“Estou dizendo, será um ótimo investimento. Você vai precisar esperar mais três semanas, por causa das reformas, mas valerá à pena.”

Segurava uma caneta entre os dedos, levando-a aos lábios esporadicamente, fazendo algumas anotações pessoais em um caderno, enquanto tentava convencer Máscara, estirado no chão da sala.

Por ter contato direto com o setor imobiliário, era uma tarefa fácil à ele conseguir localizar um bom imóvel para o amigo, que, após dez dias sob seu teto, parecia decidido em seguir um novo rumo. O que quer que tenha ocorrido com o ex casal, havia sido o suficiente para romper o relacionamento sem nenhuma chance de reatarem.

“Afrodite, eu ganho mais dinheiro em apostas do que como fotógrafo, ou todos os trabalhos de meio período que faço. Como espera que consiga um financiamento falando isso?”, com os braços abertos e as pernas cruzadas, qualquer um pensaria tratar-se de um bêbado, mas não o era.

“Simples, Máscara, diga que é autônomo e omita o fato de que maior parte da sua renda não provém de meios lícitos.”, colocou a caneta no meio do caderno, deixando ambos na mesa de centro, exasperado. “Pra alguém inteligente, você consegue ser bem burrinho.”

Percebera que o italiano havia murmurado algo, com uma típica expressão irritada. Por isso, esticou uma das pernas, alcançando a coxa, tocando-a e surpreendendo o amigo. Não haviam conversado muito sobre as circunstâncias do término de relacionamento; na verdade, estranhava como Máscara estava mais quieto do que o normal. Normalmente, ao seu lado, o amigo era mais espontâneo – pelo menos aos olhos de Afrodite, percebia que algo mínimo havia alterado no comportamento, só desconhecia o motivo.

“Ainda acho melhor eu somente alugar…”

“Pelos deuses! É isto que Mu sente quando fala e não ouço, isso é castigo.”

Já havia apresentado todas as vantagens em possuir um bom apartamento, bem localizado e reformado, para Máscara; estava exausto da conversa, convencido de que havia sido em vão a proposta.

Importava-se com o italiano, diferente de como se afeiçoava de outros amigos, era mais… Preocupado. Embora não soubesse bem o que o impulsionava à isso. Quiçá, fora o modo natural com que fora tratado quando se conheceram, ainda jovens demais; ou, quem sabe, o fato de sempre ficarem por último quando saíam em amigos, quando até mesmo Shura se retirava mais cedo.

“Vou falar com o espanhol.”

“Você dará mais crédito à ele?”, levantou-se, caminhando até o banheiro em busca do aromatizador em spray.

“Quando se trata de dinheiro, Afrodite, sim. Ei! O que está fazendo?”

Uma pergunta sem sentido, visto que o sueco estava borrifando aroma de rosas em Máscara, antes de fazer o mesmo no restante da casa. Não precisava ter acertado, propositalmente, o canceriano, mas sentiu-se extremamente ofendido por ter tido sua diligência menosprezada.

“Saga está vindo. Tive uma semana muito ocupada e não pude comprar rosas essa semana; e você precisa de um banho, Mask.”

“Afrodite! Você… hm, está certo.”

Não imaginava que o italiano fosse realmente levar o comentário à sério, indo até mesmo para o banheiro minutos após provocá-lo. Recusava-se a acreditar que havia chateado-se, quando o teor da brincadeira era comum entre eles.

(ele não estaria tão sensível por causa dos últimos acontecimentos, estaria?)

Sua insegurança piorou quando Saga chegara e, imediatamente, Máscara saiu, alegando urgência em falar com Shura; não delongando-se em conversas com o visitante. Desconhecia o motivo de tanta pressa, estavam no meio da semana, poderia encontrar o espanhol em um dia mais propício – principalmente quando avisara que Saga iria a fim de espairecer, estava sendo uma intensa semana acadêmica.

O grego levara vinho, para beber com moderação, havia frisado, e resumiram a noite em conversas e jogos de baralho. Não era o melhor passatempo, mas não estavam com a disposição de qualquer outro ato que exigisse pensar mais do que um peixe; quartas não costumavam ser propícias ao bom ânimo. Saga estava esforçando-se ao máximo para melhorar o currículo e carisma profissional, visto que almejava em ser chefe do departamento de ciência política; o que faria dele o professor mais novo a já assumir o cargo e, se Afrodite bem o conhecia, ele iria conseguir – o geminiano era um péssimo perdedor e entraria em contato com conhecidos, se assim fosse necessário.

Assim, não lhe surpreendera quando Saga dormiu ainda com a toalha enrolada na cintura, com o corpo quase a cair do colchão. Também não o ajeitou na cama, optando por somente deitar na parte que lhe era reservada, casualmente atualizando-se em informações banais de redes sociais.

Fosse sincero, sentia-se menos ébrio por Saga do que em outros tempos; como se a cadência da música de ambos houvesse se alterado.

Mútuo, sentia.

As engrenagens da história a girar.

Em algum momento crucial que não percebera, mas estava visível. Fosse no olhar de Saga, em suas palavras; fosse a maneira com que sua própria mente o guiava para longe daquele que o fazia companhia. Fosse por despertar no meio da noite, com seu amante a dormir tranquilo, somente para vestir-se com o robe vinho e ir até sua varanda, na sala, perder-se em devaneios que não se lembraria depois.

Envolto na luz noturna, lua e estrelas a contemplá-lo; aconchegado na brisa fria, absorvendo o relativo silêncio – interrompido somente pelos carros ao longe, uma maldição da cidade movimentada.

Etéreo.

Não ouvira quando Máscara retornara, sendo surpreendido quando um casaco fora posto sobre seus ombros. ‘Você não deveria ficar na friagem’, ouviu, percebendo que o italiano o observava com mais dedicação do que lhe era típico; por tempo que supôs preceder algo a mais, que não viera – mas que, sentia, quase fora verbalizado. E, tão logo surgiu, assim se retirou para o próprio quarto.

Máscara estava deveras estranho.

Com este pensamento adormecera pela segunda vez naquela madrugada, já quase o amanhecer, visto que não havia conseguido explicações razoáveis para o que presenciara. As mesmas palavras estiveram em seus pensamentos ao longo do dia, preocupado, caso estivesse sendo ‘Camus demais, ao lidar com o sentimento dos amigos’— em suas palavras à Mu, durante o almoço.

‘Pergunte à ele. Não é como se ele fosse se ofender. É o Mask, Dite.’, ouvira o ariano aconselhá-lo solícito; e precisava concordar com tudo. O que queria era a certeza de que o italiano estava portando-se de maneira incomum. Normalmente, Máscara era fácil de ler, não havia entre linhas, não ficava a conter-se com o pisciano. Então, o que era o comportamento controlado, como se escolhesse as palavras, que havia observado nos últimos dias? Infelizmente, não pôde expressar, efetivamente, toda sua preocupação e não recebera a afirmação que buscava.

Para seu alívio, entretanto, o tempo que passara com Mu, ajudou-o a esquecer-se do lhe inquietava até o fim do dia. A vida do ariano era deveras interessante, quando havia um elemento extremamente rabugento por perto, somando ao fator Shion. Afrodite afirmava ganhar alguns anos de vida a cada situação em que o loiro precisava conter a personalidade orgulhosa. Aparentemente, a sensação era compartilhada com mais outros dois amigos de Mu; os quais o sueco fizera questão de ver fotos.

‘Milo? Não conheço. Mas Aiolia…’, as feições do segundo lhe lembravam alguém, mas não conseguia recordar-se com exatidão. Não quando Mu escolhera uma foto em que Aiolia vestia uma fantasia barata de leão, somente a juba e as patas, que estavam nas mãos visíveis; ao lado de um Milo com o que parecia ser uma fantasia de escorpião. Desconfiava que o ariano estivesse a deliciar-se com a exposição dos amigos, embora mantivesse a típica expressão serena.

Mu acabou por receber uma ligação, interrompendo o agradável horário de almoço, e impedindo que perguntasse quem era Aiolia – uma vez que precisara também voltar ao trabalho. A sensação de conhecê-lo não o abandonou, porém. Nem sua curiosidade.

“É o irmão do Aiolos!” , exclamou, colocando o copo de vidro com certa força na pia. Finalmente tinha a resposta para aquela estranha sensação de familiaridade com o amigo de Mu.

Máscara, por outro lado, não ficara satisfeito com o grito que ouvira; estava lavando a louça do jantar e, por um momento, deixara o prato, que enxaguava, cair. Felizmente não havia quebrado, mas o fato denunciava que não estava preparado para surpresas.

“Caralho, Afrodite, você ficou louco?”, já não lhe agradava ter de realizar o serviço doméstico, quanto mais sustos no processo. Olhou ao redor, procurando algo que indicasse que uma terceira pessoa tivesse aparecido. “Pare de rir, desgraça.”

Contudo, o sueco não disfarçava como a reação o havia entretido. Não era comum Máscara assustar-se daquela maneira, por algo tão frívolo. E o canceriano ficar nervoso com sua risada o fazia rir ainda mais; era nítido a indignação na face, que logo tornara-se irritação.

“Mu mostrou-me uns amigos dele hoje, fofocas. Um deles era Aiolia, o irmão do Aiolos.”, respirou fundo, satisfeito por rir, sentia-se revigorado.

“Irmão do Aiolos? Ah! O irmão do Aiolos… Se chama Aiolia, é? Que padrão estranho.”, deixando o último utensílio no escorredor, acariciou o próprio queixo, refletindo sobre a nova informação. “Mas por que o grito?”

“Porque eu demorei até agora para perceber de quem era aquele rosto familiar.”, aproximou-se do italiano, empurrando-o levemente, lavando o copo que utilizara.

“E eles se parecem? Bom, com esses nomes...”

“Hm, o que tem a dizer sobre nomes, Luca?”

A provocação rendera alguns xingamentos, além de uma pequena discussão sobre nomes incomuns. Claro que isso o incluía nos tópicos, além de todos seus amigos – por algum motivo, todos eles dividiam da inusitada sorte. E, no caso do italiano, um apelido incomum.

Recordava-se de quando Máscara sofrera um acidente com o carro de Kanon. O grego, ao receber a ligação da polícia, informando o ocorrido, negara conhecer algum Luca Rizzi, por só chamá-lo pelo apelido; fazendo com que Máscara fosse tratado como ladrão de carros. Ao mencionar a lembrança, após um severo debate sobre o apelido do canceriano, contemplou o envolvido levar uma mão à testa.

“Aquele idiota! Eu só não fui preso porque fui levado ao hospital primeiro.”, nas palavras de Máscara, Kanon pensara que o amigo havia sido assaltado, na fuga com o carro, o criminoso havia se envolvido no acidente.

Isso na primeira vez que o geminiano se explicara. Na segunda, alegou que esquecera-se de ter emprestado o automóvel. Na terceira, indagou se realmente aquilo aconteceu; fazendo com Máscara garantisse que poderia reconstruir a cena, com Kanon no passageiro. Na quarta, perguntou novamente quem era Luca Rizzi. A partir de então, desistiram de obter qualquer sensatez sobre o acidente por parte do grego.

“Lembro que Saga precisou se passar por Kanon para resolver.”

“Sim. Porque ele tinha comido bolo espacial e Saga não queria correr o risco.”, Máscara fechou os olhos, a lembrança o deixava atordoado. Havia fingido dores que não existiam para ser levado ao hospital e alguém esclarecer tudo a tempo.

Apesar do transtorno, ambos nitidamente divertiam-se com as recordações; após o problema ser resolvido, a história soava mais divertida.

“Vejo que está bem.”, a súbita troca de assunto fez com que Máscara fizesse um questionamento mudo sobre o que falava. “Esses dias você tem estado estranho, estava pensando se era porque sofre pela Helena.”

Havia estado tão focado em descobrir quem era Aiolia que negligenciara o amigo. O breve momento de silêncio lhe pareceu propício à trazer o assunto entre eles, após ver o italiano retornar ao modo usual pelos minutos que conversaram.

Por motivos desconhecidos, o assunto Helena era, para ele mesmo, incômodo. Diferente de qualquer namorado de seus amigos, Afrodite nunca havia se aproximado muito da moça; e não era por ser um relacionamento hétero, apenas sentia falta de interesse em conhecê-la melhor. A tratava bem, tinha sido alguém com que Máscara viveram por um longo período; mas, se fosse sincero, não gostaria de saber detalhes do relacionamento.

Talvez por este detalhe não houvesse, até então, conversado melhor com o amigo. Não indagara muito a respeito quando recebeu a ligação pedindo-lhe abrigo; não questionou sobre o que levara o rompimento; e acabou por postergar a descobrir se aquilo deixava o italiano triste.

“Mask?”, mas a falta de resposta o deixara curioso.

Percebera que o italiano virou o rosto para as louças a secarem, decidindo, assim, por tocar no ombro desnudo a fim de demonstrar apoio – aproximando-se mais um pouco.

“Mask, você está bem? Lamento que…”, ouviu uma risada forçada, antes de vê-lo voltar o rosto a si, coçando a nuca.

Próximos.

Próximos demais.

Sentiu os lábios unidos, seu próprio coração acelerando, repentinamente, pelo inesperado acontecimento.

Mentiria, se dissesse que era a primeira vez que aquilo ocorria com algum amigo, beijos acidentais tendiam a serem comuns, na verdade. E, além disso, os lábios somente se tocaram, não poderia considerar propriamente um beijo. Ainda assim, Máscara afastara-se um tanto constrangido, o que era inusitado, desculpando-se em um sussurro quase inaudível.

“N-não tenho sofrido por ela, Afrodite. Que ideia.”, fechou o punho, levando-o à boca, limpando a garganta. “Foi só o estresse em fazer mudança, é um saco.”

Ponderou se deveria comentar sobre o acidente entre eles; mas eram adultos, não teria causado tanto tormento. Certo?

“Aliás, eu falei com Shura.”, Máscara continuou, empenhado a não ouvir respostas, desviando o olhar regularmente. “Ele concordou com você, disse que preciso planejar melhor a vida, o futuro, essas coisas que ele têm feito desde os dezessete. Eu acabei indo atrás do imóvel hoje, levei Kanon comigo, você sabe como ele consegue manipular as pessoas. Aí...”

“Mask.”, era impossível ignorar a voz firme, sabia. Conseguiu toda atenção para si, com orgulho.

Então, não sabia o que dizer.

Cliché, no mínimo, sentir os segundos mais lentos do que deveria, enquanto observava e era observado; ambos aguardando pelo motivo de ter se pronunciado com determinação.

“Eu…” por que os papéis haviam se invertido? “Que bom que decidiu em seguir meu conselho.”

Desconsertado, Máscara agradeceu, contribuindo para o estranho clima que formava-se entre eles; apressando-se a dizer que precisava dormir, por ter conseguido algum trabalho para o dia seguinte. Assim que passou pelo pisciano, porém, parou novamente, incerto se deveria continuar a falar.

“Afrodite, você…”, mais uma vez coçou a nuca, inquieto. Então, mudando o tom de voz, afagou a cabeça do sueco, de maneira muito mais carinhosa do que já havia em algum momento feito. “Tenha uma boa noite.”

Confuso.

E, então, Afrodite lembrou-se de quando algo semelhante ocorrera quando Máscara o levara até em casa – uma estranha sensação apossando-se de seu corpo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.