Notas iniciais
Job 21:34 So how can you console me with your nonsense? Nothing is left of your answers but falsehood! Capa: Pixiv ID: 57629133 | MK

Zoro voltou da igreja e encontrou a casa vazia, o que não o preocupou muito. Sanji costumava fazer isso quando ele estava na igreja, ficava entediado por ficar sozinho em casa e saía, na maioria das vezes ia no mercado ou na feira.

Ele achava engraçado como o íncubo havia tomado gosto por cozinhar e fazê-lo experimentar todas as comidas possíveis, os olhos azuis brilhando apenas em observar os ingredientes no mercado, em testar combinações novas e fazer Zoro de cobaia.

O padre deixou algumas coisas que trouxe da igreja no escritório e sentou na cadeira. Havia organizado a maioria das coisas que precisava para não ter que voltar lá depois que estivesse tudo pronto para sua renúncia. Falando nela, notou a carta que havia escrito na mesa, embora não lembrasse de ter deixado lá. Mas era bom que estivesse ali, assim não esqueceria novamente de guardar num envelope e pôr os selos que havia comprado.

Nunca foi nenhum expert nisso, então seus envelopes acabavam ficando meio tortos, e apenas esperava que o carteiro conseguisse ler seus garranchos corretamente no verso. Assim que terminou pensou que era um ponto positivo que aquela fosse a última carta que escrevesse, talvez quando arranjasse um emprego com sorte não precisaria mais sequer tocar numa caneta outra vez. Embora não tivesse ideia de que tipo de emprego arranjaria na sua condição.

Ele realmente não sabia fazer mais nada na vida além de lutar com espadas e celebrar missas. Se ele tivesse algum dinheiro salvo, gostaria de tentar ir ao Japão, pelo menos kendo não era tão raro por lá. Mas, até que conseguisse, provavelmente teria que se contentar sendo um burro de carga por aí, sendo pedreiro ou algo do tipo, não que se importasse realmente.

Seus pensamentos foram interrompidos quando escutou algo na cozinha, provavelmente Sanji havia voltado e estava guardando o que comprou. O estômago de Zoro roncou vergonhosamente em imaginar o que o loiro faria para o jantar, então resolveu ir importuná-lo por comida.

O loiro sorriu ao ver Zoro entrando na cozinha e o olho azul brilhou atrás da longa franja dourada. Imediatamente correu em sua direção sem falar nada e o abraçou forte, os lábios tocando o pescoço grosso em uma carícia nada inocente, as pequenas presas roçando naquele corpo que parecia ferver com seu toque. O cheiro daquele homem era realmente incrível, como Sanji sempre dizia.

As mãos indecentes percorreram o corpo moreno, tocando os músculos fortes, os braços enormes que poderiam facilmente quebrar seu corpo sem nenhum esforço. Zoro realmente era uma perdição, era compreensível que aquele íncubo tenha caído tão facilmente por ele. Quando suas mãos chegaram na cintura e continuaram descendo para a bunda musculosa, o loiro tentou beijá-lo. A língua comprida saiu de sua boca e quando estava prestes a metê-la na boca saborosa, o corpo maior o empurrou bruscamente até a parede e o pressionou de forma dolorida. O íncubo bateu a cabeça e os olhos se encheram falsamente de lágrimas, transformando a expressão lasciva em uma manhosa.

No entanto, esta sumiu ao sentir uma das mãos apertando seus pulsos e a outra sua garganta, tentando sufocá-lo. O loiro sorriu malicioso, ele gostava daquele tipo de tratamento e nesse instante o demônio olhou na direção de um ponto vazio na cozinha e seu sorriso aumentou, como se dissesse ao além que havia vencido.

— Quem porra é você? O que fez com ele? — Zoro praticamente rugiu, apertando ainda mais a garganta daquele ser que definitivamente não era Sanji.

Seu corpo era idêntico ao que Sanji sempre usava, os mesmos olhos azuis, o mesmo cabelo dourado, as mesmas sobrancelhas encaracoladas, tudo aquilo era exatamente o mesmo, mas era como uma carcaça vazia, porque Zoro sabia que aquele não era Sanji.

Sua presença era diferente, a forma curiosa e violenta como tocava seu corpo, era tão óbvio que ele se sentia irritado só de pensar que alguém pensou que ele cairia num truque tão barato.

Sua mão apertava tão forte a garganta que se aquilo fosse um humano provavelmente teria desmaiado. Zoro até poderia ter um mínimo de compaixão em seu aperto se aquele rosto falso ainda estivesse fazendo expressões de dor que ele odiava ver num rosto tão igual ao de Sanji, mas o sorriso maquiavélico que ocupava quase o rosto inteiro só o deixava com vontade de esmagar seu pescoço mais forte ainda. Era como se não tivesse intenção nenhuma de explicar nada a ele, apenas de se divertir às suas custas.

E Zoro não poderia estar mais certo. Aquele não era Sanji. O real Sanji estava invisível na direção em que o demônio que havia tomado sua aparência de sempre olhava e em seu rosto podia ser visto o quão incrédulo estava.

Há poucas horas havia retornado ao inferno e conversou com seu amigo Kid, este insistiu que Zoro estava apaixonado por ele e não por seja lá quem fosse o dono original daquela aparência. Sanji não acreditou, Zoro não o amava, era apenas aquela casca que estava cobrindo quem verdadeiramente era e Kid disse que provaria o contrário de um jeito muito simples.

Era estranho que aquele íncubo ruivo que sempre insistia que sentimentos eram inexistentes para os demônios estivesse insistindo tanto na ideia de amor. Mas o que mais o chocou foi quando o amigo insinuou que Sanji também estava apaixonado pelo humano. Aquilo... Não era possível.

— Por mais que eu goste disso... Tenho mais o que fazer. Sanji, eu venci a aposta, não esqueça. Aceito meu pagamento em almas. — Kid gargalhou e pensou no quão fácil havia sido, não precisou de mais de três segundos para aquele humano reconhecer que aquele dentro do corpo não era Sanji.

O demônio desapareceu como fumaça das mãos de Zoro que continuou parado tentando processar o que estava acontecendo. Sanji apareceu atrás de Zoro e o abraçou. As mãos tremendo ao segurar o corpo moreno e sua cabeça deitou nas costas dele. O calor dele sempre o agradou.

— Está tudo bem, marimo. — Sanji sussurrou com os lábios colados na nuca do outro, o hálito quente arrepiando os pelos curtos ali e roçando em sua boca. — Eu estou aqui.

Por mais que a voz dele estivesse calma, por dentro Sanji estava surtando em crise. O que diabos era aquilo, afinal?

— O que significa isso? É algum tipo de brincadeira sua? — Zoro falou com a voz ainda um pouco irritada, embora ouvir Sanji falando tão próximo e saber que estava tudo bem com ele o acalmasse. Se era realmente uma brincadeira, certamente Zoro não achava graça nenhuma.

— Sim, é só uma brincadeira. — Tudo aquilo era. O coração de Sanji se apertava a cada palavra saída de sua boca. Ele se iludiu durante todo aquele tempo, fingindo que não estavam só brincando, mas aquela era a verdade. Aquela relação era de mentira. Era tudo uma fantasia que não chegaria em lugar nenhum.

As palavras do loiro não combinavam nada com o que seu corpo demonstrava, entretanto. Sanji disse que estava tudo bem, mas parecia que estava no meio de uma nevasca, seu corpo inteiro tremendo nas costas de Zoro, as mãos que o abraçavam principalmente. Sanji disse que estava ali, mas parecia que ele estava aéreo e vazio, não falava nada nem deixava Zoro se virar para encará-lo, só continuava a apertar seu corpo mecanicamente.

— Sanji... — Zoro segurou nas mãos trêmulas que apertavam seu corpo. Por mais que tentasse confortá-las e enchê-las com o seu calor, as mãos de Sanji pareciam insistir em tremer, em rejeitar suas tentativas, em continuar a apertá-lo sem deixar que fizesse nada.

— Não chame meu nome... — O demônio disse com pesar, sentindo seu coração se partir em milhões de pedaços.

Ele não queria aceitar, um monstro não deveria ter sentimentos, mas enquanto estava ali sentindo o calor daquele humano, era impossível negar. Era algo real. Sanji não queria aceitar, até pouco tempo ele sequer havia percebido, mas estava tão claro que chegava a ser palpável e isso o deixava horrorizado. Ele estava apaixonado por Zoro. Amava ele ou seja lá como os humanos chamavam isso e a cada segundo ele sentia mais medo.

Sabia que Zoro o amava, mas não era ele que Zoro amava. Mesmo que Kid tivesse provado que o moreno sabia diferenciar quem ele era por dentro. Ainda assim só tinha chegado tão longe por causa de um corpo bonito. Nunca teria o mesmo resultado se desde o primeiro dia tivessem se conhecido com sua verdadeira aparência nojenta e repulsiva. Poderia se aproveitar daquela aparência, fingir que não se afetava e usar o humano para se satisfazer, mas não se sentiria bem fazendo algo assim. Sim, ele amava o padre e não saberia como lidar com algo assim jamais.

— Eu sou um demônio. Nunca vou poder ser quem você quer que eu seja. — Sanji disse baixo com os lábios ainda encostados na nuca do outro, se aproveitando de cada segundo que ainda podia estar com ele. — Sinto muito.

Nada daquilo fazia sentido. A relação dos dois, o casamento, a convivência juntos. Era só uma brincadeira, nunca seria real. Até mesmo os sentimentos do outro não eram verdadeiros, mas os de Sanji sempre seriam.

— Eu vou voltar para o inferno.

Zoro não entendia o que estava acontecendo, apenas apertou mais forte as mãos de Sanji ao ouvir tudo aquilo.

— Não vá de novo. — Zoro era orgulhoso demais para implorar, ou ao menos era o que sempre achava. Mas Sanji sempre o deixava com aquele tipo de medo irracional, medo da impotência, medo de sua força jamais ser suficiente para impedir o que mais temia. Porque não importava o quão forte segurasse aquelas mãos, se Sanji usasse seus poderes para desaparecer, só restaria o vazio entre seus dedos. A única coisa que ele podia fazer era pedir que não o abandonasse. O que aparentemente também era inútil, uma vez que já havia feito isso antes, e mesmo assim Sanji ainda estava determinado a ir embora. — Por favor.

— Adeus, Zoro. — Sanji falou com a voz pesarosa e derramou suas lágrimas nas costas do moreno antes de sumir de vez, perdendo o calor do corpo que tanto gostava, da pessoa que ele amava. Sinto muito.

As mãos que Zoro tanto amava desapareceram em um segundo e só restou a ele apertar seus punhos como se assim ainda pudesse sentir algum vestígio daquele toque.