Infinito em Estilhaços
12 Sonâmbulo Velocista
Notas iniciais
Da última vez que estive em um jato semelhante ao Quinjet, eu também usava um vestido de noiva, porém as coisas não terminaram muito bem naquele dia.
Eu havia acabado de escapar da família Sterns, após horas de muita tensão e incertezas. Havia perdido o Hulk para um monólito estúpido que o baniu direto para um planeta chamado Sakaar — em consequência, perdido Bruce no pacote —, e tentava a todo custo deixar a base oceânica da HIDRA para trás.
Aquele foi, sem dúvida, o pior dia da minha vida.
Hoje, no entanto, é totalmente diferente de todo o tormento que passei e um dos melhores dias que já vivi.
Daqui de cima, voando sobre nuvens muito brancas e com o Sol brilhando adiante num céu extremamente azul e claro, sinto-me mergulhada numa espécie de sonho. Tudo está simplesmente perfeito.
Enquanto Bruce mexe no painel de navegação à nossa frente, a fim de acionar o piloto automático, um único pensamento ronda minha mente...
Nada de ruim vai nos acontecer de novo.
Meu marido — marido! — se recosta na poltrona e olha para mim. Há carinho em seus olhos e um sorriso sereno surge, como se ele lesse minha mente. Estendo a mão para segurar a dele. Nossos dedos se entrelaçam e o pensamento que tive há poucos segundos vira uma certeza.
Nunca mais vamos nos separar de novo.
— Você sabe que eu te amo?
O sorriso de Bruce ganha mais contorno quando declaro isso e meu coração dá um salto.
— Andei reparando. — Ele leva minha mão aos lábios e planta um beijo suave nela. — Cada parte de mim ama você também, Amelia. Você sabe.
Feliz e arrepiada, acabo respirando fundo e suspirando feito uma idiota no final. Disfarço como posso e mudo de assunto o mais rápido possível:
— Quanto tempo até o esconderijo?
Vamos passar nossa lua de mel numa casa em algum ponto ermo e tranquilo do Colorado. Cortesia da S.H.I.E.L.D., o lugar já foi usado como abrigo de agentes em certas missões ultra secretas e como refúgio para testemunhas.
— Duas horas mais ou menos.
Mordo o interior da bochecha e analiso nossa situação.
Bruce ainda com a roupa da cerimônia. Eu também. O vestido de noiva está começando a parecer meio apertado, quente e incômodo no meu corpo. Certamente, Bruce também ficaria mais à vontade sem tanto tecido em jogo. Piloto automático ativado. Duas longas horas pela frente, no mínimo.
— É muito tempo — concluo.
E como para bom entendedor, meia palavra basta, logo a expressão de Bruce o denuncia. Meio atordoado por captar o que estou sugerindo, contudo nitidamente interessado também, ele engole em seco e percebo que respira com mais intensidade. Ainda assim, há certa descrença no jeito como me olha.
— Aqui?
Dou de ombros.
— Por que não? Você tem alguma ideia melhor para passar o tempo?
Bruce estreita o olhar, parecendo achar graça.
— Então é apenas disso que se trata? Uma maneira de passar o tempo? Por Deus... Como eu fui me casar com uma mulher tão romântica?
— Eu sou romântica — defendo-me de pronto.
— Um pouco prática demais — ele observa, é nítido que quer me provocar com essa conversa.
— Por que o romantismo não pode ser prático? — argumento. E como ele demora para se manifestar, inclino um pouco a cabeça e questiono sem rodeios: — Você quer tirar a roupa e dar uns amassos, sim ou não?
Bruce ri de leve diante de tal ultimato.
— E direta. Sempre foi.
Há algo morno nos seus olhos quando comenta isso. Uma admiração afetuosa que mexe comigo. Quando dou por mim, já desafivelei o cinto de segurança e levantei a fim de me aproximar mais dele. Simplesmente preciso ficar mais perto, preciso de mais contato para sentir o seu calor me envolver.
Bruce fica um tanto tenso quando me sento em seu colo e jogo os braços em volta do seu pescoço. Por um instante, respira com certa dificuldade e vejo algo diferente em seu olhar. Uma chama. É nítido que gosta da proximidade também e logo percebo suas mãos buscando apoio na minha cintura enquanto o olhar recai em minha boca.
— Sim, eu sempre fui direta com você — admito — Porque alguém precisava tomar as rédeas, Bruce. Você pode ser muito esperto em Ciência, mas é bastante lento em matéria de flerte.
— Essa doeu.
Dessa vez, sou eu quem ri. Divertindo-me com o clima da conversa, vou mais além para alfinetá-lo:
— Se não fosse por mim tomando a atitude várias e várias vezes, essa coisa ainda estaria na estaca zero.
Bruce balança a cabeça em sinal de desaprovação com algo que falei, embora eu vislumbre um meio sorriso que o denuncia.
— Essa coisa? — repete, ponderando a respeito. — Mais uma demonstração de romantismo, suponho. Com essa coisa, você quer dizer a nossa relação? Nossa história?
— Nosso amor — respondo do jeito mais suave que consigo. — Viu? Eu sou romântica. — Aproximo o rosto do dele para brincar com seus lábios em um beijo suave. — Admita, sem mim, a sua vida ainda seria muito sem graça.
— Prática, direta e convencida.
— Convencida também — assumo, rindo de leve. Depois, dou uma olhada ao nosso redor e questiono: — O Quinjet têm câmeras, certo?
Um segundo depois, Bruce pronuncia um comando:
— Desligar câmeras.
E uma voz artificial exige pelo sistema de som:
“Informe a senha.”
— O Vingador mais forte.
“Câmeras desligadas, Dr. Banner.”
Suspiro ao fazer um comentário:
— Ah, é como música nos meus ouvidos.
Começo a desabotoar o terno de Bruce, e ele acompanha meu gesto com o cenho franzido de um jeito curioso.
— Eu não acredito que você quer mesmo fazer isso aqui.
— Devo te lembrar que não será a primeira vez? — faço questão de destacar, referindo-me justamente a primeira vez que fizemos amor. — Aliás, é chocante que aquela ideia tenha sido sua e não minha.
— Eu me viro bem em flerte quando me empenho — ele se gaba um pouco do feito. — Devo te lembrar que o Quinjet estava no solo naquela noite?
Enquanto o liberto da primeira peça de roupa, argumento com ar divertido:
— Um casal que se preze precisa variar de vez em quando e arriscar mais nas fantasias, não acha?
Faço menção de me aproximar mais um pouco a fim de beijá-lo, porém me detenho quando o Vingador volta a falar:
— Tem certeza que não vai ficar desconfortável aqui? Não há nada parecido com uma cama dessa vez, pode acontecer alguma turbulência e...
— Bruce. — Aninho seu rosto entre as mãos para interromper seu raciocínio e me seguro para não rir das suas preocupações que ameaçam cortar o clima. — Pare de pensar tanto e só me beija.
Ele atende ao meu pedido sem hesitar mais. Reduz a nossa distância a nada, me dá um beijo cálido por alguns instantes, que logo se torna profundo e envolvente.
As mãos, que alcançaram meu cabelo em algum momento, agora desfazem o penteado com cuidado. Depois, os mesmos dedos quentes mergulham entre as mechas soltas e apenas uma palavra me vem à mente.
Pertencimento.
Meu coração pertence a Bruce Banner. Sempre vai pertencer. E, posso soar convencida de novo, mas tenho certeza que o dele também é inteiramente meu.
Movida por esse pensamento e pelo desejo latente de me unir por completo a Bruce, levanto-me e lhe estendo a mão. Ele a segura sem pestanejar também e me segue rumo a uma área do Quinjet afastada da cabine.
Não há camas por aqui, óbvio, apenas duas fileiras de poltronas, o chão relativamente espaçoso entre elas e a rampa para saltos mais adiante. Vai ter que servir.
Sento-me em um dos assentos e me curvo para tirar as sandálias. Bruce se acomoda na poltrona de frente para a minha e também se livra dos sapatos e das meias. Depois, o colete faz companhia às peças no chão. Ele fica curiosamente satisfeito quando se livra da gravata.
Acabo rindo disso enquanto me levanto para alcançar os botões que ficam nas costas do vestido. Não demora nada e meu marido Vingador se aproxima para me ajudar. Viro de costas para que ele tenha melhor acesso.
Bruce abre cada um deles delicadamente. Ainda assim, há algo de urgente no calor dos seus dedos contra minha pele nua que vai se revelando pouco a pouco.
Impossível não me lembrar de novo que a nossa primeira vez também foi no Quinjet, só que em terra firme, como Bruce mesmo ressaltou. Na época, ele improvisou uma espécie de ninho de amor nesse mesmo chão. Havia velas e pétalas de rosa por toda a parte.
Hoje o cenário é outro. Ainda assim, tenho certeza que será igualmente especial. Porque com Bruce sempre é. Sempre será.
Terminado os botões, ele abaixa a parte superior do vestido até minha cintura e me dá um beijo entre o ombro e o pescoço. Sinto um calor intenso e irresistível se espalhar por todo o corpo. Fecho os olhos com força e me entrego de novo à sensação curiosa de pertencer a ele.
Nenhum outro homem vai me tocar assim. Somente Bruce.
— Sra. Banner — ele diz baixinho e sinto um leve sorriso contra a minha pele.
Viro-me em sua direção e capturo sua boca com um beijo lânguido, prontamente correspondido com uma mistura de desejo e ternura.
Quando dou por mim, já empurrei Bruce em direção à poltrona que ele ocupava antes. Ergo a saia do vestido para montar em seu colo. Beijo-o mais uma vez e mergulho os dedos em seu cabelo com carinho, ao mesmo tempo em que mãos quentes percorrem minhas costas e me apertam mais contra si.
Não é o suficiente. Ainda estamos separados por camadas irritantes de tecido. Precisamos de mais contato.
Como transmissão de pensamento, retomamos a tarefa de livrar o outro do restante das roupas.
Pouco tempo depois, somos apenas nós dois. Pele nua contra pele nua. E a ideia de estar nas nuvens ganha outro e intenso significado.
Horas depois
Bruce tinha razão. Nosso momento no Quinjet foi divertido e prazeroso, mas nada se iguala ao conforto de uma boa cama. É nisso que estou pensando enquanto observo-o dormindo ao meu lado entre os lençóis que nos envolvem.
Chegamos ao esconderijo da S.H.I.E.L D. no começo da noite e o primeiro lugar da casa que eu quis conhecer foi justamente o quarto. O recinto tem uma decoração simples, de bom gosto, aconchegante e a cama é muito macia. Bruce e eu fizemos amor nela duas vezes antes de cairmos no sono, exaustos.
Acordei há alguns minutos, ainda envolvida por seus braços e me sentindo lânguida. Seu rosto relaxado bem próximo ao meu e a respiração cadenciada indica que meu marido está mergulhado num sono bem profundo.
Pela janela do outro lado do recinto, vejo que está bem escuro lá fora, mas o vazio quase doloroso no estômago não vai me deixar dormir de novo. Acho que é um momento bem propício para conhecer a cozinha desse abrigo secreto também.
Dou um beijo suave na bochecha de Bruce e, com cuidado para não despertá-lo, desvencilho-me dos seus braços e saio da cama.
Avisto no chão a camisa branca que ele usou por baixo do terno na cerimônia do nosso casamento, que tirou no Quinjet e que vestiu de novo quando estávamos para aterrissar. É com ela que deixo o quarto instantes depois.
Descalça, meus pés quase não fazem barulho à medida em que desço os degraus da escada. Logo alcanço o andar de baixo, cruzo a ampla sala e sigo por um corredor rumo à cozinha. Meu estômago se anima com a expectativa de encontrar comida e ronca mais alto.
Abro a geladeira e quase choro de emoção. Está bem abastecida, com comida suficiente para mim e Bruce por mais tempo do que pretendemos passar aqui. Aposto como o conteúdo dos armários também não irá me decepcionar.
— Valeu por isso, S.H.I.E.L.D., você é a melhor!
De pronto, já pego uma garrafa de suco de laranja, alguns frios para fazer um sanduíche, molhos, tomate para incrementar o recheio e uma porção individual de torta de chocolate para a sobremesa. A pilha monstruosa em meus braços me impede de fechar a geladeira com as mãos, então empurro a porta com cuidado usando a lateral do corpo.
— Amelia!
A voz de Bruce me causa um sobressalto e quase levo tudo ao chão.
— Merda... — Equilibro tudo de volta do jeito mais seguro que consigo e grito de volta: — Aqui embaixo!
— Amelia?!
É impressão minha ou há uma urgência desmedida em sua voz?
— Onde você está?!
— Na cozinha! — respondo mais alto.
Despejo toda a comida sobre a bancada ao mesmo tempo em que ouço uma porta ranger ao ser escancarada às pressas. Confusa com a rapidez como o Vingador saiu do quarto e foi me procurar lá fora, franzo o cenho.
— Amelia, eu sinto m...
Olho para a soleira da cozinha, agora estranhando o silêncio e a demora dele em retornar para dentro.
Por via das dúvidas, grito novamente:
— Desculpe por ter te acordado, cupcake! Está tudo bem?
Nenhuma resposta ou indício de aproximação surgem. Somente o ruído ululante do vento vindo da sala.
— Não se preocupe, Bruce! Eu não fui sequestrada por um vilão maluco e o mundo não caiu sobre nossas cabeças de novo! Estou bem aqui, sã e salva, na cozinha!
Decido abrir a embalagem da torta de chocolate e provar um pouco da cobertura com o dedo mesmo.
Céus! Está muito bom!
E nada do meu marido dar o ar da graça.
— Bruce?! — Caminho rumo à sala, levando a torta comigo. — Meu Deus, homem... Esse suspense está me matando! Onde você se meteu agora?!
Chego à sala de estar e, se já não estava entendendo nada antes, agora piorou de vez. Porque não há nenhum sinal de Bruce Banner por aqui.
Por que não há nenhum sinal dele por aqui?
— Não acha que está meio grandinho para brincar de esconde-esconde?!
Nada.
O vento balança a porta escancarada. É impossível enxergar qualquer coisa lá fora, a noite está completamente escura. Quase desoladora, o que não combina com uma lua de mel.
Será que Bruce foi mesmo me procurar lá? Porque eu tive a forte impressão de que a voz dele veio justamente do lado de fora no primeiro chamado.
Por que ele sairia da casa primeiro, ao invés de me procurar por aqui, e depois voltaria me chamando com tanta urgência? Não faz sentido.
Não faz sentido também que, da última vez que balbuciou o meu nome, ele me soou mais perto, na sala provavelmente, e agora parece ter evaporado no ar feito fumaça.
Por que Bruce sairia de novo para me procurar nos arredores do esconderijo, se eu avisei que estava na cozinha? Não me ouviu ou... não conseguiu me alcançar a tempo?
Sinto um estranho nó no centro do peito. Analisando agora, ele pareceu tão... aflito enquanto me buscava. O que o impediu de vir ao meu encontro, afinal?
— Bruce?
De repente, enfim ouço um novo ruído. Passos apressados. Só que não vêm da direções que eu esperava. Meu marido não surge de algum canto obscuro da sala, tampouco vem do lado de fora e cruza a soleira da porta. Bruce vem descendo a escada. Apenas com a calça, que pela aparência amarfanhada, vestiu às pressas, e o cabelo bagunçado como... alguém que acabou de acordar.
Sinto um alívio profundo me inundar e é como se um peso se dissipasse dos meus ombros. Ao mesmo tempo, fico um tanto brava também. Que raio de brincadeira foi essa?
— Qual o problema? — ele indaga ao alcançar o último degrau, com semblante preocupado.
Quase me convence.
— Rá! Muito engraçado! — ralho, enquanto ele se aproxima. — Eu que te pergunto, Bruce. O que houve? Por que estava gritando feito louco? Eu só saí um pouco do quarto, não precisava surtar, imaginando destinos terríveis. O que você pensou? Que eu tinha sido abduzida por um extraterrestre do mal? Evaporado no ar?
O alter-ego do Incrível Hulk une as sobrancelhas e rebate com ar inocente:
— Do que você está falando, Amelia? — Bruce então repara no vento que percorre a sala de modo constante e olha na direção de um ponto específico adiante. — E quem abriu a porta?
Lanço-lhe um olhar enviesado e, já que ele quer brincar assim, também me faço de sonsa:
— Sei lá. Talvez... outro cara?
No entanto, quando Bruce torna a me encarar, há tanta transparência em seus olhos que, nesse momento, sou convencida de fato. Ele não sabe mesmo o que aconteceu aqui.
— Não fui eu quem abriu a porta, Amelia.
Meu cérebro busca uma explicação razoável para essa situação esquisita.
Talvez... Bruce Banner seja sonâmbulo.
Do tipo velocista.
Só isso para explicar a rapidez como ele desceu as escadas sem que eu visse, saiu da casa, entrou de volta aos gritos, subiu ao quarto de novo, despertou de fato e enfim veio ao meu encontro sem ter noção do que fez.
É, na verdade, essa é uma explicação bem maluca. Porém, a alternativa seria ainda mais inusitada e não estou disposta a acreditar que havia dois Bruce Banner por aqui. Um só já me deixa maluquinha demais.
— No que você está pensando? — ele pergunta, intrigado.
Pisco um pouco, voltando a concentração ao homem peculiar diante de mim.
— Que você é uma caixinha de surpresas. — Jogo um braço ao redor do seu pescoço e ofereço: — Torta?
Bruce olha para a guloseima que seguro com a mão livre e me encara com certa incredulidade.
— Não acha que eu devia olhar lá fora primeiro?
— Não, bobagem. — Dou um tapa no ar, dispensando tal sugestão. — Você não iria encontrar ninguém.
Bruce me olha de um jeito mais confuso e questiona:
— Como pode ter certeza?
Entrego-lhe a torta e, enquanto sigo rumo à porta, respondo com carinho:
— Porque foi a sua voz que eu ouvi, meu amor, e não existe ninguém igual a você nesse mundo.
Fecho a porta e apoio as costas nela, voltando a atenção na direção dele mais uma vez. Bruce parece ter gostado do que ouviu e retribui com um olhar morno e relaxado.
Mordo o interior da bochecha por um instante e faço uma ressalva despretensiosa:
— Por isso mesmo... talvez seja interessante conversar sobre o seu sonambulismo um dia desses.
Meu marido e Vingador torna a franzir o cenho, fitando-me com ar confuso de novo. Ele realmente não faz a menor ideia.
Longe dali, em outro ponto do espaço e tempo...
Desnorteado pela vertiginosa viagem através do Reino Quântico e abalado pela experiência de ouvir Amelia, sã e salva, em nossa lua de mel, mesmo que por um breve lampejo, respiro de maneira entrecortada até conseguir retomar o fôlego. À minha volta, rostos amigos me encaram com uma expectativa palpável, enquanto me levanto do chão, as pernas estranhamente fracas.
— F-funcionou... — consigo murmurar, o peito martelando forte e ribombando alto nos ouvidos. — Funcionou!
Tony sorri na mesma hora e o alívio dele também é visível no semblante dos demais Vingadores. A esperança que eles sentem deve ser a mesma que atinge em cheio cada parte do meu ser. Porque agora nós estamos mais perto de salvá-los. Todos eles. Todos aqueles que foram dizimados por Thanos há cinco anos.
As partículas Pym possibilitaram que eu viajasse pela linha do tempo, com o traje especial que, confesso, me sufoca um pouco agora. E usando essa tecnologia subatômica, vamos colocar o plano mais audacioso que já orquestramos em prática. Vamos atrás das Joias do Infinito, iremos reuni-las e tentaremos trazer cada pessoa que se foi, injustamente, de volta.
Apesar da alegria e da esperança que sinto nesse momento, cada parte de mim também lamenta por não ter conseguido permanecer mais alguns instantes naquele momento do passado. Eu estava tão perto dela. Tão perto de vê-la e abraçá-la bem forte.
O Reino Quântico me levou até o lado externo do esconderijo e eu corri rumo à casa o mais rápido que pude enquanto chamava por minha esposa. Cheguei a abrir a porta com um movimento desesperado e a dar alguns passos pelo interior da sala, procurando por Amelia o tempo todo.
Só que não fui rápido o bastante.
Ouvi minha esposa me responder, me arrepiei com o som de sua voz, fui atingido por uma onda de saudade dolorosa, mas... não consegui alcançá-la a tempo para senti-la em meus braços.
De repente, eu fui arrancado de lá e estava viajando de volta ao presente, surgindo no mesmo lugar de onde parti segundos antes, caindo de joelhos bem no centro da máquina idealizada por Tony, aqui no Centro de Treinamento dos Vingadores.
Procuro não me abalar com o sentimento de vazio e decepção por não ter visto nem tocado Amelia, preferindo me agarrar à certeza de que, muito em breve, estarei com ela de fato. Sem mais nada ou ninguém para nos separar de novo.
Preciso trazê-la de volta, custe o que custar, porque não saberia viver de outra forma.
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