Inevitável
2 Capítulo 2 - Tudo perfeito
Acordou um caco. Olhou para o teto, ainda deitada, buscando com uma das mãos o celular no criado-mudo. Encontrou o aparelho e viu às horas: 13h00min. Suspirou e levantou-se debilmente caminhando até o banheiro, molhou o rosto e olhou-se no espelho manchado, havia dormido de maquiagem novamente.
Ela escovou os dentes e caminhou até a cozinha, procurando algo na geladeira e se não fosse pela garrafa pet cheia de água da torneira e um pote de margarina, estaria vazia.
– Droga! — Resmungou, fechando a porta da geladeira e olhando para o calendário ganhado em uma promoção de supermercado pendurado na parede.
Nunca esteve tão exausta na vida, mas tinha de comer e lembrou-se que um dos cachês da noite anterior havia sido bem gordo. Gordo o suficiente para deixá-la animada para visitar um restaurante italiano — seu favorito — e comer quantos pratos de macarrão fossem possíveis e com direito a sobremesa. Minako limpou a maquiagem borrada o dia anterior, passando apenas um rímel nos olhos azuis, vestiu-se com o terninho preto, colocou o scarpim de solas gastas, penteou os longos cabelos em um rabo de cavalo alto, colocou o jornal do dia dentro da bolsa e saiu de casa, o plano do dia era almoçar bem e, o objetivo principal, procurar um novo emprego.
– Hey, Mina! – A voz conhecida chamava pela loira.
– Mako! – A loira sorriu para a amiga.
– A busca continua? – Mako sorriu apontando para a roupa da outra.
– Continua... – Ela riu, junto, aquela era uma velha piada interna.
Makoto Kino trabalhava junto de Minako no “Olimpo”. Mas diferente da loira, que era uma das principais atrações às escuras, Makoto ficava responsável pelas bebidas e tira-gostos o local. Ela cozinhava e fazia bebidas aos malabarismos maravilhosamente bem, mas de fato não se sentia muito à vontade em fazê-lo com roupas íntimas. Era comum que se encontrassem durante as longas caminhadas à procura de um novo emprego, ambas estavam exaustas daquela vida de atração de boate. Claro que vista de fora era uma profissão glamurosa, mas só elas sabiam o que era aguentar os olhares, o tratamento e principalmente o toque e ousadia de alguns clientes que chegavam a ser nojentos e, na maioria das vezes, deviam aceitar aquele tratamento por causa do dinheiro.
– Então vamos juntas, o que acha?
– Mas eu ainda não almocei, acordei há pouco.
– Ótimo, eu também não... Pretendia algo?
– Massas!
– Hm... O cachê foi bom. – A morena sorriu em deboche. — Conheço um lugar ótimo, vamos? Tenho algo para lhe contar!
Mina seguiu a amiga. Sabia que ela tinha um paladar super aguçado e que não haveria decepção no local escolhido e deixou-se ser guiada. Elas caminharam pelo mar de gente de Tókio, a cidade grande nunca parava. O dia inteiro era daquela forma, pessoas atrasadas, correndo vivendo de acordo com o relógio. Pararam em um ponto e ônibus e em menos de cinco minutos tomaram o veículo, por sorte, vazio.
Conversavam sobre coisas triviais, cabelos, sapatos, a falta de dinheiro e, óbvio, os clientes.
– Ontem foi um dia bom para todas nós. – Mako sorriu fazendo um sinal de dinheiro com as mãos.
– Bons clientes, homens ricos. Mas tive que dançar de novo para aquele velho... babão. – bufou. – Acredita que ele tentou desamarrar meu corset?
– Nojento. – A cara de nojo era visível — Mina, você deveria dispensar esse cara.
– E acha que já não pensei nisso? – Minako fez cara de escárnio. — Não posso, é meu sustento semanal. Aquela víbora da Beryl pega todo o dinheiro, vivemos de gorjeta, Mako... Acredite: as gorjetas daquele velho nojento são o que me mantém naquele apartamento.
– Tudo bem, já entendi. – Ela se levantou e apertou o botão para a parada. – Esse é nosso ponto.
Estavam no centro da cidade, agitação milhões de vezes pior e o barulho, muito mais insuportável. Por um instante Minako pensou em sair correndo daquele lugar, mas a barriga roncou e os sentidos aguçados de Makoto para comida falavam mais alto em sua cabeça.
A morena puxou a outra pela mão e entraram em um pequeno estabelecimento chamado “La Cantina” – Minako revirou os olhos pelo nome tão “original“ – o local era mesmo um daqueles restaurantes italianos tradicionais, cheios de decorações rústicas e mesinhas de madeira com forros verdes e vermelhos quadriculados, além, as velas gastas. O cheiro de molho e queijo derretido invadiu as narinas de ambas enquanto se sentavam, era e dar água na boca.
– Senhorita Kino! – Um senhor com um sotaque engraçado cumprimentou entregando os cardápios. – Há quanto tempo, vejo que trouxe uma bela amiga!
– Boa tarde Senhor Pietro! – Ela sorriu pegando o cardápio. – Essa é Minako Aino. Está deixando o bigode crescer?
– Um prazer em conhecê-la, Senhorita Aino! – O homem mostrou um largo sorriso por debaixo do bigode. – Estou sim, temos que manter as origens, não é mesmo? Belas moças, eu deixarei que escolham suas preferências, qualquer coisa chamem meu filho, Luca, as atenderá. Estarei na cozinha!
O senhor se afastou, fazendo sinal para que o filho viesse. Era um jovem alto e muito bonito, de traços fortes, olhos azuis brilhantes, barba por fazer, aqueles traços diferentes dos japoneses, forte e robustos. Makoto apontou uma lasanha e viu Minako olhar para o rapaz de forma sedutora – bem típico, era normal atirar-se em homens atraentes – e sorrir pedindo um prato de fettuccine. A morena notou Luca sorrir de volta mostrando covinhas e o sorriso branco e perfeito.
– Recomendo um vinho para as senhoritas? – Luca ainda estava absorto no mar azul da loira.
– Seria bem vindo. – Mina entregou o cardápio a ele, apoiando a cabeça nãos mãos aparadas com o cotovelo sobre a mesa. – Traga-nos o que achar melhor para acompanhar.
O rapaz se afastou, levando os cardápios, o belo sorriso e o corpo maravilhoso.
– Você não presta! – Mako balançava a cabeça em negativo.
– Que mal há? Ele é lindo, jovem, eu também...
– Não posso negar que esses traços ocidentais me deixam louca. – Fez questão de morder o lábio inferior. – Vinho, hein?
– Como disse, ontem foi uma boa noite.
– Oh sim! Falávamos disso no ônibus. Jovens empresários, novos pelo Olimpo. Sabe como é: primeira vez, vários gastos.
– Falando em jovens empresários, recebi um ontem que... Meu Deus! – Alongou a letra “e” da palavra “Deus”.
– Defina “Meu Deus”. — Imitou a entonação.
– Moreno, cabelos prateados, olhos cinzas penetrantes e um peitoral que... Poderia me demorar ali por mais meia hora se meu horário permitisse. – A loira abanou-se com as mãos.
– Como eu disse: você não presta. – Mako gargalhou divertidamente, jogando a cabeça para trás.
A conversa continuou a fluir, Luca voltara com a garrafa de vinho e as taças servindo ambas e depois com a comida. Makoto estava completamente certa sobre a qualidade aquele lugar e não somente quanto à comida, como no atendimento, Minako trocava olhares com o garçom o tempo inteiro. Os olhares e sorrisos valeram à pena, a tradicional palha italiana veio de surpresa e com uma bela bola de sorvete, por conta da casa.
– Mas, Mako, o que você disse que tinha de ótimo para me contar! – Limpou o canto a boca com o guardanapo.
– Bem lembrado! – A morena sorriu balançando a taça de vinho no ar. – É bom não ter se sujado com molho, Minako Aino, pois temos uma entrevista marcada para às 15:00h no prédio de vidro.
– “Aquele” prédio e vidro? – Os olhos azuis quase saltaram das órbitas.
– Ele mesmo, nós vamos nos candidatar a secretárias da empresa de Tecnologia e Desenvolvimento Earth.
A loira abriu um largo sorriso e o coração bateu mais forte. Aquela seria uma oportunidade de ouro, afinal, a Earth acabara de abrir a nova sede e estaria lotada de vagas. A esperança batia a sua porta pela primeira vez em meses. Bateu-lhe uma felicidade imensa e chamou o garçom, pediu a conta com o maior sorriso que podia dar. O caderninho de couro veio fechado com a nota fiscal e um telefone. Minako lançou um olhar discreto para Luca, estava tudo tão perfeito que aquele dia não podia ficar melhor.
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