Inevitável
1 Capítulo 1 - Comemorações à parte
Notas iniciais
Mamoru estava entusiasmado no centro de Tókio, os olhos brilhando a visão do prédio muito alto, de arquitetura bastante moderna, todo trabalhado em vidro espelhado. Naquele prédio funcionaria a nova sede da Earth, os sete andares superiores apenas para a instalação das partes mais importantes da empresa de inteligência e tecnologia e seus funcionários. O dono, Mamoru Chiba, sorria para os quatro amigos — e sócios — naquele momento, em uma clara sensação de vitória.
Tudo havia começado na faculdade de mecatrônica. Mamoru conhecera, primeiro, Saitou Kunzite. Um rapaz sério, introvertido, mas altamente competente e organizado. Depois vieram juntos, Noel Nephrite e Jason Jadeite. Ambos bem humorados, com jeito para com as pessoas e ousados. Por fim, conheceram o mais novo, Zachary Zoisite, o rapaz era anos mais novo que os outros quatro, mas era claramente um gênio, afinal, compreendia códigos e estruturas que ninguém mais poderia. Foi, então, que surgiu a Earth: Nos fundos da casa de Mamoru, em uma salinha minúscula e empoeirada e desde então, o crescimento não parou. Lá estavam eles, no centro de Tóquio passando pelas portas rotatórias sentindo a excitação do presidente, subindo infindáveis andares pelos elevadores, até o último andar.
A grande sala de Mamoru ficava ali no topo, logo após um corredor, uma sala maior — a qual disse que seria apenas para reuniões importantíssimas – atrás de uma porta de vidro escuro. O lugar era um show a parte, tinha uma bela vista dos labirintos prediais da cidade, uma mesa de vidro elegante com a placa com seu nome e a palavra "presidente" escritos em prateado na frente e uma cadeira giratória que poderiam jurar que caberiam mais cincou seis dele, fora todos os luxos como um pequeno campo de golfe e o grande computador, o que era bem a cara do exagerado dono da empresa.
– Então, o que acharam? – Mamoru sorriu.
– Exagerado e... Digno! – Zach levantou um dedão positivo.
– Melhor que aquela sala branca do início. – Nephrite aproximou da parede de vidro, olhando a cidade que dava os primeiros sinais da vinda da noite com os poucos pontos de luz acendendo ao longe. – Veja isso!
– Bem espaçoso, muito bom, "chefinho". – Jason caçoou.
– Não vai falar nada, Saitou? – Mamoru olhou o vice-presidente da empresa manter um olhar sério.
– Veja bem, Mamoru – ele passou as mãos pelos cabelos prateados. – temos coisas mais importantes para nos preocupar. A empresa vai abrir e tem o treinamento, os funcionários, ordens de serviço, aquela transferência de dados...
– Olhe só, alguém está tenso... – Zachary brincou colocando as mãos nos ombros e fazendo uma auto-massagem.
– Por Deus, Saitou! Deve ser por isso que você tem tantos cabelos brancos! – Noel olhava divertido.
– Ora rapazes, não sejamos duros, afinal não teriamos chegado aqui sem essa preocupação... monstruosa. Por isso ele é meu vice-presidente! – Mamoru brincou. – Acho mesmo que antes da empresa abrir, de fato, precisamos relaxar. Alguns mais do que outros.
– Eu não preciso relaxar, estou ótimo! – Kunzite mantinha-se sério apesar das brincadeiras.
– Sim, você precisa, todos nós precisamos. Preparei uma noite para comemorar a abertura da Earth, senhores! — Mamoru deixou um brilho malicioso passar pelos olhos azuis.
– Sem chances... – O prateado já se virava para o elevador.
– Por favor! – Nephrite jogou um dos braços sobre os ombros do o mal-humorado amigo. – Não seja um baita desmancha prazeres!
De fato a noite seria bem especial. Pararam sobre um letreiro luminoso cor-de-rosa, com letras bem reboladas contornando a palavra “Olimpo”. O local era fechado por uma imensa porta de ferro onde dois homens, diga-se de passagem bem grandes, guardavam a entrada. Os cinco desceram do carro mostrando os documentos aos homens da entrada, recebendo um sinal positivo para abrir a porta.
Diferente do local simples do lado de fora, dentro era completamente gigantesco e iluminado. Havia um bar, onde belas mulheres faziam malabarismo com garrafas, além disso, várias mesas por onde outras moças passeavam com bandejas de bebidas e petiscos variados, além disso, um palco imenso estava no centro de tudo isso. No palco, seis meninas, praticamente nuas, faziam uma dança juntas e deixavam-se iluminar pelo vermelho das luzes vindas do alto e levar-se pelo ritmo da música, o que tornava tudo extremamente sexy e, ao mesmo tempo, um pouco desconfortável.
– Por minha conta! – Mamoru sorriu aos companheiros.
Sentaram-se bem próximos ao palco observando a dança, em seguida, cada um pegou uma taça de uma bandeja que uma moça passava enquanto exibia o decote.
– Usagi sonha que você está aqui? – Noel sorriu safado.
– Usagi está ocupada demais com a nova decoração da casa! E olhem... Eu sou homem e posso viver de vez em quando!
– Esse lugar é ótimo! – Zach olhou para os lados simulando uma expressão de prazer. – Como descobriu?
– Tenho meus contatos! – Levantou a taça em brinde. – A nova Earth!
Todos brindaram, exceto Saitou que ainda mantinha a cara amarrada e a taça de martinni cheia.
– Saitou Kunzite, qual é o seu problema? O que você tem contra diversão? – Jason apontou para uma das moças que dançava no palco. – Olhe um pouco homem!
– Não vejo nada de especial, nada mesmo em nenhuma delas. – O prateado bebericou o martinni. — Além disso, Rei ficaria furiosa em vê-lo aqui.
– A Rei nunca vai saber que eu estive aqui. — Jason revirou os olhos, levantou a taça e bebeu tudo de uma vez.
Mamoru viu o olhar de reprovação lançado pelo o outro, era sempre divertido brincar com Kunzite, pois aquele cara era sempre tão sério que tirá-lo desse estado era quase terapêutico. O moreno chamou uma das garçonetes – uma belíssima ruiva — e sussurrou algo em seu ouvido, ela riu divertida e acenou com a cabeça em afirmação enquanto ouvia.
– Garanto que será a nossa melhor. – A ruiva saiu dando uma leve piscada para a mesa.
– O que sua mente mirabolante está planejando? – Noel reconhecia aquela expressão divertida estampada na cara do presidente da Earth.
– Eu mesmo queria ver, mas será um pouco... Privado. — Balbuciou para o amigo.
A ruiva voltou à mesa, trazia um papel cor-de-rosa nas mãos e lançou um breve sorriso ao moreno — que levantou a taça de champagne dando um sinal positivo a ela — que se aproximou-se do rabugento, onde os olhos cinzentos ainda mantinham a expressão tediosa e de uma profunda vontade de sair correndo dali.
– Com licença, senhor, poderia me acompanhar? – Ela tocou seu ombro.
– Acompanhar? – Ele lançou um olhar cortante para Mamoru, era coisa dele.
– Senhor, temos um tempo... – A moça insistiu de forma doce.
– Tudo bem... – Ele levantou seguindo a moça e passando ao lado do chefe. – Você me paga!– Disse entre os dentes.
– Você vai me agradecer! — O moreno riu, acenando como se fosse realmente uma despedida.
Saitou foi guiado até uma grande cortina vermelha que a moça abriu para que ele entrasse. O local era uma sala pequena, mas nada simples. Havia uma mesinha de vidro entre um imenso sofá vermelho – onde ele imaginou que deveria se sentar — e um palco menor com uma grande barra de ferro ao centro. Ele poderia sair correndo dali e ir pra casa, mas como era racional o suficiente pra saber que havia uma garota se preparando para entrar ali e ganhar seu "trocado" da noite — um trocado bem generoso, afinal, era Mamoru quem estava pagando – decidiu ficar e ver terminar.
Demorou cerca de 10 minutos para que tudo ficasse pronto, uma moça entrou por um breve momento para deixar um novo martinni em sua mesa e sair depressa antes que o show particular começasse. As luzes da sala foram completamente apagadas e o pequeno palco foi iluminado apenas com uma meia-luz azul, a música Secret* começou a tocar e ela saiu do chão. Estava de costas para ele, embalada pelo ritmo leve da música, a pele branca refletia o azul da luz, o cabelo loiro permanecia preso ao topo da cabeça, o que acentuava o movimento dos ombros enquanto ela abraçava a barra de ferro com as mãos enluvadas para trás. Virou-se de uma vez rodando pela barra até parar no chão, mirou, então, seu espectador. Saitou ficara fascinado com a cor dos olhos dela, não sabia se aquele azul era mesmo daquele brilho estonteante ou se estava acentuado pela maquiagem pesada e máscara vermelha. Via a moça descer e subir a barra de ferro e a cada rodopio se livrar de alguma parte da roupa que vestia. Ao fim da canção deixou apenas a máscara, os sapatos de salto, uma pequena lingerie e o corset que lhe acentuava, e muito, a curva dos seios. Uma nova música começava: Zero** – um raro sorriso estampou o rosto dele, gostava de Audioslave. – Ela soltou os cabelos, a começou a dançar só, e chegar perto, perto o suficiente para sentar em seu colo, ele sentiu o perfume dela invadir suas narinas e ouviu a voz macia e rouca sussurrar em seu ouvido:
– Lembre-se, senhor: você não deve me tocar, nunca.
Ele arrepiou. Ela era realmente sexy e talvez por isso fosse reservada apenas para shows particulares como aquele. Ele teria de manter as mãos abaixadas e deixá-la fazer o que bem quisesse e ele ainda teria de se controlar, pois, sabia que ela só estava fazendo o que era seu trabalho. Ela passou as mãos pelo seu peito e abriu-lhe a camisa, massageou-o ali sentindo os músculos do peitoral e da barriga – esses que eram incríveis, ela estava tão acostumada aos velhos barrigudos que ela tinha de enfrentar todos os dias — e subiu as mãos para sua nuca acariciando-lhe os cabelos e os puxando de leve, aproximou-se encostando seu nariz com o dele, soprou seu ouvido, tudo aquilo o deixava alucinado.
– Posso apenas lhe fazer uma pergunta? – A respiração do prateado estava descompassada.
– Não proibimos ninguém de falar, senhor. – Ela tocou os lábios dele com a ponta dos dedos.
– Você... – Ele hesitou, afinal, aquilo não era real.
– Eu... – Ela o encarou com fervor.
– Tem um nome? – Ele engoliu seco, estava louco, na verdade estava sendo idiota.
– Nome? – Ela debochou e aproximou os lábios do ouvido dele. – Aqui me chamam de Afrodite.
Ela levantou e voltou sensualmente para seu palco, ficou de costas para ele e o olhou por cima dos ombros, acenou mostrando-lhe o sorriso mais sensual que foi capaz e as luzes se apagaram enquanto a música cessava.
A luz normal voltou ao local. A garota não estava mais lá, mas os efeitos que ela havia causado nele estavam bem visíveis. Ele avançou sobre o copo de martinni intocado na mesa e o bebeu vorazmente, mastigando até mesmo a azeitona de enfeite. Esperou que seu coração parasse de bater daquela forma e que o fluxo de sangue se acalmasse em suas veias. Levantou e voltou para mesa onde se encontravam os sócios, foi recebido com um grande sorriso debochado de todos.
– Pelo jeito nosso presentinho não surtiu tanto efeito, veja só essa cara emburrada. – Jason deu um tapinha no ombro do colega.
– Conte-nos como ela era, campeão! – Noel brincou ao fazer o interessado.
– Eu estou indo. – Kunzite ignorou.
– Cara, você é assexuado? — Jason balançou a cabeça. — Olha, se você for gay, a gente te aceita!
– Boa noite! — Deu um dos raros sorrisos por cima dos ombros.
– Foi tão ruim assim? – Mamoru se levantou e seguiu o amigo. – Não pagarei por um serviço péssimo desse, eu...
– Mamoru! – O platinado virou-se para ele rapidamente. – Veja bem, o serviço não foi ruim, a garota era linda, dançava excepcionalmente bem, mas eu não estava com vontade de vir desde o início. Pelos céus, estou cansado e quero ir para a minha cama deitar com dignidade.
– Certo, certo... Mocinha! – Mamoru balançou a cabeça em negativo, com um visível sorriso.
– A propósito, Mamoru: já paguei a moça. – Kunzite balançou o cartão de crédito para o amigo e tomou o rumo da saída.
Saitou chamou um táxi, e foi levado rapidamente para o prédio onde vivia só em seu apartamento. Subiu as escadas e parou e frente para a porta girando a chave. Podia jurar que quando entrou em casa ouvira um coro de anjos e cornetas: enfim casa!
Entrou rápido no banheiro, estava preparado para um banho quente e relaxante, deixou a água quente lavar-lhe o corpo, fechou os olhos e a imagem daquela loira dançando invadiu-lhe a mente. Sentiu uma leve corrente de excitação ao lembrar-se de como ela dissera em seu ouvido “Afrodite”. Precisou descarregar toda aquela tensão no chuveiro, lembrando-se de cada movimento e do calor do corpo daquela mulher contra o seu.
Saiu do banho e jogou-se na cama, tentou fechar os olhos, mas pareceu completamente impossível esquecer aqueles olhos azuis o devorando por debaixo daquela máscara. Talvez pudesse esbarrar com ela na rua e ao menos saber quem ela era. Sua parte racional sabia que era encenação, que aquilo era o trabalho dela, que não era real. Talvez ele estivesse tempo demais sem sair com alguma mulher, só pensava no trabalho e não era flexível o bastante como Mamoru para equilibrar os dois. Era loucura estar guiado por instintos masculinos, mas ele decidiu que voltaria e voltaria no dia seguinte. Entendeu a causa de o lugar chamar-se “Olimpo”, precisava ver os olhos da mulher que se intitulava como deusa grega de novo.
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