Independência Ou Morte!
3 20 de Abril de 1834
Notas iniciais
20 de Abril de 1834
Meu pai disse que vai providenciar outra casa. Então acontecerá de novo, nós nos mudamos para um lugar onde não conhecemos ninguém, e fingimos ser a família mais normal do mundo. Eu já cansei de disso, se mudar constantemente sem receber uma explicação; talvez eu tenha até ficado revoltado. Essa casa — feita de madeira e com cortinas cor de damasco — não me traz a felicidade divina.
"Confie em mim. Você será feliz aqui."
Acredito ter ouvido isso para todas as mudanças repentinas. Essa certeza engazupa para mim. Eu tenho sido forçado a amadurecer rápido. Á aguentar esquecer tudo e todos que eu conhecia, sempre. E eu agora questiono-me por quê não podemos ter paz. Eu estou fraquejando e não sei mais se vou aguentar.
Não. Numa batalha sempre se deve haver força quando se porta uma espada, para aguentar seu peso e não soltá-la facilmente — era isso que ele sempre dizia quando por ventura eu ou meu irmão soltássemos a espada no meio de um confronto.
Hoje o amigo do meu pai o visitou — e os dois pareceram estar muito preocupados com algo. A arrogância daquele homem não me deu oportunidades de descobrir do que falavam. Só sei que tinham a ver com a mudança. Sempre essa tal mudança. Não me lembro de algum dia ter sossego, mas sei que se tive, aproveitei-o. Ele veio e foi rápido, apenas entregou e falou algumas coisas. Antes de partir, ele ainda pronunciou algumas palavras na porta:
–Nada é verdade, tudo é permitido — Pelo que entendi.
Refleti o resto do dia sobre esta frase. Não havia entendido o que queria entender, mas tentei compreender ao máximo. Teria algo relacionado com aquela tal Ordem que eu havia visto há alguns dias atrás?
Tudo estava muito estranho — e permanece. Ante-ontem, um nós tomávamos bebidas alegres em uma doceria diversa, ontem fomos atacados e hoje — o que acontecerá hoje?
Parei de pensar rapidamente quando minha mãe entrou violentamente em meu quarto, carregando uma carta — um convite. Seu sorriso era algo que logo presumi, nós fomos convidados para uma festa. Quem nos convidaria para uma festa? Tentei ler da minha escrivaninha as marcas vermelhas na carta. Silveira. Antônio Silveira — O pai da menina que eu salvei. Me perguntei como diabos ele descobriu quem era minha família. Ele deve ser um homem bem influente, não? Me levantei da cama, ajeitando a camisa rapidamente.
–Miguel, nós fomos convidados — Acho que ler as pessoas pelas suas caras é um dom.
–Quem nos convidou?
–Um Antônio Silveira. Ele disse que é um amigo seu.
–Amigo? — Amigo? Como?
–Correto. Agora vá se arrumar, pois a festa começa as seis horas.
Ela retirou-se do quarto, fechando a porta.
II
Eu estava vestido com meu terno favorito, uma gravata e um sapato combinando — ambos pretos. Vasculhei a festa rapidamente, encontrando alguns rostos conhecidos. Nada como a Senhora Sampaio e o Senhor Santana. Os dois — por mais disfarçados que tentavam parecer — tinham um caso. Não me intrometo, mas enquanto eu jogava xadrez com o Francisco, eu vi os dois juntos. Deus. Vi Antônio e Meu pai se apresentando um ao outro, e continuando a vasculhar a festa, encontrei ela — Cristina — perto da mesa de merendas. Alguns violinos soavam pelo ar. Quando me dei por mim, todos já estavam distante — meu pai conversando e soltando boas risadas com Antônio, Minha mãe, conversando com algumas mães, Maria tentando se entender com algumas meninas de sua idade e Francisco, o garanhão, se posso assim dizer, flertando com algumas garotas.
Então, como estava sozinho, me aproximei dela. Os sapatos caros de couro quase escorregando pelo piso branco e reluzente, até que cheguei perto dela. Ela usava um vestido verde, com a saia branca. Seus cabelos — presos, porém cheirosos como se estivessem livres — me atraíram, e seus olhos azuis, me fascinaram — Creio que, por mais que eu negasse, eu estava apaixonado, simplesmente.
–Não acreditei quando meu pai disse que ia te convidar — Iniciou a conversa.
–Nem eu. Eu achei que ele não iria querer um garoto que ele nem conhece em sua casa.
–Pois bem, o garoto que ele nem conhece deslocou o braço para me salvar.
–Dá próxima eu o quebro. — Nós rimos juntos, encarando-nos logo em seguida.
Ela me olhou por um tempo, o suficiente para que eu pudesse entrar em sua mente — se ela fosse uma pessoa normal. Eu nunca vi alguém impedir-me de conseguir as informações que eu queria através de uma expressão de olhos ou rosto. Mas ela simplesmente me bloqueou, impediu-me de entrar em sua mente como se eu fosse Xerxes e ela fosse Leônidas. Ela aparou meu golpe fatal. E eu gosto de pessoas que resistem a ataques que não teriam escapatória. Cristina, por mais que eu negasse, era uma dessas. Me vi aproximando-me dela, como se eu fosse beijá-la. Então vi meu pai, me chamando na entrada. Eu me senti um babaca quando eu simplesmente disse um tchau e fui embora. Porém, eu irei me recordar desse dia: O dia que alguém bloqueou minha leitura de seus sentimentos.
Ao chegar em casa, meu pai pareceu nervoso. Estava de noite, umas sete horas — Nós não ficamos lá muito mais que uma hora. Ele nos mandou ir para nossos quartos e correu para seu escritório, pensando em algo que eu não decifrei — não queria, deixei minha mente se ocupar apenas pela encantadora Cristina Silveira.
–Você quase a beijou. — Ouvi a voz de Francisco do lado da minha cama — Mas não foi dessa vez.
–E você beijou alguma? — Perguntei, meio nervoso.
–Não.
–O.k., senhor pegador. Me acorde quando o senhor tiver bons motivos. — Eu refleti muitas coisas em um segundo, antes de Francisco saiu do quarto — Francisco — Ele me olhou — Alguém além de você notou?
–Não. Sua sorte. — Ele foi saindo do quarto, e eu me deitei novamente — Mas você me deve mais alguns favores — E saiu.
Sacana, pensei.
Minha mente não quer pensar em outra coisa, a não ser nisso. Cristina Silveira. A menina que me bloqueou de ler as expressões de uma pessoa — algo que eu já tinha feito com todos que eu via.
Oh, Deus...
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