Infinito em Estilhaços
11 Ciência e Superstição
No meu antigo quarto na Torre dos Vingadores, observo meu reflexo num grande espelho pendurado na parede pelo o que deve ser a milésima vez. E, pela milésima vez, constato que a gravata continua torta.
Respiro fundo e desfaço o nó. Refaço e me olho de novo. Não é possível! E ainda dizem que Física Quântica é algo complicado...
— Só por precaução — alguém começa a dizer, atravessando a porta —, numa escala de 0 a 10, qual a chance do Outro Cara aparecer no meio da cerimônia, rasgar a roupa do noivo, despedaçar o buquê e, de quebra, ainda esmagar o altar?
Tony, é claro. Quem mais viria me azucrinar num momento desses?
Enquanto luto para entender o mecanismo da gravata e por que diabos o resultado tem sido assimétrico toda vez, replico:
— Você quer saber se eu estou nervoso? Estou. Uma pilha de nervos. E não acho que o número caiba numa escala lógica.
Meu padrinho se aproxima, faz menção de assumir a árdua tarefa e eu aceito a ajuda de bom grado porque, sinceramente, não aguento mais ser vencido por um pedaço de pano.
Enquanto ele trabalha, eu olho para o teto e reflito melhor:
— Se bem que é um nervosismo por algo bom. Nada tem a ver com fúria.
— Pelo estado deplorável dessa gravata, acho que ela discorda da última parte.
Não consigo evitar um meio sorriso de concordância. Na fúria para acertar o nó, talvez eu tenha amassado um pouco o tecido.
— O que importa é que esse nervosismo não representa perigo algum de alerta verde — afirmo. — Então, respondendo a sua pergunta, o Hulk vai ficar exatamente onde está.
Alguém normal ficaria satisfeito ao ouvir essas palavras e daria o assunto por encerrado. Contudo, é de Tony que estamos falando, logo...
— Okay, nesse caso, eu vou reformular — ele anuncia. — Qual a chance de você tropeçar, gaguejar, vomitar ou desmaiar no meio da cerimônia?
Volto a olhar para ele e rebato:
— Só por precaução também?
Com muita naturalidade, no tom de deboche intrínseco dele, meu amigo diz:
— Não. É que se alguma dessas coisas acontecer, ou quem sabe todas elas num combo, eu quero deixar a Friday preparada para registrar cada detalhe. Oops... — Ele parece se dar conta de algo. — Espere um pouco, eu já fiz isso.
— Fez?
Nem sei por que pergunto, é claro que ele fez.
— U-hum. Minha Inteligência Artificial vai filmar tudo minuciosamente, Bruce. Se as coisas correrem bem, teremos um lindo registro no fim do dia. Se você tropeçar ou algo assim, um registro bem mais divertido.
Tony sorri de canto enquanto lanço um olhar semicerrado a ele.
— Eu não consigo entender por que te chamei para ser o meu padrinho.
De pronto, ele apresenta uma explicação afiada:
— Porque eu sou o seu melhor amigo, óbvio. E bilionário, portanto, posso dar os presentes mais legais e caros.
Tony dá um tapinha no meu ombro, indicando que terminou o serviço, e eu me viro para o espelho mais uma vez a fim de checar como ficou. E tenho que admitir, ele fez um excelente trabalho.
— Não se preocupe, Bruce, vai dar tudo certo. Você não vai tropeçar, gaguejar, vomitar ou desmaiar na frente da Amy. O que é uma pena porque seria digno de nota...
Lanço um sorriso amarelo a ele pelo espelho.
— Você é um padrinho terrível, Tony.
— Nem mesmo eu posso ser excelente em tudo.
Surpreso com a súbita humildade, arqueio as sobrancelhas. Tony, no entanto, logo se dá conta do deslize e, com uma careta, determina:
— Nunca diga a ninguém que eu falei isso, combinado? — E, mais do que depressa, muda de assunto: — Às vezes, eu não acredito que você desencalhou mesmo, estou tão orgulhoso! Talvez eu comece o meu discurso assim, o que acha?
— Você não se atreveria.
A verdade é que tenho certeza que ele se atreveria sim. Por Deus, é a cara dele soltar muitas gracinhas no discurso após a cerimônia.
Antes que eu tente dissuadi-lo, Tony retira um envelope do bolso do terno e estende para mim.
— Os seus votos, caso você esqueça de tudo na frente da noiva. O que também não é difícil...
— Eu não vou me esquecer, Tony, mas obrigado mesmo assim. — Seguro o envelope sofisticado num tom creme. Coloco a outra mão em seu ombro e reconheço: — Talvez você não seja tão terrível como padrinho.
Fingindo que ficou emocionado, ele brinca:
— Ah, Bruce... Você quer me fazer chorar?
Nesse momento, ouvimos duas batidas na porta aberta e ambos olhamos na direção do som. É o pai de Amelia, David, quem está na entrada do quarto
Ele e a esposa, Astrid, vieram para Nova York há poucos dias, para finalmente conhecer o futuro marido da filha e participar da cerimônia. O casal tem uma firma de advocacia em Springfield, na Luisiana, e Amelia os visitava e os recebia com frequência antes do meu retorno à Terra para que tivessem contato com Alex.
— Com licença, será que eu posso dar uma palavrinha com o noivo antes do grande momento?
Diante de mim, Tony comenta baixinho:
— Iihhh... Será que é um bom sinal?
E assim ele volta a ser um péssimo padrinho.
— Tony, você pode nos deixar a sós, por favor? — peço com toda a paciência do mundo, embora por dentro imagine o Hulk lhe dando um bom safanão.
— Claro. — Ele sorri e aperta meu ombro. — Você sabe que eu vou ouvir de qualquer jeito, não sabe? — insinua num tom que só eu escuto.
Enquanto ele caminha rumo à porta, balanço a cabeça em sinal de desaprovação e resignação ao mesmo tempo. Aposto como vai usar Friday para ouvir a conversa sim. Tony Stark é o homem mais inteligente que já conheci. E o mais inconveniente também.
Assim que fico sozinho com o pai de Amelia, no entanto, decido esquecer meu amigo engraçadinho por ora.
— Nervoso? — meu futuro sogro pergunta de maneira bem direta e, embora tente esconder, um tanto apreensiva.
Quase chego a sorrir porque reparo que ele ainda está muito perto da porta, como se fosse correr ao menor sinal de perigo. Eu não devia achar graça, mas acho.
— Se eu disser que sim, você vai se preocupar com o Hulk.
Ele arregala um pouco os olhos e parece prender a respiração.
— Então, há motivo para me preocupar?
Decido tranquilizá-lo com nada mais do que a verdade:
— Não. Há muito tempo eu aceitei que o Outro Cara faz parte de mim e isso foi a chave para controlar os gatilhos. Minha relação com o Hulk nunca foi tão estável quanto é hoje. E muito disso, eu devo a sua filha. Amelia acalmou a fera sob a minha pele em muitos momentos, em muitos sentidos, de muitas maneiras. Por isso, pode confiar em mim quando eu digo que está tudo bem, Sr. Prescott. Nada vai dar errado hoje.
E então ele relaxa visivelmente. E quase sou vencido pelo sorriso de novo.
— Me chame de David. — Ele se afasta da porta, adentrando de vez o quarto, e caminha até uma poltrona perto da cama. — Em breve, você será parte da família, vamos abolir essas formalidades.
Depois, faz menção para que eu me acomode também. E prevendo que ele tem algo importante a dizer, sento-me na minha antiga cama, de frente para ele.
Não demora e David recomeça:
— Conhecendo a minha filha como eu conheço, eu devia ter esperado que ela fosse se casar com um homem complicado. — Ele olha para mim um tanto alarmado, ri de si mesmo e escolhe melhor as palavras: — Não me entenda mal, não é uma crítica. Você é um sujeito peculiar, especialmente por se transformar em outro alguém, mas eu já percebi que é um bom sujeito e que ama a minha filha de verdade. Se quer saber, fico muito feliz que ela tenha te escolhido.
Tudo o que consigo responder é um sincero:
— Eu também fico.
Quando pedi Amelia em casamento, os pais dela não me conheciam nem sabiam quem eu era de verdade. O combinado era preparar terreno e contar aos poucos. Porém, como me separei dela daquela maneira catastrófica e Amelia precisou de todo apoio depois, ela não viu mais sentido em esconder a verdade deles. Ainda mais porque tinha acabado de descobrir a gravidez. Nada mais justo do que revelar a David e Astrid tudo sobre o pai desaparecido do neto que estava a caminho.
— Por outro lado, você é pai como eu e tenho certeza que vai entender o meu pedido agora.
Começo a estranhar o rumo da conversa. Ao mesmo tempo, estou curioso e disposto a ajudar no que for preciso.
— O que eu posso fa...
— Não deixe que a sua vida como Vingador coloque a minha filha em risco de novo — David me interrompe, firme e certeiro feito um dardo veloz atingindo o alvo em cheio. — Ela podia ter morrido nas mãos daquela maldita família Sterns. E quase morreu mesmo antes de conseguir escapar daquela base no meio do oceano.
Não nego que fico incomodado com o assunto. É difícil relembrar tudo o que aconteceu e o quanto eu e o Hulk falhamos com Amelia naquele momento. Também é difícil encarar o perigo que Amelia enfrentou escancarado no olhar angustiado de David agora.
Eu nunca tinha parado para pensar em como ele e a Sra. Prescott se sentiram ao ver a vida da filha virada de cabeça para baixo daquele jeito, em como sofreram por ela. Não tivemos brecha para conversar sobre isso desde que os dois chegaram à cidade e, confesso, uma parte de mim estava confortável com a ideia de nunca precisar tocar no assunto com eles.
Aperto os dedos por um momento. Apenas para romper o silêncio tenso que se instalou, digo a primeira coisa que me vem à cabeça:
— Ela te contou toda a história, não foi?
— Sim, contou. Essa parte em específico contou quando recuperou a memória, meses depois de tudo que passou naquele dia infeliz.
Há algo seco na voz de David que entendo como uma acusação velada. Imagino que ele não me odeie, contudo existe um ressentimento implícito. Algo que todo pai ou mãe nutriria por alguém que colocasse seus filhos em perigo, que lhe causassem qualquer tipo de dor e sofrimento mesmo sem intenção.
— Eu nunca quis que Amelia se machucasse por minha causa.
— Eu sei, mas ela se machucou mesmo assim. Física, mental e emocionalmente — ele pontua e, apesar do peso dessas palavras, há um tom menos acusatório nelas. — Nós dois sabemos que minha filha é dura na queda e se recuperou bem, mas não importa. Eu não quero vê-la passando por uma situação perigosa de novo.
— Nem eu — afirmo o óbvio. — Não vai mais acontecer.
— Você pode me prometer isso?
Honestamente?
— Não — respondo a contragosto. — Eu posso te prometer que vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para que Amelia nunca mais se machuque. Eu posso prometer que vou protegê-la, David. E vou. Não importa como, não importa do que ou de quem. Custe o que custar.
Ele esboça um meio sorriso.
— Acho que é o bastante. Eu sabia que você ia me entender.
Levanto da cama assim que ele abandona a poltrona. David me analisa por um instante, sorri mais relaxado e me estende sua mão.
— Desejo que vocês sejam muito felizes juntos, Banner.
Apesar do peso da promessa, me sinto estranhamente leve e confiante no futuro. Talvez porque eu saiba que farei de tudo para cumprir minha palavra e isso me tranquiliza de algum modo. Vai ficar tudo bem, porque eu não saberia lidar se não ficasse.
Aceito o cumprimento de David e sorrio de volta.
— Me chame de Bruce.
Assim que ele deixa o quarto, uma voz emana do sistema de som da Torre:
— Uau! O sogrinho sabe como deixar o futuro genro à vontade, hein?
Fecho os olhos por um momento e assopro o ar.
— Eu te odeio tanto.
— Odeia nada — Tony retruca. — Pronto?
Uma última olhada no espelho. Tudo em ordem. O que sinto agora só pode ser resumido com uma palavra: felicidade.
— Pronto.
— Te vejo no altar. Câmbio, desligo.
[...]
Deixo o quarto para trás e estou seguindo pelo corredor quando, de repente, uma porta se abre à minha esquerda. Antes que eu pisque, alguém me puxa pela mão e sou arrastado para o interior do recinto. Há arranjos delicados de flores por todos os lados, porém não é isso que chama minha atenção de verdade.
Amelia está aqui. Vestida de noiva. Com um brilho divertido no olhar.
O choque me mantém mudo e sem reação.
— Tchan-ram! — Ela faz um floreio muito teatral. — E então? Como eu estou? Segundo a Liv, um arraso! Mas é a sua opinião que realmente importa. O que acha?
— A-Amelia, você...
Oh, não! De súbito, me dou conta! Fecho os olhos e, por via das dúvidas, mantenho as mãos bem pressionadas sobre as pálpebras também.
— Você enlouqueceu?! Eu não devia estar aqui, não devia te ver assim antes do casamento. Que tipo de noiva você é para ignorar que essa coisa dá azar?
Dou as costas para ela e sigo em direção à porta. Para minha surpresa, sou ultrapassado por uma noiva muito determinada e maluca. Encurralado, volto a fechar os olhos.
— Sério, Bruce?
Mesmo sem vê-la, aposto como está apoiada estrategicamente contra porta, de braços cruzados e me observando de um jeito intrigado.
— Um homem da Ciência como você acreditando em superstição? Como diria o Sr. Spock, altamente ilógico.
Não consigo não sorrir com a referência. Não só ao programa que eu adorava assistir quando criança e adolescente, mas principalmente porque é uma referência a algo que fizemos essa semana.
Mesmo sendo muito novo para entender os conceitos, apresentei a série clássica para Alex. Ele ficou encantado, fez muitas perguntas sobre as orelhas pontudas do alienígena vulcano e se jogou pelo sofá algumas vezes para imitar as turbulências que a Enterprise costuma enfrentar. Amelia logo se juntou a nós para uma maratona despretensiosa que se estendeu pela noite.
Foi um momento especial, em família, daqueles que ficam gravados para sempre na memória pela simplicidade preciosa que representam.
No fim, levei Alex adormecido para o seu quarto. E depois Amelia me levou ao nosso, alegando que precisava conversar comigo sobre a lua de mel. Foi uma ótima conversa.
— Não mencione Star Trek num momento desses, é golpe baixo, você só quer me distrair.
— Muito bem. — Aposto como ela assentiu agora. — Mas você não pode estar falando sério. Depois de tudo que nós passamos, acha mesmo que uma crendice idiota dessas representa algum tipo de perigo?
— Justamente por causa de tudo que passamos, eu prefiro não arriscar, Amelia.
Posso estar me comportando de forma ridícula, ainda assim não quero brincar com a sorte nesse caso.
Ouço Amelia respirar devagar.
— Bruce, olhe para mim.
Há algo inquietante e doce no modo direto como faz esse pedido. Algo que abala o centro do meu peito e quase me faz sucumbir. Quase.
— Não — resisto.
Tenho que admitir, a situação em si é interessante e começo a me divertir com a ideia de provocar minha noiva bem no dia do nosso casamento.
— Muito bem, então fique de olhos fechados se faz tanta questão — ela diz com suavidade. — Bem assim.
Sinto seu corpo se aproximar. Mãos leves se apoiam no meu peito e um hálito fresco brinca junto a minha boca. O quarto fica mais quente quando Amelia pressiona os lábios nos meus.
O beijo é lento e carinhoso. Parece ter a intenção de acalmar, embora esteja acelerando o meu pulso. Não dá para resistir. Deixo minhas mãos encontrarem a nuca de Amelia e me entrego ao paraíso por um tempo. Por bastante tempo.
Ainda devidamente às cegas, apoio a cabeça na porta e dou meu veredicto:
— Você está linda.
Amelia ri. Um som sempre encantador.
— Mentiroso... Você mal me viu.
— Nem preciso ver. Você é linda. De qualquer jeito.
Ela não diz nada, mas posso imaginar sua expressão agora e o que está prestes a fazer.
Amelia volta a reduzir a nossa mínima distância.
— Eu não quero borrar o seu batom — alerto. Faço uma careta ao supor: — Se é que já não fiz isso.
Ela joga os braços ao redor do meu pescoço e explica de forma didática:
— Não se preocupe, é de longa duração, não mancha, não transfere, totalmente à prova de beijos.
Didática e perfeita em sua colocação.
— Eu amo as evoluções que a Ciência faz — confesso.
E mais uma vez, não resisto a noiva mais linda do mundo.
Cinco anos depois...
Na sala dos avós de Alex, observo meu filho enquanto ele assiste televisão. Os tripulantes da Enterprise se preparam para mais uma aventura num planeta inexplorado e muito distante.
A avó dele, Astrid, está preparando um lanche na cozinha, enquanto David foi consertar um balanço lá fora e meu cachorro aproveitou para segui-lo. Pelo vidro da porta, vejo o animal cavando com determinação um buraco no jardim.
Depois de Thanos, os pais de Amelia se mudaram para um bairro perto do nosso a fim de ficarem mais próximos do neto e acompanharem sua infância.
David e Astrid evitam visitar nossa casa, no entanto. Acredito que em parte é porque há muitas lembranças da filha por lá. Além disso, nossa relação ficou meio estremecida depois que Amelia se foi.
Eles não me culpam diretamente pelo o que houve e não me tratam com rispidez, mas percebi que é doloroso conviver mais do que o necessário comigo por minha existência remeter demais ao Hulk, aos Vingadores e à derrota amarga contra o Titã Louco. Derrota essa que levou embora não só Amelia, como Josh também.
Nem posso imaginar o que eles sentiram ao perder os dois filhos assim...
Por tudo isso, os Vingadores precisam tentar mais uma vez. Devemos uma chance a todos que se foram e a todos que ficaram.
Nesse momento, aproveito que Alex está distraído pelo episódio, olho para ele com carinho uma última vez e sigo rumo à porta.
— Por que eu não posso ir com você mesmo?
Não tão distraído, pelo visto.
— Eu já expliquei, é mais seguro ficar com seus avós.
Ele aperta o botão para pausar a série e se volta bem na minha direção. Com os braços cruzados e as sobrancelhas levemente arqueadas, inquere:
— Por quê?
É impressionante como ele me lembra a mãe agora. Na curiosidade, teimosia, nos trejeitos...
Faço um esforço para voltar a me concentrar e respondo:
— Aonde eu vou não é lugar de criança, Alex. E eu preciso trabalhar numa... coisa. Não vou poder te dar atenção.
— Numa coisa com o tio Steve? E com os outros Vingadores, aposto.
A surpresa pelo rápido raciocínio deve estar estampada no meu rosto agora porque, na sequência, Alex explica:
— Qual é, pai? Foi pra te chamar que o tio Steve veio, não foi? Eu sou criança, não burro.
É inevitável não sorrir.
— Eu sei que você não é burro.
— Ótimo! Então você sabe que eu vou entender! Pode contar tudo, não me esconda nada. Por que vocês vão se reunir depois de tanto tempo? Não me diga que outro alienígena do mal está armando um plano contra o nosso planeta? Qual o problema desses caras? Não tem terapia no espaço?
— Você não vai arrancar nada de mim, filho — desconverso. — Sinto muito.
— Eu precisava tentar — Alex resmunga, aceitando a derrota.
Nem louco eu vou envolvê-lo nessa história. Especialmente porque existe uma grande chance de nada dar certo e meu menino sofrer com a esperança frustrada de ter a mãe de volta.
Melhor mantê-lo assim, distante e seguro na ignorância inocente da criança que ainda é. Aliás, nem para os pais de Amelia eu contei o que vamos fazer.
Melhor não criar expectativas em ninguém. Já bastam as minhas...
— Quando você volta?
— O mais rápido que eu conseguir, prometo.
E se tudo sair como o planejado, não voltarei sozinho. Tenho vontade de lhe dizer, porém não posso.
Aproximo-me e dou um beijo demorado no topo de sua cabeça. Faço um cafuné depois. De repente, não quero mais deixá-lo.
Alex me observa por um momento, então levanta do sofá de súbito e abraça minha cintura com toda a força.
— Eu não gosto desse clima de despedida, pai.
Nem eu, mas existe uma possibilidade de ser exatamente isso.
E se eu não voltar? Com certeza, será a maior missão da minha vida. E a mais arriscada também. Tenho que ser realista. Não posso apostar todas as fichas e acreditar que não terá um preço no final. Um preço alto.
Fecho os olhos e afasto todo e qualquer pensamento negativo enquanto abraço meu filho.
Não posso fazer isso com ele. Ele já perdeu a mãe e o tio, não pode perder o pai também.
— Não é uma despedida, é só um até logo — afirmo, tentando convencer nós dois. — Cuide bem dos seus avós e do Hulk.
Alex se desvencilha de mim e aparenta ter ficado mais tranquilo e seguro.
— Deixa comigo.
Depois de acenar em despedida para Astrid, que nos observa da soleira da cozinha com um olhar curiosamente esperançoso, caminho até a porta e seguro a maçaneta.
— Ah, e pai...
Viro-me na direção do chamado.
— O quê?
— Se precisar... — Alex dá um sorrisinho cúmplice. — Esmaga.
Sorrio para ele. Mais uma vez, me lembra uma pessoa.
— Deixa comigo.
Sim, Alex sabe sobre o Hulk. Lembro bem do dia em que contei a ele sobre o Outro Cara. Ou melhor, do dia em que Alex descobriu a verdade por si só e eu não tive como desmentir.
Era inútil negar. Eu tinha acabado de voltar a ser apenas Bruce Banner e me deparei com Alex boquiaberto num choque que continha muitas coisas. Inclusive uma surpreendente admiração, como se tivesse visto uma enorme criatura verde na sua frente e achado isso muito legal.
— Bruce?
A voz de David no jardim dissipa essa memória e me detenho. Ele abandona as ferramentas de jardinagem e caminha até mim devagar.
Após um silêncio desconfortável, o pai de Amelia fala meio sem jeito:
— Eu amo o meu neto e não é sacrifício nenhum recebê-lo aqui. Só que eu não paro de me perguntar o motivo para você ter vindo tão de repente. O que está acontecendo?
Penso um pouco. Não quero alimentar esperanças em um pai que, com certeza, faria qualquer coisa para ter os filhos de volta.
Por outro lado, David não merece alguma satisfação? Por menor que seja? Não merece um pouco de luz? A mesma luz que Steve me deu ao revelar o plano para reverter o estrago feito por Thanos?
Acredito que eu deva sim lhe dar um pouco disso. Convencido, digo a única coisa que me vem à cabeça nesse momento:
— Eu não posso dar detalhes, David, desculpe, mas... digamos que só estou tentando cumprir uma promessa que te fiz uma vez.
Por alguns instantes, ele não diz nada. Depois, vislumbro um brilho em seu olhar como se tivesse me compreendido.
David não faz mais perguntas. Talvez nem ele queira criar expectativas e só prefira saber o resultado quando a missão acabar.
— Boa sorte — deseja, e é nítido que fica emocionado. — D-de verdade, boa sorte, Bruce.
Assinto com um meneio de cabeça e me afasto. Encontro o meu cachorro no meio do caminho.
— Até a volta, amigão.
Antes de ir embora, faço um carinho em sua cabeça peluda.
Pode ter sido impressão minha, contudo até ele me pareceu esperançoso.
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