Notas iniciais
no beta we die like shaka

Uma música conhecida, de repente, começou a tocar, enquanto corria pelos corredores da faculdade. Estava procurando a próxima vítima, para atingir com uma bexiga cheia d’água, quando ouviu instrumentos tão altos que parecia estar ao seu lado. A música tornava-se cada vez mais alta, o som da guitarra deixando de ser agradável e deixando-o irritado.

Jogou o pequeno balão que segura para longe, numa vã tentativa de pôr fim àquele som e, de alguma maneira, funcionou. Procurou por outro balde com balões prontos para ataque quando notou que usava pantufas brancas e seu pijama de peixinhos – não o de seda, não o com rosas bordadas, usava o mais fofo e estúpido que possuía. Sentiu a vergonha tomar conta de si, enquanto corria à procura de algum banheiro para esconder-se, não percebendo a poça d’água à sua frente, fazendo-o cair.

E acordou.

Sentou-se assustado na cama, apertando o cobertor com a mão esquerda, sentindo o coração bater rápido. Frustrado pelo ridículo sonho que tivera, forçou-se para fora da cama, sem a graciosidade que lhe era característica; percebendo, então, o despertador eletrônico no chão, tinha boa noção de quando o havia atirado.

Olhou de soslaio para o colchão, Saga ainda dormia; e suspeitava que não acordaria tão cedo. Não depois de ter chegado na madrugada, para ainda realizar o que lhe havia sido proposto pelo sueco. O tédio guiava à situações únicas, concluiu.

Alcançou um robe vinho, escondendo sua nudez – diferente do grego a dormir, não era tão exibicionista assim. Prendeu o cabelo com uma fita vermelha, caminhando até a cozinha, onde pretendia comer seu desjejum; indignado com seu horário biológico que o fazia despertar cedo até mesmo aos domingos.

(e o despertador que esquecera de desligar na noite anterior)

Quem o visse separar cuidadosamente alimentos saudáveis em uma bandeja de prata, enquanto sua companhia deleita-se nos braços de Hypnos, poderia suspeitar que levaria o café da manhã na cama, em uma romântica cena digna de livros. Não. Afrodite organizou tudo para que ele mesmo desfrutasse em seu divã, próximo de uma grande janela – que havia aberto discretamente para que a brisa fria do outono trocasse o ar de dentro do apartamento, sem deixá-lo com frio.

Dentre todos os amigos próximos, talvez fosse o com mais poder aquisitivo, privilégios de sua família, que operava no setor imobiliário. Sua preferência por padrões elevados de móveis e alimentos era nítida, ainda que não se esforçasse a ser diferente. Fora a negligência dos pais que o levara a passar mais tempo com amigos, conhecendo-os de maneira inusitada – na rua, em bares, escola, ou mesmo em eventos.

Conectou o celular nas caixas de som, aconchegando-se para ouvir Debussy soprar suas teclas na sala, como o vento que dança entre as árvores em uma noite de estrelas. A calmaria necessária tornar seu dia agradável. Uvas, pêssegos, queijo e torradas acompanhavam seu chá, como se a própria deusa estivesse a ser agraciada.

Entretanto, ainda era humano, assim sua vontade resumia-se à estar no mesmo lugar por longas horas, principalmente após alcançar um livro e deliciar-se em sua leitura. Uma coletânea de histórias de Machado de Assis, presente de Aldebaran em seu aniversário; por tantas vezes o havia separado para ler, em todas falhado, não passando das primeiras linhas. Males da vida adulta.

Não querendo por soar como Schopenhauer, ainda assim fez uma nota a respeito da perca do brilho exato de uma obra devido à tradução. Uma lástima, porém, conseguiu saborear satisfatoriamente o que era consumido; teria de agradecer o amigo na próxima vez que o encontrasse.

Ciente de não ter nenhum compromisso até o anoitecer, permitiu-se apreciar sem pressa, com pequenas pausas somente para o chá. Há muito não desfrutava de tamanha serenidade, sempre atarefado ou conversando com alguém; adiantando projetos mesmo fora do horário de trabalho, às vezes inquieto demais para apreciar o simples ato de estar ali.

Assim, não era surpresa alguma que horas houvessem discorrido até Saga sentar-se ao seu lado, os cabelos ainda úmidos, o aroma de seu sabote na pele do grego. Buscou por uma rosa no vaso exposto na mesa de centro, colocando-a entre as folhas do livro, deixando a parte molhada do caule para fora.

“Bom dia.”, cumprimentou-o, ponderando encher a banheira para completar sua sessão de auto cuidado.

“Boa dia, Dite. Ou boa tarde.”, estava nu, a toalha no pescoço somente a impedir que o cabelo deixasse rastros pelo chão. O sueco reparou no som da máquina e supôs que as roupas ainda estivessem na secadora. “Desculpe eu dormir até agora, você tinha algum compromisso?”

“Como se você em casa fosse atrapalhar, eu o deixaria sozinho, se fosse o caso. Eu irei à uma exposição na galeria de arte mais tarde, Camus e Mu me acompanharão, deseja ir?”

Viu Saga abrir a boca para responder, mudando de ideia em seguida, porém.

“Eu adoraria, mas… Se Shion souber que eu estive com Mu…”, não sabia se fora o comentário ou a expressão preocupada que provocou risos no pisciano.

“Ele não te considera uma boa influência para Mu. Ele está certo.”, ignorou completamente o ressentimento na face do mais velho. “Então, deseja ir?”

“Irei recusar a oferta. Acabo de perceber que já passa do meio dia e eu não resolvi tudo o que deveria em casa para a semana que se inicia. Nem mesmo chequei se a revista, para qual enviei meu artigo, já me respondeu.”, jogou a cabeça para trás, incomodado pelo encosto não ser alto o suficiente.

“Hm, sei.”, percebia que Saga somente não queria atrapalhar o que já fora combinado entre os três. Além disso, não sabia ao certo se iria apreciar o programa planejado, não importava o quão erudito o grego fosse. “Por que não almoça aqui? Eu irei tomar um banho, aviso que irei demorar, você pode pedir comida para nós.”

Não precisava esperar por resposta, Saga ainda parecia um tanto sonolento, o que tornava fácil manipulá-lo para fins como aquele. A leitura havia tomado-lhe mais tempo do que inicialmente pensara usar, não reclamava, todavia, visto o contentamento que lhe trouxera. Porém, às quatro da tarde teria de sair ao encontro dos amigos, não gostaria de ter de apressar-se por imprudência, gostava de saborear todo o processo – principalmente em dias como aquele, em que a paz guiava suas ações.

Na sala, Debussy despedia-se, dando lugar à viola de Marin Marais.

A camisa rosa de seda, os lábios com um batom na mesma tonalidade, a única maquiagem necessária em seu belo rosto. O aroma de seu perfume a encantar aqueles que encontrava pelo caminho.

Celestial.

Ciente da atenção que atraía, jogou os cabelos de maneira teatral; satisfeito em ver Camus já frente a galeria, meneando a cabeça ao flagrar o sueco agindo como costume.

“Olá, Camus. Olá, Mu!”, abraçou ao segundo, em uma demonstração de afeto nitidamente mais aberta, abraçando-o. Se fizesse o mesmo com o francês, teria de lidar com… Nem mesmo conseguia imaginar-se a abraçar Camus.

“Estonteante, como sempre, Dite.”, Mu sorriu, acostumado com os hábitos do sueco. Conhecera o ariano ainda muito jovem, visto que Shion, o responsável legal (já não mais, uma vez que eram adultos) era um engenheiro de renome conhecido de sua família.

“Quem merece elogios é você, Mu. Por ser lindo e por conseguir ingressos para o último dia de exposição de Fantin-Latour para nós.”, Camus concordava, pela primeira vez, com as palavras de Afrodite, aproveitando para já os chamar para dentro da galeria. O pisciano, por sua vez, preferiu sussurrar aos ouvindo do ariano antes de acompanhar o ruivo. “Ainda não acredito que alguém como você foi cair nas graças daquele virginiano rabugento.”

“Dite, Shaka e eu…”

“Ainda não reataram porque ele é estúpido e pensa demais. Deve estar se remoendo em casa sem saber como lidar com os próprios sentimentos.”, adentrou o prédio com Mu ao lado. “Parece nosso amigo ali.”

Camus virou-se para os amigos, desgostoso em interromper sua apreciação aos quadros, somente para demonstrar a insatisfação em ser tópico de conversa. Conhecia muito bem o sueco para imaginar que não iria gostar de saber o que era dito; não quando notava o sorriso sarcástico nos lábios rosados.

“Camus, beleza não é suficiente para manter um relacionamento. Se continuar com esse humor, em breve, estará solteiro novamente.”

“Perdão? Não me lembro de pedir seus conselhos.”

“Rude.”

“Vamos, vamos.”, Mu tocou ambos nos braços, sempre gentil. “Não é hora disso. Tem muito mais do que Fantin-Latour por aqui, precisamos apreciar tudo com as devidas honras.”, pausou, inclinando um pouco a cabeça em um ato um tanto pernicioso, fazendo jus ao seu signo solar. “Até porque estamos falando do Camus, Dite. Não adianta explicar.”.

Afrodite não escondeu a diversão, seguindo Mu para a área específica do artista francês; deixando Camus ainda mais indignado por último.

Visitava amiúde galerias de arte e teatro com os dois, desde a faculdade, quando descobriram apreciar a presença um dos outros, além de poderem debater sobre cada obra contemplada. Considerava a personalidade de Camus e Mu ideal para passeios como aqueles, quietos e calmos nesses lugares – e ainda conseguia sempre mais tempo com o ariano, a fim de contar-lhe tudo o que havia acontecido desde o último encontro.

Talvez, levassem Camus para que o obrigassem a socializar-se um pouco, retirando o pó, que jurava poder tocar, sobre o amigo quando passava muito tempo sem vê-lo. Fugir da heteronormatividade havia criado um senso de fraternidade muito forte entre eles, aproximando-os em uma amizade cultivada há anos.

Não que estivessem livres de discussões e brigas mais sérias, mas ainda conseguiam contornar a situação – personalidades distintas e tanto orgulho, Afrodite não saberia dizer como ainda todos se mantinham por perto.

Empenhava-se em convencer os amigos a irem à um bistrô (‘uma overdose francesa em homenagem ao monsieur que iniciou o doutorado’), quando percebera que seu celular indicava uma ligação recebida. Retirando-se à um local mais reservado, para não atrapalhar aos que ainda entretinham-se na saída da galeria, atendeu despreocupado.

Luca.”, fez questão de frisar cada sílaba, ciente do quanto o amigo aborrecia-se com o nome.

Aparentemente, Máscara havia terminado o relacionamento e precisava de algum lugar para passar alguns dias, até alugar seu próprio apartamento. Afrodite fora o premiado a receber a primeira tentativa da noite, visto que era o mais próximo do italiano. E porque Shura era alguém que controlaria o tanto de água que um roommate usaria para lavar a louça, Máscara não estava disposto a passar pela experiência.

Ficara surpreso, não esperaria um rompimento tão cedo, mesmo que as coisas não estivessem muito bem. Ou talvez, estava muito pior do que imaginava. Cortês, concordou com o que era proposto, assegurando que não havia problema algum em abrigá-lo por algumas semanas – só não poderia garantir conforto, visto que o quarto extra estava a ser usado para itens de trabalho, vasos de flor e caixas.

Seria uma boa oportunidade para organizar o que não mais precisava.

Precisou, assim, cancelar as sugestões outrora apresentadas, aproveitando a oportunidade para pedir um colchão de ar emprestado a algum dos dois – prontamente atendido por Mu, que por algum motivo parecia ter acesso à diversos objetos; e informações, se fosse franco.

Dirigiu-se, primeiramente, à casa de Mu. Como Aiolos, que dividia um apartamento com o irmão mais novo, ainda vivia com algum familiar. Recordava-se, o pisciano, que Saga e Kanon costumavam morar juntos também, até que um dia o mais novo cansou de ser trancado para fora do apartamento e decidiu ser vizinho. Compadecia-se daqueles que residiam no mesmo prédio que os gêmeos. Em seguida, retornou ao lar, avisando Máscara que, se quisesse o colchão de ar, teria de levar ele mesmo. Sua benevolência tinha limite.

“Suas coisas estão no carro?”, segurava um travesseiro nas mãos, já de pijama, pronto a entregar ao italiano, que esperava, sentado no chão, o colchão encher para desligá-lo.

“Sim. Hm, mas não. Algumas coisas, outras eu irei buscar na casa dela quando eu encontrar um apartamento.”, coçou a cabeça, aparentemente aborrecido. “Irei deixar essa pequena estante aqui, tudo bem? Eu preciso deixar as lentes e câmeras protegidas de humidade.”

“Sem problemas, Mask. Eu já disse que não usava muito esse quarto. Só não deixe latinhas de cerveja pela casa, me recuso a viver fedido.”

“O que você acha que sou, Afrodite?”, genuinamente não compreendia o porquê da pergunta. “Não irei deixar latinhas de nada pela casa, não sou tão ingrato assim.”

“Está deprimido com o término? Gostaria de dividir um pote de sorvete?”, ergueu o queixo do italiano com o indicador direito, estranhando o humor deste.

Surpreendeu-se com a reação que obtevera; Máscara parecia ter se assustado, virando o rosto enquanto aumentava a distância entre eles. Estranho, no mínimo. Mas ainda tinha a desculpa de precisar re-organizar a vida, o que era um processo exasperador por si.

Não era de seu conhecimento ainda que, parte da inquietação de Máscara, não tinha a ver com o antigo relacionamento.