Não me lembro como se deu a minha saída do planeta Terra, o Hulk estava no comando quando tudo aconteceu. Mas uma coisa é certa: nem que eu viva mil anos vou me esquecer da volta.

Esse pequeno planeta azul num sistema solar às margens da Via Láctea emite uma grandiosidade que me atinge em cheio. Foi nele que nasci, vivi, fiz amigos e inimigos, lutei, falhei, fui odiado, temido, me reergui, amei e fui amado. É nele que a minha vida inteira está. E nele que Amelia está.

A nave orbita a Terra há algum tempo, e Thor faz os últimos ajustes para que ela mergulhe na atmosfera daqui a alguns minutos. Perto dele no painel de navegação e com as mãos para trás, Loki lança uma indireta no ar:

— Será que Midgard já tem um rei?

— Irmão, para o seu próprio bem, não comece.

Ao lado do marido e deus trapaceiro, Olivia dá um cutucão nada discreto em suas costelas e resmunga entredentes:

— A essa altura do campeonato, pensei que você já tivesse entendido que o meu povo não precisa de um rei, chuchu.

Loki esboça um sorriso torto para ela e, com um ar de inocência, replica na mesma hora:

— Eu sei, tormento. Considere apenas uma brincadeira para descontrair a tensão que paira no ar. Além disso, a essa altura do campeonato, eu já aceitei que a humanidade é um povo limitado demais para entender a grandiosidade de um rei. Não estão à minha altura, afinal.

Olivia fuzila Loki com o olhar e repete as palavras dele com insatisfação:

— Povo limitado demais? Gafanhoto, por acaso você esqueceu que eu sou midgardiana também?

— Metade midgardiana, metade spartoi, se bem me lembro.

Olivia cruza os braços e solta o ar pela boca.

— Então eu sou apenas metade limitada para você?

Uno as sobrancelhas, começando a achar a conversa interessante e curioso para descobrir como o Deus da Trapaça irá sair da saia justa na qual ele mesmo se meteu.

Um segundo depois, Loki lança um olhar intenso na direção de minha amiga e juro que a vejo cambalear um pouco numa reação involuntária. Então, ele inclina a cabeça na direção da orelha dela e, com a voz mais baixa e meio rouca, consigo ouvi-lo dizer:

— Não. E você sabe que é a única exceção, Olivia.

Nesse momento, sorrio e paro de olhar para eles porque a situação me parece íntima demais. Acomodo-me numa das poltronas da nave, enquanto Olivia dá uma risadinha nervosa e responde alguma coisa que não capto no ar. Volto a observar o planeta familiar abaixo de nós e a pensar em quem deixei nele.

Não sei por quanto tempo fico fora de órbita, porém uma movimentação perto de mim acaba chamando a atenção. É Olivia sentando ao meu lado e abaixando a trava de segurança do próprio assento. Ela indica Thor com o olhar e se explica:

— O top model asgardiano ali disse que estamos quase sobre o ponto de pouso. Melhor apertar o cinto, Brubru.

Abaixo a trava da minha poltrona e olho tudo em volta, notando a ausência de alguém.

— Aonde Loki foi?

— Atrás das três pestinhas que chamamos de filhos. Vai ficar com eles até a aterrissagem na Noruega.

Depois de titubear um pouco, decido sondar:

— E você não quer fazer o mesmo?

Olivia ri como se a pergunta fosse absurda.

— Eu mencionei que os bacuris são três pestinhas? Criaturas ligadas no 220? Você está louco se acha que vou abrir mão de uma folguinha da maternidade. — Ela olha para mim de um jeito mais sério. — Além disso, eu queria conversar com você. E pedir desculpas mais uma vez.

— Olivia, você não preci...

Ela ergue a mão, num pedido silencioso para que eu a deixe continuar. Mesmo achando isso totalmente desnecessário, acato e ela logo retoma o raciocínio:

— Eu me sinto culpada, Bruce. Se eu tivesse ficado de olho, pedido para o Rádio Patroa ficar, nada disso teria acontecido. — Olivia expira com força e pensa por um instante. — Eu perguntei de vocês uma vez. Ele me contou que você e a Amy estavam juntos, bem e felizes. Fiquei tão contente pelo meu trabalho como cupido ter dado certo que abaixei a guarda. Não era como se eu nunca mais fosse colocar os pés na Terra de novo, só achei que, já que estava tudo bem por lá, era um bom momento para passar uma temporada em Spartax com o gafanhoto e nossa prole do barulho. Tanto tempo sem saber quem era o meu pai, sem saber que eu tinha um meio irmão e um povo inteiro desse lado da família, eu só... quis viver isso uma vez na vida.

— E você fez muito bem.

Tenho a impressão de que minhas palavras entram por um ouvido e saem pelo outro.

— Nós voltamos para Asgard algumas vezes. Odin queria ser um pai melhor para o gafanhoto e estava fascinado pelos netos. Thor também queria paparicar as pestinhas, claro. Aliás, é por causa dele que meus filhos não têm limites. Pensa num tio babão que deixa os sobrinhos fazerem tudo o que querem!

Adiante de nós, o Deus do Trovão protesta num tom divertido:

— Eu ouvi isso, Olivia. E me declaro... culpado com muito orgulho.

Minha amiga se limita a revirar os olhos e torna a se concentrar em mim.

— Era um recomeço perfeito em tantos sentidos. — Olivia fica em silêncio, pensando novamente. Ou, aposto, se martirizando mais uma vez. — Eu nunca vou me perdoar por não ter perguntado mais nada sobre a Terra.

Sorrio fraco.

— Você estava feliz, Olivia.

— Feliz demais para me lembrar dos meus amigos terráqueos?

— Tão feliz que pensou que todos estavam também. Nenhum crime em ser otimista.

— Argh! Eu sou um ser humano horrível, Bruce, admita. Desonra pra mim, desonra pra minha vaca!

Ela tenta cruzar os braços numa demonstração de raiva de si mesma, só que a trava de segurança impede o movimento. Olivia ainda tenta fazer um contorcionismo, mas acaba desistindo. Então, fecha a cara e aperta as laterais do assento com força.

Resisto ao ímpeto de rir e, mesmo sem acreditar nem por um minuto no julgamento final que ela fez de si mesma, decido tranquilizá-la como posso:

— Se isso te fizer se sentir melhor, saiba que está mais do que perdoada.

O semblante de Olivia Mills se suaviza de imediato e os ombros relaxam como se um enorme peso tivesse saído deles agora.

— Valeu. Obrigada por compreender, Bruce Fofo Banner. Se eu te alcançasse, apertaria suas bochechas agora mesmo.

Que bom que há certa distância entre as poltronas então. Não consigo evitar tal pensamento e um sorriso franco escapa. Olivia também sorri, de leve, antes de mudar de assunto:

— Vocês iam mesmo se casar?

Iam. Não vamos mais, ao que parece. Ou, pelo menos, não há mais qualquer certeza de que isso se realize um dia. Acho que até Olivia sabe que as coisas podem estar bem diferentes na Terra agora. Quando fui enviado para Sakaar, deixei uma noiva para trás. Não significa que vou encontrar uma noiva quando colocar os pés no planeta de novo. Muito tempo se passou, pessoas mudam, sentimentos mudam.

— Aposto que a Amy não esqueceu você.

Volto a encará-la, surpreso por Olivia ter lido meu pensamento e dito o que eu precisava tanto ouvir. Mesmo que Olivia não tenha como garantir isso, decido acreditar nela aquiescendo com um sorriso de agradecimento pelo apoio.

Nesse momento, Thor anuncia:

— Entrando na atmosfera de Midgard em três, dois... um.

[...]

Assim que a nave de Sakaar pousa num vasto campo aberto na Noruega, podemos ver algo curioso através da janela frontal de navegação. Dezenas de armaduras da Legião de Ferro, todas em posição de ataque, e uma avermelhada no centro com os propulsores apontados para nós.

Apesar da recepção um tanto rude, nunca fiquei tão feliz em ver Tony. E apesar dele estar diante de tecnologia alienígena, não demora muito para fazer a inteligência artificial Sexta-Feira ecoar um aviso no nosso sistema de segurança em alto e bom som:

“Atenção! Essa nave não tem autorização para visitar a Terra. Esse planeta está sob proteção. Se vieram em paz, saiam devagar e identifiquem-se agora mesmo. Se estão aqui com intenções hostis, aguentem as consequências.”

— Aff. Tão dramático... — Olivia resmunga, soltando a trava de segurança e ajeitando o longo vestido asgardiano ao se levantar.

Sem demonstrar qualquer abalo, apenas curiosidade, Thor indaga:

— Como Tony sabia que estávamos chegando?

Livro-me da trava também antes de responder algo que me parece bem óbvio:

— Satélites das Indústrias Stark, da S.H.I.E.L.D., NASA, enfim, olhos por toda a parte. Nós orbitamos a Terra por algumas horas e, depois da invasão Chitauri, a atenção nos céus foi redobrada. Essa recepção não me surpreende nenhum pouco. Ainda assim, foi melhor pousarmos aqui do que em Nova York.

— Concordo totalmente, Banner. — Thor observa a paisagem exuberante pela janela. — Esse lugar dará uma ótima Nova Asgard.

“Atenção! A ausência de identificação foi entendida como intenção hostil nesse planeta. Retirem-se imediatamente ou aguardem o ataque. Nenhum outro aviso será dado.”

Ao ouvir o novo recado de Sexta-Feira, Olivia corre em disparada rumo à saída da nave aos gritos de...

— Jesus, Maria e José! Alguém segura o Homem de Lata! A gente vai morrer!

— Tão dramático, Stark... — o Deus do Trovão repete as palavras que ela soltou há pouco, enquanto caminha de maneira normal até a porta frontal.

— Paranoico demais, Tony. Até para o meu padrão de paranoia — balbucio baixinho.

Vou atrás dos dois e aciono os botões que fazem a rampa se abrir e descer rumo ao extenso gramado à nossa volta, visto que Olivia se atrapalhou um pouco — bastante — com essa parte.

Thor passa na nossa frente, desce pela rampa e caminha até o Homem de Ferro. Há um sorriso confiante em sua voz quando ele abre os braços e cumprimenta o Vingador logo adiante:

— É sempre bom me sentir bem-vindo em Midgard. Como tem passado, meu amigo?

Em uma reação em cadeia, todo o exército da Legião de Ferro abandona a postura de ataque três segundos depois. Algo que leva Olivia a apoiar as mãos nos joelhos e dizer com um alívio tangível:

— A gente vai viver.

Nesse momento, a armadura de Tony se abre por completo, ele dá dois passos à frente para sair dela e olha para o deus trovejando com espanto.

— O que diabos aconteceu com o seu cabelo, Barbie?

De fato, quando Tony viu Thor pela última vez, o asgardiano tinha longos fios. Sem jeito e demonstrando que ainda não se conformou com o novo visual, este se esquiva de dar explicações a respeito por ora:

— É uma longa história, Stark. Mais tarde, se me agraciar com uma boa bebida, eu posso contar tudo em detalhes.

— Bem, nesse caso, por que não explica outra coisa agora? Por exemplo, o que essa nave gigantesca está fazendo por essas bandas e...

De repente, Tony para de falar, finalmente me vendo alguns metros atrás. Desço a rampa e sigo até ele um pouco hesitante. Feliz, mas me sentindo meio deslocado. O choque no rosto dele logo se mistura com um alívio que salta aos olhos.

— Tony. — Com um sorriso tímido, estendo a mão. — Faz algum tempo, não é?

Ele olha de mim para a minha mão algumas vezes, como se ainda não acreditasse nos próprios olhos. Por fim, um sorriso desnorteado pela surpresa surge e ele não só aceita o cumprimento, como me puxa para um abraço e dá alguns tapas nas minhas costas.

— Filho da mãe — deixa escapar.

Nesse momento, percebo o quanto Tony está contente por me rever, por saber que estou vivo, bem e de volta ao planeta de onde nunca devia ter saído. Se bem o conheço, ele deve ter passado os últimos anos me procurando à exaustão e se sentindo menos gênio por não ter me encontrado.

— Você tem muito a explicar, Bruce. Mas vou te dar um tempo porque eu mesmo preciso de um para acreditar que você está mesmo aqui.

— Eu estou.

Afasto-me um pouco dele e, estou prestes a abrir a boca para perguntar da pessoa que não consigo esquecer, quando ouço um grito crescente de empolgação atrás de nós. Tony fica em alerta imediato e eu olho para a nave bem a tempo de acompanhar a correria desfreada de Olivia Mills pela rampa e pelo campo norueguês salpicado pelos raios solares.

— Socorro — meu amigo diz baixinho, engolindo em seco.

Um segundo depois, a midgardiana-spartoi passa por mim feito um foguete e atinge meu amigo em cheio com um abraço caloroso e apertado, o que faz Tony cambalear para trás.

— Homem de Lata! Ah, que saudade, chuchu! Estou tão feliz que você não mandou a gente pelos ares!

— Ãn... De nada?

Por sobre o ombro dela, Tony olha para mim e, sem emitir som, forma a palavra maluca com os lábios. E quando Olivia estreita o enlace no pescoço dele, Tony solta um gemido sufocado e resolve questionar:

— É impressão minha ou você está se aproveitando de mim?

Olivia solta uma risada e finalmente se afasta do Homem de Ferro.

— Só tirando uma casquinha. Na inocência e na amizade, é claro.

De repente, uma voz firme se espalha pelo campo silencioso:

— Tormento! Eu não vou tolerar isso.

Olivia solta um longo suspiro e murmura muito satisfeita:

— Ele fica tão fofo, fofo, fofo, quando está com ciúme de mim.

Enquanto se aproxima de nós, o Deus da Trapaça resmunga com os dentes cerrados:

— Eu não estou.

Mas não parece convencer Olivia, que ri baixinho e debocha:

— Ah, tá, Cláudia. Senta lá.

Loki para ao lado dela, a postura empertigada feito um pavão e um sorriso fino nos lábios.

— Eu tenho uma imagem a zelar, midgardiana atrevida. Ou acaso se esqueceu que teve a honra de se casar comigo?

— O Homem de Lata é meu amigo, pode parar com a palhaçada.

Apesar desse reproche, Olivia parece estar se divertindo com a situação. E Loki parece saber muito bem que não tem com o que se preocupar. Está bem óbvio para mim que um não vive sem o outro. Tal como eu não vivo sem Amelia...

Olho para Tony, querendo ir direto ao assunto, mas, bem nesse momento, ele cruza os braços, arqueia as sobrancelhas e censura em alto e bom som:

— O Homem Rena não é bem-vindo nesse planeta. Pode dar meia volta e zarpar para Asgard.

Loki dá de ombros e tudo o que responde é:

— Eu adoraria, acredite. Infelizmente, Asgard não existe mais.

Tony franze o cenho e tudo que consegue replicar é um agudo...

— O quê?!

O Deus do Trovão apoia a mão no ombro dele e toma a palavra:

— Como eu disse antes, é uma longa história. Por ora, apenas saiba que nosso povo está naquela nave e eu pensei que Midgard poderia nos acolher. Temos suprimentos e alojamentos lá dentro, o suficiente para nos manter enquanto construímos uma aldeia por aqui.

Tony não diz nada por um longo momento, claramente necessitando de algum tempo para assimilar o que ouviu. Quase posso ver as engrenagens do cérebro dele girando a mil por hora. Quando enfim volta a se manifestar, me deixa muito orgulhoso.

— Muito bem. As Indústrias Stark com certeza podem ajudar nisso. E a S.H.I.E.L.D., claro. Os agentes logo estarão aqui. Sexta-Feira irá avisá-los que não são visitantes hostis.

Visivelmente agradecido, Thor aperta o ombro dele de novo e diz:

— Obrigado. Eu não esperava menos de você, Stark, meu amigo.

Sorrio de leve para os dois, de pleno acordo com a sentença do último.

É bem nesse instante que Olivia abafa um grito com as mãos e chama a nossa atenção de imediato.

— O que houve? — pergunto, confuso.

Com os olhos arregalados, ela se vira para o marido e questiona:

— Cadê a horda?

Como se estivesse se divertindo com a preocupação dela, Loki responde num tom cínico:

— Tormento, você não deveria se referir a eles como horda. Não é muito atencioso de sua parte.

— Horda? — Tony repete, também sem entender. — Como assim? De quem estão falando?

Numa resposta imediata, a tal horda sai correndo da nave, um trio desenfreado vindo na direção de Olivia e Loki ao mesmo tempo em que berram em uníssono:

— Mamãe! Papai! Mamãe! Papai!

Uma das meninas, tão loira quanto Olivia, se enrosca nas pernas dela e ergue a cabeça para cima ao dizer:

— Esse reino é lindo, mamãe! Pode ser meu? Diz que pode! Eu nunca te pedi nada!

A segunda garotinha, que tem o cabelo num tom mais escuro de louro, puxa o cabelo da irmã e fala com um tom ameaçador:

— Entre na fila, chuchu! Eu vi primeiro! Se quiser ser a rainha por aqui, terá que me derrubar antes. Coisa que não vai conseguir porque você é fraca, te falta ódio.

E o que recebe de volta é uma carranca e um empurrão certeiro. De repente, as duas estão se engalfinhando no chão diante do olhar horrorizado de Olivia Mills. Enquanto isso, o único menino do trio, uma miniatura assustadoramente perfeita de Loki, cruza os braços ao lado do pai e diz em tom conspiratório:

— Parem de brigar e reverenciem o único e verdadeiro rei de Midgard, garotas. — Ele abre os pequenos braços. — Eu, é claro.

O Deus da Trapaça lança um sorriso orgulhoso e de aprovação para o filho, porém desmancha a expressão tão logo as meninas se colocam de pé e partem para cima do garoto, que se refugia imediatamente atrás do pai. O garotinho corre em círculos, mas é encurralado num trabalho conjunto das meninas, enquanto Loki se limita a dar um passo para o lado, deixando que resolvam as diferenças sozinhos.

Tony e eu assistimos a tudo com perplexidade, e Thor limita-se a gargalhar e dizer:

— Eles não são fofinhos? Loki e eu brigávamos tanto nessa fase.

— E depois que crescemos também, irmão, não se esqueça — Loki ressalva, com um discreto sorriso nostálgico.

Com uma expressão assustada, Tony pondera:

— Horda... Agora eu entendi.

— CHEEEEEEEGAAA!

O berro estridente de Olivia faz os três abandonarem a disputa pela dominação global, endireitarem os corpinhos e olharem alarmados para ela na mesma hora. Com um tom frio e cortante, Olivia mostra que, apesar de tudo, tem alguma autoridade com os filhos.

— Ninguém vai reinar por aqui simplesmente porque esse planeta não precisa de um rei ou de uma rainha. Eu não quero saber dessa palhaçada de novo. Fui clara?

As três crianças se entreolham até que uma das meninas deixa escapar:

— Mas o papai disse que nós podíamos governar Midgard.

— Shhhh! — Loki corta, porém tarde demais. — Oh, não...

A velocidade com a qual a cabeça de Olivia se vira na direção do marido deveria ter deslocado o pescoço dela. Com um olhar fulminante, ela aperta as mãos ao lado do corpo, enquanto Loki ergue as dele em rendição e dá um passo para trás.

— Eu precisava distraí-los com alguma coisa, tormento. Você não tem ideia do inferno que estavam fazendo na nave.

Olivia estreita ainda mais o olhar e lança um sorriso letal ao sugerir:

— Da próxima vez, tente junkepô, gafanhoto.

— Da próxima vez, junte-se a nós então.

O tom de crítica do Deus da Trapaça não passa despercebido a ela.

— Eu distraí esses monstrinhos por horas! Quase fiquei careca e sem forças! Eu precisava de um descanso, ora essa!

Ao meu lado, Tony pigarreia e, assim que o casal olha para ele, pergunta:

— Vocês não vão me apresentar os monstrinhos em questão?

Para surpresa do meu amigo, e minha também, Olivia o encara de um jeito duro e reclama:

— Não chame meus bacuris de monstrinhos.

— Mas você acabou de chamá-los assim.

— Eu posso, chuchu. Conheço as peças e falo com carinho de mãe. — Então, Olivia sorri para as crianças de fato com muito carinho e, mais relaxada, faz as devidas apresentações. — Chuchuzinhos da minha horta, esse é Tony, o Homem de Ferro. Tony, esses são os meus trigêmeos, Frigga Marie, Susan Britney e Loki Peter Jr.

Uma risada escapa por entre os lábios de Tony e, diante do olhar frio que recebe de volta, ele se controla e muda de assunto:

— Pensei que você estava grávida de gêmeos quando foi embora da Terra.

Olivia sorri de um jeito acusatório para Loki ao responder:

— Eu também pensei. Acontece que o papai trapaceiro achou que seria divertido se eu descobrisse que eram três na última hora.

Loki sorri com insolência, assumindo a culpa sem demonstrar qualquer arrependimento, e provoca:

— Admita, foi divertido. A sua cara... nunca vou esquecer.

Olivia respira fundo, ao mesmo tempo em que Tony solta um grito de dor e esfrega uma das pernas.

— O que aconteceu? — pergunto, mas logo tenho a resposta.

A menina mais loira, Susan Britney, aproveitou o momento de distração dos pais, adiantou-se e chutou a canela do meu amigo com uma força impressionante. Ao ser repreendida com um olhar de Olivia, ela prontamente justifica a ação violenta com um olhar inocente:

— Você disse que ele era o Homem de Ferro, mamãe. Eu só queria testar.

Mal abrindo a boca, e ainda um pouco curvado, Tony resmunga:

— Monstrinha.

Claramente se divertindo com a situação, Loki só falta bater palmas de aprovação. Ao passo que Olivia repreende a filha:

— Ele não é de ferro, ele tem uma armadura de ferro. Peça desculpas agora mesmo.

Leva apenas um segundo para a menina se dar por vencida e fazer isso. E ela o faz com uma mesura encantadora e um olhar angelical.

— Desculpe, senhor.

Parece realmente arrependida pela travessura.

Tony aquiesce com um meneio de cabeça e responde:

— Sem ressentimentos. — Em seguida, entra na armadura, dá as costas para o grupo e coloca a mão no meu ombro para que eu o siga. — Vamos dar o fora daqui, Bruce. Depressa. Eu preciso escapar dessa gente estranha e tenho certeza que você está doido para rever uma certa pessoa.

De fato, estou demais. Nem acredito que ele a mencionou. Nem acredito que consegui controlar a ansiedade até agora.

Tudo bem, ainda terei que aguentar mais um pouco, algumas horas de viagem até o outro lado do Atlântico. Mas nenhum minuto a mais que isso.

— Tony, eu preciso vê-la.

— Eu sei, amigão. Deixa comigo. Sexta-Feira, uma armadura para Bruce Banner no capricho.

Tão logo ele diz isso, uma das armaduras que pairava no ar me encontra no meio do caminho e me reveste por inteiro.

“Bem-vindo de volta, Dr. Banner.”

A voz da inteligência artificial ressoa nos meus ouvidos e a ansiedade pelo reencontro com Amelia cresce mais um pouco.

— Ei, aonde vocês pensam que vão? — Olivia pergunta ao longe.

— Nova York! — Tony grita de volta e, antes que ela diga que quer ir também, ele completa: — Vocês podem vir depois. Com a S.H.I.E.L.D. Não se preocupe, alguém irá aparecer logo. Conheçam a região enquanto isso, aproveitem!

Um segundo depois, ganhamos os céus.

[...]

Depois que entramos num jato das Indústrias Stark, que sobrevoava a Noruega no piloto automático, Tony e eu tiramos as armaduras e conversamos de fato.

Consigo explicar o que aconteceu comigo desde que nos vimos pela última vez e me inteirar sobre os eventos mais importantes que ocorreram durante a minha ausência na Terra. Também descubro como se deu o resgate de Amelia daquela base da HYDRA, podendo agradecer ao meu amigo por tê-la salvado.

Tony ainda me conta que Amelia sofreu de uma amnésia traumática por meses e que ficou arrasada quando as memórias enfim voltaram.

Decido não pedir mais detalhes. Já é bastante doloroso saber que Amelia sofreu tanto por minha culpa, sem saber o que tinha acontecido comigo, provavelmente dominada por um sentimento frustrante de impotência ao se dar conta de que não podia me encontrar.

Sobre a vida dela nos dias atuais, prefiro que ela mesma me conte. Ainda assim, percebo que Tony quase deixou escapar algo muito importante em dado momento da conversa. Senti que ele só não foi adiante porque talvez seja algo muito pessoal de Amelia. Algo que me afetará muito, desconfio.

Apesar de zonzo com tantas informações e cansado de todos os percalços até chegar aqui, não consigo dormir nas longas horas de viagem até o continente americano.

Depois de tomar um banho rápido na Torre e vestir uma roupa de Tony (as minhas desapareceram do antigo guarda-roupa), finalmente estou pronto para ir ao encontro da mulher que amo.

Tony me leva até a antiga boate Inferno, agora Embalos da Noite, que Amelia passou a administrar numa sociedade com Pepper.

Enfim, saio do carro e caminho até o lugar.

[...]

Nem que eu viva mil anos, vou saber explicar o que senti quando a vi ali, no lounge bar, serena e sem notar a minha presença num primeiro momento. Alívio não passa de um eufemismo. Quando ela me abraçou forte, depois de titubear numa postura descrente e de sincero choque, uma felicidade genuína e profunda me envolveu. E de repente, foi como se tudo no universo se encaixasse. Ao menos, no meu universo.

Ainda com Amelia junto de mim, percebo que, apesar de ter ficado inconsciente enquanto o Hulk estava no comando, eu também senti cada minuto longe dela. Meu coração sentiu cada ano que se passou, mesmo que eu não soubesse que o tempo estava passando.

— Eu senti sua falta — digo no pé do ouvido dela. — Demais.

Essas palavras parecem despertar Amelia, até então mergulhada na emoção do reencontro e surpreendentemente muda. Ela se desvencilha um pouco de mim, o bastante para que eu possa encontrar seu olhar marejado. Um olhar que faz o meu peito encolher e dizer:

— Sinto muito.

Amelia não fala nada em resposta. Ao invés disso, apenas me encara, como se quisesse recordar cada traço do meu rosto, como se ainda não acreditasse que estou mesmo aqui. Por fim, ela envolve meu rosto entre as mãos, fecha os olhos e me beija, suspirando satisfeita ao confirmar que estou mesmo. É um beijo delicado, quase reverencial, um doce e suave roçar de lábios que leva minha pulsação às alturas no mesmo instante.

Minha reação é instintiva. Estreito um braço ao redor do seu corpo trêmulo, enquanto prendo a outra mão na nuca quente, trazendo-a ainda para mais perto de mim.

Desse jeito, colado a ela, mergulho no beijo por inteiro, com o sentimento que não consigo mais conter, com a saudade que precisa ser saciada. E percebo que só agora — e não há alguns minutos, como acreditei antes —, o meu universo finalmente entra nos eixos. Por completo. Todas as peças se encaixam enquanto Amelia me beija de volta com o mesmo ardor apaixonado, com a mesma urgência e a mesma intensidade.

Estou exatamente onde preciso estar. Agora estou em casa.

Notas finais
OTP juntinho aeeeeeeeeeeeeeeee ♥ Olivia Mills é uma personagem das fanfics Trapaças do Destino/de Natal e do Coração. Ela já foi mencionada muito aqui, na temporada passada e agora está de volta, com seu gafanhoto magia e os trigêmeos mais monstrinhos da galáxia kkkkkkkkk Espero que tenham gostado dos retornos :-) Rádio Patroa: é como ela chama o Heimdall. Well, uma coisa que me deixou com nó na garganta em Thor Ragnarok foi aquela cena pós-créditos com Thanos interceptando a nave com o povo asgardiano,Thor, Loki e Cia. Então, aqui eles conseguiram chegar na Terra sãos e salvos ♥ Esse foi o último capítulo do ano, espero que tenham curtido e vejo vocês ano que vem, peoples! Beijos!