Incubus Love

24 The root of all evil


Notas iniciais
Do not rejoice, all you Philistines, that the rod that struck you is broken; from the root of that snake will spring up a viper, its fruit will be a darting, venomous serpent. Isaiah 14:29 Capa: Pixiv id = 65319173 | 杀器

Sanji estava se sentindo estranho naquela manhã. Havia acordado sentindo seu corpo mais pesado, mas apenas achou que estava um tanto dolorido pelo esforço que fizera na incrível noite anterior. Zoro não dava descanso, era realmente um padre pervertido e ele não estava reclamando nadinha. No entanto, ao se levantar e ir preguiçosamente até a cozinha para preparar o café da manhã do humano, seus passos pareciam mais lentos, as pernas pesadas e até uma simples tarefa como abrir um pote estava sendo difícil, como se toda habilidade com as mãos que havia adquirido em meses de treinamento haviam sumido magicamente e isso era irritante.

Tudo teria seguido normal, se ele não tivesse quase queimado o café da manhã e se estressado com isso. Como se não fosse o suficiente, quando Zoro acordou, sequer foi até onde estava para beijá-lo, apenas se sentou preguiçosamente na mesa da cozinha e ficou com a cara de idiota o encarando fixamente, como se tivesse um bicho nas costas de Sanji. Às vezes aquele humano o deixava puto, e por às vezes queria dizer o tempo todo.

— Perdeu alguma coisa nas minhas costas, idiota? — Ele disse irritado sem nem se dar ao trabalho de se virar de frente para o outro.

— Não... É só que é estranho. — Zoro encarava fixamente o corpo de Sanji com a testa franzida.

— O que é estranho?

— Esse corpo. — Ele disse como se fosse óbvio, mas pela reação de Sanji aparentemente o ex-loiro nem havia notado ainda. Zoro ainda encarava, porque era esquisito saber que aquele definitivamente era Sanji, mas que estava num corpo que ele nunca viu antes.

Não que ele não soubesse que Sanji tinha aquele tipo de habilidade, mas meio que havia se acostumado a como ele se parecia quando estavam juntos, nunca nem passou pela sua mente pedir a ele que aparecesse com outra aparência. Às vezes Sanji mudava seu gênero, mas era praticamente a mesma coisa em termos de aparência geral. Aquilo era completamente diferente. Ele parecia saído diretamente do pôster de algum filme que Zoro nem se lembrava nem se importava, e Zoro tinha certeza que toda a população feminina daquela vila faria um escândalo apenas em vê-lo.

Para Zoro, era apenas estranho. Não desagradável nem nada do tipo, mas talvez já estivesse acostumado demais a Sanji. Acostumado o suficiente para aqueles cabelos escuros serem esquisitos no lugar do loiro, aquela estrutura corporal musculosa ser pouco interessante perto da fisionomia esbelta usual de Sanji, e aquelas sobrancelhas simétricas e certinhas serem tão erradas se lembrasse dos caracóis que costumavam ficar acima dos olhos do íncubo.

Talvez Sanji apenas estivesse lento naquele dia, porque mesmo com Zoro falando que era estranho o corpo, ele não conseguiu compreender que estava se referindo à sua pessoa. Mas o moreno não parou de encarar e pouco a pouco ele se deu conta de que o problema estava nele. E claro que iria surtar.

Possivelmente gritou ao ver o corpo tão diferente do que havia se acostumado refletido no espelho. Estava apavorado. Não sabia como aquilo havia acontecido, era muito esquisito uma aparência daquelas e sem dúvidas não agradava o moreno, prova disso era que ele estava encarando com aquela cara feia durante tanto tempo. Se odiava por estar com uma aparência diferente, Sanji não gostava daquela, de todos aqueles músculos horríveis, daquele cabelo curto. Se nem mesmo ele era capaz de gostar, sem dúvidas o moreno também não era.

Quando voltou para a cozinha, estava com a cabeça baixa e ficou em silêncio enquanto terminava de cozinhar. Aquela comida deveria estar com um gosto horrível por não ser as mãos delicadas e bem treinadas a cozinhar. Ele só se pronunciou minutos depois de um clima pesado.

— Devo ter adquirido a forma que algum vizinho deseja... — Foi a única coisa que saiu de sua boca, parecia muito um pedido de desculpas camuflado, não se sentia bem usando aquela camada de pele estranha.

— Oh... Não sabia que isso podia acontecer. — Zoro disse, os olhos se estreitando um pouco ao ouvir a explicação. — Até sua voz é diferente...

Não gostava muito da ideia que os desejos de outras pessoas pudessem interferir na forma de Sanji. O fazia lembrar da época em que o íncubo tomava a forma dos desejos de milhares de humanos, para satisfazê-los, para que usassem seu corpo. Ficou encarando aquela personificação do desejo de alguém com as sobrancelhas franzidas em irritação, pensando em sua mente que não queria que Sanji fosse usado por mais ninguém, nem com sua aparência de sempre nem com qualquer outra.

Nem mesmo se fosse essa aparência estranha que Sanji havia tomado naquele dia, mesmo com ela Zoro não gostava nem um pouco de pensar em outras mãos o tocando, porque ele ainda era Sanji. Talvez tenha o encarado feio por mais tempo que pretendia porque Sanji o tirou do seu transe.

— Não é do seu agrado, né? — Sanji sentou-se à mesa ao seu lado trazendo a comida e parecendo cabisbaixo.

— Não ligo muito, mas eu prefiro os caracóis. — Zoro disse, se aproximando de Sanji e fazendo espirais com os dedos onde suas sobrancelhas terminavam.

— Hnn... — Foi a única resposta do loiro. Não era novidade nenhuma que Zoro era atraído por sua aparência, afinal, era a idealização de perfeição que ele mais desejava, desde o começo Sanji sabia e mesmo que o padre insistisse na história de que não sabia de quem era aquela aparência, não conseguia acreditar. Os desejos das pessoas eram inconscientes, Zoro não saber quem era a pessoa que possuía sua aparência provava isso.

Porém, durante todo aquele tempo em que estiveram juntos, que estavam brincando de casados, ele se iludiu de que quem Zoro realmente desejava era ele e não seja lá quem fosse aquele humano. Sanji não costumava ser discreto, mas naquele momento ele conseguiu fingir que não se afetava por aquela realidade cruel. Ele beijou seu marido e usando o desejo dele, conseguiu retornar a costumeira aparência, por mais que seu cabelo ainda estivesse preto. Normalmente não se importava por seus poderes serem tão fracos, mas claramente dessa vez havia ficado irritado.

— Sobraram os cabelos... — Zoro disse num tom curioso, segurando as madeixas negras entre os dedos, achando interessante como os cabelos de Sanji eram quando estavam tão escuros assim, muito mais do que quando estavam molhados. — Parece que você pintou de preto, é engraçado.

Zoro continuou segurando os fios pretos em sua mão até que Sanji a tirou dos seus cabelos um tanto bruscamente, mesmo que Zoro não tenha se incomodado com isso ou percebido a frustração do ainda ex-loiro com aquilo.

— Eu já pensei em pintar os meus assim. Porque todo mundo ficava me enchendo por serem estranhos e ridículos e coisas do tipo. Ou achavam que eu pintava de verde e não era apropriado pra um padre. — Zoro disse enquanto enchia a boca de comida em várias garfadas, recebendo os costumeiros olhares de desaprovação de Sanji. — Mas decidi que era muito trabalho. Não me importo que não gostem.

— Eles estavam certos. — Sanji disse enquanto observava o padre com o canto dos olhos e suspirava pela falta de educação à mesa dele. — Seu cabelo é ridículo mesmo.

Alfinetou o moreno e recebeu um apertão em sua coxa que o fez gemer obsceno, atiçando ainda mais o outro. Não era mentira, afinal, onde já se viu uma pessoa com o cabelo horrivelmente verde? Era bizarro. Mas no fundo, bem no fundo mesmo, ele gostava.

Zoro havia saído para o culto e enquanto ele estava fora, Sanji havia ficado em casa arrumando algumas coisas. Era irritante como o marimo conseguia bagunçar tudo e tornar aquela casa uma completa desorganização. Mais irritante ainda era sua incrível habilidade de fazer isso, mesmo tendo pouquíssimas coisas em cada cômodo. Zoro não era muito consumista, mesmo depois do loiro começar a morar com ele e comprar coisas, o moreno continuava com poucas e ele que ousasse colocar um dedo nas coisas de Sanji.

Enquanto organizava o escritório, Sanji encontrou alguns papéis amassados jogados no chão e quando começou a jogá-los no lixo, viu que em cima da mesa havia uma folha com algo escrito com a caligrafia de Zoro e sua curiosidade falou mais alto, obrigando-o a ler.

Era endereçada ao bispo, e escrita de forma tão pobre que Sanji tinha sérias dúvidas sobre como Zoro conseguiu concluir o seminário. Mas a péssima gramática e caligrafia horrenda de Zoro não eram o foco ali, o que importava era o conteúdo da carta. Zoro explicava sucintamente que iria deixar o sacerdócio, que iria abandonar aquilo que fazia há quase vinte anos e mal oferecia uma justificativa em suas palavras simples ao bispo. Só dizia que havia encontrado alguém que valia a pena.

Ao terminar e ver a assinatura do moreno, imediatamente Sanji surtou e quando percebeu, estava no inferno.

Suas mãos tremiam e ele não sabia o que fazer, havia fugido outra vez, mesmo tendo prometido que nunca mais o faria. Era um covarde. Ao ver que Zoro queria abandonar tudo que havia conquistado durante tantos anos, por uma pessoa que não era o demônio, a única coisa que Sanji sentiu foi dor. Não era por ele, era por aquela aparência.

Ele só sentia que estava atrapalhando a vida de Zoro, como sempre. Exatamente como da última vez, tudo por uma ilusão. Por uma aparência que ele havia usurpado de alguém, por seus poderes que o permitiam ficar atraente para ele e cultivar sentimentos de mentira por aquele corpo.