. Nunca me senti tão desnorteada. Nem mesmo quando perdi a memória.
Depois que Wanda e Pietro foram embora, eu precisei de um bom tempo para acalmar a forte emoção que me deixou assim. De algum jeito, consegui aplacar a dor e voltar para o meu apartamento dirigindo devagar. Não precisei dizer nada a Josh num primeiro momento, ele soube pela minha expressão atormentada que eu finalmente tinha lembrado de tudo que vivi.
A ponto de enlouquecer, encontrei uma forma de me reerguer. Segurar o meu filho — e de Bruce — nos braços, sentir o calor do seu corpo pequenino e o cheiro sereno comum aos bebês me ajudou a encontrar uma força dentro de mim que eu não sabia que possuía.
Então, eu fiz uma promessa a Alex, ignorando o fato de que ele não entendeu uma mísera palavra do que sussurrei em seu ouvido. Eu prometi que não vou desistir de Bruce e que não vou perder a esperança. Mesmo que eu não saiba onde procurá-lo, mesmo que nem Tony nem a S.H.I.E.L.D. saibam agora, mesmo que não caiba a nenhum de nós trazê-lo de volta, vou esperar por Bruce até o fim da linha. Em paralelo, vou focar no nosso filho e reconstruir minha vida profissional. Serão as duas bases nas quais vou trilhar meu caminho, as duas bases que me darão força para viver um dia por vez.
Como presente do casamento que nunca aconteceu, Pepper Potts comprou a boate Inferno e me deu o lugar para administrar como um acordo de sociedade muito vantajoso. Sou a sócia majoritária e posso fazer o que bem entender com o lugar, repassando a porcentagem de lucro que seria dela para obras de caridade da Fundação Stark.
A boate é muito especial para mim. Foi lá que Bruce me viu pela primeira vez, por mais que eu não tenha o visto na ocasião. Também foi o cenário do nosso primeiro encontro oficial, quando ele finalmente decidiu se arriscar um pouco e apostar num possível envolvimento entre nós. Foi lá que eu fiz algo impensado: dancei música lenta e romântica com ele. Somente Bruce para ter conseguido essa proeza. Claramente, eu já estava perdidamente apaixonada por ele naquela época ou nunca teria concordado com algo tão clichê.
Tenho saudade dos nossos momentos. De todos eles. Clichês ou não. A saudade machuca demais. Esse vazio é doloroso demais. E não saber o que aconteceu com Bruce exatamente é angustiante... demais também.
Numa noite, dias depois de Tony enfim ter encontrado o monólito misterioso no fundo do mar, olhei para o céu e me senti patética por chamar minha melhor amiga, Olivia Mills. Imaginei que talvez ela, estando em Asgard, pudesse ajudar a encontrar Bruce. Uma vez, ela comentou algo sobre um sentinela que vê tudo e todos no universo.
Infelizmente, Olivia não deu qualquer sinal de vida depois do meu chamado. Não voltou milagrosamente, com seu jeito irreverente e sorriso fácil nem naquela noite nem nos dias que se seguiram.
Talvez ela não esteja em Asgard. Talvez esteja passando uma temporada com o pai em Spartax. Ou talvez o tal sentinela não me ouviu por motivos que não sou capaz de adivinhar. Seja como for, acho que Asgard deve ter os próprios problemas para se preocupar, e Olivia faz parte daquele mundo há cerca de dois anos. Aposto que está com saudade da Terra, mas se não voltou até hoje, deve ter suas razões.
Fui visitar Tony algumas vezes na Torre. Por mais gênio que ele seja, por mais empenhado que esteja em encontrar o amigo, a rocha negra que baniu Bruce não entrou em atividade de novo. Tony tem estudado a sua estrutura exaustivamente, tentado reativá-la com sua tecnologia, mas nada surte qualquer efeito. Para piorar, parece não haver nada na Terra semelhante aos componentes da rocha. Sem nada para comparar, qualquer experiência é um tiro no escuro. Até agora, tiros no escuro que terminaram em frustração. Um verdadeiro beco sem saída.
Não importa. Prometi que não vou perder a esperança, e não vou. Um dia, Bruce vai voltar para mim. Ele tem que voltar. Isso não pode ser o fim. Não é justo, eu não aceito, simplesmente não dá.
Meses depois...
Prestes a completar um ano de vida, Alex é um menino saudável e muito alegre que me surpreende e me deixa completamente boba a cada dia. Ele deu os primeiros passos sozinhos hoje, depois de muito explorar o apartamento, apoiando-se nos móveis.
Infelizmente, meu filho teve sua primeira caminhada sozinho interrompida pelo cachorro Hulk. O são bernardo correu em disparada após ouvir um gato miando na vizinhança e cruzou o caminho dele de um jeito estabanado. A princípio, fiquei preocupada que Alex tivesse se machucado ao despencar sobre o tapete, porém, apesar do susto, meu pequeno príncipe levou o incidente na esportiva. Alex não chorou. Ao invés disso, uma suave e deliciosa gargalhada se espalhou pelo ar.
Num instante, o Hulk estava de volta à cena do crime. Como se pedisse desculpas ao menino por ser tão desastrado, abanou o rabo de maneira frenética e deu uma boa lambida no seu rostinho, arrancando mais uma risada encantadora e contagiante de Alex.
Quando assoprei as velhinhas para ele, duas semanas depois, meu filho já estava andando e explorando o mundo com mais desenvoltura.
Chamei Tony e Pepper para a festa de aniversário. Nada mais justo ter os futuros padrinhos de Alex por perto. Josh estava babando pelo sobrinho como sempre e tudo estava indo muito bem até meu adorado cachorro decidir pular na mesa e abocanhar o bolo com vontade.
Por um momento, ninguém disse nada. Depois, risos. Em seguida, Tony fez uma ligação e logo um bolo ainda maior e mais bonito foi entregue a toque de caixa.
Senti falta de Bruce hoje. Sinto todos os dias, claro. Mas hoje foi diferente. Queria muito que ele estivesse aqui para ver o filho, para conhecê-lo afinal, para comemorar o primeiro aniversário em sua doce companhia.
Registrei tudo que pude. Várias fotos e vídeos. Um dia, vou mostrar tudo a Bruce e será como se ele tivesse estado aqui o tempo todo.
Um ano depois...
Tenho me desdobrado entre a criação de Alex e o trabalho. Modéstia à parte, tenho me saído muito bem nas duas tarefas. Ser mãe, mesmo distante de Bruce, foi a melhor coisa que poderia acontecer na minha vida. E a boate Inferno, que passou a se chamar Embalos da Noite, continua sendo uma balada, porém mais saudosista, focada nas melhores músicas dos anos 70 e 80, alguma coisa dos 90 também, além de ter um espaço gourmet amplo e um bar com mais variedade de drinks. Finalmente encontrei o trabalho perfeito para mim e estou muito feliz na administração geral do negócio.
Alex está cada dia mais esperto e mais parecido com o pai. O vocabulário tem evoluído bastante e, embora algumas palavras ainda saiam de um jeito engraçado e, por vezes, indecifrável, ele se comunica de um jeito encantador e nunca desiste.
Tenho mostrado fotos de Bruce para ele, deixando muito claro de quem se trata.
— É o papai — repito, com ele no colo e o celular em uma das mãos. — Papai.
Hesitante, Alex arrisca:
— Pa... papá.
Meu peito se aquece e encolhe ao mesmo tempo.
— Isso mesmo, meu amor. O papai.
Não digo mais nada. Minha voz soou embargada demais, então me limito a abraçar Alex, sorrir e passar para a próxima foto.
Em dois anos de vida, meu filho nunca ficou doente. Nem mesmo um resfriado. A radiação Gama que herdou de Bruce não lhe trouxe qualquer problema até agora e ainda parece ter contribuído para a sua resistência imunológica de algum jeito. Eu não poderia estar mais aliviada.
A segunda festa de aniversário foi na casa que Bruce e eu ganhamos de Tony no Queens. Decidi me mudar para lá há poucos meses. Dividir um apartamento pequeno com Josh, o cachorro Hulk e um bebê estava desconfortável para todos. A princípio, Josh fez um drama desnecessário, alegando que eu estava tentando afastá-lo do sobrinho que tanto mima. Entretanto, depois ele entendeu que era a melhor escolha e tem nos visitado regularmente.
Foi difícil para mim também, afinal Bruce ia morar aqui comigo. Suas roupas e pertences continuam no guarda-roupa, como testemunhas silenciosas de um futuro que nunca aconteceu. Bruce tinha trazido a maioria delas quando o casamento estava para acontecer. O restante, eu peguei do seu quarto na Torre.
Foi igualmente difícil entrar lá. Muitas lembranças. Eu o via por toda a parte, mas Bruce não estava lá de verdade. Assim como também não estava na nossa casa enquanto eu arrumava tudo.
Dormir numa cama tão espaçosa como esta — a cama que era para ser nossa — intensificou a falta que sinto dele, do calor do seu corpo, do seu carinho, dos beijos apaixonados, de tudo que éramos juntos.
Infelizmente, não houve qualquer progresso em relação ao monólito alienígena que baniu Bruce e o Hulk da minha vida.
Sigo esperando. Talvez não tão confiante quanto no começo, mas esperando.
Meses depois...
Em poucas semanas, Alex vai completar três anos de vida. Ele é simplesmente um príncipe e muito inteligente para a idade. Fala praticamente tudo, questiona tudo, tem uma energia vibrante e, às vezes, parece ligado no 220 volts. Outras vezes, é sereno ao extremo. Sempre muito carinhoso e doce. Uma perfeita mistura minha e de Bruce.
Finalmente ele foi batizado como se deve. O que foi engraçado porque Tony não faz muito o tipo religioso. Mesmo assim, estava lá na capela ao lado da, agora esposa, Pepper Stark. Josh se emocionou muito, e Cristhian Patel, com quem passou a viver há mais ou menos um ano depois de namorarem por bastante tempo, teve que lhe oferecer um lenço em dado momento.
Meus pais vieram para o batizado. Eles já conheciam o neto, pois tinham vindo me visitar quando Alex tinha dois meses. Na ocasião, como não podia deixar de ser, perguntaram onde estava o pai da criança. David e Astrid Prescott sabiam alguma coisa sobre Bruce Banner pois eu havia contado que era meu namorado e íamos casar em breve, mas não sabiam como tudo havia desandado. Então, decidi que já era hora de saberem a verdade por inteiro e revelei cada detalhe sobre ele e como nos separamos. Inclusive, o triste fato de que eu não fazia, e ainda não faço, a menor ideia de onde o Vingador foi parar. Apesar do choque, eles assimilaram a história e vêm me apoiando desde então.
Gravei o batizado de Alex como venho fazendo com cada aniversário. Também tenho registrado momentos aleatórios e puramente rotineiros. Brincadeiras no jardim da nossa casa, Alex correndo atrás do Hulk, o cachorro disparando para buscar a bolinha que meu filho adora jogar para ele.
Contando o tempo da gravidez, tem quase quatro anos que Bruce e eu fomos separados de maneira covarde e inesperada. O corpo de Philip Sterns nunca foi encontrado e, uma parte sombria de mim, sabe que ele escapou de algum jeito. Nenhuma novidade sobre o monólito. A estrutura segue inativa. Tony acredita que ela entra em atividade de tempos em tempos, e a HYDRA sabia que naquele dia que o Hulk entrou na cela, aconteceria. Devem ter encontrado o artefato bem antes e o estudado por muito tempo, talvez décadas, até cair nas mãos de Philip e Nadia.
Afasto esses pensamentos como posso e me concentro em empurrar o balanço no qual Alex está sentado. O brinquedo fica sob uma árvore no quintal e meu filho simplesmente adora. A cada empurrão, ele exige com um sorriso na voz infantil e empolgada:
— Mais alto, mamãe! Mais alto!
Embora tenha uma cicatrização impressionante — quando sofre pequenas quedas em casa, arranhões e hematomas desaparecem por completo no dia seguinte —, não ouso arriscar e sigo com precaução na tarefa de empurrá-lo.
— Isso não é mais alto, mamãe...
O protesto sai de um jeito resmungado, e me pego rindo por um momento. Depois, fico emocionada por ele não demonstrar qualquer medo. De cair ou da altura. Alex é mesmo o meu guerreiro e filho de um Vingador, um menino corajoso e que adora desbravar o mundo. Tem sido maravilhoso desbravar junto com ele.
Meu sorriso se esvai ao lembrar que seria ainda melhor se Bruce estivesse aqui. Eu daria qualquer coisa para que ele estivesse agora, vivendo essa experiência comigo e com o filho que desconhece a existência.
Só que Bruce não está aqui. Não sei quando ou mesmo se estará um dia. Não sei como mudar esse cenário desolador. Prometi que manteria a esperança, mas tem sido impossível depois de tanto tempo sem qualquer sinal.
Infelizmente, eu terei que gravar mais uma festa de aniversário de Alex, sem qualquer certeza quanto a um regresso do pai dele num futuro próximo ou mesmo distante.
Dói demais admitir isso, mas só agora eu percebo que perdi Bruce de verdade. A promessa que fiz foi só uma forma de negar que o perdi para sempre.
O fim da linha já passou há muito tempo.
[...]
Por mais que eu tente, essa certeza pessimista — ou realista — me acompanha pelo caminho até o trabalho.
Sempre chego antes de todo mundo e fico no lounge bar por um tempo, sentada à uma das mesas, repassando a contabilidade e fluxo de caixa daquela semana, além de definir o repertório da noite e atualizar o site sempre que tem algum evento especial.
Tem pessoas que gostam de trabalhar em silêncio ou, no máximo, com música instrumental. Eu gosto de trabalhar com música alta, que tenha letra e uma melodia gostosa. Por mais surpreendente que seja, me ajuda na concentração, além de afastar certas lembranças. Por isso, enquanto escolho a seleção para a noite, deixo as faixas tocando no sistema de som da boate.
A música da vez é The deeper the love, Whitesnake e, admito, não é a primeira vez que ela está preenchendo o vazio do lugar. O que posso dizer em minha defesa? Quem nunca ouviu uma única música repetidas vezes, que atire a primeira pedra.
Tomo um gole de água e digito alguns dados na planilha de custos, estreitando o olhar na tela do notebook. Minimizo o arquivo, revelando uma foto de Alex por um instante. Sorrio.
Disparo alguns e-mails para os fornecedores depois. Nesse momento, noto algo pela visão periférica e olho de relance para a entrada da Embalos da Noite.
E é então que preciso olhar de novo para a silhueta adiante. Com mais atenção dessa vez porque estou convencida de que meus olhos me enganaram de primeira. Só pode ser um dos seguranças da boate, certo?
Errado. Não é um deles. Nem de longe.
Engulo em seco, surpresa. Não é um rosto estranho afinal. Nem de longe também. Ainda assim, continuo duvidando dos meus olhos. Devo ter enlouquecido e estou alucinando. Ou caído no sono e mergulhado num sonho maravilhoso e cruel ao mesmo tempo.
— Amelia — o sonho em pessoa diz.
Com o mesmo tom doce. Com a mesma voz que eu não ouço há quase quatro anos. Com o mesmo olhar cálido e profundo. Causando o mesmo efeito avassalador no centro do meu peito.
Ele está mesmo aqui? A apenas poucos passos de distância?
— Bruce?
Não sei de onde tiro foco para dizer seu nome. Dentro de mim, uma avalanche de emoções duela por dominância. Choque, surpresa, alegria, alívio, incredulidade, medo dele ser apenas uma ilusão ou um sonho que vai se dissipar assim que eu abrir os olhos de verdade.
De súbito, coloco-me de pé e acabo esbarrando no copo de água por acidente. Como se fosse a coisa mais curiosa do mundo, observo o líquido se espalhando pelo teclado e embaixo do notebook, molhando também documentos importantes pelo caminho. Não consigo impedir uma tragédia maior pois mal consigo me mexer.
O máximo que consigo fazer é me apoiar na mesa para não cair, pois minhas pernas tendem a fraquejar a cada segundo que tento assimilar o que está acontecendo.
Está mesmo acontecendo?
Com medo de erguer o olhar e me dar conta que apenas sonhei que Bruce Banner estava aqui, permaneço imóvel, observando o caminho da água arruinando meu trabalho, atordoada demais pelo turbilhão que me revira por dentro e me impede de reagir como uma pessoa normal faria.
Até que ouço passos ecoando em meio aos acordes da música, e logo uma mão entra no meu campo de visão sobre a mesa. Dedos conhecidos erguem o copo já quase vazio. E depois de deixá-lo de lado, a mesma mão cobre a minha.
Meu coração dá um salto como resposta ao calor imediato que se espalha por cada parte de mim. Fecho os olhos com força, rendendo-me à certeza de que não é um sonho bom ou cruel. É real. O toque é real demais. E isso só pode significar uma coisa.
— Eu estou aqui, Amelia — Bruce afirma, como se tivesse lido meus pensamentos.
Um riso nervoso me escapa. Um som gutural engasgado. Palavras fogem de mim e se escondem em algum lugar da minha mente abalada até o último circuito nervoso.
Meio às cegas, dou a volta na mesa e me atiro nos braços de Bruce com toda a emoção que não consigo mais controlar. Com as lágrimas que também não consigo conter. Abraço-o com toda a força, com toda a saudade que mal cabe em mim, com o alívio mais profundo que já senti, com tudo o que sou. Abraço tudo que preciso, tudo que amo e que está mesmo bem aqui. De volta. Comigo.
No mesmo instante, e enquanto eu fecho os olhos, Bruce me abraça com igual urgência, com a mesma força e carinho, com o mesmo amor do qual não esqueci nenhum dia e senti falta em cada um deles.
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