Indolor
4 To: Sweetheart
Notas iniciais
06.2016
Enganar verbo
1. fazer acreditar ou acreditar em algo que é falso, errado; induzir em erro; esconder a verdade de (alguém ou de si mesmo); burlar, lograr, mentir.
2. causar ou ter impressão sensorial, percepção, julgamento, avaliação etc. que não corresponde à realidade; iludir(-se).
3. causar erro de percepção ou de julgamento a.
4. dissimular, disfarçar (sentimentos etc.).
5. errar involuntariamente; equivocar-se.
6. atrair com falsas promessas a atenção ou a confiança de; seduzir.
To: Sweetheart
Querido Sweetheart,
essa não é uma carta para lhe dizer o quanto você foi cruel, ou o quanto guardo rancor, ou te pedir que não vá embora – porque você não fez nada disso, e quem foi embora fui eu. Essa é uma carta para te pedir desculpas.
Te pedir desculpas, porque eu tenho um vidrinho particular de bondade e carisma que é frequentemente confundido com amor romântico, afeto, e nem sempre é mesmo o que eu sinto. Te pedir desculpas porque eu sou horrível e sou confusa, e sou horrivelmente confusa. Te pedir desculpas por ser uma enganação e ter te iludido e qualquer sinônimo outro que encontrar para o que eu fiz.
A esse momento você já deve saber que Incolor – eu – é complicada, e que amou muito mais do que foi amada, então quando você disse que a amava… Bom, ela não soube lidar com algo tão grande, que nunca recebeu em tal quantidade.
O seu problema foi me amar de mais.
Com o tempo descobri que em relações modernas entre adolescentes de colégio que ainda não conhecem muito da vida e nem do mundo, infelizmente sempre tem alguém que ama mais, e alguém que ama menos, ou que nem mesmo ama, mas está procurando suprir a carência de algum sentimento – sorte daqueles que encontram o equilíbrio e não se separam após o ensino médio, o inferno que nos corrompe e nos faz sofrer. Eu geralmente sou aquela que ama mais e se empolga facilmente, e foi apavorante a ideia de ser assim tão amada por alguém. Psicólogos e psicanalistas provavelmente me explicarão um dia.
Eu agradeço pelo seu amor, e agradeço de verdade, porque poxa, você foi tão bom comigo… E eu fui exatamente o oposto. Meu vidrinho particular de bondade e carisma se quebrou no momento em que você foi tão pretensioso ao se declarar, duas semanas depois de me conhecer. Eu não teria acreditado em palavras tão vazias, mas lembrei que amei o garoto do caixa da sorveteria no mesmo momento em que o vi e ouvi seu "bom dia", e seria hipocrisia não compreender o seu amor.
Te amei por alguns segundos antes daquela semana também. E sei que teria te amado muito mais se você não tivesse me amado também, e é cruel escrever isso e sei que deve ser mais cruel ainda ler. Eu mesma não estou pronta para encarar o fato de que mesmo possuindo sensibilidade e intensidade, não sou diferente dos de mais, nem estou imune a magoar alguém.
E é quase que mais cruel ainda dizer que você foi indolor, porque você realmente foi, e aposto que não queria ter sido. Eu também não queria que tivesse sido, por mais que isso soe muito masoquista, eu preferia ter te poupado do que aconteceu e ter te poupado do que você sentiu. Preferia ser eu o indolor. Incolor indolor.
Seus olhos azuis cheios de enigmas aquarianos que nunca descobri me mostraram também a sua sinceridade, e aquilo foi o pior, porque me quebrou e me levou a fazer algo que eu nunca quis: ser uma fraude, te enganar.
O meu problema além de não te amar foi ter te enganado, te iludido. E o seu problema além de me amar de mais, foi ter me beijado e esperado que aquilo significasse muito mais do que apenas um beijo. Eu sinto muito que para você tenha significado, eu queria que para mim também tivesse significado – mas eu não esperava. Não esperava pelo beijo e tampouco pelo seu amor.
Entenda que foram um mês e cinco dias muito especiais. Foi uma experiência nova, e eu realmente desenvolvi certa afeição por você – mas não era o bastante. Não era amor e nem chegava perto do que eu sabia que você sentia.
E eu tentei de diversas formas fugir, como o caranguejo fujão que sou, que não pode avistar uma ameaça que corre para casa. Você foi uma ameaça por eu não ter te amado, e foi uma ameaça por ter me amado de mais. E saiba que eu teria conseguido fugir se você não amasse até mesmo os meus mais graves defeitos, e torno a te dizer que isso foi um erro. Um erro bonito, mas um erro. Em você, percebi como eu não deveria aceitar várias atitudes por parte das pessoas que eu gostava. E você não deveria aceitar várias atitudes da minha parte.
Admiro sua forma tão intensa de amar, e admiro você não gostar de azeitonas, porque eu gosto de azeitonas e você sabe bem onde essa teoria daria se eu te amasse. Mas eu não te amei, e por isso a teoria da azeitona não foi o bastante para nós dois.
Não se apegue tanto a ideia de eu não ter te amado – você sabe que foi incrível, você sabe que eu adorei te conhecer melhor, sair com você e passar esse tempo, mas também sabe que há uma diferença muito grande entre amar alguém romanticamente e querer apenas a sua presença por ali.
Acho que um dos maiores problemas também estava atrelado ao fato de que, nesse ano, eu estava descobrindo que não gostava de garotos... Mas isso eu ainda preciso de um tempo para entender.
Com toda a minha adoração e carisma,
Incolor, que não conseguiu ser indolor.
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