Notas iniciais
Samuel 22:5 The waves of death engulfed me; the currents of chaos overwhelmed me. Capa: Pixiv id = 5312816

Quando Zoro começou a se mover, mesmo sem dar uma resposta, Sanji conseguiu entender que ele havia aceitado a ideia. O moreno se sentou com as costas escoradas na cabeceira da cama, aguardando. Com uma energia que Zoro não fazia ideia de onde havia tirado, o loiro montou em seu colo, provocando um pouco sentado em sua ereção, até finalmente conduzi-la àquele buraquinho tão familiar e em poucos segundos o pau grosso já deslizava entrando fundo em seu cuzinho. Era muito mais quente e macio do que Zoro se lembrava, parecia que se derreteria ali dentro a qualquer momento. E estava tão melado que talvez agora entendesse de onde Sanji havia tirado lubrificação para fodê-lo.

Sanji choramingou e se agarrou nos ombros do maior, abraçando-o com força e apertando os dedos finos em sua pele, chegando a arranhar em desespero. Era grande e parecia que iria arrombá-lo. Seu corpo parecia querer expulsá-lo de tão apertado e molhado que estava, mas ele se contraía forçando o pau a manter-se dentro.

Zoro estava morrendo com o quão lento estavam se movendo. Sanji estava praticamente parado em seu colo, rebolando apenas lentamente, claramente ainda bastante exausto, e ele se limitava a levantá-lo com certa delicadeza. Era um tanto desesperador precisar de mais de muito mais, mais contato, mais velocidade, mais força e se manter num ritmo tão suave, mas ele não queria forçar aquele corpo acima de si mais do que isso. Já nem queria que tivesse que se movimentar tão cansado, mas Sanji foi quem ofereceu e ele fora muito fraco para negar.

Dentro estava tão molhado que sabia que se estivessem fodendo um pouco mais rápido seu pau escaparia facilmente, mas tudo era tão lento, ele segurava Sanji e o conduzia tão calmamente, penetrando-o sem pressa, que jamais poderia escapar.

O loiro mordeu o próprio lábio inferior ao sentir a mão grande segurando em sua bunda e começando a movê-lo lentamente, era delicioso e ele queria chorar de prazer. Porra, tão bom. A cada movimento ele gemia baixinho no ouvido do moreno, talvez até de uma forma meio provocante. Não tinha como ser melhor. Por que não tentou fazer aquilo antes?

— Zoro... Tão bom... — Ele disse manhoso dando um beijo na orelha e sua língua pervertida tomou o lugar dos lábios logo em seguida e começou a passear pela cartilagem, até esbarrar com os brincos e passar a brincar com eles, ouvindo o agradável tilintar.

Zoro sentiu cada pelo do lado esquerdo do seu corpo se arrepiar ao escutar as palavras ditas direto em sua pele, seladas com um beijo, como uma prece. Sanji continuava a percorrer sua orelha com a boca, descendo e beijando de língua todo milímetro de pele que podia encontrar. Os movimentos molhados deixavam um rastro quente e melado e ele estava quase salivando no ombro do loiro de imaginá-los em sua própria boca. Zoro não tinha escolha a não ser agarrar o rosto dele pelo queixo e tomar a boca para si, gemendo ao entrar em contato com a língua que se movimentava avidamente, ao contrário do corpo quase morto acima de si. Sanji sempre o beijava com aquela intensidade, nunca recebera um só beijo dele que não tivesse sido melhor que o último.

Com o tempo, Sanji pareceu recuperar um mínimo de força, pois já se movimentava sem que Zoro precisasse erguê-lo. Ele acabou descobrindo isso porque soltou sem querer a bunda do menor para passear as mãos pelas suas costas. Apertava o corpo de Sanji contra o seu num abraço forte, como se o outro estivesse prestes a desaparecer entre seus dedos a qualquer segundo, o que não parecia que aconteceria num futuro próximo já que o loiro estava ocupado demais em devorar sua boca e oferecer a ele todo o prazer possível, acariciando e mordendo seus lábios diversas vezes seguidas até que estivessem inchados e doloridos.

Aquele ritmo era desesperador, Sanji nunca havia experimentado algo tão lento, tão calmo, e estava se arrependendo amargamente por nunca ter tentado. Durante toda sua existência achou que só conseguiria satisfazer suas presas quicando com força, não muito diferente de uma prostituta. Ledo engano. Rebolar calmamente no colo de Zoro era a coisa mais perfeita que já teve o prazer de experimentar. Beijá-lo enquanto estava praticamente paradinho no pau dele estava sendo incrível, o gosto do moreno era diferente de tudo e o que Sanji mais amava. Jamais recusaria um beijo àquele homem, especialmente porque ele era sua perdição, assim como o loiro era seu maior pecado.

Mesmo recuperando parte de suas forças, de forma alguma Sanji começou a se mover mais intensamente, apenas continuou rebolando devagar, quase parando, vagarosamente, parecendo até que queria torturar o moreno. Sentia a rola pulsando em seu interior e era maravilhoso, Zoro o desejava tanto e ele amava ser desejado. As mãos do moreno estavam em suas costas, abraçando-o de forma estranhamente terna e forte, como se não quisesse que ele fosse embora nunca. Sanji sorriu de leve, pensando que ir embora não estava em seus planos mesmo. Ficar com Zoro era tão bom, parecia que a seu lado ficava completo. Era um pensamento tolo, mas talvez, só talvez, Zoro era a pessoa certa para ele. Céus, que ideia idiota... Mas... Por que não?

Os dedos finos apertaram os músculos das costas largas, deixando marcas profundas no corpo moreno. Sanji desejou marcá-lo para sempre, mostrando para qualquer outro que Zoro era seu e não deixaria que ninguém mais tocasse aquele homem. Não entendia o que eram todos aqueles pensamentos estranhos que estavam surgindo em sua mente ultimamente, mas não estava se desagradando com eles.

Zoro não podia deixar de pensar no quão diferente aquela vez era de seu primeiro encontro com Sanji. Ele mal encostara nele, como se encostar fosse macular e queimar sua pele, como se ele representasse apenas um pecado sujo e todas as suas fraquezas. Agora, ele parecia que nunca estava encostando o suficiente no loiro, suas mãos tateavam as costas e sua boca não parava de beijar a pele alva. Talvez tivesse apenas perdido a cabeça, mas parecia tão certo que ele não conseguia mais pensar que estava fazendo algo que não deveria. Até o próprio Sanji parecia diferente de alguma forma.

— É perfeito assim... Com você… — Sanji gemeu manhoso, interrompendo o beijo quando não conseguiu mais mantê-lo. Quando percebeu o absurdo que havia dito, escondeu o rosto na curva do pescoço alheio e o abraçou tão forte que nunca na vida do moreno ele conseguiria afastá-lo para olhar seu rosto corado. — Ahn... Zoro...

Aquilo só reforçava o pensamento de Zoro, de que Sanji estava dizendo coisas menos pervertidas do que o normal, muito menos focadas no quanto estava levando-o à perdição e muito mais em como estava se sentindo bem com ele. Zoro sentia um pouco de vergonha, não sabia se gostava inteiramente dessa mudança, apesar de gostar de vê-lo sentir prazer por sua causa.

— Calado... — Ele falou sem a menor firmeza, incapaz de transmitir com convicção que não queria ouvir aquilo saindo de forma tão manhosa dos lábios do loiro.

Infelizmente, o loiro realmente se calou depois daquilo, talvez por se dar conta exatamente do que havia falado, e tudo que Zoro conseguia ouvir eram seus gemidos contra sua pele. Eles pareciam mais contidos do que antes, mas ainda soavam lindos tão próximos de seu ouvido, ainda faziam seu pau pulsar cada vez mais desesperado enquanto fodia lentamente a bundinha do loiro.

Para Sanji, os movimentos lentos eram vergonhosamente perfeitos. As reboladas que dava com seu quadril faziam com que se sentisse desesperado e com muito tesão, apenas não estava duro outra vez por estar mais exausto que nunca, mas se Zoro continuasse maravilhoso daquele jeito teria outra ereção e teriam que continuar transando, algo que não aguentaria. Ainda não conseguia entender por que estava tão fraco naquele dia, o que havia acontecido para não aguentar nem duas rodadas?

Zoro queria muito gozar, mas parecia que o alívio nunca viria naquela velocidade e naquele ritmo. Sanji ainda se movia de forma exausta, claramente usando suas últimas energias naquela tarefa, e Zoro se controlava tanto quanto podia. Era como uma deliciosa tortura, uma massagem dolorosamente vagarosa em sua ereção necessitada. Então tudo o que restava a fazer era se manter entorpecido naquele calor, se movimentando com cuidado contra o outro enquanto o abraçava com firmeza e uma ternura que suas mãos brutas jamais possuíram. Assim, sem pressa alguma, sem aumentar o ritmo das estocadas nem um pouco, ele gozou mais intensamente do que alguma vez já o fizera dentro do corpo menor, gemendo mais entregue do que se dava conta no ouvido de Sanji.

Para a surpresa do loiro, quando sua ereção estava começando a crescer de novo, Zoro havia gozado deliciosamente em seu interior, fazendo Sanji se agarrar ainda mais no corpo grande. Os gemidos do homem no meio do orgasmo o deixou em transe. Era lindo. O sêmen o preenchendo fazia Sanji arfar de prazer, pensando em como aquela posição era a melhor que existia, no quanto estar com Zoro era perfeito e ele não queria nunca mais sair de seu lado. Seu interior estava melado, quente e cheio, sentia a rola pulsando enquanto se contraía e um segundo que se levantou levemente sentiu deslizar imediatamente para fora e envergonhado Sanji se agarrou mais forte nos ombros do moreno, enfiando ainda mais o rosto em seu pescoço. Talvez ele tenha gemido baixinho e manhoso no ouvido dele quando escorregou, mas nem havia percebido.

Mesmo com o calor aconchegante do interior de Sanji tendo sumido, Zoro ainda preferia continuar daquele jeito para sempre. Confortavelmente abraçado por Sanji que tremia levemente pelo esforço acima de si. Mas, talvez não estivessem tão confortáveis assim. Tinha quase certeza que havia perdido a sensibilidade da perna na qual Sanji mais havia se apoiado, ambos estavam suados e melados com os corpos grudando um no outro e sentia o líquido quente escorrendo do corpo do loiro até o seu. Sabia que a posição também não poderia ser nada confortável para Sanji se ele simplesmente adormecesse o prendendo em seu colo.

Tentou desgrudar a cabeça loira que estava afundada em seu pescoço como se não quisesse mais sair. Olhando o rosto corado do outro, o beijou brevemente nos lábios antes de retirá-lo por completo de cima de si, depositando Sanji na cama delicadamente e ficando de frente para ele.

Sanji não queria se afastar nunca mais. Pensar em largar aquele homem e perdê-lo era algo que o deixava louco. Zoro estava sendo tão perfeito com ele, mesmo sendo apenas um demônio sujo e sem valor, parecia até que o moreno se importava. Então, quando fora tirado do colo alheio, imediatamente se agarrou no maior outra vez.

Ainda estavam tão próximos que as respirações se misturavam, fazendo Zoro ainda se embriagar no cheiro do outro. A mão morena de Zoro mexia instintivamente nos fios dourados ainda um pouco molhados. Suavemente tirava cada um do rosto suado e deixava à mostra o rosto inteiro de Sanji.

— Seu cabelo fica mais escuro quando está molhado. — Disse sem perceber, ainda entretido em acariciar o cabelo de Sanji. — Hm… Sono...

Ele murmurou embora estivesse totalmente aparente pelo seu estado de pós-orgasmo. Suas feições desprovidas de qualquer traço da habitual irritabilidade, o rosto completamente relaxado e satisfeito. Sentia-se extremamente cansado, tão morto quanto o loiro aparentava estar antes. Mesmo ele que se orgulhava da quantidade de repetições que conseguia realizar e tinha considerável estamina sentia como se todas as forças tivessem deixado seu corpo, a única coisa que se movia era a mão emaranhada no cabelo áureo.

Sanji sentia aquele carinho estranho em seu cabelo e por mais esquisito que fosse aquele contato o agradou, fazendo-o sorrir de forma angelical. Aquela situação era estranha e nova para o loiro, ser tratado com carinho e respeito era novidade, mas, ver Zoro agindo de forma manhosa era ainda mais estranho e ele percebeu gostar de ver o humano assim.

Ele fechou os olhos quando Zoro voltou a tocar seu rosto e aquele sorriso bobo ainda estava em seus lábios. Se assemelhava a um pequeno gatinho mimado e manhoso que amava carinho. Descobriu que amava aqueles toques. Quando abriu os olhos de novo, viu a expressão tranquila e relaxada do moreno e seu coração pareceu dar uma falhada. Desde o primeiro dia admirou o corpo daquele homem, mas nunca chegou a dar importância para seu rosto. Agora percebia o enorme erro que cometeu. Zoro era lindo, cada detalhe daquele rosto o encantava, até mesmo o cabelo bizarramente verde. Pensar isso fez o loirinho rir baixo e ao ver a expressão confusa no rosto do outro, resolveu entregar o jogo.

— É seu cabelo... Me lembra algo... — Sanji disse sincero e estendeu a mão até a cabeleira verde, sentindo os fios praticamente secos, o que era impressionante se comparasse com o seu que ainda estava bem úmido.

Talvez em qualquer outro momento Zoro fosse apenas fingir que não sabia de nada que lembrasse seus cabelos. Mas, estava com a mente tão leve, os olhos ainda ocupados em percorrer o rosto ironicamente angelical de Sanji, que apenas deu a ele a resposta, ciente de que era um erro terrível.

— Tch. Marimo. — Zoro disse a contragosto, fechando os olhos enquanto o outro entrelaçava os dedos em seus fios esverdeados.

— Marimo... — Sanji falou baixinho, não como uma provocação e sim apenas constatando de que era exatamente aquilo que estava pensando. Há alguns anos havia se tornado moda criar essas plantas como bichinhos de estimação no Japão, ele se lembrava de ter dormido com uma pessoa que os colecionavam de forma bastante bizarra e exagerada.

A outra mão de Sanji estava ocupada percorrendo o tórax moreno, especificamente sua cicatriz, acompanhando toda a extensão do antigo corte com a ponta do dedo. Não era desagradável, mas Zoro era um pouco sensível ali por causa do tecido cicatrizado, principalmente porque fora costurado de forma não muito habilidosa. Era um tanto estranho e ele pensou em afastar a mão de Sanji, mas achou que tudo bem aguentar um pouco de estranheza em troca da continuidade daqueles toques. Sanji provavelmente iria desaparecer daqui a pouco e ele queria aproveitar cada segundo.

O corpo moreno reagia a seus toques e era agradável de ver, estava com uma pequena fixação nas cicatrizes do outro, em especial daquela gigantesca que percorria todo seu peito. Zoro provavelmente teve uma vida difícil. Seus olhos iam do peitoral para o rosto que parecia perder vida a cada segundo, a expressão se tornava ainda mais tranquila e as palavras dele o surpreenderam.

— Kokku… Volta... — Zoro disse quase dormindo, sua voz apenas um suspiro sonolento. Sabia que sua consciência estava se esvaindo e nem ao menos pôde abrir os olhos para dar uma última olhada nas feições do outro. Só teve tempo de expressar seu último desejo antes de cair completamente no sono, embalado pelos carinhos em seus cabelos e na sua cicatriz.

Era um pedido, Sanji sabia bem e era a primeira vez que alguém pedia para que ele voltasse outra vez. Não sabia o que estava acontecendo, mas seu corpo sensível igual ao de um humano estava produzindo lágrimas em seus olhos e ele agradeceu o moreno estar com os olhos fechados para não poder ver o que acontecia. Junto com as lágrimas patéticas que Sanji nem sabia o que eram ou significavam, havia um sorriso idiota e apaixonado nos lábios finos. Sim, ele com certeza voltaria muitas outras vezes, para sempre se pudesse, queria nunca mais ter que ir embora...

Pouco depois, ele percebeu que Zoro estava dormindo e resolveu apagar a luz com apenas o desejo de sua mente. Mesmo no escuro ele conseguia enxergar o outro e continuou acariciando-o. Não se deu conta quando adormeceu também. Era um demônio, não costumava dormir, mas conseguia.

Zoro acordou em seu horário habitual, como sempre fez em sua vida toda de padre. Era um baita preguiçoso e tirava quantos cochilos conseguia por dia, mas todas as manhãs se acordava sempre bem cedo e seu relógio biológico já estava bem acostumado com isso. O que ele não estava acostumado era acordar em companhia de alguém. Zoro abriu os olhos e deu de cara com um mar de fios dourados em cima de si, seus próprios braços envolvendo o corpo esguio que fazia dele um travesseiro.

Quis se bater pelo quão estupidamente feliz se sentiu com isso. Achava que teria que esperar dias intermináveis até vê-lo novamente, mas ele não havia ido a lugar algum. Zoro inconscientemente apertou um pouco mais o corpo de Sanji e fechou os olhos. Não dormiu novamente, embora com certeza tivesse sono o suficiente para tal. Ao invés disso ficou apenas apreciando aquele estado de preguiça matinal, os fios macios em seu peito, a respiração ritmada que fazia cócegas em sua pele morena.

Aquela foi a noite mais confortável para Sanji. Havia deitado a cabeça no peitoral do moreno e o abraçado, sentindo os braços o envolvendo no meio da noite e foi dessa forma terna que acordou no dia seguinte... Junto com o barulho insistente de um telefone tocando.

Sanji abriu os olhos e olhou para o moreno que por mais que estivesse acordado, parecia fingir estar dormindo. O loiro riu baixinho e se aconchegou nos braços do outro de forma manhosa. Zoro pareceu estranhar sua presença e na realidade ele também estava estranhando, não era suposto estar ali, deveria ter ido embora na noite anterior, mas adormeceu igual a um humano fraco que necessitava descansar para viver. Não que estivesse quebrando qualquer tipo de regra em dormir com um humano, na verdade, não é como se o inferno tivesse muitas regras.

Estava feliz e desejava ficar lá por mais tempo, quem sabe todos os dias acordar ao lado do moreno e poder beijá-lo logo cedo, fazer sexo matinal, preparar o café da manhã daquele homem a cada nova manhã. Aquela ideia parecia muito boa e Sanji desejou poder torná-la real. Com um sorriso bobo, ele deu um beijo carinhoso no peitoral de Zoro.

Infelizmente o maldito telefone acordou o loiro. Deveria ter tirado aquela coisa da tomada há muito tempo, como ameaçou várias vezes em fazer ao ter seu sono interrompido. Zoro achou que assim teria seu momento interrompido, mas Sanji apenas continuou deitado em seu peito.

No entanto, sua felicidade durou míseros segundos.

Padre? Estou desesperada, padre. Preciso muito me confessar. Ou pelo menos… Pelo menos sentir a presença de Deus. Quando o senhor colocou o aviso sobre a missa no domingo eu fiquei tão aliviada, mas o senhor nem apareceu na capela. Não sei mais o que fazer. Está tudo bem com o senhor? A vila toda está preocupada. Por favor me retorne.

A mensagem de voz ecoava pelo quarto. Merda, Zoro pensou. Não devia ter sido tão desleixado. Se ao menos não tivesse faltado no domingo… Embora soubesse bem que aquilo era fora de cogitação. Ou pelo menos marcado outra missa nos últimos três dias. Qualquer coisa. Zoro poderia admitir que jamais foi um sacerdote exemplar, mas nos últimos tempos ele estava se superando. Ele suspirou. Pelo menos estava certo quanto às suas reflexões recentes, aquela paróquia precisava urgente de outro padre. Quanto mais cedo escrevesse aquela carta ao bispo, melhor. Esticou o braço com certa dificuldade para não derrubar Sanji e apertou no botão para deletar a mensagem.

Sanji ouviu a mensagem e sentiu seu corpo gelar e a garganta ficar seca, todos seus planos para um futuro agradável ao lado do padre acabavam de ser arruinados e ele se deu conta da realidade. Zoro era um padre, tinha um dever com deus e não quebraria seus votos, apenas estava cedendo aos desejos carnais e sendo corrompido por um demônio patético e sem valor que não significava nada para ele. Sanji era só um depósito de porra e estava sendo usado para tal. Havia prometido que não revelaria os segredos do padre a ninguém e que ele poderia descontar toda a frustração sexual em seu corpo, era para isso que existia.

E a constatação do óbvio o fez acordar daquele sonho impossível. Zoro não abandonaria seus ideais para ficar com ele, Sanji sempre seria só o ser inferior que era usado para um alívio, nada mais. Não existia um lugar para o demônio ao lado do padre... Ou de qualquer outra pessoa. Não era sua culpa ser um demônio. Ele nunca desejou tanto ser um humano... Então, no mesmo instante, ele simplesmente sumiu da cama sem falar mais nada, decidido a nunca mais voltar naquele lugar.

Zoro sentiu o peso sumir de cima de seu corpo e de repente Sanji não estava mais lá. Ele franziu a testa e se perguntou se o loiro não planejava dormir ali e teve que voltar às pressas ou algo do tipo. Mas o fato era que o outro nunca havia ido embora sem sequer se despedir. Nem mesmo quando suas despedidas eram absolutamente enfuriantes. Talvez Zoro só estivesse sendo idiota. Afinal, ele achava que o outro iria embora no dia anterior, e acabaram ficando a noite inteira juntos. Claro, teve certa esperança de que também passassem a manhã e o resto do dia juntos se possível, mas estava querendo demais mesmo. Iria parar de ser tão pateticamente carente e aguardá-lo voltar, como sempre fazia.

Assim que Sanji chegou em seu lugar de origem, Kid estava lá e a expressão de Sanji não poderia ser mais óbvia. Ele facilmente notou que a brincadeira com o padre havia se tornado mais do que isso e que seu amigo acabava de levar um fora do pior tipo. Sabia que seria assim, humanos apenas os usavam para o prazer e quando se cansavam os jogavam fora e era exatamente por isso que não se envolvia. Jamais. Não deixaria que nenhum humano o usasse, era ele que os usava como bem entendia.

Sanji deitou a cabeça no ombro do outro demônio e desabou. Ele urrou de forma grotesca devido a sua forma real que era horrenda e nojenta, até sua voz era terrível, um completo monstro mesmo. E pensar que ele chegou a desejar manter a aparência que mais agradava o padre para todo o sempre, amava aquela aparência, sentia-se bem e parecia que aquela deveria ser sua aparência real, mas não era. Nunca seria. Era apenas um monstro assassino que deveria se aproveitar dos humanos, mas no fim era ele quem era o aproveitado. Queria morrer, queria ser um humano e também queria desaparecer. Seus sentimentos estavam confusos e ele nem sabia mais quem era, o que era.

— Eu nem me alimentei dele dessa vez... — Ele disse com um sorriso irônico nos lábios medonhos ao se dar conta de quão patético estava se comportando. — Eu sou mesmo um imbecil...

Talvez Kid não fosse a melhor pessoa para ouvir um desabafo, ele não era nada carinhoso e muito menos confortaria Sanji, mas apenas de deixá-lo apoiar a cabeça em seu ombro e sofrer escandalosamente, era o suficiente. Não queria deixar mais nenhum de seus irmãos o verem naquele estado desprezível. Era o culpado por se deixar levar, se importar e se apegar demais. Kid o avisou centenas de vezes que ele estava se envolvendo mais do que deveria e ele estava certo, Kid sempre estava. O demônio que um dia desejou ter aquele cabelo loiro para todo o sempre jurou nunca mais se envolver com alguém dessa forma.